Carregando…

Capítulo 12: Julgamento de Gene… e o Refúgio - parte 3 final

aleroz
Pública 0 conversa 0 pensamento 28 votos positivos 0 voto negativo 1 série

O almoxarifado — A música proibida Theo e Ceres eram uma simbiose doentia. Desejo, poder, status, arrogância e controle absoluto pulsavam entre os dois, alimentados pelo ódio.

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

O almoxarifado — A música proibida

Theo e Ceres eram uma simbiose doentia.
Desejo, poder, status, arrogância e controle absoluto pulsavam entre os dois, alimentados pelo ódio.

Os olhos deles faiscavam: os negros e insondáveis de Theo, capazes de devorar uma alma, e os azuis imensos de Ceres, que pareciam abarcar o céu inteiro. Bastava um instante para que ela, com aquele olhar, caçasse segredos, detectasse mentiras, arrancasse medos. Theo, por sua vez, não queria apenas olhá-la — queria consumi-la novamente, como naquela noite.

Mas havia um peso em seu nome.
Ceres.
O mesmo da Mãe, imaculado e canonizado por todos os cidadãos. Desejá-la era também um sacrilégio. Ainda assim, o magnetismo era inevitável.

Ali estavam dois campeões.
Ambos com cabelos negros riscados por uma mecha branca — marcas diferentes que se tocavam como destino. A dela, fruto de uma travessura que simbolizava renascimento: de Silencium para a cidade de Ceres. A dele, um recado ao mundo, lembrança da dor convertida em força.

Theo sabia canalizar o ódio como poucos. Não o via como inimigo, mas como combustível, degrau para algo maior. Era justamente essa resiliência que fascinara Ceres desde o colégio. Sua mecha branca era, em parte, uma homenagem secreta a ele — à maneira como transformava a dor em liderança.

E agora, ali, frente a frente, ambos sabiam: o ódio que os movia podia ser também o elo que os unia.

Ana observava escondida, engolida pelas sombras do corredor. O brilho faminto nos olhos de Theo e Ceres a feria como uma lâmina invisível. Aquela tensão, aquele fogo que nascia entre eles… ela já conhecia.

Era o mesmo fogo que um dia sentira ao lado de Daime. Antes do acidente. Antes da cadeira de rodas.
Eram eles que se buscavam assim, que incendiavam o mundo dentro e fora das quadras, líderes em seus times, símbolos de orgulho e desafio.

Agora, ver Theo e Ceres era como encarar um espelho estilhaçado: pedaços de um passado que não voltaria.
Ana sentiu um vazio na boca do estômago, uma saudade tão cruel que quase a fez se revelar. Mas em vez disso, respirou fundo, fechou os punhos e se afastou em silêncio, deixando para trás aquela cena carregada de desejo e poder.

Enquanto os gritos da torcida ecoavam como um mar em fúria lá fora, Ana caminhava sozinha pelo corredor, levando consigo a lembrança de Daime — e a ferida aberta daquilo que perdera para sempre.

No fim do corredor, diante da porta estreita de um almoxarifado esquecido, Theo tomou a decisão.
Com um movimento brusco, agarrou Ceres pelo braço e a arrastou para dentro.

Ceres foi surpreendida. O choque percorreu sua pele como uma descarga.
O coração acelerou, mas não havia medo. Era outra coisa: um arrepio aflito, ansioso, como se todo o seu corpo tivesse esperado exatamente por esse instante.

No escuro, encostada contra as prateleiras frias e cheias de caixas, ela se deixou levar. Não resistiu. Desde a noite na piscina, quando arderam mais que as chamas da execução de Gene, ela aguardava essa atitude que Theo vinha evitando.

Agora, não havia volta.
Os olhos negros dele queimavam de desejo e ódio; os dela, azuis e imensos, refletiam o mesmo fogo.
Era como se o destino os tivesse empurrado para aquele espaço estreito, onde não existia mais jogo, torcida ou liderança — apenas a inevitabilidade de se consumirem.
Theo segurava um velho toca-fitas portátil, proibido por tocar músicas da “lista negra”.
O cassete já rodava quando ele fechou a porta.
— Se não quer mais nada neste instante... se afaste para sempre. Ou fique. — disse firme, oferecendo um dos fones a ela.
Ceres olhou para ele, depois para o fone. Por um segundo pensou em virar as costas. Mas não virou.
Pegou o fone com dedos leves e o colocou no ouvido.
A melodia suave e proibida de Sister Shakespeare — Stay — encheu o silêncio do almoxarifado.
Era quase dolorosa de tão bonita.
Theo fechou os olhos por um instante. Ceres também.
Não disseram mais nada. Só ouviram.
Naquele instante, toda a competição, toda a raiva, toda a fome de vencer ficaram do outro lado da porta.
Era só eles dois, e a música.


Depois, no mesmo almoxarifado, o cheiro de suor e metal velho permanece. Theo entra primeiro, ofegante, com o uniforme sujo de terra, sangue seco no canto da boca. Dark está encostado num armário, remexendo a medalha amassada entre os dedos, sem olhar para ele.
— Quer ficar aqui ou terminar o que começou no campo? — Theo dispara, a voz baixa e carregada.
Dark levanta os olhos, um sorriso torto.
— Sempre achei divertido te ver tentando ser santo, príncipe. — ergue a medalha. — Acha mesmo que a Mãe te ama por isso? Você só atrasa o inevitável.
Theo não responde, se aproxima devagar, a respiração pesada. Dark deixa a medalha cair no chão com um tilintar metálico.
— Acha que eu sou um aborto da natureza, não é? — rosna Dark. — Que só sirvo pra ser bicho de estimação dela. Pode falar.
— Não. — Theo rebate firme. — Eu acho que você é tudo que eu poderia ser... se largasse de tentar ser melhor.
Por um instante, silêncio. Um riso seco escapa de Dark. Ele dá um passo em direção a Theo, os rostos a poucos centímetros.
— Então para de mentir pra si mesmo. O caos não morde. É confortável.

Theo engole em seco, mas não recua.
Tira do bolso o toca-fitas portátil e, sem olhar para Dark, coloca a fita. Um dos sons proibidos de Right Now, de Korn, ecoa pelo espaço.
Segura o toca-fitas com uma mão e diz:
— Se não quer nada além disso... sai agora. Ou fica. E que a Mãe nos engula depois.

Dark fica imóvel, encarando Theo, como se ainda decidisse se o matava ou não. Depois, devagar, encosta no armário, escorrega até sentar no chão. Fecha os olhos e deixa a música preencher o silêncio.

Theo faz o mesmo, do outro lado.
Eles não se tocam. Não se encaram.
Mas, pela primeira vez, não há nada a dizer.


Mãe Ceres observa

No ginásio vazio, as luzes já apagadas para a noite, apenas os Silenciadores ainda patrulhavam.
Mas ela estava lá.
Ninguém viu seu rosto — ninguém nunca via.
Apenas a sombra projetada no alto da galeria, a forma majestosa e inumana de quem sempre assiste, mesmo quando ninguém acredita que está sendo observado.

Lá embaixo, cada um seguiu seu caminho:
Theo, carregando no peito a decisão de ser um louco — e meio — para domar seu lobo.
Dark, com a medalha amassada no bolso, troféu de um caos mal contido.

Mãe Ceres não se moveu.
Apenas um som baixo para si mesma — talvez um suspiro, talvez um riso contido:

Mãe Ceres — Meus garotos... finalmente entenderam. Só florescem no barro.

Por um instante, sua sombra pareceu expandir e recolher, como um suspiro profundo.
E então, silêncio.

Nada restou no ginásio: nem sombra, nem som.

No fundo da alma, ambos sentiram aquela sensação ao saírem dali:
Ela viu.
Ela aprovou.
Ela os alimenta, mesmo quando dói.

E em silêncio, pensa:
Mãe Ceres — Só assim... só assim serão dignos de mim.


A vitória e a sombra

O time volta do campo, carregado de suor e silêncio tenso. No corredor de azulejos de Oplan, ecoam ainda os gritos do público. No vestiário, as medalhas provisórias pendem frouxas no peito.

Theo senta no banco, respira pesado, dividido entre o alívio da vitória e o terror do que viria. Segura a toalha com as duas mãos, como se fosse um escudo.

Dark, do outro lado, encosta no armário, sorrindo torto, com a medalha amassada do jogo anterior pendurada num cordão improvisado.

— Então, príncipe... conseguiu seu golzinho — diz Dark, cuspindo no chão. — Mas não esquece: a Mãe não cria filho ingrato. Tudo que ela dá, ela pode tomar.

O silêncio dos demais é sepulcral. Os silenciadores encostados na porta reforçam a sensação: a festa acabou. Até Dark recua um passo quando os homens se aproximam de Theo.

Um deles aponta:
— Você. Amanhã, correção.

Theo abaixa a cabeça, sentindo um nó na garganta. Não luta. Não implora. Morde o lábio até sentir gosto de sangue.


Ana & Daime: O Fim Que Já Foi

Chove miúdo no pátio lateral do colégio, num canto onde a câmera nunca mostra.
Daime está ali, em sua cadeira de rodas, com um cigarro entre os dedos deformados e um cobertor surrado nas pernas.
Ana, recém-chegada do trem blindado de Oplan, caminha devagar — hesitante, mas firme o bastante para ele perceber.

Ele a encara de lado, sopra a fumaça e comenta com aquele humor cruel de sempre:

— Porra, achei que você vinha pra me desligar da tomada. Mas não… ainda tá aí, me olhando como se eu fosse um pôster rasgado do que já foi. E parabéns pela vitória.

Ana não responde de imediato. Abaixa os olhos, respira fundo e sussurra:

— Eu ainda amo você, Daime.

Ele ri. Ri alto, descontrolado, batendo a mão na coxa inútil.

— Ama. Hah. Claro que ama. Até eu me amo quando esqueço o que sou.
Só que já acabou, Ana. Acabou quando a Mãe decidiu que eu ia ser rato de laboratório, e não homem.
Acabou quando eu passei a cagar numa fralda. Quando a porra do meu pau virou um enfeite.

Inclina-se pra frente, o olhar afiado:

— Pena não é tesão, Ana. Pena não é amor. Você devia era pegar gosto por homem de quatro rodas, porque eu sou isso aqui, ó.
[Ele bate com força na cadeira.]
Mas nem pra botar fogo na Praça D eu presto.

Ana fecha os olhos, tentando conter as lágrimas.
Daime bufa, exausto, e ri de novo — uma risada agora triste, mas ainda debochada.

— Eu só rio porque é tudo que me sobrou.
A Mãe me tirou tudo, Ana. Minha perna, meu futuro, minha porra toda. Mas não tirou meu humor.
E nem vai tirar. Nem se me empurrarem no esgoto.

Ana abre os olhos e encara. Ele continua, mais calmo:

— Eu sinto inveja deles, tá? Do Theo, da Ceres. Jovens, lindos, desejados, adorados.
Eu vejo aquele moleque com você e penso… puta merda, ele nunca me respondeu atravessado, mesmo quando eu merecia.
E não sente pena de mim.
Por isso eu gosto dele.
Por isso eu respeito ele.

Suspira fundo e olha Ana nos olhos:

— Mas eu não suporto quando você sente pena de mim, Ana.
Não suporto.
Então faz um favor? Se vira. Vai viver. Me deixa aqui, rindo das piadas que só eu entendo.
Porque se você não largar de mim… eu vou largar de você.
E, na real, eu já larguei faz um ano. Você é que não percebeu.

Ana enxuga as lágrimas com a manga do casaco. Não diz nada.
Apenas toca de leve na mão dele e se afasta, devagar — deixando-o ali, sozinho, mas inteiro no próprio sarcasmo.

Ele acende outro cigarro e murmura para ninguém:

— A Mãe me tirou tudo. Mas nunca vai tirar minha boca suja.

E ri. De novo. Como quem ri pra não morrer de vez.

Ana segura a mão dele uma última vez, já de pé, pronta pra ir — mas não consegue.
Olha para ele, a voz embargada:

— …mesmo assim, eu te amo.

O rosto de Daime, antes só zombeteiro, agora se contorce. Não em desprezo — mas numa raiva triste, impotente, visceral.
Ele puxa a mão dela com força e cospe as palavras no ar:

— Vai tomar bem no meio do olho do seu cu, Ana!

Ela não recua. Não devolve a raiva. Só deixa a mão dele escorregar devagar da dela.
Uma lágrima cai no chão, silenciosa.

Ele solta um riso amargo, sem olhar pra ela:

— É isso aí. Vai viver, porra. Não olha pra trás.

Ana vira as costas e vai. Andando devagar, sob a chuva miúda.

Daime permanece ali.
O cigarro tremendo entre os dedos.
A boca ainda trêmula de ódio.
Os olhos marejados, fixos na escuridão.

Murmura, só pra si:

— Mesmo assim… também.

E traga fundo, como quem tenta matar a saudade com nicotina.

Ana saiu do galpão sem olhar para trás, os olhos fixos em nada.
A garoa fina de Ceres escorria fria pela nuca, colando a blusa ao corpo.
Cada passo pesava mais que o anterior, como se o chão de concreto quisesse sugá-la para baixo.

Andou sem rumo por alguns minutos, cruzando o pátio vazio, ouvindo ao longe o chiado das ferrovias e o ronco das máquinas a diesel.
No peito, um buraco ardia. A voz dele ainda ecoava, violenta, nojenta, mas verdadeira:
— Vai tomar bem no meio do olho do seu cu…

Parou perto de uma das colunas do corredor, encostou-se à parede fria e deixou escapar um soluço abafado.
Mordeu o punho para não gritar. Chorou de raiva, de vergonha, de amor, de saudade — tudo junto.

Ele não queria pena. Nunca quis nada dela além de desejo, luta e verdade.
E ela, sem perceber, deu exatamente o que ele odiava: compaixão.

No bolso, ainda carregava a fitinha preta que ele usava no punho nos jogos, antes do acidente.
Apertou aquilo com força, como se pudesse trazer de volta o Daime inteiro, sorridente, o mesmo que a fazia rir no banco de reservas.
Mas não adiantava.

Quando enfim ergueu os olhos para o céu sem estrelas, respirou fundo:

— Filho da puta… você ainda me tem. — murmurou, engolindo a mágoa.

Afastou-se da coluna, caminhando de volta ao dormitório feminino — as pernas trêmulas, mas a cabeça erguida.
No coração dela já não havia amor adolescente.
Era uma cicatriz.


O portão bateu atrás dela.
E o silêncio voltou a preencher o galpão.

Daime ficou imóvel na cadeira, encarando a parede suja à frente.
O rosto ainda contraído, a mandíbula travada.
Mas os dedos tremiam levemente sobre as rodas.

Respirou fundo e soltou um riso rouco, sem graça:

— Isso mesmo, porra. Vai embora. — disse, quase num sussurro. — Você não merece isso aqui… essa merda aqui.

Passou a mão pelo rosto, cobrindo os olhos.
Pressionou as têmporas até sentir dor.
E ali, sozinho, o riso se quebrou.
Veio um som feio, um meio-choro sufocado na garganta, como quem engole vidro.

Por um instante, deixou-se consumir pela inveja:
da juventude dela, da leveza dela, da porra do Theo.
Por um instante, lembrou do tempo em que ela ria para ele nos treinos, como se nada pudesse dar errado.
Por um instante, desejou nunca ter acordado daquela maca.

Então, enxugou as lágrimas com a manga da jaqueta e resmungou:

— Chega, porra. Chega. — e olhou para cima com um sorriso torto, ainda molhado. — Mãe Ceres não vai me ver chorando. Não vai mesmo.

Pegou um cigarro amassado do bolso, acendeu com a mão trêmula e tragou fundo.
Ficou ali, encarando a fumaça subir e sumir no telhado — tentando rir de novo.
Como sempre fazia.


Naquela noite, Daime demorou a deitar.

A cadeira de rodas encostada na parede.
Mas ele, inquieto, se arrastou até o colchão no chão do barraco.
Fumou um cigarro atrás do outro, enquanto a luz do poste recortava seu rosto em sombra e fumaça.
As mãos apertavam o lençol. Os músculos tensos, como se ainda estivesse em campo.
Como se ainda fosse um Deus de uma hora e meia.

Fechou os olhos.

E lá estava ele, de novo: Arcádia.

O gramado inimigo. As arquibancadas negras, como um tribunal cheio de carrascos mascarados.
O hino metálico da Mãe Ceres sendo vaiado, cuspido, rasgado pela multidão.
E ele? Rindo.

Rindo alto como um demônio.
O número 8 colado às costas. As veias saltando no pescoço.
O ódio dos outros era alimento.
O coro de xingamentos, música.

Ali, ele era imoral.
Ali, ele era Mãe Ceres fodendo Arcádia diante do mundo.

Cada passe seu era um dedo no cu deles.
Cada drible, um tapa na cara.

E quando fez o primeiro gol, cuspiu para a arquibancada como quem cospe na comida do inimigo e esfrega merda na toalha deles.

Mas Daime queria mais.

Queria fazer o impensável:
mandar a própria Mãe Ceres se foder diante dos juízes dela.

Por isso não recuou.
Por isso não freou.

Naquele contra-ataque assassino, ele não era um filho da Mãe Ceres.
Ele era maior que ela.

A multidão urrava. A torcida inimiga uivava.

E no auge, quando sentiu os dois arcadianos cravarem a marcação dupla como estacas de ferro, ele pensou:

"Vão ter que me partir ao meio pra me parar."

E eles quase conseguiram.

Ouviu o estalo da própria coluna.
O som surdo do seu corpo esmagado.
A bola rolou pra fora.
A coroa caiu.
O teatro acabou.

Acordou dias depois, numa cama fria, sentindo a merda escorrer dentro de uma fralda.
Não era mais Deus.
Não era mais nada.

E agora, um ano depois, a lembrança queimava como um gozo ruim.

Odiava que Ana ainda o olhasse com dó.
Odiava Theo por ser humilde demais para devolver seu ódio.
Odiava Mãe Ceres por não sentir inveja dele.
E odiava mais ainda não conseguir parar de rir da própria desgraça.

Tragou fundo e jogou a bituca contra a parede.

E murmurou sozinho, quase numa prece suja:

— Eu fui teu Deus por uma hora e meia, Mãe Ceres… e você nem piscou.

Cuspiu no chão e sorriu, os dentes amarelos, amargos:

— Mas eu sei que gostou, sua puta.

Deitou-se, a fumaça ainda subindo do peito, os olhos abertos na escuridão.


Mãe Ceres assistia ao jogo lá de cima, dos camarotes especiais.
Ou talvez nem assistisse.
Talvez soubesse, desde o início, que ganhariam.
Ou talvez estivesse em todas as bocas que gritavam nas arquibancadas.
Em todos os olhos famintos que seguiam a bola.

Ela era a cidade inteira.
E a cidade inteira era dela.

Daime corria no campo como um animal solto, um deus com sangue nas veias, um filho rebelde e belo que cuspia nos tribunais e ria na cara dos juízes.
E Mãe Ceres ria também.

Ah, como ela ria.

Não por se sentir ameaçada.
Mas porque ele era um brinquedo tão… delicioso.
Único. Valioso.

Um brinquedo que ela mesma criou, poliu, treinou, envenenou de ambição e soltou na arena como um leão esfomeado.

E quando ele fazia o impossível, quando driblava a morte, quando cuspia na cara da arquibancada inimiga, Ceres sentia aquele calor doce da inveja que a circundava:

“Nós não temos isso.
Só ela tem.
Só ela cria filhos assim.”

Ela adorava.
Adorava ser odiada.
Adorava ser temida.

Adorava que seus filhos fossem invejados pelo resto do mundo — pela liberdade brutal de não precisar mendigar por nada.

Ceres era rica.
Era fértil.
Era farta.

Tinha ouro nos bancos estatais, trigo nos campos, frutas nos pomares.
Tinha ratos, cães e gatos bem nutridos até mesmo nos becos.
Nem o lixo de Ceres era lixo: alimentava os famintos das outras cidades.

E ela sabia: nenhum inimigo ousaria atacar frontalmente.
Porque os cofres deles também dependiam do ventre dela.

Ela tinha tudo.
E queria mais.

Podiam chamá-la de puta.
De engrenagem opressora.
De Mãe.
De Monstro.

Ela pouco se importava.
Desde que nunca se esquecessem dela.


No instante em que Daime foi derrubado —
no segundo em que as pernas se dobraram —
no exato momento em que a cidade inteira ficou em silêncio —

Mãe Ceres apenas inclinou a cabeça e murmurou, satisfeita:

— Brinquedos se quebram.
Mas ainda são meus brinquedos.

E quando ouviu o grito abafado dele, estatelado no gramado, sentiu uma pontada quase… erótica.
Ele ainda a odiava.
Ainda cuspia nela.

E isso significava que ainda a amava.
Mesmo agora, aleijado.

Mãe Ceres não tinha ciúmes de Daime.
Nem raiva.
Nem remorso.

Ela apenas sorria.
Suave.
Com seus arranha-céus iluminados refletindo nas lágrimas dele.

E, no silêncio final da partida, antes que as sirenes o levassem, sussurrou em todas as cabeças:

— Eu sou vocês.
Vocês são meus.
E vocês nunca, jamais vão me esquecer.


O teto do hospital era tão branco que doía.
Tão branco quanto os tribunais.
Tão branco quanto o uniforme limpo, antes da lama do campo.
Tão branco quanto a consciência dela, lá do alto — invisível e inevitável.

Daime piscava devagar, tentando ignorar a dor nas pernas —
mas era impossível.

A dor era um lembrete de que ainda era dela.
Mesmo agora.

Sob as drogas.
Com a espinha rachada.
Com o corpo arruinado.
Com a dignidade toda mijada numa fralda.

Ela ainda o possuía.

E era isso que ele odiava.

Não os jogos.
Nunca os jogos.

Ele amava os jogos.
Amava a grama suja.
A bola deslizando.
O ódio dos outros.
A sensação de estar vivo por uma hora e meia.
De ser imortal naquele campo oval de grama sintética.

Amava o som das vaias, dos xingamentos — porque eram para ele.
Porque provavam que ele existia.

O que ele odiava…

Era ser só um brinquedo.

O brinquedo favorito dela.

A joia rara que ela exibia para os inimigos com um sorriso debochado.
O bibelô que usava para dizer:
— Eu tenho. Vocês não têm. E eu cuido bem do que é meu.

Daime respirou fundo.
E riu.
Uma risada rouca, amarga, quase sem voz.

Porque ele também a amava.
E isso o fazia querer vomitar.

Amava a cidade.
Amava a Mãe.
Amava a sensação de ser dela — mesmo sabendo que, no peito dela, não batia coração.
E que, se batesse, seria só o coração dos filhos devorados.

O sangue que corria nas veias dela era o sangue de todos.
Dele também.
De Ana.
De Theo.
De cada criança comendo restos nutritivos do lixo.
De cada gato gordo em cada beco.
De cada velho segurando ouro nas agências estatais.

Era o sangue de todo mundo que ela já esmagou — e ninguém jamais teve coragem de odiá-la de verdade.

Nem ele.

Porque, no fundo, mesmo agora, aleijado numa cama fria, ele ainda sonhava em vê-la sorrir para ele.
Nem que fosse para dizer:
— Eu sempre soube que você não ia durar, meu brinquedo.

E ele ainda sonhava em responder:
— Foda-se. Pelo menos eu fiz você lembrar do meu nome.

Era isso.

Mãe Ceres triunfava nos céus, no inferno — e ainda conseguia destruir o limbo.

E ele?
Era só mais um filho idiota, preso ao cordão umbilical, rezando por um carinho que nunca viria.

E rindo sozinho no escuro, porque era a única coisa que lhe restava.


A voz era fria. Suave. Enorme.
Como se viesse das paredes, do teto, dos tubos de soro.
Como se fosse o hálito quente da própria cidade curvando-se sobre ele — toda branca, toda limpa, toda cheia de dentes brancos e fartos:

— Eu me lembro do seu nome, Daime.
— Eu sempre me lembrarei.

Ele fechou os olhos, mas não adiantou.
Mãe Ceres estava lá, como sempre esteve.
Sentada no trono dela, feito uma madona de ferro, com aquele sorriso miúdo de quem já ganhou o jogo antes do apito.

A voz continuava:

— Sabe por quê?
— Porque você era divertido.
— Único.
— O brinquedo que ninguém mais podia ter.

Ele mordeu a bochecha por dentro até sentir o gosto metálico do sangue.
Mas a voz não sumia:

— Você era o brinquedo que eu cuidava com todo esmero, para que brilhasse nos olhos deles.
— E como eles te odiavam por ser meu.
— Como invejavam.

E havia um certo prazer naquelas sílabas:

— O brinquedo que ninguém ousava tocar, nem sonhava ter, nem se atrevia a reclamar por não ter.
— Porque eu te fazia parecer impossível.

Daime sentiu a raiva ferver sob a pele, mas ela sussurrou mais baixo, como quem afaga um cão:

— Eu gostava do gosto que você deixava na minha boca.
— Do poder que você me dava sem perceber.

A pausa foi longa. Cruel.
E por fim ela disse:

— E agora você quebrou.

Um riso seco ecoou no hospital vazio.
Só ele ouvia.
Um riso satisfeito, carregado de melancolia cínica:

— Agora ninguém tem você.
— Nem eu.
— Mas eu… eu ao menos tive.

E todos os outros?

— Eles nunca terão.
— Nem o prazer de me odiar por ter você.
— Nem o alívio de ver você esmagá-los.

E aí a voz soou mais baixa, quase maternal — mas era só veneno:

— Era a única maneira de vencê-los sem guerra.
— E ainda tripudiar com classe.
— Eu senti o peso de cada nó na garganta deles, um por um.
— E foi delicioso.

Daime abriu os olhos e riu outra vez, sozinho no escuro do quarto.
Riu para não chorar.
Riu porque ela ainda ganhava, mesmo ali. Mesmo agora.
Riu porque a única coisa que lhe restava era ser lembrado por ela.

Como um brinquedo raro.
Quebrado.
Mas dela.


Related posts