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Pietà, Cidade das Mães de Ceres - parte 1

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Um sono leve me embalava, preguiçoso, envolto pelo cheiro de lar: roupas de cama limpas e arejadas, o toque fresco do orvalho entrando pela janela. A luz suave da manhã beijava os lençóis em tons…

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Um sono leve me embalava, preguiçoso, envolto pelo cheiro de lar: roupas de cama limpas e arejadas, o toque fresco do orvalho entrando pela janela. A luz suave da manhã beijava os lençóis em tons pastéis — amarelo clarinho e branco — enquanto, ao longe, ouvia-se o canto dos pássaros.

O quarto era grande, arejado, e tinha algo de familiar, como se fosse o mesmo onde cresci.

Quando abri os olhos, senti aquela certeza silenciosa: estava em Pietà, a cidade onde nascem e despertam todas as mães de Ceres, o berço de cada cidadão. Tudo ali parecia gentil e acolhedor, um refúgio morno onde o tempo caminhava devagar.

Logo, uma bandeja chegou, carregada de aromas que abraçavam o estômago. A mulher que a trouxe sorriu e disse com doçura:
— Bem-vinda a Pietà, a cidade das Mães de Ceres.

O café da manhã era um pequeno paraíso: bolo macio ainda morno, pão com manteiga derretida, ovos mexidos fofinhos. Um chá delicado para acalmar a digestão e, acima de tudo, o aroma de café com canela — o cheiro de mãe, o mais reconfortante do mundo.

Pietà era o lugar mais sagrado de Ceres. Ali, as mães recebiam tudo o que precisavam para criar seus filhos do nascimento até os dez anos. Cada detalhe respirava cuidado: quartos individuais com janelas grandes, tecidos simples, brinquedos pedagógicos espalhados pelos corredores, e uma equipe sempre sorridente, pronta para atender qualquer necessidade.

Do lado de fora, um parque se abria como um paraíso secreto. Árvores frutíferas ladeavam caminhos de pedra, e um lago artificial refletia o céu da manhã. Havia playgrounds de madeira, balanços que rangiam levemente ao vento e pequenas pontes para as crianças atravessarem de mãos dadas com as mães.

Nada ali parecia tecnológico ou moderno demais. As construções, de linhas retas e sólidas, lembravam o brutalismo vanguardista, suavizado por cores claras e flores nas janelas. Tudo dizia: "Aqui é seguro. Aqui é lar."

As refeições eram fartas e equilibradas, servidas em bandejas de metal limpo e pratos de louça branquinha. Havia sempre médicos e assistentes à disposição, mas sem aparelhos barulhentos ou luzes frias. Tudo em Pietà parecia existir para que mães e filhos vivessem uma infância perfeita, longe do mundo lá fora, protegidos por uma calma quase artificial.

No ar, o cheiro doce de fruta madura e café fresco lembrava: Pietà era mais que um abrigo — era o útero de Ceres, o início de tudo.

O sol filtrava-se entre as folhas das árvores, desenhando manchas douradas no chão de pedra clara. Kat caminhava devagar pelo parque, sentindo a brisa morna carregada de goiaba e laranja. O lago artificial à sua frente refletia um céu sem nuvens, e os balanços rangiam num compasso preguiçoso.

Ao seu lado, o filho corria descalço pela grama, rindo de qualquer coisa: um passarinho que voava baixo, a sombra de uma folha balançando, o próprio vento. Outras mães sorriam ao longe, algumas sentadas nos bancos de concreto liso, outras acompanhando os pequenos até os escorregadores ou o carrossel manual.

Uma enfermeira apareceu à beira do caminho, acenando com gentileza. Sem uniforme chamativo, apenas uma roupa branca simples, com um crachá que refletia o sol. Kat sabia que podia chamá-la para qualquer coisa: uma febre, uma queda, uma dúvida. Mas não era necessário. Aqui, tudo parecia perfeito demais para quebrar.

O cheiro de pão assando vinha do refeitório, misturado ao café fresco. Ela respirou fundo, sentindo aquele aroma entrar no peito como uma lembrança antiga de colo materno. O filho voltou correndo, trazendo uma laranja ainda molhada de orvalho, e Kat o abraçou, sentindo a pele quente contra a dela.

Naquele instante, Pietà parecia o centro do mundo. Não havia pressa, nem medo. Só o som dos pássaros, o vento nas árvores e o riso das crianças, como se nada fora daqueles muros pudesse jamais tocá-los.

À tarde, quando o sol começava a descer, Pietà ganhava uma nova cor. As sombras das árvores se alongavam sobre o gramado, e o lago artificial brilhava como vidro líquido. Mas era outra sombra que mais chamava atenção — uma que engolia o parque inteiro.

No centro desse paraíso, erguia-se a Torre de Vigilância de Mãe Ceres, um colosso de mil e quinhentos metros que atravessava o céu como uma agulha infinita. Seu concreto cinza refletia o laranja do entardecer, e, por instantes, parecia que o mundo inteiro estava debaixo de sua sombra.

Não havia sirenes, nem janelas abertas. A torre era silenciosa, imóvel, mas sua presença bastava para que cada mãe lembrasse: alguém sempre estava olhando.

As crianças corriam rindo pelos brinquedos, ignorando o peso daquela presença. Mas as mães sentiam. A brisa que antes cheirava a goiaba e café agora trazia um frio sutil de reverência.

Mesmo no meio dos risos e do cheiro de pão fresco, Pietà nunca estava sozinha. No centro do paraíso, a Torre vigiava, alta demais para ser ignorada, eterna demais para ser vencida.

Quando a noite caía sobre Pietà, o paraíso mudava de pele. As luzes suaves dos postes iluminavam as alamedas de pedra, refletindo no lago que agora cintilava como um espelho escuro.

A Torre de Vigilância acendia pequenas luzes brancas em seus níveis mais altos, tão distantes que pareciam estrelas presas ao concreto. Sua sombra desaparecia, mas a sensação de estar sendo observada permanecia. Silenciosa. Constante.


Ao fundo, além das árvores do parque, erguiam-se os arranha-céus de mármore negro de Ceres.
Altos, lisos e sem janelas, refletiam a luz da lua como monólitos de um mundo que não respirava. Ali estavam os bancos de crédito e os prédios administrativos, onde toda a riqueza do continente era devorada pela cidade neutra, sem passado e sem memória.

Mais adiante, as montanhas se erguiam como muralhas naturais, guardiãs da cidade-fortaleza. O vento trazia o burburinho da Ceres invisível: o rangido dos trens blindados, o ronco das bombas d’água e, de vez em quando, o eco metálico de algo sendo içado nas profundezas industriais.

E quando a noite estava limpa, bastava erguer os olhos para ver a Estação Espacial Ceres 2 cruzando o céu — uma lâmina prateada entre as estrelas. Era como se a cidade estendesse seus dedos até o espaço, lembrando a todos que não havia para onde fugir.

Em Pietà, as crianças dormiam tranquilas, embaladas pelo canto dos grilos e pelo calor dos lençóis limpos. Mas, no silêncio da noite, cada mãe sabia: até o paraíso tinha grades invisíveis.

A sala de instrução cheirava a chá de ervas e madeira encerada. As paredes claras deixavam a luz da manhã invadir o ambiente através de janelas amplas. As mães se sentavam em círculo, cada uma em uma poltrona baixa e macia, como numa visita entre amigas.

A instrutora entrou sorrindo, prancheta nas mãos, com aquele jeito doce que abraçava cada palavra. Falava como quem conta histórias para crianças.
— Queridas, — disse ela — vocês sabem que o mundo lá fora está sempre… inquieto. Não falamos em guerra, nem em tragédias. Mas… a paz é apenas um engano momentâneo. O mundo se move no ritmo do conflito. Por isso, vocês estão aqui.

Em Pietà, o mundo não alcança vocês. Aqui, só existe cuidado. Aqui, vocês respiram por todas as mulheres que não podem.

Algumas mães assentiram devagar. Outras apenas abraçaram o próprio ventre.

A instrutora caminhou entre nós, olhando cada rosto com ternura. Ao passar por uma mãe de cinco meses de gravidez, agachou-se ao seu lado:
— E você, minha querida? O que acha de Pietà até agora?

A mulher sorriu, com sinceridade quase infantil:
— As camas… são fofas demais. Isso me incomoda! — disse, rindo.

Um riso leve percorreu a roda. Eu mesma não consegui conter uma risada abafada. A instrutora riu também, cobrindo a boca com a mão:
— Ah, querida, isso é bom. Significa que você está viva. Quando o conforto incomoda… é porque a alma ainda se lembra da rua fria lá fora.

Rimos mais uma vez, e a aula seguiu num tom ameno. Não havia ordens, nem ameaças. Apenas certezas, ditas com delicadeza: estávamos protegidas, alimentadas, amadas. E, aos poucos, a ideia de liberdade parecia distante, quase boba.

A instrutora continuou andando pelo círculo, a saia branca roçando o chão encerado. Apontou para o cantinho de brinquedos, ao lado das janelas abertas, onde algumas crianças brincavam em silêncio:
— Observem. Tudo aqui é para que eles cresçam lembrando que o mundo pode ser seguro… e que este lugar é o coração dessa segurança.

Havia bonecos de soldados com uniformes cinza e detalhes em cores suaves, pistolas e espadas de brinquedo sem arestas, desenhadas mais para curiosidade do que para violência. Entre eles, sentava-se uma pelúcia da Mãe Ceres, sorriso bordado, lenço branco na cabeça, assistindo aos jogos imaginários.

— Até os dez anos, tudo é memória, — a instrutora continuou. — Cada cheiro, cada brinquedo, cada riso com vocês se transforma em um fio que liga o coração deles à Mãe Ceres. Mesmo quando partirem, nunca estarão longe daqui.

As crianças riam baixinho, ensaiando uma coreografia invisível para a vida. Brincavam de proteger a cidade, de levar mantimentos, de soar sirenes imaginárias. Entre bonecos de soldados e a pelúcia da Mãe Ceres, aprendiam que amor e obediência andam de mãos dadas.

A instrutora sorriu para nós com a paciência de quem nunca precisou gritar:
— Se um dia forem chamados… eles irão com o coração cheio de amor. E quando se lembrarem de Pietà, será sempre com um sorriso.

Olhei para meu filho, de joelhos, encaixando miniaturas de soldados ao redor de uma torre de brinquedo. Ele parecia feliz. Tão feliz. E dentro de mim, uma parte sabia que era assim que o mundo funcionava aqui: doce por fora, eterno por dentro.

O sol da manhã entrava pelas janelas como ouro líquido, iluminando o refeitório. O cheiro de pão fresco e café com canela flutuava no ar, mas havia algo diferente naquele dia: era dia de despedida.

As mães estavam reunidas no pátio central, seus filhos alinhados à frente, todos de uniforme bege e sapatos limpos. No centro, a bandeira cinza-escura com o selo de Ceres ondulava suavemente. Não havia sirenes. Não havia ordens gritadas. Apenas o canto dos pássaros e o vento leve nos corredores.

Kat estava ao lado de uma mãe mais velha, observando o filho dela — um menino de olhos curiosos — abraçando a pelúcia da Mãe Ceres. Aos dez anos, ele parecia pequeno demais para o mundo, mas perfeitamente moldado para aceitá-lo.

A instrutora, sempre sorridente, caminhava entre as fileiras. Sua voz era doce e firme, como sempre:
— Queridos, hoje vocês deixam Pietà. Vocês vão para o Colégio S, onde aprenderão tudo o que o mundo espera de vocês. Lembrem-se… o que aprenderam aqui viverá para sempre dentro de vocês.

Os meninos e meninas repetiram em coro, sorrindo:
— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

As mães riram baixinho, emocionadas, algumas chorando com delicadeza. Era impossível não sentir o peso invisível da tradição. Kat passou a mão pela barriga ainda plana, sentindo-se estranhamente conectada àquele momento. Ela mesma havia feito essa travessia anos antes, saindo de Pietà para o Colégio S — e agora carregava dentro de si o próximo elo dessa corrente infinita.

Um a um, os filhos se despediam com abraços demorados, respirando o cheiro de roupa limpa, de pão e de pele quente de mãe. Depois, subiam nos ônibus brancos que esperavam ao portão, cada veículo com o símbolo de Ceres pintado na lateral.

Kat observou o menino com a pelúcia da Mãe Ceres acenar pela janela. Ele não chorava. Nenhuma criança chorava. O sorriso deles era sereno, como se partir fosse apenas uma continuação do abraço.

Quando os ônibus partiram, o pátio ficou em silêncio. Apenas o vento e os pássaros. Kat fechou os olhos por um instante e repetiu, em pensamento, quase como um suspiro:
Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora.

E sentiu que, de alguma forma, ela já estava devorada também.

O pátio estava quase vazio. Os ônibus haviam partido, deixando no ar o cheiro de combustível leve e pão frio. A bandeira cinza-escura com o selo de Ceres balançava suavemente. Os pássaros voltavam a cantar, indiferentes à despedida.

Kat se sentou no banco de pedra, abraçando a própria barriga ainda invisível, quando ouviu um soluço contido.

No canto do pátio, uma mãe estava de joelhos, o rosto escondido entre as mãos. Os olhos vermelhos denunciavam o esforço para não chorar alto. Ela balançava o corpo para frente e para trás, repetindo baixinho:
— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora… Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…

Kat sentiu um arrepio na espinha. Sabia que aquela mãe nunca mais veria o filho. Não era um castigo, nem um abandono. Era apenas o ciclo. O menino agora pertencia à Mãe Ceres, e a mãe voltaria ao trabalho no Centro Financeiro, nos arranha-céus negros onde toda a riqueza do continente se dobrava diante da cidade neutra.

Ela sabia. Todas sabiam. Mãe Ceres precisava de filhos, precisava de trabalhadores, precisava de mães que amassem o suficiente para entregar.

A mulher ergueu o rosto para o céu cinza-azulado, respirando fundo. As lágrimas escorriam, mas o sorriso tremia nos lábios:
— Tudo pela Mãe Ceres… — murmurou, quase em transe. — Tudo por ela…

Kat se aproximou devagar, mas não disse nada. Ali, não havia consolo melhor do que o próprio mantra. Ele era prece e sentença ao mesmo tempo.

A mulher repetiu mais uma vez, com a voz firme, quase orgulhosa:
— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

E então se ergueu, limpando o rosto. O desespero ainda estava nos olhos, mas agora havia uma luz de devoção. Ela caminhou em direção ao portão de Pietà sem olhar para trás. Amanhã, estaria nos corredores silenciosos do Centro Financeiro, assinando papéis e movendo créditos que mantinham a divindade viva.

Kat ficou parada, sentindo o peso da cena atravessar sua pele. Dentro dela, um novo coração batia devagar. E, pela primeira vez, ela sentiu medo e amor na mesma medida — medo da Mãe Ceres, e amor por ela, como toda mãe deveria sentir.

O pátio estava quase vazio. Os ônibus brancos já haviam partido, deixando para trás apenas o cheiro de combustível leve e pão frio. O vento balançava a bandeira cinza-escura com o selo de Ceres, enquanto os pássaros voltavam a cantar, indiferentes à despedida.

Kat se sentou no banco de pedra, abraçando a própria barriga ainda invisível, quando ouviu um soluço contido.

No canto do pátio, uma mãe estava de joelhos, o rosto escondido entre as mãos. Os olhos vermelhos denunciavam o esforço de não chorar alto. Ela balançava o corpo para frente e para trás, repetindo baixinho:
— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora… Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…

Kat sentiu um arrepio na espinha. Sabia que aquela mãe nunca mais veria o filho. Não era um abandono. Não era um castigo. Era apenas o ciclo inevitável. O menino agora estava sob os cuidados absolutos da Mãe Ceres, e a mãe voltaria ao trabalho no Centro Financeiro, nos arranha-céus negros onde toda a riqueza do continente se dobrava diante da cidade neutra.

Ela sabia. Todas sabiam. Mãe Ceres precisava de filhos, precisava de trabalhadores, precisava de mães que amassem o suficiente para entregar.

A mulher levantou o rosto para o céu cinza-azulado, respirando fundo. As lágrimas escorriam, mas o sorriso tremia nos lábios:
— Tudo pela Mãe Ceres… — murmurou, quase em transe. — Tudo por ela…

Kat se aproximou devagar, mas não disse nada. Não havia consolo melhor do que o próprio mantra, que soava como prece e sentença ao mesmo tempo. A mulher repetiu mais uma vez, com voz firme, quase orgulhosa:
— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

Então se ergueu, limpando o rosto. O desespero ainda estava nos olhos, mas agora havia uma luz de devoção. Ela caminhou em direção ao portão de Pietà sem olhar para trás. Amanhã, estaria nos corredores silenciosos do Centro Financeiro, assinando papéis e movendo créditos que mantinham a divindade viva.

Kat ficou parada, sentindo o peso da cena atravessar sua pele. Dentro dela, um novo coração batia devagar. E, pela primeira vez, ela sentiu medo e amor na mesma medida — medo da Mãe Ceres, e amor por ela, como toda mãe deveria sentir.

Ela piscou devagar, e por um instante não soube dizer como tinha ido parar ali. O pátio vazio, a bandeira branca ondulando, o eco distante dos ônibus que levavam as crianças para o Colégio S — tudo parecia um sonho.

Foi então que lembrou: os Silenciadores.

Eles apareceram do nada, como sempre. Não eram violentos. Não precisavam ser. Dois homens de uniforme cinza apenas se aproximaram, silenciosos como estátuas que ganham vida, e uma enfermeira surgiu ao lado deles, segurando uma prancheta.

— Querida Kat, — disse a enfermeira, com aquela voz doce que quase cantava, — seu teste deu positivo.

O coração de Kat acelerou, e não houve tempo para perguntas. A urgência era absoluta.

— Venha comigo.

Ela foi. Sem despedida de Gene. Sem um último toque, sem adeus, sem lágrimas. Tudo aconteceu como se o mundo tivesse deslizado suavemente para a próxima etapa de um plano perfeito.

O corredor branco, o som das portas se fechando, o cheiro de desinfetante suave misturado com chá de camomila… tudo era familiar demais para assustar. Kat sentiu orgulho e consolo.

Ela amava Mãe Ceres. Amava de um jeito que nem sabia explicar. Sabia que tinha uma função, e cumpri-la era a maior forma de amor que uma cidadã poderia oferecer.

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora… — sussurrou, acariciando a barriga ainda invisível.

Foi um sussurro de fé. E de aceitação.


Por mais que tivesse nascido em Pietà, Kat ainda era inocente. O mundo lá fora existia para as outras mulheres. Para ela, havia apenas camas limpas, chá quente, bonecos de pelúcia e a sombra da Torre.

Quando o elevador desceu suavemente para os andares internos de Pietà, ela fechou os olhos. Não havia medo.
Havia orgulho. Havia paz — o mesmo orgulho que cada mãe carregava antes de ser devorada.

Kat sentiu-se suspensa, como se estivesse no pilar máximo da criação, onde o tempo se dissolvia e o espaço deixava de existir. O ar ao seu redor parecia feito de luz líquida, quente e calma, envolvendo cada fibra do seu ser com uma ternura infinita.

Estar ali, na presença de Mãe Ceres, era mais que um encontro: era a paz da alma, a paz profunda que só a criação pode conceder. Não havia mais dúvidas. Nem medos. Apenas a certeza da missão que lhe fora dada — uma dádiva suprema, um selo invisível que a tornava parte do próprio tecido do universo.

Mãe Ceres, a mulher e a divindade, era a força que mantinha o mundo em equilíbrio. Ela permitia que não houvesse escassez, que não existisse discordância. O preço? A liberdade. Um preço alto, talvez. Mas que valia cada instante da paz espiritual que agora inundava Kat.

Era como estar no colo dos deuses, mas com uma diferença essencial: Mãe Ceres era real.
Não uma lenda, nem um mito distante.
Ela era a essência viva da ordem e do cuidado.
A fonte inesgotável de amor e poder que abraçava cada vida nascida sob seu olhar.

Kat sorriu de olhos fechados, entregando-se àquela serenidade. Ali, naquele instante eterno, ela sabia: pertencia a algo maior. Sua existência era um elo sagrado na corrente que sustentava Ceres.

E, enquanto a luz iridescente da coroa de cristais cintilava silenciosamente acima de sua cabeça, Kat sentiu-se — pela primeira vez — verdadeiramente em casa.

Ela permaneceu naquele estado sublime, onde o tempo parecia suspenso, envolta na aura silenciosa e poderosa da presença que a cercava.
Mãe Ceres não era apenas uma figura.
Ela era o cheiro de mãe encarnado — um perfume suave e inconfundível que preenchia o ar e infiltrava-se em cada canto da alma.

Era um aroma delicado, que misturava o frescor doce de flores recém-colhidas com a ternura das noites embaladas por canções sussurradas.
Havia também o toque de terra molhada após a chuva, um cheiro de cuidado puro e instintivo.
Um amor que não se explica. Que se sente. Que se entrega.

Kat inalava aquele perfume e sentia cada fibra do corpo se aquecer. Cada medo dissolvia-se na certeza da devoção.
A presença de Mãe Ceres era como um abraço invisível.
Um conforto que ultrapassava o físico e alcançava o mais íntimo do espírito.

Ali, amor e poder se tornavam indistinguíveis. A devoção era um ritual sem palavras, gravado no próprio ar.
Kat sabia: jamais estaria sozinha.
Pois a essência daquela mulher divina, com seu cheiro de mãe, a alimentava, educava e devorava — mantendo-a segura dentro do ciclo eterno de Pietà e Ceres.

Ela era filha. Ela era parte.
E, naquele perfume, sentia a promessa silenciosa de que sua missão jamais terminaria.

As lágrimas começaram a deslizar pelo rosto de Kat, quentes e abundantes, como se todo o peso das dúvidas, medos e esperanças se dissolvesse naquele momento sagrado.
Cada soluço era uma prece muda.
Um cântico de fé explodindo em seu peito.

Era como se toda a devoção, todo o amor que carregava por Mãe Ceres, fosse enfim recompensado.
Um êxtase profundo a invadia, e ela não conseguia parar de repetir, em transe:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…
Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…

No silêncio absoluto da sala, onde o mundo parecia ter se esquecido de existir, a presença de Mãe Ceres a envolvia como um manto invisível.
Era o sono dos justos tornando-se alcançável.
Uma paz tão profunda que transcendia qualquer dor.

Kat sentiu o abraço sutil da divindade — um cuidado sem toque, uma palavra sem voz, uma presença que sustentava sem exigir.

Com o coração pulsando forte, Kat fez um juramento.
Uma promessa que ecoaria por toda a sua vida:

“Eu cuidarei, com amor, carinho e dedicação, dos ensinamentos para o meu filho.
Por mim.
Por minha mãe.
Por ele.
Como eu também nasci e cresci neste paraíso sagrado.”

Ali, entre lágrimas e sorrisos silenciosos, Kat compreendeu sua missão.
Seu filho nasceria sob o mesmo olhar protetor, dentro do ciclo eterno que transformava cada mulher, cada mãe, em guardiã da ordem e do amor incondicional de Mãe Ceres.

Ela se entregou àquela paz, sabendo que nunca estaria sozinha — e que seu cuidado seria a mais pura forma de devoção.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Kat, quentes e abundantes, como se todo o peso de suas dúvidas, medos e esperanças se dissolvesse naquele instante sagrado.
Cada soluço era uma prece muda, um cântico de fé explodindo em seu peito.

Era como se toda sua devoção, toda a fé em Mãe Ceres, fosse finalmente recompensada.
Um êxtase profundo a invadia, e ela não conseguia parar de repetir, quase em transe:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…
Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…

No silêncio absoluto da sala, onde o mundo parecia esquecido, a presença de Mãe Ceres a envolvia como um manto invisível, um conforto imenso e tranquilo.
Era como se, naquele instante, o sono dos justos se tornasse alcançável — uma paz tão profunda que transcendia qualquer dor.

Kat sentiu o abraço sutil da divindade — um cuidado sem toque, uma voz sem palavras, uma presença que sustentava sem exigir.

Com o coração ainda pulsando forte, Kat fez um juramento.
Uma promessa que ecoaria por toda a sua vida:

“Eu cuidarei, com amor, carinho e dedicação, dos ensinamentos para o meu filho.
Por mim.
Por minha mãe.
Por ele.
Como eu também nasci e cresci neste paraíso sagrado.”

Ali, entre lágrimas e sorrisos, Kat compreendeu.
Seu filho nasceria sob o mesmo olhar eterno.
O ciclo continuaria.

Ela seria guardiã da ordem.
Seria devota, como todas antes dela.
E sabia: nunca estaria sozinha.

Mãe Ceres.

A mulher que venceu todos os deuses e a fome.
A divindade humana, viva, tangível, que caminha entre os filhos que protege.

Sua presença em Pietà é apoteótica:
Estar diante dela é receber uma bênção que atravessa pele, sangue e alma —
Como se todas as promessas falsas do mundo fossem apagadas em um único gesto.

Em sua presença, toda fé dispersa nos deuses mortos encontra recompensa.
Em sua sombra, todos os males são eliminados.
No espaço que ela governa, reina a paz dos justos —
A paz dos que se entregam de corpo e espírito ao fruto de Mãe Ceres.

Ela é a mãe que lutou por seus filhos.
O símbolo supremo do feminino em Ceres.
A devoção absoluta que pulsa em alma, coração e sangue.

Pietà é o altar onde sua essência se torna palpável.
O lugar onde a esperança não é tortura, mas presença viva.
Onde a paz não é promessa distante, mas toque real.

Ali, cada olhar para Mãe Ceres é uma confirmação eterna:
O ciclo da vida continua.
E a sobrevivência se torna sagrada.

E todos, de joelhos ou em silêncio, repetem o mantra que sela sua devoção:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora!


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