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Capítulo 12: Julgamento de Gene… e o Refúgio - parte 2

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"Mãe Ceres estende a mão até para quem deseja cortá-la."

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CONVITE PARA OPLON, O ESCUDO BRANCO

"Mãe Ceres estende a mão até para quem deseja cortá-la."

Foi com esse anúncio que o Colégio 401 recebeu a ordem oficial: um jogo amistoso de Flagball e Saltos Ornamentais aconteceria na cidade racista de Oplon, conhecida entre os jovens como O Escudo Branco, sede do regime étnico liderado pelo ditador Alac Bilac.

Os nomes dos convocados foram fixados na ala comunal.
No topo da lista, Theo — o líder silencioso.
E logo abaixo, um nome que reacendeu traumas e ódios mal cicatrizados: Dark.

Dark, o mesmo que havia sido punido por não alertar os Silenciadores sobre os cães estranhos na cidade de Ceres — os mesmos cães que inundaram o campo de sangue, deixando um rastro de marcas na memória.
Dark, que estava em detenção disciplinar por tempo indeterminado, agora era liberado exclusivamente para o jogo e os treinos preparatórios, sob vigilância e com alojamento restrito dentro do próprio colégio.
Depois do amistoso, retornaria para o Centro de Correção.
Era o preço da vitória.
E Mãe Ceres não perderia.

Ao mesmo tempo, Ceres e Ana — as duas antigas rivais — foram convocadas para representar a cidade no Salto Ornamental Sincronizado, também parte das competições diplomáticas em Oplon.
Pela primeira vez, Ceres liderava o salto.
Ana aceitou a posição sem protesto, mas o clima entre as duas ainda era de silêncio gelado.
O salto, no entanto, exigia sincronia absoluta — algo que o orgulho não podia impedir.

A disputa em Oplon não era apenas esportiva.
Era ideológica.
Era diplomática.
E, para muitos, era pessoal.

No campo, Theo teria que jogar ao lado de Dark.
Na piscina, Ceres teria que confiar em Ana.
E, em toda parte, os olhos do Escudo Branco estariam prontos para julgar cada gesto de Ceres — esperando sua falha.

Mas Ceres não falha.
Ceres sobrevive.


Pensamentos de Theo

Convencer Dark era o desafio dentro do desafio.
O jogo em Oplon era só a vitrine — o verdadeiro campo de batalha era antes: no vestiário, na mente dele, nos destroços daquela confiança estilhaçada tempos atrás.

Dark não confiava em ninguém. Nem em si mesmo.
Ele estava ali por ordem direta de Mãe Ceres — libertado de sua cela apenas porque sabiam que era bom.
Bom demais pra ser ignorado.
Bom demais pra ser livre.

E Theo... Theo tinha mais a perder.
Se Dark falhasse, era Theo que cairia. Era Theo que responderia.

Não havia apelo emocional que funcionasse.
Não havia discurso patriótico que seduzisse.
Dark não jogava por amor. Não jogava por honra.
Jogava porque era selvagem. E selvagens, quando soltos, só respondem a algo pior que eles.
Ou a alguém que os enxergue de verdade.

Theo sabia que precisava atingir esse ponto.
Convencer Dark não com promessas, mas com risco.
Com o peso de saber que, se tudo desse errado, ele cairia junto.
Igual. Ao lado. Sem escudo, sem perdão.

Era isso. Theo não queria um time.
Queria uma aliança com o imprevisível.
E isso, em Ceres, era quase pedir milagre.

Mas milagres… Mãe Ceres não concede.
Ela testa.

A conversa no vestiário

O vestiário está quase vazio depois do treino para Oplon.
Apenas Ana permanece sentada no banco, descalça, com o cabelo ainda molhado da piscina.

Ceres entra. Passos frios sobre o azulejo.

Ana nem levanta a cabeça:
— Vai me punir se eu não saltar?

Ceres se obriga a manter o tom controlado, embora a raiva ainda queime:
— Não vim punir ninguém. Vim garantir que você cumpra sua função.

Ana sorri, com desdém:
— Não preciso de sermão.
(com mais veneno)
— Seu amigo vendeu o próprio amigo pra ganhar uma estrela no uniforme.

(Silêncio pesado. Ceres fecha os olhos por um segundo, para não gritar.)

— Se eu tivesse escolha — diz Ceres, gelada — você não estaria aqui.
Mas eu não posso me dar ao luxo de perder a única saltadora que ainda consegue atingir nota perfeita.
Nem a Mãe Ceres.

Ana ergue os olhos. Pela primeira vez, elas se encaram:
— Então é isso? Vai engolir tudo só pra agradar a Mãe?

(Ceres dá um passo à frente. Agora estão a poucos centímetros uma da outra.)

— Não. Não é pra agradar a Mãe. É pra manter a cidade viva.
E por mais que você me odeie, Ana… você também vive nela.

(Um silêncio. Ana vacila. Por um instante, parece ouvir.)

— E você acha que isso apaga o que fez com ele? — Ana insiste, como um espinho.

(Ceres sente o golpe. Mas não se quebra. Responde seca:)

— Não. Não apaga.

(Ana não esperava essa resposta. Ali, naquele pequeno reconhecimento, surge a primeira rachadura em sua resistência. Ela apenas baixa os olhos e começa a calçar os tênis.)

Ceres conclui, firme:
— Não precisamos ser amigas, Ana. Mas se você tiver um pingo de amor por essa cidade, vai saltar ao meu lado em Oplon.

Ana não responde. Apenas se levanta, pega a mochila e, antes de sair, murmura:
— Eu pulo… mas não por você.

Ceres a observa sair, com a estranha sensação de que, apesar de tudo, isso é uma vitória.
A porta do vestiário ecoa quando se fecha atrás de Ana.

Ceres permanece imóvel por um longo tempo, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo.
O som distante da piscina parece o coração da cidade batendo — lento, indiferente.

Quando finalmente respira fundo, percebe que seus ombros doem — havia ficado tensa o tempo todo.
Caminha devagar até um dos espelhos do vestiário.

Encarar seu próprio reflexo sempre fora um hábito quase automático:
retocar o cabelo, ajustar a postura, treinar o olhar firme que todos esperam dela.
Mas agora, tudo que vê é cansaço.

Seus olhos ainda estão azuis como o céu de Ceres,
mas sob eles há sombras novas — olheiras fundas de noites maldormidas.

Por um instante, pensa em Theo.
Em como tudo ficou… errado.

Ela mesma já não sabe se ainda acredita no que fez por Mãe Ceres —
ou se acredita que isso justifica a forma como ele a olha agora.
Como se ela fosse uma inimiga.

Ana tinha razão: ela entregou alguém que amava.

E por quê?
Só pra vestir a estrela no uniforme?
Só pra ser a favorita?

Fecha os olhos, lutando contra a pontada na garganta.
Não chora. Não pode chorar.

Em vez disso, ergue novamente a cabeça.
Força um sorriso frio para o espelho.

Treina o olhar firme, como se falasse para si mesma:
— Ninguém vai me quebrar.

Mas, mesmo dizendo isso em voz alta,
ela sabe que algo já se quebrou por dentro —
e não foi só em Theo.

Foi nela também.


"No vestiário — Theo, Dark e os silenciadores"

O cheiro de suor e desinfetante enchia o vestiário enquanto o time se trocava.
O técnico falava algo sobre táticas para enfrentar Oplon, mas ninguém realmente ouvia.
Um nome não dito ainda pairava no ar como fumaça tóxica.

Gene.
Ninguém pronunciava. Nem mesmo o técnico.

Dark estava encostado na parede, rindo baixo, com aquele olhar de fera entediada.
E agora observava Theo como quem escolhe a próxima presa.

Os silenciadores também estavam lá.
O silêncio pesava.

De repente, a voz grave de Dark cortou o ar:
— E aí, herói. Tá feliz? Entregou teu amigo. Ganhou tua estrelinha.
E agora? Vai entregar o resto da gente também? Ou vai só ficar aí, bancando o filho perfeito da Mãe Ceres?

Theo sentiu o rosto queimar.
Ninguém o defendeu. Nem o técnico.

As mãos dele se fecharam em torno do broche de estrela preso à camisa.
Era leve, mas parecia pesar toneladas.
O símbolo de tudo que tinha conquistado.
E de tudo que tinha perdido.

Olhou para Dark, para os olhos azuis e assassinos.
Olhou para os colegas — todos desviaram o olhar, entre o medo e o desprezo.
E então, para os silenciadores: imóveis, impassíveis.

Theo puxou a estrela do peito.
Olhou para ela por um segundo.
E a esmagou na palma da mão até o metal entortar e ferir seus dedos.

Atirou no lixo do vestiário com um som seco.
E explodiu:
— Eu não quero presentes! — gritou. A voz falhou, mas veio carregada de raiva e dor. — Eu só queria que a Mãe Ceres me amasse como eu amo ela!

O vestiário inteiro ficou em silêncio.
Até Dark ficou sério, a boca semiaberta — como se não esperasse ouvir aquilo.

E, naquele instante, todos entenderam:
Theo não era só um delator.
Era um filho ferido, tentando merecer amor no campo de batalha.

Os silenciadores trocaram olhares.
O técnico pigarreou, desconfortável.
E Dark apenas deu um sorriso torto, murmurando:
— Boa sorte com isso, campeão.

Theo pegou a toalha e saiu sem olhar para ninguém, deixando a estrela amassada para trás.

O vestiário permaneceu em silêncio após a porta bater.
Dark ficou ali, imóvel por alguns segundos, olhando para a lixeira onde a estrela de metal repousava, retorcida.

O técnico tentava retomar o discurso.
Os silenciadores, mudos, já anotavam mentalmente cada detalhe para relatar.

Dark caminhou até o lixo.
Abaixou-se, sem pressa, e pegou a medalha esmagada entre os dedos.
Girou-a sob a luz fluorescente.
O metal deformado refletia uma cor opaca e feia — como a glória quebrada que Theo acabara de cuspir fora.

Dark sorriu.
Um daqueles sorrisos finos e venenosos, que só ele sabia dar.
— É, Mãe Ceres... — murmurou para si mesmo, com ironia — você sabe mesmo como brincar com os teus filhinhos.

Guardou a estrela no bolso como quem guarda um dente arrancado.
Um amuleto macabro.
Um lembrete do que a Mãe Ceres é capaz de fazer — com os leais e com os rebeldes.

E então, sem olhar para ninguém, foi até seu armário, assobiando uma melodia suave e indecente.
Na mente dele, já imaginava a hora de esfregar aquilo na cara de Theo.
Ou talvez nem fosse preciso.

Às vezes, basta ter um pedaço da dor de alguém para segurá-lo na palma da mão.

Dark continuou assobiando.
E o vestiário inteiro sentiu um arrepio ao ouvir.

O peso e o pecado

O vestiário já estava vazio quando Theo voltou, mais tarde, para buscar sua toalha.
Dark ainda estava lá, sentado no banco, girando a medalha esmagada entre os dedos como quem gira uma moeda.
Theo parou na porta.
Olhou para Dark.
Olhou para o bolso do moletom dele, onde agora descansava a medalha — um pedaço torto de metal que pesava como chumbo na consciência de Theo.
E nada na de Dark.

Porque Dark não sentia o peso.
Dark devorava pecados e sorria, como se fosse um prato de sobremesa.

Theo respirou fundo e disse, baixo, rouco:
— Fica com ela, então. Já é tua.

Dark ergueu os olhos devagar, com aquele olhar cortante que misturava desprezo e prazer.
Guardou a medalha no bolso.
Levantou-se com a tranquilidade de um predador que já sabe que a caça não tem para onde correr.

— Eu sei — respondeu apenas.

O clima entre eles esquentou ali mesmo.
Os silenciadores perceberam.
Os outros garotos sentiram, mesmo sem falar:
Mãe Ceres estava atiçando os dois, seus dois filhos favoritos, testando-os, brincando com eles como gatos brincam com ratos.

Era impossível não sentir o cheiro da tensão — como se a qualquer momento a briga pudesse começar ali mesmo.

Mas Dark era inegociável.
Não tinha pressa.
Queria o prazer da espera.
Queria a diversão de ver o “príncipe da Mãe Ceres” sangrar bem devagar, só para matar o tempo.

E Theo sentia isso.
Sentia que não importava o que dissesse, ou como se defendesse: a briga ia acontecer.
Era inevitável.

Dark deu um passo em direção à porta, mas antes de sair, parou, se virou e disse com um sorrisinho perverso:
— Depois do foguete do teu irmão, Theo...
— …
— Não vou estragar o show da Mãe Ceres antes da hora.

Theo fechou os punhos.
O sangue pulsava nas têmporas.

E quando Dark saiu, Theo ficou ali, sozinho, olhando para o banco, para o chão, para as paredes.
E, pela primeira vez, teve a estranha sensação de que o próprio coração estava no bolso do Dark — ao lado daquela medalha amassada.


Negociata e veneno

O vestiário ainda cheirava a suor e desinfetante.
Dark voltou e encostou no armário, girando a medalha esmagada entre os dedos como um talismã torto.

Theo parou em frente a ele, com o peito pesado e os olhos faiscando.
— Depois do lançamento do foguete… — Theo começou, voz baixa mas firme — …eu aceito tua briga.

— Ah? — Dark arqueou a sobrancelha, já interessado. — Vai parar de se esconder atrás da saia da mamãe? Que fofo.

Theo ignorou a provocação.
— Só que antes… eu quero que você jogue pra valer em Oplan.

— Jogar pra valer? — Dark riu, um riso seco, debochado. — Pra quê?

— Porque a Mãe Ceres não vai aceitar outra vergonha.
Porque eu não vou aceitar outra vergonha.

Dark parou de brincar com a medalha.
Seu olhar mudou por um segundo — sério, predador, avaliando Theo como um rival digno.

Depois, sorriu. Um sorriso largo, venenoso.
— Fechado — disse.

E aí, se inclinou, aproximando-se do ouvido de Theo, com a voz mais baixa e cruel:
— Mas se eu ganhar… eu vou foder a Ceres.

Por um segundo, tudo ficou em silêncio.
Até os silenciadores na porta se mexeram, desconfortáveis, como se pressentissem a explosão.

E ela veio.

Theo fechou o punho e acertou Dark bem no rosto, um estalo seco que ecoou pelo vestiário.
Dark cambaleou meio passo pra trás, levou a mão ao maxilar e… riu.
Riu alto, sincero.

— Ahhh… — disse, ainda rindo. — Então ele sabe bater.

Dark ergueu os olhos para Theo, que já estava em posição, pronto para mais.
Dark então deu um passo à frente e devolveu um soco, acertando Theo no estômago e tirando-lhe o ar.

E os dois se engalfinharam.
Socos, cotoveladas, xingamentos baixos cuspidos entre dentes cerrados.
Um som seco de carne contra carne, respiração ofegante, ódio puro.

Os silenciadores entraram na hora certa, agarrando os dois antes que alguém sangrasse mais.
Dark se deixou puxar, ainda rindo com o canto da boca, com um filete de sangue descendo pelo queixo.

E, ao ser arrastado para longe, gritou por cima do ombro:
— Eu só tô brincando!
— Tem um soco forte, hein…
— Tá chatiadinho, príncipe!

Theo ficou parado, ofegante, o punho ainda fechado, sentindo o sangue quente ferver no rosto e no peito.
Dark se foi, mas o gosto do desafio ficou.
E a promessa também.


O veredito da Mãe Ceres

A notícia chegou rápido, como sempre chegava.
No refeitório, no pátio, nos corredores: Theo e Dark se pegaram no vestiário.
Alguns diziam que Dark estava sangrando. Outros, que Theo caiu primeiro.
Mas todos sabiam que era só o começo.

Mãe Ceres os convocou naquela mesma noite.
Eles estavam dentro de um trem blindado que rasgava a cidade numa reta veloz até as entranhas sob a torre.
O salão estava frio, iluminado apenas pelo painel central com as runas do regime.
Ela os aguardava sentada em sua poltrona alta — um trono feito para lembrá-los quem mandava ali.

Theo entrou primeiro, a cabeça erguida, mas as mãos trêmulas por trás do uniforme.
Dark veio logo atrás, com o canto do lábio roxo e um sorriso que não se deu ao trabalho de disfarçar.

Ela os fitou por longos segundos.
E nada disse.

O silêncio dela doía mais que qualquer palavra.
Theo sentiu o estômago revirar.
Dark, no entanto, sustentava o olhar dela, desafiador, quase divertido.

Finalmente, Mãe Ceres se inclinou levemente para a frente.
Sua voz era suave, mas gélida:

— Vocês são meus dois filhos favoritos... e agem como dois cães vadios brigando por um osso.

Theo sentiu o peito apertar.
Dark não recuou um milímetro.

Ela continuou:

— Eu cultivo vocês porque sei do que são capazes. Porque vejo a potência em cada um.
Mas não confundam minha paciência com perdão. Eu posso... devorar vocês a qualquer hora.

Ela ergueu um dedo, chamando um dos silenciadores.
O homem colocou sobre sua mão um broche dourado — a mesma estrela de lealdade que Theo havia jogado fora.
E ela a girou nos dedos, como um gato brincando com um passarinho antes de matar.

— Dark... — chamou, sem tirar os olhos de Theo — Você ficou com isto, não ficou?

Dark ergueu as sobrancelhas e tirou do bolso a medalha amassada, estendendo-a casualmente para ela.

Ela a pegou e, sem olhar para ele, sorriu de leve.

— Você devora pecados sem sequer sentir o peso, não é, Dark? É por isso que eu gosto de você.

Dark não respondeu, apenas sorriu, aquele mesmo sorriso debochado.

Então, ela se voltou para Theo, deixando o peso do olhar cair inteiro sobre ele.

— E você, meu príncipe leal... — disse quase num sussurro — Nunca me peça amor.
Eu não amo. Eu crio. Eu moldo. Eu destruo. Eu comando.

Ela se levantou, caminhando lentamente até ele, e parou a poucos centímetros do seu rosto.

— Se você me ama como diz, Theo... então cale a boca e seja meu cão.

Por fim, recuou e acenou para os dois, como se dispensasse crianças levadas.

— Agora saiam. Descansem. E se matem no campo amanhã, se quiserem.
Eu quero ver vocês darem um show para Oplan.

Os silenciadores abriram as portas, e a audiência terminou.
Theo e Dark saíram juntos, lado a lado, sem se olhar, sentindo o peso invisível da Mãe Ceres ainda grudado em suas costas.

Após a reunião daquela noite com Mãe Ceres e Dark, Theo ficou perdido em seus próprios pensamentos, como se a voz dela ainda reverberasse em sua mente:

— E você, meu príncipe leal... — sussurrou quase inaudível — Nunca me peça amor.
Eu não amo. Eu crio. Eu moldo. Eu destruo. Eu comando.

Foi duro, mas Theo entendeu: mesmo essas palavras carregavam cuidado. Se ela não se importasse, jamais teria convocado a reunião às pressas, naquela mesma noite. Mãe Ceres doma seus filhos, molda-os, mantém-nos vivos entre ódios e rancores, mas os impede de se destruírem.

Dark adorava provocar Theo, desafiá-lo, testá-lo. Ele se deleitava com o caos, com a adrenalina do perigo, movido por um tédio que apenas aumentava sua audácia. Theo, em contraste, era polido — e uma polidez não muda a essência de um homem, apenas a disfarça. Ele poderia matar Dark não por prazer, mas por necessidade de silêncio interior, por um instante de paz com sua própria alma.

Mas a Mãe os havia moldado com chumbo em suas veias, arrancando-lhes os sentimentos mais simples, deixando apenas a força, o ódio e o orgulho. Ainda assim, eles sentiam. Ainda assim, reagiam. Dark se divertia nos trilhos do trem blindado, procurando confusão por curiosidade, por diversão; Theo se mantinha firme, oponente sério, implacável, pronto para o confronto marcado após o lançamento do foguete de seu irmão, Major Tomas — outro filho amado de Mãe Ceres, cada um à sua maneira, cada um à sua prisão invisível.

Ela os alimentou de ódio, orgulho e força. Seus filhos eram perfeitos, sem fraquezas aparentes: músculos ágeis, corpos rígidos mas flexíveis, pele cuidada, sangue nutrido por água e alimento de qualidade — tudo calculado para criar máquinas humanas. Seus corpos seriam óleo para engrenagens de ferro; seus espíritos, cativos. Escapar da Mãe? Impossível.

Eles eram filhos dela. Entreveros, rivalidades, ódios — nada disso os aproximava da verdade. A quem ousasse se aproximar demais, a Mãe extinguia sem remorso. Ela queria filhos fortes, inquebráveis, acorrentados eternamente à sua vontade. Alimentava-os, educava-os, moldava-os — e, ao mesmo tempo, os devorava.

Dizem que Mãe Ceres, antes de qualquer discussão com qualquer entidade do conselho — seja de Ceres ou de outra forma — filosofa de barriga vazia, para sentir a própria essência de sua ideologia. A fome vence qualquer princípio; ninguém escapa dela. Ela dói, é implacável, tão cruel quanto a própria Mãe Ceres. Para ela, a fome era a maior inimiga. Enquanto outros debatem de estômagos cheios, ignorando a ausência, ela sente o vazio, devora-se por dentro, deixando que a dor molde sua visão.

Mãe Ceres estraçalha almas assim, não pelo que pensam, mas pelo que têm — ou deixam de ter — em seus estômagos. Por isso jejua: deixa que o próprio corpo a consuma, permitindo que a fome e o ódio a moldem, preparando seus filhos para nunca conhecerem a dor de passar fome — a pior dor que um ser humano pode sentir, talvez pior que a morte.

Foi assim que alcançou seu status de senhora do continente. Riqueza, alimentos, remédios, doações — tudo conquistado sem levantar uma arma, sem matar, sem recorrer à violência direta. Ainda assim, venceu a fome e, com isso, impôs sua autoridade.

Theo e Dark, por mais que se odeiem, carregam isso em seu cerne. Mãe Ceres opera o milagre; ela é o milagre. Ela matou a fome, e por isso recebem dela um respeito absoluto, reverente, quase religioso. Para eles, não há dúvida: ela é a Mãe suprema, a Mãe Ceres.


O Estádio

O estádio de Oplan era um colosso branco, impecavelmente limpo e intimidador.
As arquibancadas já estavam lotadas de cidadãos vestidos de branco, gritando slogans de apoio à cidade.
Um rádio narrava cada movimento para a rede oficial, mas nada de câmeras — nada de imagens para a história. Em Oplan, tudo precisava ser filtrado.

No vestiário visitante, a tensão crescia junto com o som abafado do hino de Oplan lá fora.
O treinador fazia um discurso burocrático, mas ninguém ouvia realmente. Eles já estavam prontos.

Theo sentava-se num canto, arrumando as ataduras nas mãos.
Dark, de pé, escorado numa das colunas, girava a medalha amassada entre os dedos como se fosse uma moeda.

Por breves segundos, os dois cruzaram olhares — não havia sorriso, mas também não havia mais ódio puro.
Somente um pacto não dito: ninguém iria sair fraco daquela arena.

Os outros meninos do time sentiam aquilo.
Mesmo os silenciadores que rondavam o vestiário sentiam.
Entre Theo e Dark havia um fogo diferente agora.
E Mãe Ceres, invisível ali, como sempre, sentia também.

A Piscina de Salto Ornamental

Do outro lado do complexo esportivo, Ceres e Ana já estavam no vestiário feminino.
A água da piscina refletia o céu metálico de Oplan.
O público gritava, ansioso para vê-las competir — não apenas entre si, mas contra si mesmas — como a própria Mãe Ceres queria.

Ana secava as mãos e encarava Ceres com um olhar maldoso, e ao mesmo tempo nervoso, pronta para cravar uma última farpa antes do salto.
Mas Ceres, altiva, respirava fundo.
Ela era a líder.
E líderes não fraquejam diante do inimigo.

Ambas caminharam lado a lado em direção ao trampolim, o público hostil de Oplan aguardando o espetáculo das duas jovens de Ceres desafiando os ares.
Até ali, tudo era só teste.
Tudo era só mais um capítulo do jogo que a Mãe Ceres jogava com cada um deles.
E, em silêncio, ela sorria.


Vestiário em Oplan

O vestiário de Oplan mais parecia uma câmara mortuária do que um espaço para atletas: paredes metálicas, frias ao toque, com placas vermelhas gravadas em alto-relevo com os dizeres “Disciplina é Honra”.
O ar era pesado, impregnado de cheiro de desinfetante e concreto úmido.

Sobre um banco estreito, Ceres sentava-se com a postura perfeita, ereta como uma estátua de mármore vivo.
Seu maiô preto, com detalhes prateados, parecia moldado à sua pele pálida — tão tensa e potente que era impossível não imaginar a força oculta sob aquela quietude.

Ana terminava de ajustar o elástico dos tornozelos, sentada no banco oposto, o corpo igualmente esguio, mas tremendo de nervosismo contido.
Seu cabelo loiro escorria como um véu dourado pelos ombros, um contraste gritante com a frieza da sala.

Entre elas, dois soldados silenciadores mantinham-se de pé como sombras, imponentes em suas armaduras de kevlar cinza-escuro, o rosto totalmente oculto por óculos de viseira que englobavam toda a face — inexpressivos, silenciosos — lembrando constantemente que estavam vigiadas a cada palavra.

— Não ouse tropeçar hoje, Ana. — a voz de Ceres cortou o silêncio como um bisturi. Ela nem olhou para a rival enquanto conferia calmamente as tiras de sua própria roupa de salto.

Ana ergueu os olhos verdes, faiscando. O tom era zombeteiro:
— Você devia se preocupar com o seu próprio salto. Não com o meu.

Ceres finalmente a fitou. Seus olhos azuis eram profundos e ameaçadores como um céu carregado.
— Eu não tropeço. — disse, seca.

Ana riu sem humor, jogando a cabeça para trás.
— Não tropeça... mas também não sente nada, não é? Sempre essa máscara de gelo. Aposto que nem quando queimaram Gene você piscou.

Um músculo contraiu no maxilar de Ceres. Sua mão fechou-se em punho sobre o próprio joelho.
— Gene mereceu cada fagulha. — respondeu, fria. — Traiu a Mãe. Blasfemou. Theo fez o que qualquer filho devoto faria. Você, Ana... você devia agradecer por ainda ter um lugar para se ajoelhar todos os dias.

Ana rangeu os dentes, inclinando-se para frente, quase nariz com nariz com ela.
— Claro. Ajoelhar para você também, não é? Já que ganhou de mim naquela luta ridícula... de mãos abertas — sua voz saiu carregada de veneno — só para me humilhar.

Ceres não recuou. Pelo contrário, inclinou-se também, tão próxima que Ana podia sentir sua respiração fria.
— Não foi para te humilhar, Ana. Foi para te lembrar que eu sou melhor que você, mesmo sem precisar tentar muito. E é isso que você odeia.

Ana se afastou, furiosa, os olhos marejados por um instante — mas não permitiria que Ceres visse. Virou-se para o armário, respirando fundo, tentando recuperar a compostura.

Os silenciadores não moveram um músculo durante toda a cena.

Ceres então se ergueu com a graça e a precisão de sempre. Sua voz mudou: continuava cruel, mas agora tinha um tom motivador — porque precisava.

— Ouça. Hoje não é sobre você. Nem sobre mim. É sobre a Mãe. O salto precisa ser perfeito. E eu sei que você consegue. Você é boa. Boa o bastante para estar ao meu lado, não embaixo de mim. Prove isso.

Ana, ainda de costas, cerrou os punhos. Quando falou, foi mais baixo, quase um sussurro:
— Não pense que eu faço isso por você.

Ceres sorriu de leve, um sorriso glacial.
— Ótimo. Faça por Ela. E não ouse falhar.

Ceres saiu na frente, os passos ecoando pelo vestiário metálico.
Ana ficou para trás por um momento, respirando fundo, antes de segui-la — a raiva e a determinação misturadas como pólvora.

Os silenciadores caminharam atrás delas, mudos, como cães de guarda.

No corredor para o trampolim, passava em suas mentes o mantra: “Mãe Ceres, que alimenta, que educa e nos devora.” — lembrando-as do que estava em jogo.

Hoje, elas não podiam decepcionar.




O olhar das rivais de Oplan

O corredor de acesso ao trampolim era estreito e reverberava o som das sandálias batendo no piso metálico.
À frente, a cortina de vinil vermelho balançava levemente, revelando vislumbres da piscina iluminada e das arquibancadas lotadas.
Oplan inteira parecia ter se reunido ali — soldados, crianças de uniforme branco, políticos com suas insígnias douradas.
E, no centro de tudo, um enorme estandarte da supremacia local, com seu símbolo: uma águia branca sobre fundo negro.

Ceres caminhava à frente de Ana, o corpo ereto como uma lança, rosto impassível.
Ana a seguia de perto, os olhos verdes estreitos, tentando forçar a respiração a um ritmo calmo.

Quando atravessaram a cortina e entraram na área da piscina, o cheiro de cloro queimou suas narinas, misturado com a eletricidade dos olhares de centenas de pessoas sobre elas.

Foi quando as viram.

No extremo oposto da piscina, em posição de alongamento, estavam as saltadoras de Oplan.
Duas garotas jovens, corpos esculturais, maiôs brancos cravejados de detalhes dourados.
Os cabelos presos em coques impecáveis, loiro platinado idêntico, que reluzia sob as luzes do ginásio.
Os rostos pareciam esculpidos em uma única forma: pele clara, ossos proeminentes, olhos pálidos e frios.

As garotas de Oplan ergueram a cabeça ao notar as visitantes.
E então veio o olhar.

Um olhar longo, demorado, um misto de nojo, inveja e desprezo.
Um olhar que dizia mais do que palavras: que aquelas duas não deveriam existir.
Que eram um ultraje de perfeição vinda do “lugar errado”.
Que, por mais impecáveis nos saltos, eram filhas de Ceres — e isso era intolerável para elas.

Oplan não perdoava.
Oplan odiava.

Ana notou primeiro. Sentiu a espinha gelar sob o maiô, mas manteve-se firme, o queixo erguido como a cidade que a criou.
Ceres, no entanto, nem piscou.
Seus olhos azuis deslizaram pelos rostos das rivais como se fossem parte da arquitetura hostil daquele ginásio.
Indiferente. Fria. Perigosa.

As saltadoras de Oplan cochicharam entre si, e uma delas deixou escapar um sorriso cínico.
Mas o sorriso não durou quando os olhos de Ceres pousaram novamente sobre elas, caçando suas almas como um bisturi invisível. O sorriso morreu.

Ana, a contragosto, quase sorriu com isso.

Entre elas, pendurado no teto, um cartaz gigantesco exibia em letras brancas:
“A pureza da raça começa nas águas.”

Ceres leu a frase e ergueu as sobrancelhas apenas o suficiente para mostrar desdém.
Nem cães, nem gatos, nem ratos passavam fome em Ceres. Nem crianças definhavam de epidemias.
Não havia nada que aquelas garotas de Oplan pudessem fazer além de olhar — porque perfeição não se prega, se constrói.

Ceres e Ana trocaram um breve olhar, não de cumplicidade, mas de entendimento silencioso:
elas iriam esmagar aquelas duas na piscina.
E fariam isso por Ela — a Mãe que as educa, alimenta e devora.

Quando seus nomes foram anunciados pelos alto-falantes metálicos e o público irrompeu em aplausos contidos, as quatro começaram a caminhar para as escadas do trampolim.

Os olhares das rivais ainda queimavam suas costas.
Mas para Ceres e Ana, eram apenas faíscas apagadas antes do incêndio.


O salto das rivais e a decisão

O ginásio inteiro silenciou quando os nomes das saltadoras de Oplan ecoaram pelos alto-falantes.

As duas loiras subiram a escada do trampolim com a graça de quem carrega o orgulho de toda uma cidade nas costas.
Cada degrau era acompanhado por aplausos contidos e olhares reverentes.

Ao chegarem ao topo, pararam lado a lado, de costas para a piscina.
O holofote sobre elas as deixava ainda mais brancas, como se fossem feitas de gelo lapidado.

E então começaram.

O salto das duas era uma coreografia hipnótica: perfeita no sincronismo, no desenvolvimento, na fluidez.
Era como assistir a um filme em câmera lenta —
os corpos se arqueando com precisão matemática, os dedos das mãos em ponta, os músculos tensionando no tempo exato.
Giraram no ar como parafusos de ouro, esticaram-se como flechas, cortando o silêncio com um mergulho que mal fez ondular a água.

Por um momento, até o público de Oplan ficou imóvel, extasiado.
Até Ana sentiu um nó subir na garganta.
Até Ceres contraiu a mandíbula.

Quando as duas rivais emergiram da água e saíram para os aplausos ensandecidos, Ana e Ceres continuaram paradas à beira do trampolim, observando.
Não se mexeram.
Não sorriram.
Não bateram palmas.

E então, juntas, notaram.
Pequeno, quase invisível:
o ângulo dos pés das duas rivais, um pouco abertos demais na extensão final do salto.
Um detalhe. Um erro. Minúsculo — mas ali.

Ana ergueu os olhos verdes para os olhos azuis de Ceres.
E Ceres já a olhava, fria, como quem diz: eu vi também.

Um ódio surdo se acendeu entre as duas naquele instante.
Um ódio antigo, impetuoso, inflamado pelo orgulho e pela raiva de dividirem aquele pódio com a outra.

Mas, pela primeira vez...
Ambas pegaram esse ódio, dobraram-no como ferro incandescente e moldaram em uma única direção: contra Oplan.

Ana cerrou os dentes.
Ceres, ainda imóvel, apenas virou o rosto para a piscina, mantendo aquele olhar predador fixo na água, já planejando cada respiração, cada fração de segundo que as separava da vitória.
Um sorriso quase imperceptível nasceu no canto de sua boca marmórea.

Quase perfeita, pensou. E quase não é nada.

Quando o nome das duas foi chamado pelo alto-falante, Ana e Ceres começaram a caminhar lado a lado até a escada do trampolim.
O ginásio inteiro as observava agora.

E elas não eram amigas.
Não eram parceiras.
Eram duas forças opostas — obrigadas a se fundir para esmagar as rivais.

Subiram sem olhar uma para a outra.
Mas, em silêncio, a raiva de ambas já tinha um alvo.
E, por um instante cruel e sublime, quase pareciam a mesma pessoa.


O salto de Ceres e Ana

Os juízes sentavam-se alinhados à beira do ginásio, em cadeiras brancas e insípidas, como espectros.
Eram homens e mulheres vindos de todos os cantos do continente — escolhidos para garantir uma suposta imparcialidade.

Suas pranchetas cintilavam sob a luz dura dos holofotes enquanto rabiscavam números que ainda não diziam nada.
Números que só fariam sentido depois que Ceres e Ana saltassem.

O anúncio de suas presenças fez o público emudecer.

Ceres à esquerda. Ana à direita.

Subiram os degraus do trampolim com passos idênticos, mas cada uma carregava um fogo diferente no peito.
Cada degrau era um duelo.
Cada respiração, uma afronta.

No topo, não se olharam.
Posicionaram-se lado a lado.

A água azul-clara abaixo parecia convidar ao erro.
Mas para as duas… erro era para os outros. Nunca para elas.

Quando se lançaram, foi como ouvir uma sinfonia ao vivo.

Uma das músicas da lista negra de Ceres — aquelas proibidas, com melodias censuradas pela Mãe e espalhadas em fitas magnéticas cheias de chiado.

Mas ali, naquela fração de segundos... não havia chiado.
Não havia agulha rangendo no vinil.
Era puro, cristalino, quase divino.

Os corpos se arqueavam juntos, espelhados, dançando sobre o vazio com precisão brutal.
Desenhavam no ar espirais matematicamente calculadas.
Dedos estendidos.
Pés perfeitamente fechados — aquele detalhe miserável que as rivais de Oplan não haviam dominado.

E então, sem respingo ou hesitação, entraram na água como duas lanças, rasgando a superfície em silêncio.

A plateia explodiu.

Os juízes levantaram as pranchetas.
Notas quase idênticas às das rivais de Oplan.
Quase perfeitas.

Mas em Ceres, “quase” significava nada.
E o nada delas ainda era melhor que o tudo das outras.

Quando emergiram da água e voltaram à margem, Ana já respirava furiosa, mesmo sob os aplausos.
Ceres apenas sorriu frio, os olhos azuis como facas cravadas no rosto da loira.

Ana se aproximou dela com um sorriso igualmente venenoso e sussurrou, de costas para o público:

— Se você não tivesse hesitado meio segundo antes de girar… seríamos perfeitas.

Ceres inclinou a cabeça para ela, ainda de olhos fixos nos juízes.
— E se você não tivesse travado os tornozelos um milímetro antes de entrar na água... seríamos perfeitas.

Por um instante, ficaram frente a frente.
O ódio vivo.
A arrogância sangrando dos olhos verdes para os azuis.
E nenhuma delas admitia que aquele ódio, aquela culpa, era o que as mantinha melhores do que qualquer uma das rivais de Oplan.

Então Ceres ergueu o queixo e murmurou:
— Nosso pior é melhor que o melhor delas. Lembre-se disso, Ana.

Ana cerrou os punhos e retribuiu, seca:
— Ainda não é suficiente pra mim. Eu quero perfeição.

Ceres apenas deu um meio sorriso de mármore e caminhou para a saída do ginásio, deixando as gotas caírem de seus cabelos negros como pequenas sentenças.

Ana a seguiu, odiando cada passo — mas já planejando o próximo salto.


O Camarote Branco

Lá em cima, acima da multidão que urrava, pairava o Camarote Branco.
O único espaço no ginásio que não parecia contaminado pelo suor e pela torcida — um retângulo de mármore, cercado por vidros polarizados e luzes opacas.

No centro do camarote, sentada com a calma de uma deusa, estava Mãe Ceres.
Seu vestido branco escorria pelo corpo como leite cintilante, a cauda caindo sobre os degraus em ondas suaves.
A coroa — uma circunferência de cristais translúcidos — envolvia o rosto com um brilho quase místico, como uma auréola invertida.
E no centro, ocultando o que todos sonhavam ver, a máscara ovalada e escura permanecia imóvel, opaca, negando qualquer feição humana por trás dela.

Ninguém jamais vira o rosto de Mãe Ceres.
E ninguém jamais ousara perguntar.

Ao lado dela, recostado numa poltrona de couro negro, estava Alac Bilac — o homem que nunca perdera uma batalha.
O homem chamado por suas legiões de “perfeito”.
O homem de quem diziam que até os mais bravos soldados micavam nas calças ao enfrentá-lo.
Ele não usava coroa, nem máscara.
Só o olhar.
E aquele olhar bastava para intimidar qualquer um que ousasse erguer a voz.

E ainda assim, Mãe Ceres tripudiava dele.

A voz metálica e cristalina ecoava por trás da máscara, como um sussurro carregado de lâminas:
— Ironia... um homem que nunca perdeu... perde hoje. E nem é guerra.

Alac Bilac manteve os olhos fixos na piscina, a mandíbula cerrada.
O músculo em sua têmpora latejava.
Não respondeu — apenas resmungou, um som grave, quase indistinto.

Mãe Ceres continuou, impiedosa:
— Eu sei que você inveja a cidade implacável que é Ceres. Sei que seus próprios soldados, com toda a sua ideologia podre, já sonham em ser alimentados como cães bem-educados em nossas praças... enquanto o seu povo morre de epidemias em ruelas imundas. Você sabe disso. Eu sei disso. E eles sabem disso.

Os olhos de Alac Bilac piscaram rápido, mas ele não retrucou.
Ainda olhava para baixo, para as adolescentes na beira do trampolim — aquelas duas, brancas como os supremacistas que ele próprio venerava, mas ferozes como nada que Oplan jamais produziu.

— E veja... — a voz dela tornou-se quase divertida. — Meus brinquedos ainda estão em desenvolvimento. Adolescentes, Bilac. E ainda assim já são melhores do que qualquer um dos seus campeões de supremacia. Melhor que você mesmo foi um dia, talvez...

O homem respirou fundo, quase imperceptivelmente.
A derrota não era certa ainda — o segundo salto definiria.
Mas ele já sentia o gosto dela queimando na língua.

— Se você cair... diga-me, Alac Bilac... a quem vai pedir ajuda? Quem? Quem vai garantir seu ouro? Seus bancos? Seus soldados famintos? Ah... você sabe a resposta. Sempre soube.

Os cristais da coroa reluziam quando ela inclinou a cabeça, olhando para ele como quem contempla uma formiga.

No Camarote Branco, era permitido se gabar, trocar bravatas, rir de ódio e poder — fazia parte do espetáculo.
Mas as bravatas de Mãe Ceres nunca soavam só como bravatas.
Mesmo Alac Bilac sentia isso.
Sabia, lá no fundo, que a arrogância dela sempre estava certa. Ou quase certa.
E que para Mãe Ceres, “quase” não era nada.
Ela sempre estava acima do nada.

Por um instante, apenas o som da água no ginásio preencheu o silêncio entre eles.
Mãe Ceres sorriu atrás da máscara e disse, por fim, num tom suave, cruel como neve:
— Preste atenção, Bilac. Vai aprender hoje que até a perfeição precisa se ajoelhar diante da Mãe.

E de fato, ele sabia.
Sabia que já estava ajoelhado. Mesmo que fingisse não estar.

Camarote Branco — “a primeira vez”
O ginásio inteiro parecia prender a respiração quando as notas do salto de Ana e Ceres ecoaram pelos alto-falantes: um empate técnico na liderança, mas todos sabiam quem estava por cima.
Na plataforma, as duas se preparavam para o segundo salto.
Lá embaixo, os rostos pálidos e tensos das saltadoras de Oplan já se enrugavam de medo.

No camarote, porém, reinava a tranquilidade gelada de Mãe Ceres.
Sentada em sua poltrona branca, com o vestido cintilando como neve sob luz artificial, ela não precisava ver para sentir a raiva que Bilac exalava ao lado dela.
O homem perfeito. O mito de Oplan. O general invicto.
Tão imóvel quanto uma estátua, mas o silêncio dele tinha um som inconfundível para ela: derrota antecipada.

Ela se inclinou levemente para frente, apoiando o queixo na ponta dos dedos, e deixou escapar sua provocação num tom quase divertido:
— Se eu quisesse, só para matar o tempo... eu poderia destruir tudo isso aqui. Cortar seus suprimentos. Fechar suas contas. Deixar vocês morrerem de fome por semanas... só para ver como soaria o tilintar das suas medalhas vazias.

Silêncio.
Ele não respondeu.
Ela sentiu o nó na garganta dele. Sentiu o orgulho dele estremecer.

E então, pela primeira vez em todos aqueles anos de “guerra fria”, Alac Bilac falou com ela.
Virou o rosto na direção da máscara escura e disse, entre dentes:
— Você... é sádica.

Os cristais da coroa de Mãe Ceres brilharam sob as luzes do ginásio quando ela ergueu um pouco a cabeça para encará-lo.
A primeira palavra dele.
Ela quase riu — não por surpresa, mas por deleite.
Ela já esperava que um dia ele quebraria.

A voz dela veio baixa, mas gélida e cheia de escárnio, sem sequer virar a máscara para o rosto dele:
— Ah, Alac... não confunda sadismo com talento. Não é minha culpa que todos vocês passem a vida inteira querendo ser como eu.

E, por fim, ergueu delicadamente a mão branca, como quem comanda um espetáculo, e arrematou:
— A diferença entre nós, querido... é que você sonha em ser Mãe.

Lá embaixo, Ana e Ceres já estavam prontas no trampolim, os olhos queimando de rivalidade e determinação.
No camarote, Bilac voltou ao seu silêncio de pedra — mas, dentro dele, aquela única frase ecoava, corroendo seu mito por dentro.
Ele falara com ela.
Ela o fizera falar.
E isso, para Mãe Ceres, já era vitória suficiente.


O salto decisivo

O silêncio do ginásio antes do último salto era espesso como concreto.
As saltadoras de Oplan já estavam na beira do trampolim, prontas para sua segunda execução. Mas não eram as mesmas garotas seguras do início. Não mais.
O medo delas era palpável agora — um cheiro ácido no ar, um tremor quase imperceptível na ponta dos dedos dos pés.

Ana e Ceres, de pé lado a lado, observavam-nas com aquele mesmo ódio silencioso que sempre reservavam uma para a outra.
Mas naquele instante, o ódio delas se transmutava.
Elas o redirecionavam para as rivais.
E juntas, quase sem perceber, partilhavam um mesmo sorriso frio e disfarçado ao verem o medo nas duas saltadoras à frente.

Ceres inclinou a cabeça, os olhos azuis caçando a alma das adversárias como sempre fazia — e encontrou o pavor que buscava.
Ana, por sua vez, cruzou os braços, e por trás da franjinha loira seus olhos verdes brilhavam de satisfação venenosa.
Elas farejaram juntas.
Aquele medo... era delicioso.
Porque já sabiam: medo é sinônimo de derrota.

As saltadoras de Oplan saltaram.
O ginásio inteiro acompanhou em silêncio, como se a cena se passasse em câmera lenta.
Os corpos delas cortavam o ar, mas algo já não estava mais certo.
O sincronismo quase perfeito do primeiro salto já não se repetia.
O medo minara o tempo, dilatara os movimentos, e as pontas dos pés novamente falharam na entrada na água, só que agora um pouco mais abertas.
Um respingo mais alto do que o aceitável.
Um defeito invisível para olhos comuns, mas não para as duas predadoras na plataforma.

Ana e Ceres trocaram um rápido olhar cúmplice, cheio de ódio, mas também carregado de uma certeza silenciosa: nós já vencemos.

E quando as rivais emergiram da água, os aplausos foram mornos.
As notas — ainda boas, quase perfeitas — não bastavam.
Porque em Ceres, quase não é nada.
E em Oplan, quase já é derrota.

Agora era a vez delas.

Ana subiu ao trampolim sem esperar por Ceres.
Ceres a seguiu com aquela paciência assassina de mármore, os olhos azuis brilhando como o próprio céu sob o qual a cidade de Ceres reinava.
As duas sabiam que odiavam uma à outra.
Mas ainda mais que isso, amavam ver juntas o medo de quem ousava desafiar a Cidade.

E, no fundo, quando se posicionaram lado a lado, prontas para saltar, elas sentiram o mesmo:
é agora que a gente as destrói.

No camarote, Mãe Ceres sorriu sob a máscara, satisfeita com suas pequenas peças no tabuleiro.
E Alac Bilac já sabia, mesmo antes do salto começar, que perderia naquele dia.

O apito soou.
As duas saltaram — tão rápidas e impecáveis que não havia mais nada a dizer.


Vestiário — Lavando a roupa suja

O eco das notas finais ainda pairava no ginásio quando Ana e Ceres entraram juntas no vestiário branco de Oplan.
O cheiro de cloro, suor e sabão em pó preenchia o ar.
Elas haviam vencido.
Era um fato.
A Cidade de Ceres triunfara mais uma vez sobre os supremacistas.
Mas aquilo não era suficiente para elas.

Ana arremessou a toalha no banco de metal e se virou com um sorriso ácido:
— Não pense que foi você quem ganhou isso pra nós, Ceres. Se eu tivesse liderado, a nota teria sido perfeita. Perfeita.

Ceres, calma como mármore, sentou-se no banco oposto, cruzando as pernas e fitando Ana com seus olhos azuis de caçadora.
O cabelo negro ainda pingava, os ombros esbeltos pareciam talhados à mão.
Ela sorriu, mas não era um sorriso simpático — era clínico, sádico:
— Perfeita? Você tropeçou no segundo giro.
(ela inclinou a cabeça, fria)
— Eu corrigi por você. Você deveria me agradecer de joelhos por não ter te deixado afundar sozinha.

Ana bufou, os olhos verdes faiscando, os dedos cerrando em punhos.
Deu um passo à frente, quase encostando no rosto da outra.
— Você não tem ideia do quanto eu sonho em tirar você desse trampolim à força, Ceres. Um dia ainda vou te fazer engolir essa sua arrogância nojenta.

Ceres não recuou.
Apenas arqueou uma sobrancelha, como quem observa um animalzinho tentando morder a mão do dono:
— Então sonhe bastante, Ana.
(ela se inclinou levemente, a voz baixando a um sussurro cortante)
— Mas sonhar não vai mudar o fato de que eu sempre salto mais alto que você. Sempre.

Ana soltou uma risada curta, de escárnio, mas por um instante seus dedos tremeram no ar, como se realmente fosse socá-la.
Mas não o fez.
E Ceres nem piscou.

Do canto do vestiário, o técnico — um homem grisalho e rígido — apenas as observava em silêncio, encostado na parede, de braços cruzados.
Sabia que não podia — nem devia — intervir.
A ideologia da Mãe não permitia sangue entre os Filhos.
A violência física entre companheiros era um desperdício de energia, um atentado contra a eficiência da Cidade.
Em Ceres, o ódio tinha que ser canalizado para vencer inimigos externos, não para despedaçar o que já era perfeito por dentro.

E ambas sabiam disso.
Era o único motivo pelo qual não haviam se esmurrado até agora.

— Eu ainda vou te derrubar — sibilou Ana, recuando meio passo, mas com o mesmo fogo nos olhos.
— Pois que tente — respondeu Ceres, colocando-se de pé, majestosa. — Quando conseguir, você terá se tornado digna de mim.

Elas se entreolharam por mais alguns segundos, a tensão no ar era elétrica, quase mortal.
Duas predadoras presas pela coleira de uma mesma doutrina.

Então, quase ao mesmo tempo, pegaram as toalhas, recompondo-se como se nada tivesse acontecido.
Mas no fundo, ambas sabiam: aquele ódio ainda as faria voar cada vez mais alto.

Porque, afinal, quase não é nada.
E em Ceres...
Nada nunca basta.


No Pódio — Mãe Ceres que nos devora

O ginásio inteiro se ergueu quando as vencedoras subiram ao pódio.
Ceres e Ana, lado a lado no degrau mais alto, ergueram as medalhas prateadas e brancas com a inscrição da Cidade.
No degrau abaixo, as garotas de Oplan mantinham os queixos erguidos e os punhos fechados — derrotadas, mas ainda tentando parecer altivas.
As luzes brancas e duras do ginásio reluziam nas coroas metálicas que lhes colocaram nas cabeças.

Soou o hino de Ceres.
Um coral suave, grave, envolvente, ecoando pelo ginásio como um sopro divino:
"Em mármore erguida, em silêncio forjada,
Ceres nos guia, implacável e bela..."

As duas não sorriram. Não acenaram.
Os olhos de Ana não se desviavam dos olhos de Ceres.
E os de Ceres miravam o vazio à frente, mas faiscavam um azul gelado que só Ana parecia enxergar.

Quando o hino terminou, toda a plateia — inclusive as atletas derrotadas de Oplan — se pôs de pé e repetiu o mantra, em uníssono:
— MÃE CERES QUE NOS EDUCA, ALIMENTA… E NOS DEVORA!

As palavras reverberaram pelo espaço como uma sentença.
E mesmo no pódio, ambas sentiram aquele arrepio frio percorrer a espinha.
Era mais que orgulho. Era servidão.

Quando ondas de rádios difusoras cessaram, elas desceram do pódio em silêncio.
As meninas de Oplan mal ousaram olhá-las — eram apenas petiscos naquele banquete de ódio que só Ana e Ceres serviam uma à outra.

No corredor estreito que levava ao vestiário, Ana quebrou o silêncio com um sussurro venenoso, o medalhão ainda batendo no peito:
— Sua vadia.

Ceres não hesitou, virando-se para ela com um meio sorriso frio:
— Sua vaca.

Nada mais foi dito.
Os passos ecoavam pelas paredes como um relógio prestes a explodir.
O ódio entre elas faiscava tanto que podia incendiar Oplan inteira.

Porque, para Ana e Ceres, nunca foram as inimigas externas o verdadeiro problema.
As meninas de Oplan eram só poeira, só petiscos.
O verdadeiro duelo, o verdadeiro inferno… era uma à outra.

E assim, lado a lado, inimigas perfeitas sob o mesmo estandarte, seguiram de volta para o vestiário.
Caladas.
Prontas para se devorarem um pouco mais.

"Mãe Ceres que nos educa, alimenta… e nos devora."

No pódio, as duas mantinham a postura impecável, imóveis como estátuas, as medalhas reluzindo sob as luzes do ginásio. Era um amistoso, mas o protocolo era rigoroso. Tocava o hino de Ceres, acompanhado pelo eco metálico do mantra:
— Mãe Ceres que nos educa, alimenta e nos devora! —

As vozes do ginásio repetiam em uníssono, uma oração sem alma. Ana e Ceres entoaram também, não por fé, mas por dever.

Quando finalmente puderam sair, cada uma se dirigiu a um lado do corredor, como se a distância entre elas fosse a única forma de evitar incendiar aquele lugar inteiro. Ainda assim, não resistiram. Passaram uma pela outra e, sem se olharem diretamente, murmuraram com um sorriso gelado:
— Sua vadia.
— Sua vaca.

Depois, cada uma recolheu-se a seu canto, o coração martelando dentro do peito. O dever para com Mãe Ceres estava feito. O hino havia sido cantado, o ouro conquistado.

Mas as mãos de ambas ainda tremiam de raiva contida. Ana esfregava os dedos na barra do uniforme, como se quisesse rasgar alguma coisa — ou alguém.
Ceres sentia o calor do ódio subindo pelo peito, até as têmporas; a medalha gelada contra a pele não aplacava o fogo que queimava por dentro.

Em silêncio, cada uma repetia para si:
"Um dia vou esmagá-la."

Cada uma no seu canto, imóveis, esperando a hora de explodir a bomba que ainda não haviam permitido explodir.
A obrigação havia sido cumprida. O espetáculo, concluído.
Mas a guerra verdadeira — essa ainda não tinha começado.


O campo de flagball — Theo & Dark

Enquanto isso, no campo, a tensão era outro tipo de espetáculo.
As equipes se alinharam sob um sol opressor.
O time de Ceres vestia cinza escuro. O de Oplan, branco ofuscante.

Theo sentia as luvas escorregarem de suor.
Dark estava dois passos atrás, ajustando o protetor bucal como quem se prepara para arrancar dentes.

Os silenciadores estavam postados em cada canto do campo, atentos.

Quando o juiz apitou, o jogo começou frenético — mas todos os olhos estavam nos dois.
Theo corria como um possesso, distribuindo passes precisos, defendendo como um soldado.
Dark o perseguia como um predador, não só no jogo, mas em cada trombada, em cada contato.
Era como se a briga da noite anterior ainda estivesse acontecendo, só que agora camuflada sob a partida.

Em um lance, Dark derrubou Theo com um ombro no peito, duro o suficiente para fazê-lo perder o fôlego.
— Chatiadinho ainda, príncipe? — rosnou, baixo, antes de se afastar.

Theo se levantou, engolindo a dor, e respondeu apenas com um olhar.
Um olhar que prometia que aquela história ainda não tinha acabado.

Na arquibancada, as máscaras de porcelana dos emissários de Oplan permaneceram imóveis.
E no camarote mais alto, Mãe Ceres — ou a figura que todos sabiam ser ela — observava sem rosto, imóvel, como uma deusa faminta, enquanto seus dois favoritos davam show por sua atenção.

O jogo seguiu, a tensão aumentando a cada jogada, a cada toque, a cada respiração ofegante.
O público aplaudia.
O plano estava funcionando.

Mas entre Theo e Dark não era apenas um jogo.
Era guerra.


Vestiário — Intervalo

O apito do juiz marcou o intervalo com o placar empatado.
O time de Ceres se arrastou para o vestiário, suado, ofegante e tenso.
O rádio de Oplan transmitia apenas os lances, repetindo o tom marcial das arquibancadas lá fora.

Theo jogou as luvas num banco, chutou uma garrafa.
Dark largou o protetor bucal no chão, encostou-se na parede e cruzou os braços.

— Passa a porra da bola, Theo. Vai ganhar sozinho? — rosnou Dark.
— Eu passo pra quem tá jogando pelo time, não pra quem só quer me derrubar — respondeu Theo, sem olhar para ele.

O técnico só observava, como quem sabe que lavar roupa suja também faz parte do jogo.
Os outros jogadores ficaram em silêncio, fingindo arrumar meias e protetores, mas ninguém perdia uma palavra.

Dark deu dois passos à frente, invadindo o espaço de Theo.

— Não brinca, príncipe. Time que não brinca, não tem confiança. Ou confia em mim… ou perde.
— Confiança não se compra com ameaça, Dark.
— Nem com medalhinha, né?

O comentário fez Theo ferver, mas antes que a briga estourasse, o técnico interveio, jogando uma toalha sobre os dois:

— Lavem isso no campo, não aqui. Vão lá e mostrem por que vestem esse uniforme. Ou os dois vão sair perdendo.


A vitória

No segundo tempo, voltaram mais focados — talvez movidos mais pelo desejo de superar um ao outro do que pelo time, mas isso bastou.

Dark passou, Theo marcou.
Theo chamou, Dark interceptou.

A plateia enlouqueceu quando Ceres virou o placar nos últimos minutos.
O time de Ceres venceu Oplan.

No rádio, a narração quase tremia ao repetir:
"Ceres mostra mais uma vez que sabe como esmagar seus rivais… mesmo entre si."


A reação do público oplanês à vitória de Ceres

No apito final do jogo de flagball, o placar mostrava um resultado impensável para os anfitriões:
Ceres 23 — Oplan 19.
Os jogadores de Oplan baixaram a cabeça, atônitos.
Os de Ceres se reuniram no centro do campo, alguns ajoelhando, outros erguendo os punhos, enquanto a torcida adversária vaiava furiosamente.
As rádios do estádio transmitiam a notícia com uma voz amarga, tentando minimizar a vitória:
“…um resultado surpreendente, mas nada além de um amistoso sem valor para o ranking oficial…”
Mas todos sabiam o que aquilo significava: um time de Ceres derrubara o orgulho do Escudo Branco. Era um escândalo.
O público oplanês começou a atirar papel amassado, garrafas plásticas e a gritar insultos.
Silenciadores surgiram para proteger os meninos e meninas de Ceres enquanto saíam do gramado, vitoriosos, suados, ainda com o gosto metálico da hostilidade na boca.
No fundo do campo, Theo olhou para Dark.
Sujo de poeira e suor, Dark girava a medalha amassada entre os dedos, já planejando o próximo jogo, a próxima briga.
Por um instante — só um instante — Theo jurou ter visto um sorrisinho satisfeito no canto da boca de Dark.


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