Será que eles vão ver o céu outra vez?
— Jimmy Eat World, “Gotta Be Somebody's Blues”
Os trens blindados chegaram em silêncio, trazendo multidões convocadas para assistir à execução. A condenação de Gene, por blasfêmia contra a Mãe Ceres, não poderia passar despercebida. O protocolo determinava: cada delito era julgado e punido no setor mais próximo de onde havia sido cometido. Assim, crianças, adolescentes e famílias inteiras foram obrigadas a se reunir na Praça D, transformada em palco ritual de punição.
O lugar parecia um miniestádio quadrado, erguido em mármore negro, sóbrio e frio. No centro, um retângulo de paralelepípedos manchados por cinzas antigas — cicatrizes de outras fogueiras. Monólitos de pedra escura, sem inscrições, erguiam-se nas bordas: símbolos brutos da força de Ceres, impassíveis como sentinelas.
Às margens, surgiram os Silenciadores: homens de terno militar impecável, cinza-escuro, os rostos ocultos por máscaras ovais de lentes negras. Não havia olhos, não havia humanidade. Apenas a presença sufocante da ordem.
Quando trouxeram Gene, o murmúrio virou rugido. Magro, com roupas rasgadas e manchadas, sem seus óculos, parecia quebrado — mas seu semblante permanecia firme, como quem já havia aceitado a sentença. Seus pés arrastavam pó e carvão. A humilhação era completa, e ainda assim havia algo de desafiador em sua postura silenciosa.
Era uma noite de lua minguante, numa sexta-feira comum. Nada de especial, nada de sagrado além da execução.
A multidão fervia de ódio. Atirava papéis amassados, impregnados de insultos, gritando palavras tão ásperas quanto as chamas que estavam prestes a consumi-lo. O mantra ressoava em uníssono, das vozes infantis às mais roucas:
“Mãe Ceres que nos alimenta, que nos educa e que nos devora.”
Com os Silenciadores fechando o círculo, Gene aguardava o momento em que o próprio chão negro cuspiria fogo para levá-lo. Já parecia morto antes da execução.
O ar estava denso, pesado, como se até o vento se recusasse a atravessar a Praça D. A lua espiava fraca entre nuvens escuras, sua luz apagada pelos refletores nos edifícios de observação. Não havia música nem anúncio solene: a própria arquitetura falava.
O mármore negro, polido até refletir silhuetas, dava a sensação de se caminhar sobre um espelho sombrio. No centro, os paralelepípedos guardavam as manchas de execuções passadas. O cheiro de fuligem e ferro queimado impregnava os pulmões.
A multidão se organizava em setores rigorosos:
crianças, à frente, acompanhadas de instrutores que registravam suas reações;
adolescentes, logo atrás, muitos com cadernos para anotar “lições” da execução;
adultos, nas arquibancadas, vestidos de cinza-escuro, como se fossem extensão da pedra.
Quando Gene foi levado ao centro, correntes presas ao chão o obrigaram a se ajoelhar. O som metálico ecoou como um trovão curto, reverberando por toda a praça.
Os Silenciadores, imóveis, formavam um quadrado perfeito em torno dele. As lentes refletiam as chamas ainda adormecidas sob o chão, como se antecipassem o espetáculo.
Então veio o ritual obrigatório.
Um alto-falante oculto recitou a acusação. A voz era metálica, sem gênero, sobre-humana:
“Gene, filho de Ceres, foi condenado por blasfêmia contra a Mãe, por subversão e por desprezo ao sagrado contrato da vida. Sua sentença é o fogo. Que seu corpo seja consumido, e sua memória apagada. Que Ceres permaneça indivisível.”
Em seguida, todos ergueram a mão direita sobre o peito e repetiram em coro:
“Mãe Ceres que nos alimenta, que nos educa e que nos devora.”
O som ecoou como um terremoto, um cântico hipnótico que parecia pulsar nas pedras.
Foi nesse instante que o chão começou a tremer. Fendas se abriram entre os paralelepípedos, expelindo fios de fumaça branca. O cheiro de enxofre e ferro derretido tomou o ar.
Gene, mesmo sem óculos, ergueu os olhos em direção ao público. Não suplicou. Não gritou. Apenas deixou escapar um meio sorriso, quase imperceptível, que congelou por um segundo o barulho da massa. Alguns recuaram instintivamente — não pelo fogo, mas pela ousadia daquele gesto.
Com um estrondo seco, as chamas brotaram. Subiram em colunas abruptas, engolindo o condenado. A praça iluminou-se em vermelho, e as sombras dançaram violentas nas paredes de mármore.
O público vibrou como num espetáculo esportivo. Crianças batiam palmas, adolescentes gritavam insultos, adultos choravam em devoção. Mas os Silenciadores, imóveis, não se moveram um centímetro.
No centro de tudo, Gene permaneceu em silêncio absoluto, mesmo quando a pele se desfazia, mesmo quando as chamas se fecharam como uma jaula em torno dele. Sua única resposta foi encarar o vazio acima, como se buscasse algo além da lua minguante.
E quando seu corpo tombou sem forças, o fogo já havia cumprido sua função: transformar um homem em cinza, e uma execução em lição.
As chamas se extinguiram. A praça mergulhou em silêncio. O fogo havia consumido tudo: carne, cabelo, pele. Restava apenas uma mancha escura de cinzas espalhadas pelos paralelepípedos.
Os Silenciadores foram os primeiros a se mover. Sem pressa, em sincronia perfeita, quatro avançaram até os restos. Um estendeu um recipiente cilíndrico de ferro; outro recolheu as cinzas com uma pá curta, metálica. Não havia emoção. Apenas protocolo.
Do alto-falante, a voz metálica retornou:
“O condenado foi consumido. Sua memória será apagada. Seu corpo não pertence a si mesmo, mas à Mãe Ceres. Que a justiça permaneça.”
Instrutores percorriam as fileiras de crianças e adolescentes, anotando reações, corrigindo posturas, repreendendo os que desviavam o olhar ou choravam. Alguns foram obrigados a repetir em voz alta:
“Mãe Ceres que nos alimenta, que nos educa e que nos devora.”
O público adulto apenas baixou as cabeças em reverência. Não havia aplausos nem vaias — apenas aceitação ritualizada.
Assim que os Silenciadores selaram o cilindro com as cinzas de Gene, formaram novamente um quadrado perfeito. Dois carregaram o recipiente até uma saída oculta na parede de mármore. Ninguém jamais soube o destino final dos restos. Alguns diziam que eram lançados ao Rio Preto; outros, que viravam fertilizante para as plantações oficiais. O mistério fazia parte da punição.
Logo depois, um sinal agudo ecoou, marcando o fim do evento. Os refletores se apagaram, e a praça mergulhou na penumbra. Portas de ferro se abriram nos quatro cantos, e agentes guiaram a dispersão em fileiras. Não havia tumulto: todos sabiam para onde ir.
Do alto da arquibancada, uma faixa eletrônica piscava em letras vermelhas:
“O subversivo foi purgado. Ceres permanece indivisível.”
No chão, o único vestígio da execução era um círculo escuro de cinzas espalhadas que, ao primeiro vento da noite, se dispersaram como poeira insignificante.
Para quem esteve presente, a cena foi uma lição. Para os arquivos oficiais, apenas mais um registro, reduzido a um código de data e setor:
“Execução 14-D. Condenado por blasfêmia. Método: combustão. Cumprida às 18h43.”
E assim, Gene deixou de existir para sempre.
Theo não estava lá.
Nem Ceres.
Ele estava sozinho no ginásio vazio da piscina, sentado à beira, olhando para o próprio reflexo na água parada.
Odiava o que via ali.
Odiava o menino que entregara Gene.
Odiava ainda amar aquela cidade maldita.
Odiava a si mesmo.
Foi então que sentiu uma mão leve pousar em seu ombro.
Ele se virou tão rápido que o mundo ficou borrado — e suas mãos voaram instintivamente para o pescoço dela, com brutalidade.
Os dedos fortes se cravaram na garganta de Ceres.
Os olhos dela se arregalaram de medo.
Um medo que ela nunca pensou que sentiria dele.
Por um instante, Ceres achou que ele a mataria ali mesmo, à sombra daquela piscina.
Por um instante, quis gritar — mas só conseguiu encará-lo, impotente.
A respiração dele estava ofegante.
As narinas dilatadas.
Os olhos vermelhos.
— Theo…
A voz dela era só um sussurro, quase suplicante.
— Calma. Sou eu. Ceres… sou eu…
Devagar, ele foi afrouxando.
As mãos escorregaram do pescoço dela, pesadas, sem força.
Theo caiu de joelhos diante dela e chorou.
Chorou como um animal ferido, soluçando, esmagado por tudo o que havia feito — e por tudo o que não podia desfazer.
Ceres se ajoelhou com ele, sem dizer nada por um instante.
Depois, encostou a testa na dele, sentindo as lágrimas dele molharem seu rosto.
— Não é sua culpa — murmurou, com uma ternura quase cruel.
— Você ama Mãe Ceres. Você é leal a ela. Você ama Mãe Ceres… como eu te amo.
Ele levantou os olhos para ela, e por um momento viu algo além da dor — um desejo selvagem, quase febril.
A mesma besta que ela havia sentido no campo, agora pedindo outra forma de violência.
Ceres entendeu o que ele queria.
E também queria.
— Não era pra lutar hoje — disse ele, com a voz rouca.
— Era pra… pra sermos selvagens, Ceres. Selvagens só nós dois.
Ela não disse nada.
Só o beijou com a mesma fúria com que ele a apertara antes.
E ali mesmo, escondidos, num canto escuro do ginásio, entre respirações entrecortadas e lágrimas, entregaram-se um ao outro.
Com desejo e culpa misturados.
Com amor e ódio entrelaçados.
Com o som distante dos sinos da praça D ecoando pelo campus, anunciando que Gene já ardia em chamas.
Que Mãe Ceres continuava devorando seus filhos.
E que eles… continuavam a amá-la.
[Monólogo interno de Theo]
O milagre de Mãe Ceres…
Ela executou o próprio neto.
Sem hesitar.
Sem chorar.
Sem desviar o olhar.
Isso não é crueldade.
Isso é perfeição.
É a prova absoluta de que o sistema funciona.
Infalível.
Implacável.
Puro.
Enquanto os outros tremem, questionam, duvidam…
Eu compreendo.
Eu vejo o milagre por trás da punição.
A Mãe não falha.
Nem mesmo com o sangue que carrega seu nome.
Ela nos alimenta.
Ela nos educa.
Ela nos devora.
E, quando devora, o faz com justiça.
Não há exceções. Nem para os seus.
Principalmente para os seus.
Carregarei esse segredo como uma oferenda.
Não com dor — mas com devoção.
E, quando o tempo passar, e a memória virar piada entre os que fingem que não sentem —
eu ainda saberei.
Ainda honrarei.
Porque o ventre que nos deu abrigo é o mesmo que nos engole.
E isso, sim… é amor.
Mãe Ceres. Sempre.
Depois do fogo, o azul.
O cheiro de cloro ainda no ar.
O som distante da multidão na praça D voltava em ondas abafadas pelo concreto.
Os sinos já haviam silenciado — Gene agora era só cinzas espalhadas pelo vento.
Theo e Ceres estavam deitados no chão frio do ginásio, um ao lado do outro, ainda com as respirações pesadas.
As roupas parcialmente desarrumadas.
A pele quente, marcada por beijos, arranhões, e tudo que acabaram de fazer.
O cabelo dela grudava na bochecha úmida dele.
Os olhos dela fitavam o teto, sem enxergar nada.
E os dele, perdidos em algum ponto entre as sombras.
Na cabeça de Theo, a música proibida ecoava como um sussurro impossível de calar.
Aquela música que, uma vez, Gene passara para ele numa fita mal-gravada.
Agora Gene não estava mais.
Agora ele era só pó.
E ainda assim…
Theo sentia a mão estremecer de novo só de lembrar do sorriso discreto de Gene quando ouviram a música juntos, meses atrás, rindo baixinho, jurando que nada poderia separá-los.
Até hoje.
Ceres virou o rosto para ele, devagar.
O pescoço ainda sentia a marca dos dedos dele — um roxo que provavelmente ficaria por dias.
Mesmo assim, não havia medo nos olhos dela agora.
Só um cansaço suave.
E algo mais.
Algo que doía.
— Eles voltaram — sussurrou. — Acabou.
Theo piscou devagar, como se a voz dela viesse de longe.
Depois soltou um riso fraco. Um riso sem alegria.
— Não acabou, Ceres — respondeu, sem olhar para ela. — Nunca acaba.
Ceres respirou fundo.
Seu braço deslizou por cima do peito dele, e ela se aninhou em seu ombro, sentindo o peito subir e descer sob a palma da mão.
Um calor incômodo.
Uma chama ainda viva ali.
E uma promessa não dita: a de que, quando a hora chegasse, ele também queimaria.
As últimas notas da música ecoaram na mente dos dois, num silêncio mais pesado que gritos.
E, na piscina vazia, sob a luz pálida dos refletores, Theo fechou os olhos —
sentindo o cheiro do cabelo dela misturado ao gosto amargo do arrependimento na boca.
E prometeu a si mesmo que, um dia, ela também veria o que significava amar Mãe Ceres…
até ser devorada por ela.
Ela ainda venceu — mas ele carrega algo que ela não pode curar.
Ela se aproxima.
Olha dentro dos olhos dele e sussurra:
— Você acha que me quer, Theo? Não minta pra mim. Você não quer a mim.
Quer a Mãe em mim.
Quer que eu te bata, que eu te humilhe, que eu te corrija…
Quer sentir o cheiro dela na minha pele. Admita.
Você só sabe amar a dor que ela te ensinou a amar.
Ele permanece imóvel, sem resposta —
mas um ódio ainda mais selvagem e um desejo ainda mais confuso crescem dentro dele.
Ginásio vazio — dias depois.
O ginásio da piscina estava silencioso.
Apenas o som metálico da água pingando em algum lugar ecoava sob o teto alto.
Theo estava lá de novo, no mesmo lugar onde tudo tinha acontecido, encarando o reflexo distorcido na superfície turva da piscina.
Ceres entrou sem fazer barulho.
Ela sempre soube onde encontrá-lo.
Ele a ouviu antes de vê-la — o som dos saltos batendo levemente no azulejo, o cheiro dela.
Os olhos dele se ergueram.
Por um instante, a máscara caiu.
E tudo o que ela viu foi aquela mesma fúria silenciosa, ainda queimando por dentro.
A mesma que a agarrara pelo pescoço.
A mesma que a tomara como se fosse a própria Mãe Ceres.
Ele não disse nada.
Só a olhou.
E naquele olhar havia um pedido de desculpa — e uma acusação.
Ceres, firme por fora, mas com o coração tropeçando, sustentou o olhar.
Ela não era humilde, não era fraca.
Mas ele a fazia se sentir… nua, vista de um jeito que ninguém mais conseguia.
Por um segundo, pensou em ir até ele, tocar seu ombro como antes.
Mas algo nos olhos dele dizia: não ainda.
Era como se um fio elétrico os ligasse à distância — cada um respirando para não explodir de novo.
Ceres então quebrou o contato, mas só por um instante.
Antes de sair, parou na porta, virou-se devagar e o olhou mais uma vez.
Theo não desviou. Só cerrou a mandíbula, como se prometesse que aquilo não tinha terminado.
Ela entendeu.
E partiu, com as mãos fechadas, o coração pesado… e o corpo ainda desejando a besta que ele tinha sido com ela.
No refeitório, no dia seguinte…
O refeitório inteiro parecia um tribunal silencioso.
Olhares cortavam Theo de todos os lados.
Não era raiva — não exatamente.
Era aquela mistura venenosa de inveja, medo e um respeito silencioso que só um traidor eficiente consegue arrancar dos outros.
Daime o esperava num canto.
Seu corpo magro e rígido na cadeira de rodas, os dedos tamborilando no metal com impaciência.
Quando Theo finalmente passou, Daime abriu aquele sorriso torto, sem qualquer humor, e falou bem alto, para todos ouvirem:
— Você fez certo, Theo.
Tinha mesmo que acabar com aquele desgraçado que queria foder com o sistema dela.
Fez uma pausa, os olhos faiscando, e acrescentou:
— Mas ó… entra no meu caminho um dia, Theo… só um… e eu saio dessa cadeira correndo só pra te espancar com ela, entendeu?
Risos nervosos ecoaram nas mesas. Alguns engoliram seco.
Theo parou, virou a cabeça devagar e encarou Daime com um meio sorriso gelado, como quem diz: que tente.
E seguiu andando.
Daime riu sozinho — uma risada seca de quem respeita um inimigo em potencial:
— Esse moleque é um selvagem… a cara dela mesmo. A cara da Mãe Ceres.
[Cena entre Daime e Theo, no muro]
Daime girava lentamente as rodas da própria cadeira, em círculos.
Theo estava encostado no muro, com o olhar perdido e pesado.
Depois de alguns minutos, Daime quebrou o silêncio:
— Sabia que todo mundo falava? Que eu e a Ana seríamos o casal perfeito.
O futuro do colégio. Aqueles que fariam a Mãe Ceres se orgulhar.
Ele soltou uma risada curta.
— E talvez… talvez eu até tenha acreditado nisso, por um tempo.
Antes do acidente.
Antes dessa merda aqui — bateu nas rodas — virar minha identidade.
Theo não respondeu.
— Mas eu não sou como você, Theo. Eu não sei mentir pra mim mesmo.
Eu sei onde minha vida vai dar.
Talvez eu sirva em alguma repartição da cidade, talvez eu apague fogueiras na Praça D.
Não importa. Aonde quer que eu vá, vou estar sempre sentado nessa porra de cadeira.
Então eu não alimento expectativa nenhuma com a Ana.
Não é conformismo. É só que… eu entendi o jogo.
E ela nunca vai entender.
Daime virou um pouco a cadeira, como se já fosse embora, mas parou e lançou um olhar maroto para Theo:
— Mas e aí, hein? — disse, abaixando a voz com um meio sorriso. — Você comeu a Ceres?
Theo demorou para erguer o olhar.
Quando ergueu, não havia nem raiva, nem vergonha — apenas um cansaço devastador nos olhos, como se toda a cidade pesasse em suas costas.
Ele não respondeu.
Mas isso já era resposta suficiente para Daime, que sorriu mais abertamente, com certo escárnio:
— Hah… eu sabia.
Você é mesmo um doente.
E ela também. Vocês merecem um ao outro.
Daime girou a cadeira e começou a se afastar, mas ainda lançou por cima do ombro:
— Dois anos.
Dois anos e a Mãe Ceres vai engolir todos nós, um por um.
Até lá, vai se acostumando com essa dor aí dentro.
Ela só piora.
E sumiu pelo corredor, deixando Theo sozinho no pátio com o silêncio sufocante do colégio.
[Cena final – Theo e Dru]
Theo está parado.
Ainda com a expressão rígida, as mãos trêmulas e sujas de terra seca — mas o olhar cravado na parede branca da ala sul, onde o som da execução ainda parece ecoar.
Nenhuma lágrima.
Só a memória.
Gene era seu amigo. Seu irmão. O neto da própria Mãe Ceres.
Dru se aproxima devagar, sem alarde, sem hesitar.
Para ao lado de Theo, sem encará-lo diretamente.
Ela não precisa. Ele sente sua presença.
Theo vira o rosto — e Dru sorri.
Um sorriso sutil, sem dentes. Curvado apenas o bastante para dizer o que palavras não ousariam:
"Ele mereceu."
Não por rancor.
Não por vingança.
Mas por ordem.
Por doutrina.
Por Mãe Ceres.
Dru não diz nada. Apenas encosta levemente a mão no ombro de Theo — um selo silencioso de aprovação. E segue.
Theo respira fundo, fechando os olhos.
O gesto de Dru queima mais que o som da execução.
Mas no íntimo... ele entende.
Gene blasfemou.
E em Ceres, até mesmo o sangue da Mãe pode ser derramado — se for impuro.
Ana, no corredor — sombras de olhos que tudo veem
Ana não sabia ao certo por que parou ali, atrás da divisória, ao ouvir vozes baixas no pátio. Talvez fosse só curiosidade. Talvez só inveja.
Ela só sabia que não conseguia deixar de ouvir.
E lá estavam eles — Daime e Theo.
Ela não captava cada palavra, mas sentia os tons:
o amargo de Daime,
o silêncio espesso de Theo,
e depois a pergunta cortante que fez Theo levantar os olhos como uma besta ferida.
Ana se enjoou ao perceber o que Daime insinuava.
E se sentiu ainda pior ao ver que Theo… não negava.
De repente tudo fazia sentido — os olhares, os treinos, os silêncios pesados.
E, no fundo, Ana sentiu um medo que se disfarçava de ódio:
ódio de Ceres por ser sempre a escolhida,
ódio de Theo por ser forte demais para hesitar,
ódio de si mesma por não ter sido ela no lugar de Ceres naquele ginásio.
Ana recuou para as sombras quando Daime saiu do pátio, e ficou lá sozinha, mordendo os lábios, tentando não chorar.
Sentindo-se pequena.
E, ao mesmo tempo, perigosa.
O Delator que todos invejam
Após a execução de Gene na Praça D, um silêncio gelado pairava sobre o colégio.
Ninguém ousava falar muito alto sobre o que Theo fizera — mas todos sabiam.
Para alguns, Theo agora era um delator. Um traidor. Indigno de confiança.
Sussurravam quando ele passava pelos corredores.
Alguns viravam o rosto.
Outros apenas baixavam a cabeça, fingindo que ele não existia.
Mas, por trás do nojo que fingiam sentir, havia algo mais profundo: inveja.
Porque, no fundo, todos queriam ser como Theo.
Todos tinham seus desejos secretos.
Todos já haviam sonhado com a Mãe Ceres de formas indecentes.
Todos temiam não ser dignos dela.
Gene, pensavam, talvez tivesse ido longe demais.
Não era só o que ele fizera...
Era como o fizera: xingando a Mãe.
Cuspindo em seu nome.
Chamando a cidade que os nutria de puta e traidora.
Theo também transgredira — mas ao menos amara a Mãe no processo.
Mesmo que fosse um amor sujo, doente.
Era amor.
E isso, em Ceres, ainda era permitido.
No fim, a lição que ecoava nos corredores era simples:
Se for pecar com a Mãe, que seja para amá-la. Não para insultá-la.
Theo, sozinho no pátio, sentia cada olhar como um prego cravado na carne.
E, ainda assim, permanecia ereto.
Calmo.
Carregando o peso de Gene.
De Ceres.
Da cidade inteira.
E do próprio coração em chamas.
Monólogo de Theo
“Eles me olham como se eu fosse um verme. Como se fossem diferentes de mim.
Como se não sonhassem, de noite, em agarrar a Mãe Ceres pelo pescoço e obrigá-la a gritar seus nomes.
Hipócritas.
Eu fiz o que nenhum deles teve coragem de fazer.
Eu a devorei.
Eu a amei com a raiva que eles escondem por medo de queimar.
Gene…
Você era só mais um fraco que não entendeu a regra: se for pecar com a Mãe, que seja para amá-la.
Não para cuspir no colo dela.
Não para chamá-la de puta e depois pedir mais.
Você mereceu cada chama.
Eu também mereço minha fogueira — eu sei.
Mas a diferença é que eu sorrio enquanto ardo.
Agora eles me chamam de delator.
Acham que me diminuem com isso.
Mas cada um deles queria ser eu.
Cada um deles queria ter sentido o cheiro da Mãe como eu senti naquela noite.
O medo nos olhos dela.
O prazer quando eu a feri.
E Ceres…
Ceres ainda me olha como quem não sabe se me odeia ou me ama.
E tudo bem. Nem eu sei.
Só sei que, naquela noite, eu devorei as duas. A Mãe e a filha.
E desde então, nada me sacia.”
Pensamentos de Ceres
“Ele não é mais o mesmo.
Desde aquela noite no ginásio… Theo não voltou inteiro.
Ele me olha de longe agora. Com aqueles olhos pesados, como se ainda segurasse meu pescoço mesmo sem me tocar. Como se dissesse, em silêncio, que eu sou dele — mesmo quando ninguém é de ninguém aqui.
E eu sinto.
Sinto como ele queimou por dentro ao trair Gene.
Sinto como ele me queimou por dentro quando me tomou… e como eu gostei, mesmo assim.
Eu odeio gostar.
Odeio que, toda vez que nossos olhares se cruzam no refeitório, na quadra, no corredor… minha respiração falha.
Eu vejo nele a mesma besta daquela noite.
Ele me devorou para se vingar da Mãe.
Ele me usou para cuspir na cara da cidade.
E mesmo assim, cada vez que me olha… eu penso:
‘Se você me quiser de novo, Theo… eu vou deixar.’
Porque eu também quero ser forte como você.
E talvez… talvez eu só me sinta viva quando você me aperta.”
O olhar no pátio
O sol frio da tarde caía sobre o pátio de concreto. O colégio inteiro parecia sussurrar, mas ninguém ousava falar alto quando Theo passava.
Chamavam-no agora apenas de “delator”, pelas costas. Mas ainda o respeitavam. Ainda o temiam.
E Ceres sentia o peso desse nome cada vez que o via de longe, apoiado na mureta, quieto demais, com as mãos nos bolsos.
Ela caminhava devagar, sentindo os olhares de todos — e os ignorando.
Quando passou por ele, sentiu.
Sentiu o cheiro dele outra vez.
E o olhar.
Theo ergueu o rosto.
Os olhos dela se encontraram com os dele.
Por um instante, ninguém mais existia ali.
Ela prendeu a respiração.
Ele também.
Não havia raiva naquele olhar.
Havia algo pior: aquela fome antiga, sem nome, que os dois carregavam desde a noite no ginásio.
E também vergonha.
E também desejo.
Ela tentou sorrir, só de leve, só para ver o que aconteceria.
Ele não sorriu de volta. Apenas inclinou a cabeça — como quem diz: "Eu ainda posso quebrar você quando quiser."
Mas ela percebeu — bem lá no fundo — que ele também tinha medo.
Medo dela.
Medo do que ela fazia com ele.
E então ela passou.
Sem uma palavra.
Mas eles já tinham conversado o suficiente naquele silêncio para que todos ao redor entendessem:
aquela história ainda não tinha acabado.