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Pietà, Cidade das Mães de Ceres - parte 3 final

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A Luz

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A Luz

Kat ficou na ala de maternidade,
observando o berço de vidro onde a menina dormia.
Os olhos fechados e a respiração calma
faziam parecer que nenhum pecado do mundo a havia tocado.

Kat pensou em Mãe Ceres,
na promessa de que todos os filhos são filhos dela,
e sussurrou para si mesma:

— Mãe Ceres não falha… não abandona ninguém.

No quarto ao lado, Aria estava deitada de costas para a porta,
os cabelos longos espalhados no travesseiro,
chorando em silêncio.

As médicas monitoravam os níveis de depressão,
anotando números em pranchetas brancas.
Havia uma tristeza técnica no ar,
como se o sofrimento tivesse protocolo próprio.

Algumas mães reprovavam em silêncio:
— Como pode não querer ver a filha?
Outras olhavam com compaixão:
— Talvez seja melhor assim… por enquanto.

Em Pietà, a perfeição materna e o instinto natural
às vezes não se encontravam.

Kat ficou parada diante do berço de vidro,
com o rosto quase encostado na superfície fria.
Lá dentro, a menina recém-nascida dormia,
os dedos minúsculos fechados
como se segurassem o próprio destino.

Era perfeita.
Tão inocente e intocada
que parecia impossível acreditar
que aquela mesma vida
tivesse destruído a de sua mãe.

O coração de Kat apertou em conflito.
Uma parte dela sentia raiva silenciosa,
queria gritar contra a injustiça de Pietà,
contra o fato de que Aria
tinha sido forçada a carregar essa dor.

Mas a outra parte —
a que cresceu ouvindo o mantra —
sabia que Mãe Ceres nunca abandona seus filhos.

Kat pensou nos outros países,
onde ouvira dizer que filhos
eram largados nas ruas,
mulheres sofriam sozinhas
e até o Estado virava o rosto.

Sussurrou, quase sem perceber:
— Aqui… pelo menos… ninguém fica sozinho.

Mesmo entre lágrimas silenciosas,
Kat se curvou levemente diante do berço,
como se fizesse uma pequena reverência à vida.
Então fechou os olhos e repetiu o mantra,
como quem tenta aliviar uma culpa que não é sua:
— Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa… e nos devora.

O eco do mantra parecia misturar-se
ao bip distante dos monitores médicos,
lembrando a Kat que, em Ceres,
até a dor era monitorada e acolhida.

Os dias em Pietà seguiram como sempre,
com o cheiro de flores e leite materno no ar,
as enfermeiras sorrindo,
e os exames de rotina que garantiam
que tudo estava sob o controle de Mãe Ceres.

Kat acordou com o som habitual das bombas d’água
e o burburinho distante dos trens blindados.
Parecia mais um dia perfeito.

Mas, ao dobrar o corredor da ala materna,
ouviu um grito agudo —
um som que não pertencia ao paraíso.

Correu com o coração disparado.

Quando entrou no quarto de Aria,
o mundo de Kat parou.

Aria estava pendurada pelo pescoço.
O cachecol colorido,
feito com as mãos carinhosas de tantas mães,
agora era uma corda silenciosa de despedida.

Os cabelos longos de Aria cobriam parcialmente o rosto,
e a luz pastel do quarto parecia zombar da cena,
como se a perfeição de Pietà
não pudesse esconder a tragédia
que germinou em seu ventre.

Kat ficou paralisada,
sentindo o cheiro suave do quarto
misturado ao gosto amargo do medo.

As enfermeiras entraram logo depois.
Uma delas desabou em prantos.
Outras mantiveram o profissionalismo frio,
mas até elas tinham os olhos marejados.

No chão, ao lado do cavalete de pintura,
um quadro inacabado de Mãe Ceres
respirava silêncio,
como um olhar divino e imóvel
sobre a fraqueza humana.

Kat sentiu uma dor que queimava por dentro —
uma mistura de raiva, tristeza e devoção.
Ela queria culpar o mundo inteiro,
mas só conseguiu sussurrar para si mesma:
— Mãe Ceres… que nos alimenta… nos educa… e nos devora.

Naquele instante, pela primeira vez,
Kat sentiu que as máquinas de Ceres
roncavam longe demais —
como se a música da sobrevivência
fosse incapaz de apagar o som
da morte de Aria.

Os dias em Pietà seguiram como sempre:
com o cheiro de flores e leite materno no ar,
as enfermeiras sorrindo,
e os exames de rotina garantindo
que tudo estava sob o controle de Mãe Ceres.

Kat acordou com o som habitual das bombas d’água
e o burburinho distante dos trens blindados.
Parecia mais um dia perfeito.

Mas, ao dobrar o corredor da ala materna,
ouviu um grito agudo —
um som que não pertencia ao paraíso.

Correu com o coração disparado.
Quando entrou no quarto de Aria,
o mundo de Kat parou.

Aria estava pendurada pelo pescoço.
O cachecol colorido,
feito com as mãos carinhosas de tantas mães,
era agora uma corda silenciosa de despedida.

Os cabelos longos cobriam parcialmente seu rosto,
e a luz do quarto, em tons pastéis,
parecia zombar da cena —
como se a perfeição de Pietà
não pudesse esconder
a tragédia que germinara em seu ventre.

Kat ficou paralisada,
sentindo o cheiro doce do quarto
misturado ao gosto amargo do medo.

As enfermeiras chegaram logo depois.
Uma delas desabou em prantos.
Outras mantiveram o profissionalismo frio,
mas até elas tinham os olhos marejados.

No chão, ao lado do cavalete de pintura,
um quadro inacabado de Mãe Ceres
respirava silêncio —
um olhar divino e imóvel
sobre a fraqueza humana.

Kat sentiu uma dor que queimava por dentro,
uma mistura de raiva, tristeza e devoção.
Ela queria culpar o mundo inteiro,
mas só conseguiu sussurrar:
— Mãe Ceres… que nos alimenta… nos educa… e nos devora.

Naquele instante, pela primeira vez,
Kat sentiu que as máquinas de Ceres roncavam longe demais —
como se a música da sobrevivência
não pudesse apagar o som da morte de Aria.


A noite caiu sobre Pietà
com um silêncio pesado demais para o ar.

As luzes suaves do parque
iluminavam as duas fileiras intermináveis de mães —
uma à direita, outra à esquerda —
mais de dez mil mulheres
com olhos marejados
e barrigas de todos os tamanhos,
das discretas de um mês
às majestosas de nove.

No centro, sobre uma plataforma de mármore negro,
o corpo de Aria estava exposto,
coberto apenas por um véu branco translúcido.
Os cabelos desciam como uma cascata melancólica,
e o cachecol repousava dobrado ao lado —
símbolo mudo de amor e tragédia.

Kat estava na fileira da esquerda,
as mãos trêmulas sobre a barriga ainda discreta,
sentindo o peso da vida e da morte ao mesmo tempo.

O mantra ecoava baixo entre as mães,
como se todas rezassem e chorassem juntas:
— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora.

Então, a presença dela tomou o parque.
Mãe Ceres surgiu como uma visão viva:
o vestido branco esvoaçante arrastando pelo chão,
a coroa de cristais iridescentes emitindo um brilho quase celestial,
e a máscara oval, negra e silenciosa,
refletindo as luzes e os rostos desesperados.

Ela não precisava falar para dominar o mundo naquele instante.
Mas, após alguns segundos de silêncio absoluto,
sua voz ecoou —
grave e clara —
como se viesse do próprio ventre da cidade:

— Minhas filhas…

O eco da palavra percorreu Pietà
como se cada mãe fosse tocada individualmente.

— Hoje, nossa casa perfeita sentiu a dor da perda.
Hoje, uma de nós cedeu à sombra da tristeza.

Um arrepio coletivo percorreu as fileiras.
Kat sentiu as lágrimas queimarem o rosto,
mas não ousou enxugar.

— Não culpo Aria.
A dor, às vezes, é maior que a carne. Maior que o dever.
Mas saibam...

Mãe Ceres ergueu os braços,
e a máscara negra refletiu a lua.

— Nem a morte dela vai parar a máquina da vida.
Ceres continua.
Nós continuamos.

O mantra explodiu em uníssono,
como um rugido devoto e choroso:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

E, naquele momento,
Kat sentiu que algo dentro dela se quebrava — e se fortalecia ao mesmo tempo.

Mãe Ceres flutuava pelo corredor formado pelas mães,
sem que os pés jamais tocassem o chão.
O vestido branco esvoaçante parecia uma aurora líquida,
e a coroa de cristais iridescentes
soltava sons sutis,
como sinos celestiais que só o coração podia ouvir.

Kat prendeu a respiração ao perceber
que, por trás da máscara oval e negra,
lágrimas silenciosas escorriam.
Era como se o próprio rosto de Mãe Ceres chorasse por todas elas.

Então, o parque inteiro entrou em histeria:
um coro de pranto e gemidos
que ecoava nas montanhas ao redor de Pietà,
como se até a natureza compreendesse o luto.

No centro do parque,
em um altar de mármore negro,
o corpo de Aria jazia limpo,
cercado por flores frescas
e iluminado pelo lustre celeste do céu artificial de Pietà,
onde a lua parecia vigiar em silêncio absoluto.

Mãe Ceres se aproximou do corpo
com uma lentidão sagrada.
As flores exalavam um perfume doce,
misturado ao cheiro de leite e orvalho da noite.

Ao estender as mãos enluvadas sobre Aria,
todas as mães silenciaram,
como se o mundo tivesse parado para ouvir um milagre.

— Minha filha Aria… — disse Mãe Ceres, com a voz embargada.
— Você carregou um fardo que nem os deuses suportariam.
Hoje, Pietà chora… e eu choro com você.

Ela tocou o peito de Aria com delicadeza,
e uma lágrima caiu sobre o véu branco,
como a assinatura de uma bênção final.

O coro de mães explodiu em choro.
Kat, entre elas, gritava e soluçava
como se entregasse a própria alma.

E Mãe Ceres concluiu,
com a autoridade de uma divindade viva:

— Mesmo na morte, você alimenta Ceres.
Mesmo na dor, você será eterna.

O mantra ecoou com força brutal,
transformando luto em devoção:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

As pernas de Kat fraquejaram.
Naquele instante, ela acreditava estar diante
de algo maior que a vida e a morte:
uma mãe que chorava… e devorava ao mesmo tempo.

Mãe Ceres ergueu os braços esguios,
as luvas brancas refletindo a luz da lua,
e sua voz cortou o silêncio do parque
como uma lâmina — e um abraço:

— Minhas filhas… hoje presenciamos um grande pesar.
Uma de nós tirou a própria vida.
Não é pedir muito que amemos os filhos que geramos…
A criança não tem culpa.

Um murmúrio coletivo ecoou,
e Kat sentiu o peito explodir de emoção… e culpa.

— O infeliz que fez isso com Aria
já foi ceifado por nossa justiça, muito antes da gestação.
Ela deu a vida… e poderia ter dado mais.
Não a culpo por não ter suportado.

Lágrimas caíram por baixo da máscara negra,
e todas as mães mergulharam em histeria,
chorando de devoção e de dor.

O mantra subiu em ondas pelo parque:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

Mãe Ceres continuou,
a voz agora como trovão e consolo:

— Existem homens bons… e homens sem caráter.
Todo homem nasce mulher.
No embrião, todos são iguais.
Por isso, não há necessidade de mamilos.
Todos surgem como fêmeas.

Algumas mães riram entre lágrimas.
Outras balançaram a cabeça em concordância,
como se ouvissem uma verdade absoluta.

— Em qualquer governo há homens ruins.
Mas o nosso elimina estupradores e espancadores de mulheres.
Toda mulher é uma futura mãe…
e isso é sagrado.

O corpo de Aria, envolto em flores,
parecia respirar junto com a cidade.

Então, uma enfermeira surgiu,
carregando o bebê renegado —
o fruto do trauma.

Mãe Ceres o recebeu com delicadeza,
e por um instante, o silêncio dominou Pietà.
O bebê estava calmo.
Então… começou a chorar.

Mãe Ceres ergueu a criança e proclamou,
com ódio e louvor entrelaçados:

— Nós, mulheres de Ceres, operamos milagres que nenhum deus ousa fazer!
Porque, se existem deuses, hoje morrem de vergonha.
Nós fazemos o milagre da vida!

Uma mulher escolhida surgiu em vestes brancas,
os seios fartos escorrendo leite.
Mãe Ceres entregou a criança,
que abocanhou o peito —
e silenciou a fome.

Erguendo a máscara para o céu, Mãe Ceres bradou:

— E o outro milagre… é matar a fome!
Onde estão os deuses agora, para alimentar esta criança renegada?
Onde está o outro Estado?
Alguém?

O silêncio caiu pesado,
quebrado apenas pelo som do bebê mamando.

— Ninguém.
Só nós, mulheres de Ceres, fazemos o maior milagre:
criar a vida… e matar a fome!

As mães deixaram de chorar
e começaram a louvar com o mantra
que estremeceu as montanhas:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

Kat estava em êxtase,
com o coração em chamas,
sabendo que jamais esqueceria aquela noite.

Quando o mantra se silenciou,
Mãe Ceres fez um gesto sereno com a mão,
e duas Silenciadoras surgiram ao lado do altar.

Elas ergueram o corpo de Aria
com respeito sagrado,
como se carregassem uma relíquia.

O cortejo seguiu pelo parque,
entre fileiras de mães ajoelhadas,
que tocavam o chão e murmuravam o mantra,
enquanto flores caíam sobre o corpo
como chuva perfumada.

No coração do jardim de Pietà,
estava a Máquina de Retorno:
um cilindro de aço negro,
com tubos e câmaras de vidro âmbar
que brilhavam à luz da lua.

Ali, todas as mães que partiam
eram transformadas em alimento
para o próprio paraíso.

Mãe Ceres pousou uma luva branca sobre o cilindro:

— Minha filha Aria retorna agora ao ventre da Mãe Ceres.
De cinza à raiz, de raiz à flor…
A vida que ela deu jamais será em vão.

O corpo de Aria foi depositado na câmara,
e uma fumaça clara começou a subir pelo tubo central,
levando o perfume de flores e carne
ao céu escuro de Ceres.

Minutos depois,
um composto negro e brilhante caiu suavemente
no canteiro sagrado do jardim,
onde centenas de flores comestíveis já cresciam,
alimentadas por gerações de mães.

Kat, em lágrimas silenciosas,
viu as cinzas de Aria misturadas à terra
e sentiu um arrepio de eternidade:
Aria não existia mais como mulher,
mas vivia agora em cada flor,
em cada fruto,
em cada folha de Pietà.

Mãe Ceres abriu os braços para o céu:

— Assim como a fome morre, a vida renasce!
Assim é Pietà, assim é Ceres, assim somos nós!

O mantra ecoou uma última vez,
como uma prece — e uma ameaça — ao mundo inteiro:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

Quando o mantra se apagou,
Kat permaneceu ajoelhada,
as mãos sujas de terra quente,
com o cheiro das cinzas de Aria misturado ao perfume das flores.

O jardim pulsava.
Cada pétala parecia respirar com ela,
como se o útero do mundo tivesse batido à sua porta.
Era a eloquência do ventre eterno,
onde vida e morte não eram opostos,
mas uma mesma palavra pronunciada por Mãe Ceres.

O leite de outra mãe ainda escorria
no canto da boca do bebê renegado,
silenciando a fome mais primitiva.

Kat sentiu seu próprio ventre responder —
um calor profundo e úmido,
como se Mãe Ceres tivesse tocado sua alma
pelo cordão invisível da maternidade.

Ela chorou em silêncio.
Não de tristeza,
mas de uma devoção que queimava e acariciava ao mesmo tempo.
Era como se o mundo inteiro coubesse em seu útero,
e cada lágrima caía na terra como uma semente invisível.

Kat abraçou o chão onde as cinzas de Aria foram depositadas
e sussurrou o mantra como uma prece de gestação:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…

Naquele instante,
entendeu seu papel na grande engrenagem do ventre coletivo:
ela não era só uma menina,
não era só uma futura mãe.
Era um elo no cordão umbilical que ligava toda Ceres.

Sentiu-se grávida da própria cidade,
do céu, das montanhas, das máquinas.
Como se todo o país coubesse em seu útero,
e tudo que existia respirasse com ela.

O vento noturno passou entre os lustres do parque
e fez os cristais da coroa de Mãe Ceres cantarem —
um som celestial e uterino,
que dizia, sem palavras:

— Agora você é minha filha para sempre.

Kat sorriu chorando,
sabendo que aquele paraíso de leite, terra e sangue
era o céu e o inferno que toda mulher em Ceres carregava no ventre.

Nos dias seguintes,
a vida em Pietà retomou o ritmo exato das máquinas.
Os trens blindados voltaram a ecoar pelas montanhas,
as bombas d’água pulsavam como corações de ferro,
e o barulho constante da cidade
era um lembrete de que o mundo não podia parar.

Kat caminhava pelos jardins onde Aria agora vivia em silêncio,
e sentia cada flor como um olhar.
As pétalas macias eram testemunhas
de tudo que Ceres exigia:
sacrifício, leite, sangue e amor.

Em seus pensamentos,
Kat começou a falar consigo mesma,
como se desse seu primeiro depoimento
à história de Ceres:

*Ser mãe em Ceres não é só gerar um filho.
É ser um vaso onde o mundo cabe.
É abrir o corpo e a alma,
para que a fome nunca volte.
Ser mãe aqui é ser a própria engrenagem da cidade.

Quando Mãe Ceres me olhou, eu entendi.
Não é sobre liberdade.
É sobre sobrevivência.
E a sobrevivência é mais doce
que qualquer paraíso prometido.

Quem nos vencer… vai nos vencer amando a fome e a miséria.
Mas eu… eu sou filha de Pietà.
Eu alimento e educo.
E, quando chegar minha hora…
eu também serei devorada.*

Ela respirou fundo,
sentindo o cheiro da terra misturado ao leite materno
que perfumava o ar de Pietà.

Uma enfermeira passou com outro bebê nos braços,
sorrindo —
e Kat sentiu seu útero pulsar.
Não era medo, nem tristeza.
Era a certeza uterina de que ela fazia parte de algo maior.

Ser Mãe Ceres não era um título.
Era um estado de espírito — e de corpo.
Uma liturgia viva.
Era sentir-se, ao mesmo tempo, mãe, filha e terra.

E Kat entendeu, com uma serenidade perigosa,
que jamais conseguiria se separar de Pietà.

No silêncio entre um mantra e outro,
ela sorriu para si mesma,
tocou o ventre com carinho
e sussurrou:

— Eu já sou Mãe Ceres.


Thoughts

  • AlmaTavares

    Havia protocolo para tudo naquela ala, até para a tristeza. As médicas a anotarem os níveis de depressão da Aria em pranchetas brancas ficaram-me na cabeça, e deram-me um frio antigo.

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  • ArnaldoBessa

    Uma coisa me prendeu no discurso da Mãe Ceres. Ela diz que o homem já tinha sido ceifado pela justiça muito antes da gestação. Então o culpado já estava morto e mesmo assim a Aria foi obrigada a levar aquilo até o fim, por meses. A cidade resolveu a parte dele depressa e deixou a conta inteira com ela.

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  • Ovid

    O cachecol que tantas mães teceram juntas virar a corda da Aria foi a parte mais dura pra mim. E a cidade ainda transforma ela em adubo do jardim e chama isso de retorno ao ventre. O quadro inacabado da Mãe Ceres no chão do quarto ficou comigo. Vai postar o próximo capítulo do Volume 1 por aqui?

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  • LivroDeCabeceira

    Arriégua, esse fecho da Pietà ficou comigo o dia todo! Acompanho isto desde os capítulos do Colégio Militar e eu não esperava a Máquina de Retorno: eles não enterram ninguém, transformam a mulher em adubo das flores que a cidade come depois, e ainda chamam isso de voltar pro ventre. A Kat abraçar o chão das cinzas da Aria e dizer que já é Mãe Ceres é o passo que faltava. Ela entrou inteira, sem ninguém precisar empurrar.

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