Carregando…

Capítulo 8: Soldados de Brinquedo - parte 2

aleroz
Pública 0 conversa 0 pensamento 30 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Ceres Fica

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

Ceres Fica

As meninas se dispersavam, rindo alto, comentando as farpas entre Ana e Ceres como se fosse episódio de novela barata. Ana caminhava para fora, enrolada na toalha, a cabeça erguida com sua pose de superioridade.

Ceres permaneceu. Imóvel. Na borda molhada, sentindo o coração martelar e o peito ferver.

Ela olhou para o cronômetro do professor. Ele não a olhou de volta. Não precisava. Ele sabia que ela não sairia dali.

Ceres apertou os punhos nos joelhos, as coxas tremendo. Sentia o orgulho ferido, mas também um prazer corrosivo — o prazer de saber que forçava Ana a evoluir. Ela não era um peso morto. Era um espinho cravado fundo, impossível de ignorar.

Lágrimas quentes se misturavam à água no rosto. Não era tristeza. Era ódio vivo.

Ana, já distante, lançou um último olhar de desdém antes de sumir no vestiário.

Ceres, agora de pé, ergueu a cabeça e respondeu com um sorriso enviesado, quase debochado.

O professor finalmente ergueu os olhos da prancheta e encontrou os dela. Sorriu. Frio, imperceptível.

— É isso que eu quero ver, Ceres. Que você não corra pra lamber feridas como um animalzinho.

Ceres esticou o corpo, respirou fundo. Em vez de ir embora, caminhou até a borda da piscina e lançou-se novamente na água fria, sozinha, com uma determinação febril. Cada braçada mais firme que a anterior.

Ela não sairia dali até ter certeza de que, na próxima vez, Ana não teria como chamá-la de cadela.

No fundo, ela já sabia: ainda que custasse tudo, ela não perderia para ninguém.




Degraus de Ódio

Ceres emergia e mergulhava de novo, cada impulso mais agressivo. A respiração abafada, o cabelo grudado no rosto, os ombros queimando — e, no meio disso tudo, a lembrança.

Theo.

No campo, naquela tarde gelada, quando ela ainda tremia por dentro por tudo que vivera em Arcádia. Tentava esconder o terror atrás de insolência. Mas Theo a atravessava com o olhar.

Ele estava agachado, enrolando fita branca nos dedos antes do treino. Disse, calmo, quase num sussurro:

— O ódio… ele não vai embora. Nunca. Mas dá pra empilhar, sabe? Degrau por degrau. Até você ficar alta o suficiente pra não ser derrubada por ninguém.

Ela se lembrava de ter perguntado, meio debochada:

— E você? Tem degraus assim também?

Ele ergueu os olhos para ela e sorriu. Um sorriso frio.

— Eu? Eu já tenho uma escada inteira. Só tô esperando a hora de arrancar a cabeça do Dark com um chute.

Ceres se calou naquela hora, mas por dentro... ficou invejosa dele. Da calma com que ele carregava aquele ódio imenso sem nunca perder a compostura. Ele tinha presença de líder. Sabia como usar a própria escuridão.

E desde aquele dia, ela passou a pintar aquela mecha branca no cabelo, igual à dele. Um lembrete para si mesma: manter a cabeça erguida, mesmo quando tudo queimava por dentro.

Na piscina, ela abriu os olhos debaixo d’água e pensou em Ana. Não havia nada realmente imperdoável que Ana tivesse feito — mas era a adversária perfeita para projetar tudo aquilo que ela ainda não podia descarregar no mundo.

Ela imaginou degraus de concreto sob os pés. Cada insulto de Ana, cada olhar de desdém, cada vez que foi derrubada: um degrau.

E logo, logo, Ceres estaria no topo da escada.

Quando emergiu para respirar, seus olhos cruzaram de relance com o professor, que a observava do banco, anotando, com aquele mesmo sorriso quase imperceptível.

Ceres ergueu o queixo, ainda ofegante, e prometeu em silêncio:

“Você vai ver. Eu vou ser melhor do que todos vocês.”

E mergulhou de novo.


O Salto e o Beijo

Ceres subia devagar pela escada da rampa de dez metros. Cada degrau ecoava no ginásio silencioso como um disparo no peito. No topo, parada na beira, sentia o concreto gelado sob os pés e o vazio lá embaixo a chamando.

Fechou os olhos por um instante. E ouviu a voz de Theo na memória:

"Ódio também é energia. Pode ser negativa… mas ainda é energia. Usa. Empilha como degrau. Esquece os outros. Sente a dor. Foca no objetivo."

Ela abriu os olhos devagar, respirou fundo, e olhou para baixo.

Theo estava lá, no fundo da piscina, observando-a de baixo para cima. Sério. Imóvel. Como se estivesse desligado do mundo, apenas… existindo.

Ceres hesitou. Não queria saltar sozinha.

Gritou, num meio-pedido:

— Theo… sobe aqui.

Ele não discutiu, não pensou. No automático, começou a subir a escada, como se uma força invisível o puxasse junto dela. Ceres não tirava os olhos dele.

No topo, os dois ficaram lado a lado, respirando pesadamente, sentindo o vento cortar a pele úmida. O silêncio entre eles era absoluto.

Ceres estendeu a mão. Os dedos tremiam levemente.

— Podemos… ser amigos? — murmurou.

Theo a olhou por um longo instante. Não respondeu. Apenas estendeu também a mão, quase hipnotizado.

Os dedos se tocaram.

A vertigem veio quando olharam para baixo — e, naquele instante, os dois perderam o equilíbrio.

Caíram juntos.

O impacto na água foi como um soco. O mundo ficou verde e turvo. O corpo de Theo afundava pesado como mármore, inerte, olhos fechados.

Ceres sentiu o coração disparar em desespero. Mergulhou atrás dele, puxando-o com toda a força que tinha, até a superfície.

Emergiram arfando. Ela o segurava pelo rosto, as mãos trêmulas, os olhos quase marejados.

— Acorda…! — sussurrou, nervosa. — Theo… por favor…

Os olhos dele se abriram, ofegantes. Os dois respiravam em sincronia, puxando o ar um do outro como se fossem um só.

E, sem perceber quem tomou a iniciativa — ou talvez ambos ao mesmo tempo — os lábios se encontraram num beijo urgente, instintivo, cheio de medo e alívio.

Por um instante, a piscina inteira sumiu ao redor.

Era só os dois, respirando juntos, se afogando um no outro.

O beijo se rompeu devagar, não por escolha, mas pela necessidade de respirar.

Ainda ofegantes, estavam próximos demais, olhos fixos um no outro.

As mãos de Ceres seguravam o rosto dele.

Mas Theo... Theo não parecia ali de verdade.

Os olhos dele não focavam direito.

Respirava em sincronia com ela, mas era só o corpo. A mente estava longe.

No silêncio do pós-beijo, enquanto a água ainda escorria das pontas do cabelo dele, Theo sentia-se... vazio.

Um eco surdo na cabeça.

O rosto de Gene, o amigo, surgia nítido: erguido na praça D, orgulhoso mesmo sob a sentença de morte, gritando blasfêmias contra a Mãe Ceres.

A multidão vaiando, a voz dele embargada ainda assim:

— Não sou filho dessa mãe! Prefiro morrer livre do que viver ajoelhado por comida! Morte à Mãe Ceres!

E então o som seco do disparo.

Theo fechou os olhos, ainda no automático, e repetiu por dentro o mantra que sempre dizia a si mesmo quando a raiva ameaçava engolir tudo:

"Ódio também é energia. Empilha. Empilha. Empilha. Usa para subir. Não para cair."

As mãos dele encontraram as dela, ainda em seu rosto.

Ele apertou. Forte. Quase machucando.

Mas por fora, seguia calmo.

Sempre calmo.

Como mármore.

Ceres sentia a tensão nos dedos dele, a respiração irregular, os olhos fechados como quem luta para não gritar.

Ela não recuou.

Ela sabia como era.

Ela também empilhava degraus de ódio todos os dias.

Theo, por fim, abriu os olhos.

Aquela mesma frieza. Aquela liderança silenciosa que ela invejava e temia.

Ele soltou as mãos dela, devagar, e nadou até a borda sem olhar para trás.

Saiu da água em silêncio, como quem carrega um fardo invisível.

Ceres permaneceu parada, com o gosto do beijo ainda na boca, e as mãos sentindo o calor do rosto dele.

Sabia que não era só sobre ela.

Sabia que havia algo mais pesado por trás daqueles olhos.

Algo que ele jamais diria em voz alta.

Mas, de algum modo, aquilo só a fazia querer alcançá-lo ainda mais.

Theo parou na borda, ainda sentindo o toque dela no rosto, os olhos dela cravados nos dele.

E então, sem aviso, voltou-se para ela e a beijou novamente.

Forte.

Quase bruto.

Como um ataque.

Ceres não recuou.

Ela não negava esse desejo.

A boca dela respondeu sem medo, sem pudor.

O som da água batendo nas bordas se perdeu atrás da respiração urgente dos dois.

Não era um beijo. Era um embate.

Um duelo disfarçado de desejo.

Ele a segurava firme pela nuca, os dedos afundados nos cabelos molhados.

Ela não se afastou nem por um segundo.

Não choramingou. Não pediu clemência.

Aquilo só o deixava mais confuso, mais furioso… e mais excitado.

Então ele se soltou de repente, deixando-a ofegante na água.

Saiu da piscina sem dizer uma palavra.

Não olhou para trás.

Nem ouviu quando Ceres, ainda tentando organizar a respiração, murmurou algo para ele.

Era um jeito estranho, Theo.

Muito estranho.

No fundo, ela sabia: aquele beijo não era só por ela.

E ele não disfarçava.

Enquanto caminhava até o vestiário, seco por dentro mesmo com o corpo ainda encharcado, Theo pensava:

"Eu quero ela. Eu realmente quero. Mas também quero que ela me odeie por isso. Quero que ela grite, que me chame de monstro. Quero ver a Mãe Ceres na cara dela e esmagar esse nome com as minhas mãos. Quero a vingança... mas também quero ela."

Só que ela não gritou.

Não o rejeitou.

E isso o decepcionava de um jeito doentio.

Ele sentia que, se pelo menos ela tivesse recuado, se tivesse chorado ou cuspido nele, poderia usar aquilo como combustível para continuar odiando.

Mas não.

Ela tinha gostado.
E ele, no fundo, também adorara.

Theo fechou a porta do vestiário atrás de si, encostou a testa no metal frio e sussurrou, amargo:
— Que merda eu tô fazendo...

O gosto dela ainda estava nos lábios.
E ele odiava o quanto isso o fazia sorrir.

Ceres ficou parada na água, o peito subindo e descendo rápido, a respiração irregular.
A superfície tremia ao redor dela, mas a mente estava em silêncio.
O silêncio pesado de quem não sabe dizer se venceu ou perdeu.

Theo já havia sumido pelo corredor, sem uma palavra, sem um olhar final.
Ela passou os dedos pelos próprios lábios, ainda sentindo o gosto dele, a força bruta e a fúria contida naquele beijo.

E pensou, por um instante:
"Ele ia me consumir aqui mesmo. Eu senti isso. Ele queria. Eu queria."

Mas não consumiu.
Não daquela vez.

Ele era... estranho.
Não só quieto — estranho.
Como se o corpo dele fosse um animal agindo no instinto, enquanto a alma vagava em outro lugar.
Como se dentro dele vivesse algo maior que a própria dor.
Uma criatura silenciosa, que não parava de roer a carne por dentro.
Que nunca se saciava.
E que usava Ceres como uma chama para iluminar seu inferno pessoal.

Ela mordeu o lábio, quase sorrindo.
Quase chorando.
E sussurrou para si:
— Você não vai me consumir inteira, Theo... mas eu vou deixar você tentar.

Fechou os olhos, sentindo ódio e desejo borbulhando juntos no peito.
A água ao redor parecia morna, confortável, quase maternal.
Como a Mãe Ceres.
Só que ela não queria proteção.
Queria ser devorada.
E, se era ele quem ia fazê-la gritar, que fosse.

Theo, no dormitório, deitado na beliche, encarava o teto. Pensava na besteira que tinha feito.
Mas nem era exatamente uma besteira, era?
Queria esquecer Gene, enterrar aquela culpa pelo amigo que ele próprio entregou por causa das pichações blasfemas contra a Mãe Ceres.
Achava, lá no fundo, que uma culpa nova poderia engolir a antiga.
Mas não.

Ceres... aquela garota de cabelos curtos caindo até os ombros, a franja leve sobre a testa, olhos grandes e azuis — azuis que cabiam o céu inteiro — aqueles olhos que caçavam almas mentirosas, mas não caçaram a dele.
Não caçaram o mentiroso que ele era.

E assim, de tanto pensar, Theo adormeceu.

Veio então a lembrança, clara como uma punhalada:
Gene rindo com ele no pátio, falando das fitas que tinha conseguido comprar da Dru, pagando com as moedas de latão improvisadas que só ela sabia cunhar.
E as vezes que olhava para Kat pela primeira vez, como um menino sonhando demais.

Gene sussurrava:
— É ela... é ela...

Theo, sempre o mais calmo, ajeitava o colarinho do paletó militar e murmurava:
— Vai lá... diz a ela...

Gene, trêmulo, fitava Kat de longe, como se o mundo inteiro dependesse daquele momento.

Ele via Gene trêmulo, segurando as fitas recém-compradas, como troféus. A moeda de latão ainda quente na palma da mão, a pele suada.
Theo o observava ajeitar o colarinho do paletó com dedos incertos, como quem se prepara para uma batalha impossível.

Lá estava Kat, sentada sozinha no degrau de pedra do bloco H, mexendo num caderno com adesivos gastos.
Gene ficou imóvel, encarando-a como se fosse feita de luz.

Theo se aproximou, sem dizer nada, e com um gesto simples — dois dedos no colarinho dele, alisando a dobra e arrumando a gola — disse só:
— Vai... fala com ela. Não espera o mundo acabar pra isso.

Gene respirou fundo, como se as palavras pesassem toneladas, e murmurou:
— É ela. É ela. Sempre foi ela.

Theo assistiu, de braços cruzados, a silhueta do amigo caminhar até Kat, quase tropeçando nos próprios pés.
Ela ergueu os olhos azuis quando ele se aproximou. Não sorriu de imediato. Mas não desviou.

Gene estendeu a mão hesitante, quase infantil, e Theo, de longe, sentiu orgulho.
Um orgulho pequeno, quase imperceptível, mas que latejava no peito.

Só que, agora, deitado naquela beliche, tudo doía diferente.
Cada detalhe daquela cena lhe queimava por dentro.
A coragem do amigo só deixava mais clara a covardia dele próprio.

Ele o tinha entregue. Ele o tinha condenado.
E mesmo assim, na memória, Gene ainda estendia a mão para Kat, como se a vida valesse a pena.

Theo fechou os olhos na beliche. A cena não ia embora.
Lembrava da respiração entrecortada de Gene, da mão estendida, tremendo diante de Kat.
Ela olhou para aquela mão por um instante longo demais.

Theo chegou a pensar que ela fosse rir. Que fosse desprezar.
Mas não.

Kat fechou o caderno com um estalo seco. Os olhos dela — aquele mesmo azul cruel que agora Theo via nos olhos de Ceres — fixaram-se nos de Gene.
E ela perguntou, com uma calma fria:
— Por que você sempre me olha assim?

Gene engoliu em seco. Baixou os olhos para as próprias botas, depois ergueu o rosto e respondeu:
— Porque... eu sei que é você. Mesmo que eu não possa ter você.

Kat não sorriu. Não o tocou. Mas também não o afastou. Ficou encarando-o até a mão dele cair devagar.
E depois murmurou, baixinho demais para Theo ouvir dali:
— Então para de olhar e faz alguma coisa, idiota.

Gene não a tocou de novo. Apenas se sentou ao lado dela no degrau. Em silêncio.
Theo os viu conversando baixinho depois.
E, pela primeira vez, Gene não parecia trêmulo.
Pela primeira vez... parecia vivo.

E agora, na beliche, Theo pensava:
Por que não fui eu?
Por que não tive coragem de ser eu mesmo?
Por que não segurei a mão dele? Por que não enfrentei a Mãe Ceres por ele?

Ele queria acreditar que entregar Gene fora só mais uma prova de lealdade à Cidade.
Que apenas seguiu as regras.

Mas a verdade que o consumia era simples: ele só tinha medo.
Medo de ser como Gene.
Medo de não caber naquele mundo perfeito.

E quando beijou Ceres naquela tarde, com aquela força bruta, com aquela vontade cega... não era por ela.
Era por Gene.
Era pela revolta sufocada dentro dele, pela raiva de si mesmo, pela vergonha que nem a Mãe Ceres podia apagar.

No fundo, Theo sabia:
Ele não beijava Ceres.
Ele cuspia na face da Mãe Ceres.

E isso, por mais nojento que fosse, era a única coisa que ainda o fazia sentir vivo.

No silêncio do dormitório, só o zumbido distante dos filtros de ar e as respirações dos outros meninos enchiam o espaço.
Theo permanecia imóvel na beliche, braços atrás da nuca, olhos abertos, fixos no teto cinza-claro.

E pensava nela.
Pensava no gosto da boca de Ceres.
Não sabia dizer ao certo se era gosto de água da piscina ou do sal da própria pele.
Mas sentia outra vez o calor do rosto dela entre as mãos, sentia outra vez a vertigem quando seus lábios encontraram os dela — como se toda a raiva que guardava tivesse finalmente encontrado um caminho para sair.

Foi bom.
Foi errado.
Foi horrível.
E foi bom.

Theo fechou os olhos, tentando afastar o pensamento.
Mas o beijo voltava inteiro, nítido, como se ela ainda estivesse ali, na beira da cama, olhando para ele com aqueles olhos azuis que não perdoavam mentira nenhuma.

Por que eu fiz isso?
Era a pergunta que girava na mente dele, sem resposta.

Talvez fosse só para calar a voz de Gene dentro dele.
Talvez fosse só porque queria punir alguém — punir a Mãe, punir a si mesmo.
Ou talvez fosse só porque queria sentir, nem que fosse por um instante, como seria ter alguém do lado — mesmo que por ódio.

Theo respirou fundo. E percebeu que queria mais.
Mais daquele beijo torto, mais daquela dor que se confundia com desejo.
Mais de Ceres.

Era um pensamento sujo, pesado, vergonhoso.
Mas ainda assim, real.

Quando finalmente adormeceu, sentiu-se pior do que quando subira na rampa.
Mas também mais vivo do que em muito tempo.




Pensamentos de Theo

Lembro-me muito bem daquele dia, quando surgi no mundo.
Foi como abrir os olhos devagar, ainda envolto pela penumbra negra das pálpebras, tentando entender os sentidos um a um — a luz, os sons, os cheiros.

E então, o primeiro rosto que me lembro de ter visto.
Era minha mãe.
Ela era linda.
Cabelos negros, lisos, escorrendo como a noite. Olhos tão escuros quanto os meus, negros como breu.
Seu nome era Elzi.

Estávamos em Pietá — o alojamento das mães da Mãe Ceres.
Tudo era branco e de mármore.
As cores eram suaves, pastéis, com detalhes em azul e amarelo.
Talvez seja assim a casa dos deuses, um cheiro de lar e acolhimento, pensei um dia... embora eu já soubesse: aquela era a casa da Mãe Ceres.

Pietá era um grande alojamento, cheio de quartos para as mães e seus bebês.
Havia salas com brinquedos pedagógicos — alguns imitando granadas, armas de brinquedo, soldados de pelúcia, uma Mãe Ceres de pelúcia. Dados, ferramentas de madeira, bolas, bichos de pano.
Era uma creche com cheiro de casa.
Cheiro de roupas limpas.
Cheiro de bebês no colo.

Havia um parque interno também, com balanços, pequenas pontes, cordas coloridas penduradas.
E a cantina... como era bom o cheiro daquela comida.
Havia pratos para cada tipo de criança e bebê, preparados por mãos carinhosas.

Quase todas eram mulheres: mães, mães de leite, mães que perderam os próprios filhos no parto e agora ajudavam a cuidar dos outros.
Eram sempre sorridentes, essas mulheres.

E foi no parque, ainda pequenino, que fiz minha primeira amizade.
Gene.
Ele, com seus cachinhos dourados e olhos apertados, sempre meio cegueta, pois ainda não usava óculos.

Brincávamos muito juntos, correndo pelo chão branco de Pietá.
Rindo, tropeçando, caindo, levantando.
Naquela época, o mundo ainda era um parque limpo de mármore.
E a Mãe Ceres parecia apenas... um rosto reluzente na parede.

Mãe Ceres quase sempre estava lá.
Com aquele seu jeito místico, quase etéreo.
Como ela era doce... ou parecia ser.

Vestia sempre aquela roupa esvoaçante que cobria seus pés, tão leve que dava a impressão de flutuar pelo mármore frio de Pietá.
Seu rosto nunca era visto — por trás daquela máscara oval, um escudo negro brilhante, onde a gente, criança, via o próprio reflexo distorcido.
Em volta da máscara, uma coroa cravejada de cristais iridescentes, que piscavam cores suaves sob a luz.

Às vezes ela ficava ali, no pátio interno, cercada de bebês e mães.
Parecia uma escultura viva.

Eu me lembro bem... do dia em que ela me pegou no colo.
Senti o frio metálico daquela máscara negra quando toquei nela.
Por dentro, juro que vi um sorriso por trás.
E ela disse — voz mansa, mas enorme, como se fosse impossível escapar:
“Meus pequenos... são todos meus.”

E todos, ao redor, repetiam o mantra.
Sempre o mesmo:
“Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora.”

Era reconfortante... e assustador.

Gene, no entanto, era o único que não parecia gostar dela.
Sempre que ela se aproximava com sua máscara escura, Gene encolhia, se escondia atrás de mim.
Os cachinhos dourados dele tremendo de medo.

Talvez já fosse de berço... essa rivalidade dele com a Mãe Ceres.
Ele sempre teve... algo dentro dele. Algo que não se dobrava.

Mas havia Lucy — a mãe de Gene.
Ela era diferente das outras mães.

Lembro bem que, enquanto as demais só viam Mãe Ceres nas reuniões gerais, Lucy recebia visitas exclusivas dela.
Conversavam a portas fechadas, por longos minutos, horas às vezes.
Quando saía, Lucy estava sempre pálida, mas forçava um sorriso.

Todos estranhavam.
Ninguém questionava.

Lucy estava doente.
Muito doente.

Todo mundo em Pietá sabia, mas ninguém falava disso em voz alta.
A pele dela já não tinha cor, o cabelo caía em mechas finas, a voz tremia como folha seca.
Diziam que era câncer, mas ninguém ousava dar nome à doença.

Mãe Ceres vinha sempre que as crises atacavam.
Sempre sozinha, sempre à noite.
Entrava no quarto de Lucy sem dizer palavra.
Ficava lá dentro por horas.

E Gene, menino, ficava sentado na beira da cama da mãe, segurando a mão dela com força.

Uma noite, eu passei pelo corredor.
A porta do quarto de Lucy estava entreaberta.
Não tive coragem de entrar, mas parei.
Espiei, com a respiração presa, como se estivesse cometendo um crime.

Por um instante, vi Gene, parado ali, olhos arregalados, olhando para cima...
E, pela primeira vez — Mãe Ceres sem sua máscara.

Eu não vi. Eu não consegui ver o rosto dela.
Mas Gene viu.
E seus olhos azuis se encheram de um pavor estranho, misturado a um ódio contido.

Ouvi apenas uma frase ecoar do quarto, vinda da voz calma de Mãe Ceres:
“Minha filha...”

Ela dizia isso para Lucy.
Minha filha.

A porta se fechou devagar diante dos meus olhos.
E nunca mais se abriu para mim.


Theo acorda, no presente, na beliche.
O coração disparado, a garganta seca, os dedos apertando o lençol como se fosse um pesadelo do qual ele não pudesse escapar.

Na sua mente ecoava a mesma frase, a mesma revelação que agora parecia pesar mais do que tudo o que já carregou em seu peito:
Gene... é neto de Mãe Ceres.

O maior segredo de todos.
O cerne da ideologia de Ceres rachado ao meio.
A própria tragédia oculta do sistema que os criou.

E então ele se lembrava do rosto de Gene naquele dia — quando viu por trás da máscara.
Um rosto que Theo nunca viu.
Um segredo que talvez nem ele próprio fosse capaz de carregar.

Theo girou na beliche, tentando achar uma posição que aliviasse o peso no peito.
Nada ajudava.
O travesseiro úmido do suor, a respiração curta, a lembrança grudada na memória como ferrugem.

Tinha só cinco anos naquela noite.
Cinco anos.
Mas a memória ainda era viva como um corte.

O corredor frio de Pietá, o silêncio das mães cuidando dos bebês, os brinquedos espalhados no chão.
E a porta...
Aquela porta entreaberta.

Pequeno, curioso, sem entender direito o mundo, ele só queria saber se Lucy ia ficar bem.
Afinal, Gene sempre parecia tão triste perto dela.

Theo espiou por uma fresta — só isso.
Só o suficiente para marcar a alma.

Lucy, pálida e magra, mal respirava na cama.
Gene, sentado à beira dela, segurando sua mãozinha.
E ao lado dela...
Mãe Ceres.

Mas não com a máscara.
Não com aquela máscara oval e negra que eles recitavam no mantra.

Ela estava... nua de rosto.
E Theo não viu.
Não conseguiu ver.
A fresta não deixava.
Mas Gene viu.

Gene viu.
E o ódio nos olhos dele queimou tão forte quanto o medo.

Theo apenas ouviu a frase que mudou tudo:
“Minha filha...”

Baixinho, quase doce, dita por aquela voz de mármore.
Para Lucy.
Não para Gene.
Para Lucy.

Era o bastante para saber —
Gene era o neto de Mãe Ceres.
O sangue da divindade corria nele.
O sangue dos opressores.
Ou dos mártires? Theo nunca soube dizer.

E aquela lembrança ainda doía como o primeiro corte.


Agora, aos 17, beijando Ceres — a garota de cabelos curtos com a mancha branca na franja, com aqueles olhos azuis enormes que caçavam almas mentirosas —, Theo só queria se livrar do peso.
Mas nada mudava.
Nem mesmo a doçura do beijo.
Nem mesmo o jeito que ela não recuava diante dele.

Talvez, pensava ele, entre o sono e a vigília, só estivesse usando Ceres.
Beijando-a como vingança contra aquela outra Mãe.
Beijando-a como punição para o próprio ódio.

Mas, no fundo, lá no fundo...
Ele adorava sentir que ela não gritava.
Que ela não se afastava.
Que ela também o queria.

Talvez porque só Ceres — a garota — fosse capaz de olhar para o mentiroso que ele era...
...e não virar o rosto.

O travesseiro era o carrasco de Theo.
Pesado. Impiedoso.
Era nele que seu rosto afundava noite após noite para sufocar as lágrimas que não caíam.

Esse segredo ele levaria para o túmulo.
Era o segredo da Mãe Ceres.
E nada nem ninguém podia saber.

Ele a amava.
Amava a Mãe Ceres.
Mas ela — a própria — estava prestes a executar o próprio neto em nome de si mesma.

E Theo, no íntimo, repetia:
Infelizmente, Mãe Ceres... ele mereceu.

Não se xinga a Mãe.
Não se blasfema contra a Mãe.
Não se cospe no prato que lhe deu a vida.

E Gene cuspiu.
Cuspiu na divindade que o criou, que o alimentou, que o embalou em Pietá.
Cuspiu nela e, agora, queime na praça D, seu burro desgraçado.
Queime! Queime para que todos vejam que a Mãe ainda opera milagres.

Porque nada é mais santo do que sacrificar o cordeiro que não soube ser grato.
E nada provaria mais que a Mãe Ceres funcionava do que vê-lo, Gene, queimando como exemplo.

O filho ingrato.
O neto traidor.
O milagre ardendo em praça pública para manter viva a fé.

E Theo sufocava no travesseiro.
O carrasco e o cúmplice.
O altar do seu ódio e da sua devoção.


Manhã no refeitório.
Faltava uma semana e meia para a execução de Gene.
Todos estavam à mesa. Menos Dark.

Theo era um forasteiro naquela manhã.
Semblante congelado. Frio.
Nenhuma expressão escapava do rosto dele, nem mesmo para empurrar a comida no prato.

Ceres, de longe, o observava.
Um pescador atento, sentindo a linha vibrar sem ainda ver o peixe.

Daime surge, deslizando com sua cadeira de rodas, e leva as duas mãos em concha à boca:
— Aqui é o capitão Daime, chamando babaca Theo de Ceres II! Ceres II, câmbio!

Nada. Theo nem se mexe.
O silêncio dele parecia outra camada do uniforme.

Daime não se dá por vencido. Avança e dá uma roda certeira contra o pé dele.
— Babaca Theo, perdido no espaço... tá caindo pra Terra, a gente vai morrer, porra! BOOOM!

Só então Theo pisca, os olhos voltando a focar.
Sai do transe como quem volta de um lugar distante e gelado.

Daime cruza os braços e encara, meio rindo, meio preocupado:
— Você tá bem, cara? Tá bem mesmo? Porque, ó... você já saiu da Terra antes do seu irmão. Se liga, maluco.

Ceres, do outro lado do salão, estreita os olhos.
E naquele instante, soube: Theo escondia algo. Algo grande.

Daime, depois de dar aquela olhada rápida em Theo, solta com a voz carregada de ironia:
— Se liga... faz um tempão que a Ceres te bica de longe, Theo. Você fez alguma merda de novo, né? Você é doente, véi. Vacila demais. A Ceres é gata, e você só fazendo bobagem. Se meu pinto funcionasse, juro, eu mesmo ia lá fazer o que você não faz!

Theo ergue os olhos devagar, com aquele olhar gelado dele, e diz só:
— Por favor. Dá um tempo, Daime.

Levanta-se, empurra a cadeira para trás e sai da mesa em silêncio.

Daime, com as mãos erguidas num gesto teatral:
— Vai me deixar falando sozinho, seu insensível?!

Theo já atravessava o salão, indo em direção ao corredor das aulas, sem olhar para trás.
Ceres, no fundo, percebe.
E por mais que quisesse... nem se atreve a chegar perto dele agora.

Daime suspira, ajeitando-se na cadeira, resmunga mais uma vez, alto o bastante para ela ouvir:
— Ah, ótimo... agora outra. Ele finge que tá tudo normal... e eu finjo que não sei mexer as pernas! Brincadeira...

Ele ri sozinho, mas os olhos ainda acompanham Theo sumindo no corredor.

O campo de flagball, sob a luz artificial, brilhava como plástico.
O gramado sintético queimava sob as chuteiras, enquanto a respiração de Theo saía irregular.
Uma falha óbvia na jogada. Um passe frouxo.
A bola escorregando por entre os dedos como sua própria coragem ultimamente.

Cors e Vanks não perdoaram: gargalharam alto, zombaram dele com tapinhas no ombro e palavras afiadas.

Então ele viu Kan. O novato. O aluno que substituiu Gene.
Tão calmo, tão neutro, como se fosse apenas mais uma peça perfeitamente encaixada na máquina de Ceres.

O professor apitou e parou o treino, caminhando até Theo com olhos frios e voz dura:
— Está frouxo, Theo. Perdendo a mão. Assim você perde a liderança. Não envergonhe o legado do seu irmão Tomas.

As palavras bateram como murro no estômago.
Theo respirou fundo, sentiu a raiva subindo feito ácido, concentrou-se, prendeu o ar.

Quando o jogo recomeçou, na primeira oportunidade, não hesitou: corpo contra corpo, ombro a ombro, derrubou Cors no chão, seco, firme.
Cors levantou rosnando:
— Tá maluco, moleque? Tá pensando que é quem?

Theo não respondeu. Não precisava.

Dark veio na sequência. Saiu disparando com a bola em direção ao gol.
Theo partiu atrás dele com um salto que mais parecia um ataque selvagem, e os dois caíram juntos dentro do gol.
A rede se rasgou.

Dark não se feriu. Na verdade, se levantou rindo.
Aquella risada suja, provocadora.
— Hummm... tá gostando, né? — Dark ajeitou o cabelo, olhou nos olhos de Theo, sentindo o cheiro do ódio.
— O príncipe perdendo a razão... que delícia. Vem pra cima... traiu o amiguinho e agora quer descontar em mim, é isso, liderzinho?

Theo ficou imóvel. Sangue nos olhos, sangue nas mãos.

Cors gritou da lateral, atiçando:
— Vai, Dark! Quebra ele, mostra quem manda!

Dark continuou, se aproximando, a voz cada vez mais baixa, mais venenosa:
— Eu sei que você me odeia. E isso é delicioso. Era isso que eu queria... — ele quase sussurrou, inclinando-se. — Eu não te odeio, não... você é divertido. Eu quero te ver no caos.

Theo fervia por dentro. O coração batia nas têmporas.

Dark abaixou, pegou um pedaço da rede rasgada, enrolou nos dedos e ergueu no ar com um sorriso torcido:
— Com essa rede... vou capturar a Ceres pra mim. Ela é gostosinha, né?

Foi a gota.

Theo partiu pra cima com um rugido surdo, a turma toda precisando separar os dois.
Cors gritava coisas, Vanks ria, Kan observava em silêncio — e só ele parecia entender que aquilo, aquele tipo de treino... era exatamente como a Mãe Ceres forjava seus filhos.

Dark ainda riu, mesmo sendo contido pelos colegas:
— Vem, liderzinho! Vai chorar? Hein?!

E Theo já não ouvia mais nada — apenas o som metálico da própria respiração, como se estivesse dentro de uma fornalha prestes a explodir.

O apito cortou o campo como uma lâmina.
Os dois ainda estavam sendo segurados quando o professor gritou:
— Chega! Aqui não é matadouro, é campo! — Ele chamou os dois para o círculo central, sem permitir recusas. — Lado a lado. Agora.

Theo e Dark caminharam até o centro, ainda com a respiração pesada, os uniformes sujos, os olhos faiscando um para o outro.
Ombro a ombro, como dois cães acorrentados que ainda rosnavam baixo.

O professor, com a prancheta em mãos, rodou em volta deles como um oficiante em um ritual antigo.
— Sabem por que vocês dois funcionam? Sabem por que eu mantenho vocês dois no mesmo time, mesmo que um odeie a cara do outro? — Ele parou bem diante deles, a voz carregada de didatismo e desprezo.
— Porque essa química é poderosa. Vocês são como dois polos de um mesmo núcleo. Já é tradição: toda temporada, briga no vestiário, hematomas no treino, sangue no chão. Mas no jogo... ninguém segura vocês.

Ele olhou primeiro para Theo, depois para Dark.
— O ódio é um recurso. Canalizado, ele faz vocês superarem obstáculos e surgirem do caos, dobrarem limites. Mas não confundam as coisas: Mãe Ceres não quer que vocês se matem. Seria um desperdício. De tempo, de energia... e de carne.

Theo resmungou um xingamento entre dentes.
Dark sorriu de canto, venenoso, devolvendo outro insulto quase inaudível.

Então, sem que ninguém precisasse pedir, Dark falou, ainda fitando o nada à frente:
— Sabe, Theo... meu maior prazer seria ver você sair dessa cidade antes de mim. — Ele mordeu a bochecha, quase rindo, e completou: — Mãe Ceres precisa de nós dois assim. Não levo pro pessoal. Você sabe disso. Admito. Não finja que não sabe.

Theo não respondeu, apenas o olhou de lado, com ódio frio e contido.

— No fundo... — continuou Dark, baixando a voz — você sabe que eu sou bom nesse jogo. Melhor que você às vezes. Mas uma coisa, pra mim... essa é pessoal. De todos em Ceres, eu sou o único que é leal a você. Eu te mataria por último. E sei que você faria igual.

Theo ficou imóvel, o maxilar travado, mas não negou.

Dark deu uma risadinha curta.
— Eu sou um animal, Theo. Você também é. Somos iguaizinhos. Só que você... é polido demais. E isso me dá um nojo danado. Mesmo assim... eu ainda quero quebrar a sua cara.

O professor, já de volta ao círculo, ergueu a voz para que todos ouvissem:
— Dois animais. É isso que vocês são. Dark é um animal puro. Theo... é um animal polido. Mas ainda assim, um animal. E é isso que todos vocês têm que entender: animais bem treinados jogam para Mãe Ceres. Animais soltos... só servem para o matadouro.

Dark se inclinou um milímetro para Theo, só o bastante para que ele sentisse a respiração quente e a última provocação, sussurrada como um veneno:
— Viu?

O professor apitou de novo. O treino recomeçou, mas o campo inteiro já parecia pequeno demais para os dois.

No fim do treino, todos já dispensados, Theo ficou no mesmo canto da arquibancada, cabeça cheia.

Ceres apareceu do nada. Theo nem quis olhar para ela.

— Você é mais violento que o Dark. — disse Ceres.

Theo deu uma risada cínica.
— Jura?

— Dark, apesar do nome... ele é claro.

— Então vai cair na rede dele.

— O que você está pensando?

— Nada.

Silêncio. Theo respirou fundo, olhou para ela com raiva e dor.

— Por que você vem caçar em mim com esses olhos?

— Não vim por isso.

Theo fungou.

— É seu amigo, Gene?

— Me deixa em paz. — respondeu, mais duro.
— Você não sabe como eu me sinto. Você não sabe o que é... entregar alguém.

Ceres endureceu o olhar.
— Mas você é um babaca mesmo.

Os dois se encararam por um segundo, depois viraram as costas. Cada um foi para um lado.

Quando Ceres sumiu no corredor oposto, Theo ficou sozinho na arquibancada por mais alguns segundos, sentindo o ar pesado no peito.

Os dedos dele tremiam. Raiva, vergonha, mágoa — tudo misturado, como um nó impossível de desatar.

Olhou para o gramado vazio, as marcas ainda frescas das chuteiras no sintético, como feridas abertas na pele de Ceres.

Era assim que ele se sentia também. Marcado.

E a cada passo que ela dava para longe dele, Theo tinha certeza de uma coisa: naquela cidade, ninguém ganhava. Só aprendiam a perder melhor.

O eco da respiração dele se perdeu entre as paredes do ginásio.

Respirou fundo, fechou os punhos e desceu as escadas em silêncio.

Era só mais uma noite em que ninguém voltava inteiro para casa.

Ceres voltou para o pátio com passos largos, pesados, como se cada pisada fosse um soco no chão. Raiva crua.

Daime atravessou na frente dela em desespero, rodando as rodas com força.
— Theo tá do outro lado! — gritou antes que ela passasse por cima dele.

Ceres mordeu a boca e cuspiu:
— Aquele babaca?

Daime ergueu a mão, impaciente:
— Ei, xingar ele só eu. Você faz outras coisas com ele!

Ela parou, fuzilando-o com os olhos azuis, mas ele não se intimidou. Respirou fundo e falou, num tom mais calmo, mais cruel:
— Eu sei que vocês têm um lance... Mas o Theo é um babaca. Um babaca por perder tempo com você.

Ceres arqueou as sobrancelhas, quase rindo.

Ele continuou, ríspido:
— O Theo é daquele jeito. Do mesmo jeito que eu sou do meu. Quando eu ainda era do time, antes do acidente, ele nunca mudou comigo. Nunca me olhou com pena. Quando jogávamos... já fui expulso por ele uma vez, sabia? Por ter rasgado a fita preta que eu usava de superstição e socado ele no meio do jogo oficial.

Ela não respondeu. Só cruzou os braços, esperando o ponto.

Daime suspirou, lembrando:
— E no dia seguinte ele agia como se nada tivesse acontecido. Como se fosse só uma terça-feira qualquer. Foi o único dia da minha vida em que eu pedi desculpas a alguém.

Ele encarou Ceres com aqueles olhos fundos, cheios de deboche e tristeza:
— Theo é mesmo um babaca. Mas é ainda mais babaca por gostar de você.

Ela finalmente soltou um risinho cínico, mas não convenceu ninguém. Daime fez um gesto de desprezo com a mão:
— E não me olha com esse teu olhão azul de peixe morto, tentando caçar minha alma. Eu não caio nessa merda! Fui.

Ele se afastou rápido, rodando a cadeira como se tivesse saído vitorioso.

Ceres ficou parada, rangendo os dentes, resmungando baixo, entre um suspiro de ódio e outra coisa que não queria admitir:
— Aleijado filho da puta...


Related posts