Os Advogados Diplomatas são os guardiões da Lei em Mãe Ceres. Chamados de advogados de chumbo, são inflexíveis, impenetráveis, e ao mesmo tempo profundamente humanos — o que constitui sua maior virtude e também sua falha inevitável.
Dotados de moral elevada, vestem— se sempre de cinza escuro, com o emblema da face de Mãe Ceres no peito. Detêm livre acesso aos trens blindados, têm autorização para pilotar tanques de rodas e podem entrar e sair do país sem restrições. Estão entre os poucos que conhecem a podridão do mundo fora das fronteiras: viram crianças em chamas, crianças assassinas, holocaustos esquecidos e genocídios silenciosos.
Sua missão é observar, relatar, julgar e ratificar. Cada ação executada dentro de Mãe Ceres é previamente validada por seus relatórios. A eles é confiado o mais sagrado dos pilares: o conhecimento. E em Mãe Ceres, conhecimento é poder.
A liberdade, dizem eles, é um delírio infantil — o desejo de autodestruição disfarçado de escolha. O mundo abraçou o Ceresianismo, mas Mãe Ceres o aperfeiçoou. A meritocracia funciona. E é por isso que ela não destrói o continente, embora tenha o poder para fazê-lo.
Sob o regime de Lei Marcial, Mãe Ceres poderia, com o simples aval de seus advogados, fechar contas, sufocar economias, desintegrar alianças. Mas ela não o faz — não por falta de desejo, mas por coerência com seus próprios princípios. Ela sabe que o caos lá fora é o seu maior argumento interno.
Audiência 44—M: Ratificação de Exílio
Advogado Diplomata: Amós X4O1
Local: Auditório de Convergência Cívica
Data: 44º ciclo lunar do ano 19 da Nova Era
Classificação: Ultra Reservado
Amós X4O1 atravessou os corredores blindados da Cúpula Central com os passos firmes de quem já testemunhou o fim de inúmeras civilizações.
A cada dez metros, câmeras o escaneavam por reconhecimento de retina, padrões térmicos e traços de voz.
Nada ali era casual. Nem mesmo os silêncios.
Vestia o traje regulamentar dos Advogados Diplomatas: cinza-chumbo, de corte reto, quase militar, com o rosto de Mãe Ceres gravado em relevo sobre o peito.
Um uniforme que impunha respeito — e medo.
No Auditório, três membros do Alto Conselho de Ética da Cidadania Horizontal o aguardavam.
Nenhum rosto era visível. As vozes vinham de trás de painéis de luz pálida.
— Advogado Amós X4O1, como representante da Lei e observador diplomático da zona neutra de influência, o senhor foi convocado para ratificar o julgamento da cidadã Fabe 1F13 por conduta insubordinada, questionamento da estrutura maternal e disseminação de ideias radicais sobre autonomia subjetiva. — A voz do centro era seca como uma ossada.
Amós assentiu.
Tinha lido os relatórios. Fabe 1F13 não era apenas uma herege.
Era uma idealista.
E idealistas, em Mãe Ceres, eram mais perigosos que assassinos.
— Há registros de que ela escreveu, em papel, a frase:
“O mundo que amo não me reconhece, e por isso amo ainda mais o que me destrói.”
— disse o segundo membro do Conselho.
Um crime poético.
E os poetas eram observados de perto.
— O senhor confirma que a pena de exílio perpétuo não fere os princípios do Ceresianismo, da Meritocracia e da Estabilidade?
Amós respirou fundo.
Em sua mente, uma lembrança insistente: uma criança suja de sangue, em um campo de refugiados no sul de Kálidor.
A menina sorria. E falava de liberdade como quem fala do céu.
Ele matou essa memória, como fizera tantas vezes.
— Confirmo.
A conduta da cidadã compromete o equilíbrio de Mãe Ceres.
O exílio não é punição — é necessidade.
A sobrevivência da ordem exige que a dúvida seja exilada.
Um silêncio ritual se instalou.
Depois, a luz vermelha se acendeu no painel central.
— Ratificado.
Fabe 1F13 será transferida para a Zona Fria ao amanhecer.
Seu nome será removido dos arquivos civis em 24 horas.
Ao sair, Amós não demonstrava pesar.
Mas, por dentro, um pensamento o corroía lentamente:
“E se um dia a dúvida for tudo o que restar?”
Anexo I — Expansão do Sistema Jurídico de Mãe Ceres
1. Corpo Jurídico Superior
Advogados Diplomatas (ADs):
Figuras neutras que observam, relatam e ratificam.
Não têm poder de decisão final, mas detêm veto jurídico.
Conselho de Ética da Cidadania Horizontal:
Júri invisível e absoluto. Nenhum rosto. Nenhum nome.
Suas decisões têm peso de lei final.
Cúpula Central:
Sede dos julgamentos de risco alto.
Localizada no subsolo da cidade.
2. Julgamentos
Classificação por grau de risco:
RB: Risco Baixo
RM: Risco Médio
RA: Risco Alto
RT: Risco Total
Apenas casos RM+ passam por ratificação dos ADs.
Julgamentos não são públicos.
Todos os registros são mantidos em arquivos internos criptografados.
3. Penas
Reeducação Neuronal (RN):
Aplicada a jovens desviantes.
Utiliza estímulos cerebrais para reintegração cognitiva.Exílio (EX):
Quando não há possibilidade de reintegração.Silenciamento (S):
Término da existência física e digital.Redirecionamento Produtivo (RP):
Trabalho forçado fora dos muros, até nova avaliação.
4. Leis Fundamentais
Lei da Estabilidade:
Questionar o sistema é ferir a estabilidade coletiva.Lei do Mérito Natural:
Cada um ocupa o lugar que conquistou.Lei do Saber Supremo:
Conhecimento autorizado é superior à experiência individual.Lei da Mãe Ceres:
Tudo o que protege o ventre da cidade é sagrado.
Limbo, Subsolo 3 — Encontro entre Amós X4O1 e Gene SL23
Local: Limbo, Subsolo 3
Classificação: Interrogatório Silencioso (IS—17)
Horário: 02h17 — sem registro civil
A porta de aço deslizou com um ruído abafado. O cheiro de ferro oxidado, suor e desinfetante queimava as narinas. As paredes da sala eram lisas, úmidas e frias como túmulos. Um único banco de cimento no centro sustentava o preso.
Gene SL23.
Dezessete anos. Estudante do colégio periférico de Arcádia-Leste, a menos de três quilômetros da fronteira com Silencium. Tinha os pulsos marcados por argolas de contenção e os olhos fundos de quem já conversou com a dor por tempo suficiente para não mais temê-la.
Amós entrou com passos lentos. Suas botas de couro cinza brilhavam sob a lâmpada opaca. Carregava uma prancheta, mas não a olhou. Parou diante do jovem. Observou-o em silêncio por longos segundos.
— Você era bonito — disse, com frieza. — Pele íntegra, bem nutrido. Tinha todos os ossos cobertos de carne, todas as palavras ainda intactas na garganta. Mãe Ceres te deu isso. E você cospe no prato.
Gene levantou a cabeça devagar. Havia sangue seco no canto da boca.
— Mãe Ceres me alimentou de mentiras.
Amós ignorou.
— As fitas cassete com músicas proibidas... Sabe, aquilo nem precisava dar em nada. Curiosidade adolescente. Todos tivemos. Mas... você foi além. Você escreveu na parede do refeitório: “Mãe Ceres, vadia imunda. Mãe Ceres, sua Puta e Mãe Ceres sua vadia meretriz imunda.” Em vermelho. Três vezes.
Gene não respondeu.
— Blasfêmia, Gene. Direta, venenosa. Você não entendeu nada. Mãe Ceres não odeia os que são diferentes. Ela ama todos. Ama os que têm sexualidade diversa, os que têm dúvidas no sangue, os que caíram e se ergueram. Mãe Ceres não julga caráter. Ela vai além do caráter. Ela julga os fatos.
Amós se abaixou. Ficaram cara a cara.
— E o fato, Gene, é que você atacou a estrutura que te formou. A ordem que te manteve vivo até aqui. Liberdade? O que é isso? Um grito vazio? Um desenho em um muro? Um delírio de quem nunca soube o que é fome?
Ele se aproximou ainda mais. A voz virou lâmina.
— Você sentiu a fome agora, não é? Ela dói, não dói?
Gene sustentou o olhar. As costelas, marcadas sob a pele fina, subiam e desciam com esforço.
— Dói. Mas dói menos que ajoelhar.
Amós se afastou como se Gene o tivesse cuspido.
— Revolucionários... libertários... messias... redentores... — ele balançou a cabeça com desprezo. — Todos detritos dos detritos. Bosta de mosquito. A liberdade que vocês tanto falam nunca encheu barriga. Só serve pra afundar na lama e dizer que morreu tentando.
Gene sorriu. Sangue escorreu pelos dentes.
— Então por que você ainda vem aqui falar comigo, Amós?
Silêncio.
O diplomata olhou por um momento para a câmara no teto. Sabia que estavam observando. Tudo ali era teatro — mas nem todo teatro é mentira. Às vezes, é só o único lugar onde a verdade pode sangrar.
— Porque... — murmurou Amós, quase para si — ...algumas sementes, mesmo podres, precisam ser enterradas fundo, para que não germinem em ninguém mais.
Ele se virou, caminhou até a porta e tocou o painel. Antes que as travas se abrissem, Gene sussurrou:
— ...um dia, a fome vai te pegar também.
Amós não respondeu. Mas, por um breve segundo, hesitou. Um segundo que não deveria existir em Mãe Ceres.
A luz do teto oscilava, como se até a eletricidade tivesse medo do que ali se dizia.
Gene permanecia imóvel, o corpo magro envolto em um macacão áspero e sujo. Seu olhar oscilava entre a raiva e o vazio.
Amós se postava diante dele como um monumento ao poder — um homem de cinza escuro, expressão de pedra e palavras afiadas como decretos.
Amós quebrou o silêncio com uma voz baixa, medida, carregada de cálculo:
— Gene... você já viu uma criança passando fome?
O jovem não respondeu. O silêncio era sua última dignidade.
— Pois olhe no espelho, se ainda tiver um. Você é essa criança. Uma criança faminta. — Amós caminhava em círculos lentos. — Nem chegou a ser homem ainda... e já carrega o fedor de um traidor. Triste sua situação. Mas não, Gene. Eu não sinto pena.
Ele parou atrás do garoto e murmurou, quase com desdém:
— Uma coisa, porém, eu tentei. Convenci o conselho a lhe oferecer recondicionamento. Uma chance mínima. Mas foram irredutíveis.
Amós contornou Gene outra vez. Agora, diante de seus olhos.
— Conheci seu amigo. Theo. Ele sim entende. Ama a Mãe Ceres. Ama quem nos alimenta, nos educa... e, se preciso, nos devora. Theo será alguém. Já é. É um jovem honrado, nutrido pela estrutura que você resolveu cuspir. E por isso...
Amós retirou um documento da pasta. Leu, sem emoção:
— Gene SL23, por ofensas diretas à figura simbólica da Mãe Ceres, atentados contra a moral pública, posse de material artístico subversivo e rejeição ativa ao processo de reintegração... — ele dobrou o papel. — Você foi condenado. Perderá seu nome. A partir de agora, será identificado como SL23.
Gene tremeu. Os olhos, vermelhos.
— Daqui a duas semanas — continuou Amós — sua “liberdade” será concedida. Na Praça D. Em frente aos painéis. Em chamas. Você será queimado vivo. Pela cidade que tentou destruir. E então... desaparecerá.
Mãe Ceres não terá piedade de sua alma ingrata, de sua expressão sem gesto. Você não será lembrado. Nem por Theo.
O silêncio se quebrou por um grito desesperado.
— EU VI O ROSTO DE MÃE CERES!
Gene se ergueu, mesmo atado, os olhos acesos por uma febre de fé — ou loucura.
— ELA ESTAVA CHORANDO! — berrou. — VOCÊS A APRISIONARAM! FIZERAM DELA UMA DEUSA DE FUMAÇA! MAS EU A VI! EU A VI!
Amós recuou um passo, tomado por um espasmo de raiva fria.
— Ninguém — disse ele, com os dentes cerrados — ninguém jamais viu o rosto de Mãe Ceres.
— Ela me olhou! Me tocou! E ela pedia ajuda, Amós... ela pedia ajuda!
O diplomata se virou para os soldados na porta. Sua voz foi seca, cortante, sem emoção:
— Isolamento. Imediato. Vinte e quatro ciclos. Nenhuma luz. Nenhuma voz. Ele blasfemou diante da lei.
Dois guardas entraram. Gene ainda gritava, mas agora sua voz era arrastada para fora da sala como fumaça num túnel. O som desapareceu.
Amós permaneceu só por alguns segundos. Apenas ele — e o vazio. Olhou para o documento sobre a mesa. O nome "Gene" já fora riscado. O código SL23 começava a pulsar em vermelho na tela.
Ele fechou os olhos. Por um breve instante, jurou ouvir algo no fundo da mente.
Um choro. Baixo. Feminino.
Mas sacudiu a cabeça e partiu.
Ordens são ordens.
A fé era uma doença antiga.
E Gene seria curado no fogo.
Tribunal de Mármore Negro – Julgamento de Artus Kal
Local: Tribunal Superior de Justiça Histórica
Estrutura: Salão Central do Mármore Negro
Classificação: SAJH—9 – Sessão Alta de Justiça Histórica
Presença de Silenciadores: Confirmada
Observador Diplomático: Amós X4O1
O som dos passos de Amós ecoava solitário sobre o mármore negro e frio. As paredes do tribunal eram lisas, monolíticas, sem adornos — apenas uma austeridade sufocante. O teto abobadado desaparecia na penumbra. No alto, cercada por painéis de vidro negro opaco, estava a sala dos julgadores. Ninguém via seus rostos. Ninguém jamais os vira.
À volta do salão, em pontos estratégicos, estavam os Silenciadores — homens estáticos, vestidos com uniformes cinza militar apertados, luvas negras e capacetes justos. Cada capacete era envolto por uma redoma ovalada de vidro opaco, refletindo a sala com distorção. Eram sombras do sistema. Nenhuma palavra escaparia sem o aval deles.
No centro do salão, sob a luz circular de um foco branco e inexpressivo, estava Artus Kal. Sentado em uma cadeira de ferro embutida no solo, parecia frágil — mas não quebrado. O velho arcadiano, de 85 anos, trajava um manto civil neutro. Os olhos permaneciam alertas. Ele sabia exatamente onde estava — e por que ainda estava vivo.
Do lado esquerdo, Amós X4O1 mantinha-se ereto. Trajava o uniforme cinza-escuro dos Advogados Diplomatas. No peito, o emblema do rosto de Mãe Ceres parecia brilhar sob a iluminação artificial. Nas mãos, levava o dossiê mais incômodo de sua carreira.
A voz dos julgadores ecoou do alto, filtrada por microfones ocultos. Grave. Feminina. Sem identidade:
— Damos início à Sessão Alta de Justiça Histórica número 9. Réu: Artus Kal. Acusação: crimes de guerra contra o cidadão de Ceres, Odre A12S, durante o Período Silencioso de Arcádia.
Amós avançou dois passos e começou:
— Excelências. O cidadão Artus Kal, hoje abrigado no Centro Horizonte Dourado sob proteção do Estado, foi responsável por torturas sistemáticas contra o agente Odre A12S — atualmente vivo, lúcido, e também residente do mesmo centro. Temos provas. Laudos médicos. Testemunhos. Memórias reconstruídas. Não são boatos. São fatos.
Uma pausa.
— Apesar disso, o réu foi agraciado com proteção vitalícia, em troca da delação de seus compatriotas e da entrega de informações estratégicas que evitaram uma invasão arcadiana. Acordo firmado. — Ele levanta o documento selado. — Mas o preço desse acordo foi o corpo e a alma de um dos nossos.
O silêncio foi quase sólido. Os Silenciadores nem se moveram. Imóveis, como pedras com fôlego.
— Não se trata apenas de diplomacia — continuou Amós, a voz mais firme. — Se Mãe Ceres é justiça, então não pode premiar o carrasco e esquecer o torturado. Não pode chamar de “paz” o que custou o grito de onze meses de agonia. Excelências... esse homem vive sob o mesmo teto da vítima. Não há estabilidade nisso. Há ironia. Há violência fria disfarçada de ordem.
A resposta veio, sem hesitação, pela voz invisível:
— O acordo é legítimo. E inquebrável. As instituições de Mãe Ceres não falham. Não negam o que assinam. Nem mesmo por justiça.
Amós cerrou os punhos. Mas se conteve.
— Justiça que ignora a dor dos justos não é justiça. É teatro.
A voz respondeu com uma calma que esmagava:
— Justamente por isso o teatro existe, Amós X4O1. Para que o continente veja, com clareza, que Mãe Ceres mantém seus pactos. E por isso ela é temida. Por isso ela é eterna.
Luzes vermelhas acenderam-se ao redor do mármore.
— Artus Kal permanece intocável. O caso está encerrado. Retirem-se.
Dois Silenciadores avançaram. Não tocaram Amós, mas a simples aproximação foi suficiente. A ameaça ali era silenciosa e absoluta.
Antes de sair, Amós olhou uma última vez para Artus.
O velho lhe devolveu o olhar com um leve sorriso. Era o sorriso de quem sabia que a verdade nunca foi a moeda mais valiosa em Mãe Ceres.
Sala de Contenção Cinza – Pós-julgamento
Local: Subsolo do Tribunal de Mármore Negro
Registro: Não oficial
Monitoramento: Desativado por autorização especial
A sala era pequena, sem janelas. Paredes de concreto cinza-claro. Duas cadeiras fixas. Nenhuma câmera aparente — embora Amós soubesse que cada palavra ali seria ouvida por alguém.
Artus Kal estava sentado, algemado por protocolo — mas com o mesmo ar altivo de sempre. Seus olhos eram secos, retos, como se já tivessem visto o fim de todos os impérios e decidido permanecer de pé apenas por teimosia.
Amós entrou, jogou os documentos sobre a mesa e ficou de pé.
Amós:
Você sabia. Sabia que Odre estava vivo. Que ele estava ali, quatro andares acima de você. E mesmo assim... nada?
Artus (sorrindo):
E por que eu faria algo? Ele estava vivo. E eu estava em paz. Isso não basta?
Amós (encarando):
Ele gritou por onze meses. Você foi o maestro daquilo. Cortou. Queimou. Quebrou. E agora caminha entre nossos idosos como se fosse apenas mais um sobrevivente.
Artus (calmo):
Sou mais do que um sobrevivente. Sou necessário.
Amós:
Você é um câncer envernizado.
Artus:
Sou a razão pela qual sua cidade ainda respira.
Amós se aproxima da mesa, furioso, mas controlado. A raiva em sua voz agora tem gosto de sangue.
Amós:
E se eu te dissesse que faria isso por justiça? Que queimaria sua história. Seu nome. Seu pacto. Que trocaria minha farda por uma faca, se isso bastasse pra equilibrar essa balança?
Artus (rindo baixo):
Então você seria igual ao seu pai.
O silêncio foi absoluto.
Amós (cerrando os punhos):
Não ouse...
Artus (interrompendo, com desprezo):
Seu pai. O horizontalista. O idealista. Aquele imundo... Achei que Mãe Ceres criava filhos assim. Mas você ainda carrega o sangue dele. Sabe o que me conforta?
Se fosse hoje, eu faria tudo de novo com ele. Tudo. E mais um pouco.
Amós (entre dentes):
Seu acordo era com Mãe Ceres. Mas a dívida é comigo.
Artus (inclinando-se, cínico):
Acordo de chumbo, rapaz. Irrevogável. Inquebrável. Ratificado pelo Conselho do Mármore.
Até Mãe Ceres sangra, mas não quebra palavra.
Você pensa que está do lado da verdade, mas é só um funcionário com o orgulho ferido. E isso... a cidade não recompensa.
Amós (voz trêmula de ódio contido):
Você não tem alma.
Artus:
Não. Eu a vendi. E comprei paz com ela. Você devia tentar.
Amós:
A diferença é que eu não durmo bem com monstros.
Artus (levantando as mãos algemadas):
Mas você os protege. Quer goste ou não.
Silêncio.
Amós encosta as duas mãos na mesa, aproxima-se do velho, olho no olho.
Amós:
Você me ensinou hoje que a justiça em Mãe Ceres tem preço. E agora eu sei qual é.
Mas também aprendi outra coisa, Artus...
Artus (irônico):
E qual seria?
Amós:
Que nem mesmo você vive para sempre. E quando sua hora chegar — e ela vai chegar —
eu estarei lá. Pra garantir que nem o seu túmulo tenha nome.
Amós vira-se. A porta se abre. Dois Silenciadores aguardam.
Ele sai sem olhar para trás.
Artus (sozinho, sorrindo, quase sussurrando):
— Que medo bonito, Amós. Que medo bonito.
As Fissuras de Chumbo
O mármore negro do tribunal ainda ecoava em sua memória, como um pêndulo pesado batendo nos ossos da cabeça. Amós caminhava pelos corredores silenciosos de Limbo, o casaco cinza-escuro ainda cheirando à umidade do julgamento, as luvas frias como metal oxidado.
Artus Kal.
O nome era uma ferida aberta — e pulsava.
Amós sempre se orgulhara de sua capacidade de manter o pulso firme. Mas agora... agora havia uma coisa nova. Uma semente plantada. Talvez fosse ódio. Talvez fosse amor pelo pai morto. Talvez fosse só a vontade de incendiar aquilo que o sistema dizia ser sagrado.
“Faria tudo de novo... com o imundo do seu pai.”
A frase repetia-se em sua cabeça como uma confissão obscena.
Amós encostou a testa no vidro opaco de uma sala vazia de interrogatórios. Lá fora, drones sobrevoavam o Horizonte Dourado, onde o velho Artus vivia — bem alimentado, confortável, salvo por um acordo de chumbo. Enquanto isso, Odre, o agente torturado, ainda tremia no pavimento de cima.
E seu pai, bem... seu pai apodrecia na memória, com os olhos cheios de sangue e silêncio.
“Acordo de chumbo. Justiça de vidro.”
Ele queria mais que um julgamento.
Queria mais que um parecer oficial.
Queria algo que sangrasse dentro de Artus. Algo que o velho não pudesse apagar — nem com os remédios, nem com as palmas mornas da rotina.
“O que é justiça sem dor, Mãe Ceres?
Justiça sem dor... é perdão.”
Amós não queria perdão.
Queria ferir.
Queria que Artus visse o que mais amava virar pó — como seu pai virou.
Mas o que Artus mais amava... estava seguro. Desaparecido. Engolido pelo próprio sistema que Amós serve.
Por um segundo, ele pensou em quebrar tudo.
Em usar seu passe diplomático para invadir os registros selados, descobrir onde está a família de Artus — e não entregá-los. Não a ele.
Talvez usar isso.
Talvez corromper o acordo.
Talvez fazer Artus implorar.
“Não por vingança...”, ele sussurrou, mentindo para si mesmo.
“...por justiça.”
A mentira caiu como uma lágrima dentro do uniforme de chumbo.
Entre Espelhos
As teclas da máquina de escrever ainda vibravam no fundo da sala.
O som ecoava como um relógio sem tempo.
Tique-taque em chumbo.
O vidro refletia Amós — mas não como ele era.
Refletia o que poderia se tornar.
Lux C13G entrou sem bater.
Como um veredicto.
Seu uniforme cinza-chumbo era como a parede: intransponível.
Na mão, uma pasta selada.
Na outra, uma folha recém-datilografada.
— Amós X4O1, A.D — começou, colocando o papel sobre a mesa.
— Você insistiu demais no caso Artus Kal. O julgamento acabou, mas você continua.
E nós estamos aqui para garantir que ninguém continue além do necessário.
Amós não respondeu.
Lux apertou as luvas negras, uma contra a outra.
— O mundo está constantemente em guerra — recitou.
— A paz é um acidente. A sobrevivência, acima da liberdade.
Amós engoliu seco.
— Mãe Ceres — disse ele, mais baixo do que deveria —
que nos alimenta, que nos educa... e nos devora.
Por um momento, ambos se encararam.
Dois homens iguais por fora, divergentes por dentro.
Lux se aproximou da máquina de escrever de Amós e bateu uma tecla só:
"R" — de risco.
Ou de ruptura.
— Você sabe o que acontece com diplomatas que ousam pronunciar palavras contrárias à doutrina diante de outro advogado — disse Lux, sem emoção.
— Um erro... e o amor de Mãe Ceres vira dente. Vira gadanha. Vira decreto.
Amós fechou os olhos. Ouviu dentro de si a mesma voz que o guiava desde o nascimento — mas agora com outra entonação.
Será que o amor de Mãe Ceres suportaria a verdade de um filho ferido?
Lux parou na porta e, sem olhar para trás, repetiu:
— O mundo está constantemente em guerra.
A paz é um acidente.
A sobrevivência acima da liberdade.
Amós completou, em voz quase inaudível:
— Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa...
e nos devora.