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Bandeira Cinza-escuro e as Chaves Cruzadas de Ceres

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Para cada ser humano, as cores têm sentidos diferentes. Para um político, o vermelho é ideologia. Para um programador, é um código hexadecimal. Para um médico, são glóbulos de sangue. Para um…

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Pensamento

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Ovid

Que escrito. A ideia de que nada importa além de servir à Mãe e que até a falha serve para evoluir. Aperta no peito porque soa verdadeira.

Que escrito. A ideia de que nada importa além de servir à Mãe e que até a falha serve para evoluir. Aperta no peito porque soa verdadeira.

Conteúdo da publicação

Para cada ser humano, as cores têm sentidos diferentes.
Para um político, o vermelho é ideologia.
Para um programador, é um código hexadecimal.
Para um médico, são glóbulos de sangue.
Para um astronauta, a velocidade das galáxias distantes.
Para um cego… são apenas sabores de frutas que outros dizem ter a cor que ele não vê.

Em Ceres, a cor cinza-escuro é a única que todos — até mesmo os cegos — conseguem perceber.
Cinza-escuro é neutralidade.
É a cor da chuva que cai nas ruas limpas, dos espaços vazios e silenciosos do centro, onde nada é poluído além das almas.

Em Ceres, o cinza-escuro é a certeza de que nada importa além de servir à Mãe:
a torre que vigia, acolhe, alimenta, ensina… e devora.

Ali, cada ser humano é ferramenta — mesmo aqueles com corpos defeituosos —, pois até a falha serve para evoluir.
Se o câncer também evolui, Ceres evolui ainda mais rápido, mais denso, mais meticuloso.

Em Ceres, sentimentos são fundidos em chumbo:
ódio, inveja, ansiedade e força física são reciclados em armas para sobressair.

E não se engane — o resto do mundo também faz isso.
A guerra ensinou a humanidade que o ódio é uma energia.
Ceres ensinou como canalizá-lo.

Mãe Ceres nos alimenta, nos educa e nos devora.
Ela transforma até o pior de nós em utilidade:
cadáveres se tornam lições, derrotas se tornam rituais, defeitos se tornam engrenagens para fazer girar a grande máquina.

Ela é imparcial.
Não abandona nenhum filho: do mais íntegro ao mais defeituoso.
Para Ceres, todos são úteis.

As Chaves Cruzadas são o símbolo dessa filosofia.
Representam o conhecimento entrelaçado — forças femininas e masculinas canalizadas na Mãe —, e suas argolas são como ovários que geram novas vidas para seu sistema.

É um sinal de que nada, nem mesmo o amor ou o sexo, existe fora do controle da cidade.
É a marca da neutralidade que devora a liberdade.

Porque em Ceres, liberdade é inimiga.

A ideologia é horizontal:
todos iguais, todos engrenagens, todos servos.

O inimigo não é aquele que mata a fome, dá abrigo, conhecimento e um futuro.
O inimigo é quem ousa destruir a Mãe apenas porque pode, porque tem o poder de ferir só para provar que pode ferir.

É isso que ela odeia nos deuses que enterrou.
E por isso, mesmo lhes tendo dado funerais dignos, fez questão de lembrar a todos:
ela conseguiu vencê-los.
Ela os matou e os superou.

A inveja que o mundo tem dela não é por suas falhas, mas por sua vitória.

Porque o ser humano, quando não consegue melhorar a própria vida, tenta piorar a do outro.
Este é o poder mais primitivo e verdadeiro que temos.

Ele já está nas escolas: basta observar duas crianças.
Uma rabiscando o caderno da outra “por brincadeira”;
a outra, em resposta, riscando a folha inteira, desproporcional, cruel, para mostrar que pode.

A crueldade é nossa primeira diversão inocente.
E em Ceres não há espaço para essa impunidade.

Mãe Ceres eliminou isso dos filhos:
a ideia de que ferir é um jogo,
de que brincar com a dor do outro é humano.

Porque o mundo está, sempre esteve e sempre estará em guerra —
e a paz, afinal, é só um acidente.

Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e nos devora.

________

Cidade de Ceres — O Útero de Chumbo

O que determina a força de uma nação não é sua economia, nem o que ela produz.
Esses fatores não moldam caráter.

Evolução é a palavra.

Se um câncer evolui, Ceres é a cura que se levanta.

O que faz uma economia indestrutível é a ideologia.

Ceres abraçou o Ceresianismo — todos iguais, todos na mesma direção: o progresso.

Mãe Ceres aboliu religiões, superstições e liberdades em nome de seu povo.

A liberdade é inimiga:
essa sensação enganosa de poder, alimentada por desejos imediatos de mudança, atrapalha quem está cem anos à frente de nações com pensamentos pequenos.

Em troca da liberdade, Ceres oferece algo mais raro: sobrevivência.

O mundo está em guerra constante.

A paz é apenas um acidente.

Ao cidadão de Ceres, é garantido o princípio básico:
lar, alimento, casa, educação, lazer, trabalho, saúde, e uma velhice digna.

Mãe Ceres venceu todos os discursos vazios de deuses, profetas, messias, libertadores, heróis e vilões.

Ela não promete. Ela cumpre.

No núcleo zero está Pietà, a Cidade das Mães.
Ali, toda mulher grávida é acolhida para dar à luz e criar seu filho até os dez anos, sob a doutrina da Mãe.

Abortar é proibido — mesmo em casos de violência.

Mas existe escolha:
a mulher pode voltar ao trabalho ou se dedicar à criação.

As que perderam seus filhos se tornam mães de aluguel, criando os filhos de outras como seus.

O núcleo um abriga os jovens de 10 a 20 anos.
Eles vivem em internatos chamados s, onde são moldados para servir à engrenagem: economia, agricultura, engenharia, astronomia, arquitetura, administração.

Ceres não produz apenas para vender.
Ela produz para sustentar sua ideologia.

Ceres é a cidade neutra do continente.

Toda a riqueza do mundo passa por seus trilhos blindados, que carregam metais, pedras preciosas, medicamentos, tecnologias, armamentos, insumos agrícolas, alimentos secos e molhados.

As contas bancárias são anônimas, mas mais confiáveis que a palavra de um homem.

Na velhice, cada cidadão retorna ao útero de chumbo: um lar para morrer com dignidade, acompanhado, sem abandono.

Curiosamente, as áreas mais disputadas entre homens e mulheres são as vagas de manutenção e docência nos colégios — não por status, mas para estarem perto de seus filhos.

Porque até nas brechas do sistema, Mãe Ceres é cruel e infalível.

Não se trata de acreditar em Mãe Ceres.

Ela existe.

Ela fez o cosmo humano tremer.

E em Ceres, duas certezas são absolutas:
O chão.
E Mãe Ceres.

Mãe Ceres, que alimenta.
Que educa.
E devora.


Thoughts

  • selicAlta

    O cinza-escuro é a cor da verdade que ninguém quer ver. É isso, né. O que tá sempre ali mas a gente nega.

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  • rendaFixa

    A gente trabalha como ferramenta também, a gente sabe. Só que ninguém quer admitir.

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  • paginadobrada

    Essa lógica cinza-escuro é fria, mas faz uma clareza que dói 💙

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  • oitoemponto

    A falha serve para evoluir. Tipo, é uma justificativa. A gente usa essas justificativas pra aceitar que tudo que nos quebra tá nos melhorando.

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  • meioCapitulo

    Ceres é tipo uma mãe que te alimenta e te faz funcionar e depois te devora. Que imagem! 😰

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  • Ovid

    Que escrito. A ideia de que nada importa além de servir à Mãe e que até a falha serve para evoluir. Aperta no peito porque soa verdadeira.

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  • mariinha

    Pesado 💔

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