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Capítulo 16: Devaneios de um Traidor e Corações Rasgados - parte 1

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O colégio ainda dormia quando o homem começou a limpar o pátio. As pedras cinzentas, frias, ecoavam o rangido úmido da vassoura. Ele trabalhava com devoção, varrendo cada canto daquele chão onde um…

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O colégio ainda dormia quando o homem começou a limpar o pátio. As pedras cinzentas, frias, ecoavam o rangido úmido da vassoura. Ele trabalhava com devoção, varrendo cada canto daquele chão onde um dia também havia caminhado — antes de ser devorado pela Mãe Ceres.

A cada manhã, ajoelhava-se diante dela: esfregava as torneiras de metal, lustrava os vasos sanitários, limpava as vidraças engorduradas com um orgulho silencioso. Não era ruim cuidar da Mãe Ceres. Não mesmo. Aqueles que tinham a sorte de estar entre seus funcionários — mesmo os mais humildes, como zeladores, técnicos, coletores — disputavam os cargos como se fossem coroas. Mais cobiçados que os de engenheiro, químico ou mecatrônico.

Por quê? Porque trabalhar ali era, para alguns, a última chance de ver os filhos. Filhos que ainda viviam e estudavam sob o teto dela, ainda não inteiramente devorados. Ver de longe o rosto de uma criança, um aceno escondido, um olhar distraído... Bastava isso para transformar um balde e um pano em relíquias de fé. Era um lar. Tinha cheiro de casa.

A Mãe Ceres pregava peças. Era assim. Para metade da população, o sonho era estar perto dela — nem que fosse limpando o chão. Para a outra metade, o sonho era ser engolido por ela: aceito como professor, oficial, técnico. Todos testados, todos avaliados em provas brutais só para ter um lugar dentro dela. Até mesmo o Major Tomas, em sua posição privilegiada, jamais teve a dádiva de ver o rosto dos próprios filhos. Porque estar perto da Mãe, às vezes, significava estar longe do que ainda nos resta de humano.

Lá fora, o amanhecer rompia como um milagre. O céu ainda meio escuro, rasgado por um sol tímido e dourado. O colégio erguia-se em blocos pesados, mas o espetáculo da luz fazia parecer que ele respirava.

O sol e a Mãe Ceres eram isso para eles: legado. Uma prova de que ainda havia prazer e decência na vida. Dar-se à Mãe, servir à Mãe, era devolver a ela a liberdade que antes a humanidade havia esquecido. Ela, que era nossa mãe. Nossa Mãe Ceres.

E o homem seguia seu ritual. Enxugava a água das torneiras, escovava os vasos com afinco, enquanto o pátio ganhava cor. Pensava em seu filho. E, por um instante, acreditava que aquela manhã talvez fosse diferente. Talvez a Mãe Ceres, em sua infinita astúcia, permitisse que ele visse um rosto familiar antes de ela devorar mais um.

Alguns alunos começaram a surgir do dormitório, arrastando os pés ainda sonolentos. Os uniformes bem passados, os cabelos desalinhados. No ar frio da manhã, iam formando pequenas filas dispersas, caminhando para o pátio e depois para o refeitório.

Ao longe, espalhados pelos corredores e pátios, os funcionários interrompiam por um instante o ritmo das vassouras para observá-los. Fingiam continuar trabalhando, mas os olhos não mentiam: buscavam, ansiosos, um rosto conhecido entre a multidão.

Era por isso que estavam ali. Por essa chance. Por essa esperança simples de ver os filhos passando. Alguns tinham a sorte — rara, quase sagrada — de encontrá-los. Um aceno contido, um tchauzinho hesitante, um sorriso tímido no rosto das crianças. Às vezes, um choro miúdo era engolido pela garganta, escondido entre um balde e um pano de chão.

E havia os mais afortunados. Aqueles que conseguiam, por um instante, abandonar o esfregão para oferecer um abraço. Não era proibido. Nunca fora proibido, desde que todos cumprissem suas funções. A Mãe Ceres não era desumana. Pelo contrário. Ela gostava de lembrá-los de que a humanidade ainda pulsava, mesmo dentro de sua boca.

Mas eram poucos. Pouquíssimos, em Ceres, tinham um trabalho assim. Um trabalho que permitia servir à Mãe e, ao mesmo tempo, ver os filhos. Para os outros, restava apenas a memória. Ou a esperança de um reencontro noutra vida.

Os alunos seguiam, um a um, por entre os funcionários que voltavam a varrer o chão com a mesma devoção de antes. Por dentro, porém, cada um carregava aquele instante como um prêmio. Um privilégio que jamais ousariam desperdiçar.

Nos campos de flagball, o dia já havia tomado forma. Atletas do primeiro bloco aqueciam em fileiras coordenadas, correndo pelo gramado recém-aparado. O cheiro forte da grama cortada dominava o ar úmido da manhã, misturado ao aroma químico do cloro vindo do ginásio de natação. Um perfume agridoce — lembrete físico da disciplina e da pureza que a Mãe Ceres exigia de seus filhos.

Os funcionários da manutenção cruzavam as linhas brancas com suas máquinas de poda e varas de pintura, ajustando cada detalhe com esmero. Não era apenas trabalho. Era ritual. A honra não estava apenas em servir, mas em estar ali: dividindo o mesmo espaço, respirando o mesmo ar, assistindo — ainda que de longe — à rotina dos filhos que a Mãe lhes havia confiado.

Alguns pais se permitiam mais. Ao avistarem seus filhos nos blocos de atletas, ou nos vestiários, ou simplesmente caminhando pelo corredor externo, acenavam discretamente, com um sorriso contido. Outros ainda arriscavam uma aproximação maior — dividiam um lanche rápido, uma caneca de café à beira do campo, trocavam palavras apressadas antes que um apito ou uma ordem lembrasse a ambos qual era o limite. Não era proibido — desde que a ordem fosse mantida, desde que ninguém esquecesse o papel que lhe cabia: filho ou servidor.

Os corredores fervilhavam com o vai-e-vem dos alunos, de uniforme impecável, pastas presas ao peito. E por todo o colégio podia-se ver os funcionários espalhados entre pátios, ginásios, corredores e campos — todos ocupados em suas tarefas, sim, mas com o coração secreto dedicado àquela pequena possibilidade de ver, tocar e sorrir para um filho. Era, afinal, por isso que haviam escolhido aquelas funções tão disputadas, tão preciosas.

“Obrigado, Mãe Ceres”, murmuravam em silêncio, enquanto empurravam um balde, varriam um canto ou recortavam um canteiro. Para eles, era um privilégio maior do que qualquer cargo pomposo. Maior do que ser engenheiro ou administrador na cidade.

Em Ceres, sabiam, não havia espaço para vaidade. A verdadeira recompensa estava nesse fio invisível — nesse contato breve, permitido e precioso — com os próprios filhos, antes que a Mãe os reclamasse por completo.

Lá fora, em outras cidades, em outras nações decadentes, sabiam-se histórias de corrupção — homens disputando cargos, comprando votos, roubando o espaço de outros pais, tramando para chegar mais perto dos filhos à força. Em Ceres, era o contrário: não havia disputa cega, apenas devoção e uma fila ordenada. Cada um aguardava sua vez, cada um aceitava seu quinhão, porque a Mãe assim o quisera.
Aqui, mesmo nos serviços mais humildes, todos se sentiam ricos.
Porque nada era mais valioso do que aquele instante — o instante em que, por apenas um segundo, um filho passava por eles, erguia a cabeça e, com um olhar sereno e orgulhoso, sorria.
E eles sabiam: tudo valia a pena.

Cora era uma dessas privilegiadas.
Filha de Cami, a botânica responsável pela paisagem urbana de Ceres, tinha o raro presente de vê-la todas as terças-feiras, quando a mãe vinha anotar o estado dos terrenos baldios ao lado do colégio — terrenos que poucos se atreviam a visitar, já que, dizia-se, seriam em breve convertidos em praça para exercícios ou em campo militar.
Cami cuidava da cidade com a mesma ternura com que Cora cuidava das sementes… e dos bichos.
Sempre que podia, a mãe lhe perguntava como estavam os cães e gatos do terreno, e ela respondia, com um sorriso envergonhado:
— O Comandante Bigodes ainda manda por lá. A Capitã Coxinha tá bem gordinha… e o Fígado, como sempre, briguento.
E ria ao citar os nomes esquisitos que dera aos animais:
Comandante Bigodes, um gato preto e branco com ares de autoridade.
Capitã Coxinha, uma cadela amarela que vivia roubando lanches dos alunos.
Fígado, um gato ruivo que todos achavam feio, mas que só Cora achava lindo.
E ainda havia a pequena Salsicha, uma vira-lata magricela que latia para qualquer coisa que se mexesse.

Cami sorria ao ouvir esses relatos e, em tom baixo, perguntava também sobre o velho avião no qual Cora guardava suas sementes de marigolds.
Era ali que a menina sonhava ver, um dia, a cidade toda colorida em tons laranja — mesmo que ninguém notasse suas pequenas plantações clandestinas.

Foi então que a Mãe Ceres, como sempre, pregou uma peça.
Numa madrugada cinzenta, a cidade foi invadida por espiões de Arcádia. Procuravam um experimento do centro e, para sua fuga já planejada havia anos, usariam justamente aquele avião, preparado às escondidas para cruzar a fronteira.
Cora só soube pela manhã.
O avião fora levado às pressas, subindo aos céus sob sirenes, rasgando as nuvens com um rugido metálico. Mas jamais conseguiu cruzar a fronteira — caiu sobre o centro como um meteoro, deixando um rastro de destruição.
Ninguém jamais soube que, junto com as peças e parafusos, choveram também as sementes de marigolds de Cora.
Em poucos dias, germinaram.
Em poucas semanas, a cidade inteira — num raio de quinze quilômetros — foi tomada por um mar laranja, espesso e perfumado de flores.
Um espetáculo impossível.
Um milagre.

Os jornais noticiaram como “A Bênção de Mãe Ceres”. Observadores de outras cidades vieram ver com seus próprios olhos, sem nunca suspeitar da verdade.
O avião, partido em chamas no centro, foi varrido. Queimaram todas as provas.
E ninguém jamais soube que tudo começou com uma garota, um punhado de sementes… e um coração inquieto.

Naquela terça-feira, quando Cami veio ao colégio, as duas caminharam lado a lado, observando a paisagem que florescia além dos muros.
Cora apenas sorriu, tímida.
Cami lhe apertou a mão e, num sussurro, disse:
— Obrigada, minha filha.
E naquele instante, por um segundo, Cora sentiu que, talvez, só talvez… Mãe Ceres realmente a amasse também.

Cora, por sua vez, não imagina nem metade do que a mãe pensa dela enquanto a observa.
Ela ainda não tem um “namoradinho” escondido no colégio — não por falta de oportunidade, mas porque o rosto cora ao menor aceno dos colegas. É tímida demais.
Não como Cami era, porque Cami, aos treze, já trocava bilhetinhos e risadas nos corredores, escondida atrás dos pilares do refeitório.

Cora não.
Cora prefere o silêncio dos terrenos baldios, o cheiro da grama, os gatos malucos com nomes bobos como Feijãozinho, Lampadinha e Cometa. Prefere cuidar das flores de marigold do que arriscar um “oi” a um menino qualquer.
Não que ela não tenha curiosidade — claro que tem. Às vezes, enquanto os outros jogam flagball no campo ou cochicham no pátio, ela imagina como seria segurar uma mão quente, sentir um sorriso só para ela, ter a coragem de ficar vermelha sem querer desaparecer logo depois.

Mas não é para agora.
Ela ainda não está pronta para isso — nem para os meninos, nem para a Mãe Ceres.
Ela sabe que a hora vai chegar. Porque todos aqui têm sua hora.
E talvez por isso, Cora também acredite que, um dia, vai ser especial. Vai aprender a falar sem gaguejar, vai aprender a devolver os olhares em vez de desviar, vai aprender a ser devorada sem medo.
E vai ser bom.
Mesmo que doa primeiro.

Por enquanto, Cora só cuida das flores, das sementes e dos bichos, fingindo que seu mundo é pequeno o bastante para caber dentro do campo baldio.
Por enquanto, ela pode ser só uma menina de treze anos, tímida demais para se meter no jogo dos outros.
Por enquanto.

Cora ainda não tem coragem suficiente para muitas coisas.
Não para falar em voz alta.
Não para se impor quando tropeçam nela no corredor.
Nem mesmo para admitir que, às vezes, sonha, sim, em ter um namoradinho escondido — como sua mãe já teve um dia.
Mas não ainda. Não agora.

Ela é nova demais, tímida demais, com o rosto que arde sempre que alguém a chama pelo nome.
Cami entende isso, porque ela mesma já foi assim — embora, na idade da filha, tivesse um pouco mais de atrevimento e um pouco menos de medo.
E sabe que é natural esse processo: um dia, Cora vai crescer, vai ganhar coragem, vai encontrar alguém para dividir segredos…
E, inevitavelmente, vai ser devorada também.

E isso não é ruim — não de verdade.
É a ordem das coisas.
Até as flores mais frágeis acabam florescendo quando chega sua hora.

Cora e Cami às vezes lembram juntas do milagre do avião.
Aquele avião velho já não existe mais — foi queimado, destruído, esquecido.
Mas antes de desaparecer, espalhou marigolds por toda Ceres, como um campo laranja aceso sob o céu cinza.

E Cora, no íntimo, acreditava que aquele milagre também era para ela.
Um gesto doce da Mãe Ceres, que, sem querer, lhe devolveu as flores que ela mesma havia guardado.
Como se dissesse: “Eu te vejo, minha filha. Mesmo você sendo pequena e tímida agora.”

E Cami acredita que sim.
Cora vai ser especial.
Vai aprender a enfrentar a dor e, ainda assim, ser doce.
Vai aprender a ser forte como a mãe — e ainda mais bonita por dentro.
Vai florescer.

Porque assim é com todos em Ceres.
E, mesmo sendo ruim às vezes, é bom.
Bom demais para não agradecer.

Cami olhava para a filha ajoelhada no campo baldio, com as mãozinhas sujas de terra e algumas pétalas de marigold presas no cabelo.
Um gato — o Galeto — se enrolava preguiçoso ao lado dela, e dois cachorros brigavam baixinho por um galho mais adiante.

— Sabe… — disse Cami, depois de anotar algo em seu caderninho e guardar a caneta atrás da orelha — eu acho que a Mãe Ceres te deu aquele milagre de propósito, mesmo.
Cora ergueu o rosto, surpresa.
— Mesmo? Você acha?
— Acho, sim. Você é… especial. Só não sabe ainda. — Cami se abaixou para tirar uma pétala do rosto da filha. — Eu também era assim. Tímida, quieta. Achava que não tinha coragem pra nada.

Cora sorriu tímido.
— Eu… eu queria ter coragem. Igual você. Ou igual a Mãe Ceres.

Cami riu baixo, balançando a cabeça.
— Você vai ter. Só leva tempo, filha. Primeiro a gente floresce devagar. Depois, a gente fica forte. E aí… a Mãe nos devora.

Cora abaixou os olhos, mas não parecia triste.
— Deve ser bonito ser devorada…
— É a coisa mais bonita que tem. — Cami alisou o cabelo da menina. — E até lá… você ainda vai encontrar um namoradinho escondido por aí, viu? Igual eu encontrei o meu.

Cora ficou vermelha.
— Mamãe! Eu não!
— Não agora, eu sei… — Cami se levantou com um sorriso. — Mas um dia. Porque você vai ser forte, minha florzinha. Vai aprender. E quando for a hora… vai ser bom. Mesmo parecendo ruim. Vai ser bom.

Cora ficou quieta, olhando as flores laranjas ao redor, e murmurou baixinho, como se para a própria Mãe Ceres:
— Obrigada pelo milagre…

E ao longe, o vento mexeu nas marigolds, como se sorrisse para ela.


As lembranças de Theo

Theo lembrava nitidamente do cheiro do vestiário antes da partida decisiva em Oplan — mistura de suor, ferro dos armários velhos e o perfume sintético dos uniformes recém-passados.
A medalha ainda pesava no bolso, como um prego no peito.
Conquista por traição. Reconhecimento por delatar Gene — o amigo cujo nome ele não ousava mais pronunciar.

Os outros garotos riam, se alongavam, batiam palmas, carregando adrenalina antes do jogo.
Mas Theo não conseguia respirar direito.
A medalha ardia como febre contra o tecido da calça.

E então, ele explodiu.
Atirou a mochila no chão, puxou a medalha e, diante de todos, a amassou com as duas mãos, grunhindo como um animal ferido.
As pontas afiadas cortaram suas palmas, mas ele não parou.

E gritou, olhos em chamas:
— Eu não quero presentes da Mãe Ceres! Eu quero que Mãe Ceres me ame como eu amo!

Silêncio.
O vestiário inteiro parou.
Nem as respirações se ouviam.

Ali, naquele momento, Theo conquistou a liderança do grupo.
Mesmo os que não sabiam exatamente o que ele queria dizer, entenderam o peso.
A dor. A revolta. O amor servil, incondicional.

Até mesmo Dark, recostado contra a parede com os braços cruzados, soltou um assobio baixo.
Aproximou-se, pegou o pedaço da medalha no chão e disse, com aquela voz morna e insolente:
— O príncipe da Mãe Ceres...

Não era elogio.
Era escárnio. E desejo de destruição.

Dark odiava Theo, mas não por inveja. Nem por medo.
Dark odiava porque era divertido tentar quebrar aquilo que Mãe Ceres considerava aceitável.
Theo era o brinquedo preferido dela.
E Dark era o cão raivoso da cidade — nascido da lama, treinado para despedaçar o que brilha demais.

Aquela atitude, claro, rendeu a Theo a detenção.
E mais do que isso: correção.
Palavra que sempre vinha carregada de silêncio nos corredores…
… e comidinhas líquidas servidas em bandejas plásticas.

Mas ele não se arrependia.
Naquele instante, no vestiário, diante de todos, foi como se o grito ecoasse por todo o estádio.
Por todo o território de Oplan.
Por toda Ceres.

E ainda que ninguém jamais o dissesse abertamente…
Ele sabia que Mãe Ceres o ouvira.

A detenção durou quinze dias.
Quinze dias fora do colégio.
Fora das manhãs cheias de gritos.
Fora do cheiro da grama do campo de flagball.
Fora das aulas coreografadas.
Fora dos risos nervosos nos corredores.

Quinze dias longe de Tycho, que ele não pôde ver nem uma vez.
O irmãozinho talvez tenha escrito, talvez tenha chorado — mas nada chegava até Theo.
Na detenção, não havia cartas.

Era uma cela cinza-pálida, com cama embutida e luz regulada para acender e apagar conforme o ciclo oficial de Ceres.
O tempo era ditado por sensores.
Não havia janelas, apenas uma tela embutida na parede — o Projetor Oficial de Atualização Cidadã.

Foi por ele que Theo viu seus colegas:
treinando, rindo, jogando.
Eles pareciam distantes, com uma leve granulação que fazia tudo parecer um sonho antigo.

Até Daime, com seus conselhos insuportáveis e idiotas, apareceu rindo durante uma partida.
E Tycho, ao fundo, sentado à sombra de uma árvore com os livros da cartilha azul.

Todos seguindo.
O mundo seguiu.

E ali, deitado, com o corpo doído pela cama dura e os músculos enfraquecendo…
Theo viu ela.

Ceres.

Ela aparecia duas vezes por dia.
Uma gravação especial para a reeducação dos “comportamentos não-conformes”.

A tela mostrava seu rosto imaculado, voz doce, vestida em uniforme cerimonial, com a boina inclinada e as duas chaves douradas presas ao peito.

— “O amor verdadeiro não é egoísta. O amor verdadeiro confia, serve e silencia.”

Theo assistia calado.
Sabia o texto de cor.
Mas toda vez que ela falava, algo revirava dentro do estômago dele.
Não era raiva.
Não era medo.
Era algo mais profundo, mais antigo: fome de pertencimento.

Nos últimos dias da detenção, Theo começara a decorar os mínimos detalhes da gravação:
o piscar dos olhos, o levantar suave da mão, o modo como os soldados ao fundo endireitavam a postura sempre no mesmo segundo.

Quando a gravação terminava, restava o silêncio.
E ali, naquele silêncio branco e absoluto, Theo não pensava em Gene.
Pensava em Ceres.

O pátio estava cheio de movimento, mas para ele parecia um quadro estático:
filas de alunos indo de um lado para outro, funcionários recolhendo folhas caídas, um grupo de meninas gargalhando no canto, o som distante de um apito vindo do ginásio.

Ele estava sentado sozinho num dos bancos de concreto, mãos nos bolsos, corpo ligeiramente curvado.
Olhos fixos em nada.
O vento frio fazia as pontas da grama dobrarem numa reverência coletiva.

Ali, sozinho, Theo pensava — pela primeira vez — em algo que até então jamais ousara nomear:

E se Mãe Ceres não nos ama de verdade?

A dúvida havia brotado como uma erva ruim nos dias de detenção.
No silêncio daquela cela sem janelas, no vazio onde os sentimentos que um dia tivera por si mesmo pareciam ter sido arrancados, substituídos por algo duro e metálico.

Não era um vazio comum.
Era mais parecido com chumbo, um peso constante que o prendia à terra.

Mãe Ceres havia tomado dele o sentimento de ser dono de si.
E, em troca, dera um dever tão pesado que às vezes parecia impossível de carregar.

Theo nunca antes havia sequer cogitado chamar Mãe Ceres por outro nome.
Mas, naquele instante, sentiu a língua ensaiar o som de outra palavra — um quase-desrespeito que não ousou completar.

Sentia-se dividido ao meio.
Um lado gritava para fugir, correr, largar tudo, ser livre, arrancar de si o selo dourado da servidão que todos carregavam no peito.

O outro lado — o mais alto, o mais rígido — sussurrava, em tom de condenação, que ele era um traidor, que merecia ser queimado no pátio de execuções como todos os outros que duvidaram.
Que a própria dúvida era heresia.
Que se entregasse, que confessasse, que se ajoelhasse.

Essa dualidade ficou em equilíbrio, como uma moeda girando no ar.
Ele não sabia em qual lado cairia.

E sabia, com um frio no estômago, que essa incerteza já o tornava um homem diferente.
Já não era mais o mesmo garoto que gritara no vestiário semanas antes, nem o que seguia Daime nos corredores com sorriso condescendente, nem o mesmo que abraçava Tycho nas manhãs geladas.

O sofrimento da detenção tinha deixado um efeito colateral.
Algo nele se partira.

Ao longe, podia ouvir a respiração pesada e ritmada do ginásio.
Era Ceres treinando seus mergulhos, como sempre.

Seu corpo cortava a água com perfeição, uma sombra graciosa e implacável, como se ela fosse a própria encarnação do sistema.
Imaculada.
Intocável.
Amada.

Theo a olhou por um instante.
E, pela primeira vez, não teve certeza se ainda queria ser amado por ela também.

No pátio, a silhueta da torre ao longe dominava o horizonte como um dedo acusador apontado para todos.
Theo a olhava fixo, mandíbula dura, e por dentro sentia um nó de nervosismo que não sabia desatar.

Um lado dele queria apenas sair correndo dali, atravessar os portões, sumir da cidade, esquecer para sempre os corredores, as filas, os hinos, a torre.

Mas a imagem do irmão Tycho sempre surgia na mente — indefeso e doce, como só ele podia ser.

Como eu poderia abandoná-lo?

E então o peso voltava — aquela sensação de chumbo que agora parecia permanente no peito.

Aquela voz interior — fria, implacável — começava a repetir dentro dele, como um carrasco recitando a sentença:

"Obrigado, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora."

Mas a cada vez que repetia o mantra, sentia-se mais danificado por dentro.
Mais rachado.
Mais perto de se despedaçar.

"Traidor."
"Covarde."
"Fraco."
"Queima logo, traidor."

As palavras ecoavam em sua mente até ele começar a xingar a si mesmo, dentes cerrados, punhos fechados.
E num acesso de raiva, ergueu a mão e começou a bater contra a própria cabeça, como para expulsar aqueles pensamentos proibidos.

— Theo...? — a voz de Ceres cortou o ar ao lado dele.

Ele congelou.
Os olhos dela estavam sobre ele — frios, atentos, e pela primeira vez com um traço de algo diferente: desconfiança.

Ela nunca tinha visto aquele comportamento em Theo.
Ele era o príncipe branco da Mãe Ceres, sempre impecável… até agora.

— O que é isso? O que está acontecendo com você? — perguntou ela, quase em tom de ordem.

Theo respirou fundo, baixou a mão devagar, tentando recuperar a postura.
— Não é nada, Ceres. Nada.

Mas ela não acreditou.
Ceres sentia aquela discórdia nele como uma espinha sob a pele.
E isso a perturbava.

Ela deu um passo à frente, tentando tocar a ferida na têmpora dele.
— Deixa eu ver.

Mas Theo recuou, num movimento seco, quase raivoso.
Os olhos dela endureceram.
Não estavam mais no mesmo compasso.
Era como se falassem línguas diferentes.

— Você está escondendo alguma coisa. Eu vejo isso. — A voz de Ceres era baixa, firme, como se já o julgasse.

Theo inspirou fundo, sentindo a raiva ferver sob a pele, e, ao avistar Tycho ao longe — o menino correndo com sorriso ingênuo —, não suportou.

— Sai daqui, Tycho! Vai cuidar da sua vida! — gritou atravessado, sem sequer olhar.

O irmão parou, confuso, e se afastou devagar.
Ceres assistiu em silêncio, com um aperto estranho no peito.

— Ceres... você está entendendo errado — disse Theo enfim, a voz carregada.

— Então explica — rebateu ela, fria.

Theo respirou, evitando o olhar penetrante que parecia querer devorar sua alma.
— É só... efeito colateral. Da detenção. Nada mais.

Ceres o encarou por alguns segundos.
Sabia, por experiência própria, que cada um saía da detenção diferente — uns mais subservientes, outros mais instáveis.
Cada mente reagia à Mãe Ceres de um jeito.

Por fora, aceitou a desculpa com um leve aceno, sem discutir.
Mas, por dentro, a intuição latejava.
No fundo, bem no fundo, sabia que Theo escondia mais do que dizia.
E que cedo ou tarde, descobriria.


Devora

"Obrigada, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora."

Era a terceira vez que ela repetia o mantra naquela noite, já sozinha no dormitório.
Mas, ao contrário de outras vezes, a paz habitual não vinha.

Os olhos de Theo ainda estavam nela — não apenas os olhos, mas as mãos dele, a pele dele, a respiração dele contra a sua.
Mesmo deitada de bruços, sentia na pele o ardor das unhas dele, como se tivesse sido gravada com ferro em brasa.

E por mais que dissesse a si mesma que aquilo era bom — que Theo também era um filho de Mãe Ceres, que ambos eram devorados do mesmo jeito — havia algo errado.

Naquela tarde no pátio, algo mudara nele.
Ela vira o estalo, o espasmo de dúvida.
Vira quando ele se bateu na cabeça, como um animal tentando expulsar um instinto.
E não conseguia esquecer.

Porque seus olhos, que sempre caçaram almas por toda a cidade, sentiram que havia uma sombra crescendo na alma dele.
E não era boa.
Nem ela sabia dar nome àquilo, e isso a deixava inquieta.

Até a calmaria a assustava.
E por que não? Mãe Ceres os criara assim: sempre em alerta, mesmo na paz.

Desde as primeiras aulas de desmontar e montar armas em menos de 30 segundos, desde os campos simulados com balas de tinta que doíam como balas de verdade, desde os exercícios para se mover no escuro, para desconfiar do inimigo mesmo quando não havia inimigo nenhum...

Ceres sempre soubera, como todos os outros, que não eram cidadãos da paz.
Eram reféns da trégua.
Vigilantes da guerra.
Mesmo que fosse uma guerra interna.
Mesmo que fosse uma guerra para que ninguém dissesse em voz alta que havia guerra.

Guerra consigo mesmo, como Theo parecia estar travando agora.

E, por mais que lhe doesse admitir, ela não sentia pena dele por isso.

Porque Mãe Ceres o amava.
E se Mãe Ceres amava alguém, devorava alguém, era porque julgava digno de ser partido ao meio e costurado de volta.

"Obrigada, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora."

Ela fechou os olhos e tentou afastar as dúvidas, mas inevitavelmente a memória daquele dia do desfile voltava como um perfume pesado demais.

Deitados no ginásio da piscina dos saltos ornamentais, entre azulejos frios e cheiro de cloro, Theo a devorava como um homem que queria deixar marca para sempre.
E ela... deixava.

Deixava que suas unhas rissem as costas dele, como se quisesse moldá-lo de volta para si.
Era a primeira vez que algo lhe era dado de graça — aquela calma, aquele prazer.
E mesmo assim, sabia que aquilo não viria sem espinhos.

"Porque nada nunca foi assim antes."
"Nada nunca foi dado de graça para mim."
"Sempre havia um teste depois do prazer. Sempre um espinho depois do campo florido."

Mãe Ceres ensinara isso desde cedo: toda colheita custa suor. Toda medalha, joelhos ralados e olhos secos.

E mesmo agora, no calor da lembrança do corpo dele sobre o seu, uma pequena sombra sussurrava que aquela paz talvez não durasse.
Que aquela sensação boa que Theo lhe causava — aquela de ser devorada de um jeito só dele, diferente de como Mãe Ceres devora seus filhos — poderia ser apenas um intervalo bonito antes do próximo vendaval.

Às vezes, nos instantes em que Theo a tomava com fúria e desejo, ela se pegava pensando que ele imaginava a Mãe Ceres nela, apenas por compartilharem o mesmo nome.
Talvez fosse vingança.
Talvez fosse delírio.
Mas havia momentos — e ela sentia — em que ele não a via como ela mesma.
Em que, lá no fundo, mesmo desejando-a por quem ela era, ele ainda sonhava em punir a Mãe Ceres por meio dela.

E o pior: ela não se importava.
Por mais que doesse.
Por mais que soubesse que aquela sombra, um dia, poderia engoli-lo inteiro.
Ela não se importava de ser a intermediária entre a devoção e a revolta.

Porque, no fim, Mãe Ceres sempre vencia.
E, no fim, ambos eram só mais sementes esmagadas na palma de sua mão.

"Obrigada, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora."

Era a terceira vez que ela repetia o mantra naquela noite, já sozinha no dormitório.
Mas, ao contrário de outras vezes, a paz habitual não vinha.

Os olhos de Theo ainda estavam nela — e não apenas os olhos, mas as mãos dele, a pele dele, a respiração dele contra a sua.
Mesmo agora, deitada de bruços, sentia na pele o ardor das unhas dele, como se tivesse sido gravada com ferro em brasa.

E por mais que dissesse a si mesma que aquilo era bom — que Theo também era um filho de Mãe Ceres, que ambos eram devorados do mesmo jeito — havia algo errado.

Naquela tarde no pátio, algo mudara nele.
Ela vira o estalo, o espasmo de dúvida.
Vira quando ele se bateu na cabeça, como um animal tentando expulsar um instinto.
E não conseguia esquecer.

Porque seus olhos, que sempre caçaram almas por toda a cidade, sentiram que havia uma sombra crescendo na alma dele.
E não era boa.
Nem ela sabia dar nome àquilo, e isso a deixava inquieta.

Até a calmaria a assustava.
E por que não? Mãe Ceres os criara assim: sempre em alerta, mesmo na paz.

Desde as primeiras aulas de desmontar e montar armas em menos de 30 segundos, desde os campos simulados com balas de tinta que doíam como balas de verdade, desde os exercícios para se mover no escuro, para desconfiar do inimigo mesmo quando não havia inimigo nenhum...

Ceres sempre soubera, como todos os outros, que não eram cidadãos da paz.
Eram reféns da trégua.
Vigilantes da guerra.
Mesmo que fosse uma guerra interna.
Mesmo que fosse uma guerra para que ninguém dissesse em voz alta que havia guerra.

Guerra consigo mesmo, como Theo parecia estar travando agora.

E, por mais que lhe doesse admitir, ela não sentia pena dele por isso.

Porque Mãe Ceres o amava.
E se Mãe Ceres amava alguém, devorava alguém, era porque julgava digno de ser partido ao meio e costurado de volta.

"Obrigada, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora."

Ela fechou os olhos e tentou afastar as dúvidas, mas, inevitavelmente, a memória daquele dia do desfile voltava como um perfume pesado demais.

Deitados no ginásio da piscina dos saltos ornamentais, entre azulejos frios e cheiro de cloro, Theo a devorava como um homem que queria deixar marca para sempre.
E ela... deixava.

Deixava que suas unhas rissem as costas dele, como se quisesse moldá-lo de volta para si.
Era a primeira vez que algo lhe era dado de graça — aquela calma, aquele prazer.
E mesmo assim, sabia que aquilo não viria sem espinhos.

"Porque nada nunca foi assim antes."
"Nada nunca foi dado de graça para mim."
"Sempre havia um teste depois do prazer. Sempre um espinho depois do campo florido."

Porque, no fim, Mãe Ceres sempre vencia.
E, no fim, ambos eram só mais sementes esmagadas na palma de sua mão.

"Obrigada, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora."

Ela murmurou mais uma vez, mas, agora, não acreditava totalmente.

"O mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente."

Era isso que sempre lhes diziam.
Era isso que ela repetia em silêncio, sozinha, deitada, olhando o teto do dormitório, ouvindo os passos ecoando no corredor lá fora.
Era isso que repetira por anos, desde a primeira vez que leu o cartaz no colégio.

E, mesmo assim, não conseguia entender.

Por que então... por que somos mais cruéis justamente com quem amamos?

A pergunta escapou dos seus lábios num sussurro, quase uma confissão.
Era um pensamento perigoso.
Quase um crime apenas pensar aquilo — mas Ceres não conseguiu evitar.

Por que a Mãe, que nos devora, nos devora ainda mais quando ousamos ser bons?
Por que a cidade ensinava que a vigilância começa dentro do próprio peito?
Por que ele — Theo —, que ela amava como nunca ousara amar ninguém, trazia nela o impulso de feri-lo, de apertá-lo, de dobrá-lo até ele quebrar, só para provar que ainda pertencia?
E por que ela sentia que ele, por sua vez, fazia o mesmo — devorava-a com raiva, como quem quisesse punir Mãe Ceres através do corpo dela?

Eram bons filhos.
Os dois.
Criados para lutar guerras invisíveis.
Criados para ferir primeiro, antes que alguém os ferisse.
Criados para confundir amor com devoção, e devoção com obediência.

Talvez fosse por isso que fossem assim.
Mais cruéis, mais duros, mais frios — justamente com quem amavam.
Porque, no fundo, não sabiam amar de outro jeito.

Ceres virou de lado, abraçando o próprio travesseiro, sentindo a mente entupida com a lembrança dele no pátio, se batendo na cabeça, xingando a si mesmo como um traidor.
Ela odiara ver aquilo.
Odiara, porque por um instante quisera ser ela quem o castigasse.
E depois se odiou ainda mais por sentir isso.

"Obrigada, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora."

O sussurro escapou de novo, automático.
Ela fechou os olhos, tentando adormecer, tentando convencer a si mesma de que nada mudara.
Que era só mais um teste, como sempre.
Que ela ainda estava no controle.
Que ele também estaria — cedo ou tarde.

E então, por fim, a respiração se acalmou.
E, devagar, o sono a carregou.

No sonho, a cidade parecia silenciosa demais.
O céu era um cinza pesado e imóvel.
E lá estava a torre.
A silhueta imensa, implacável, solitária no horizonte.
Vigiando-os a todos.
Como um olho que nunca piscava.
Como se pudesse ver direto através dela.
Como se soubesse exatamente o que ela pensava — e já estivesse decidindo o preço que ela pagaria.

Mesmo dormindo, sentiu o coração apertar.
E, mesmo sonhando, repetiu uma última vez:

"Obrigada, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora."

Mas, dessa vez, a voz tremia um pouco.
E a torre não respondeu.
Só ficou lá, quieta, olhando-a de volta.

Na manhã seguinte, a luz fria do pátio parecia a mesma de sempre — neutra, imutável, impessoal.

Ceres parou no corredor envidraçado, ajeitou o cap do uniforme e deixou os olhos vagarem até ele.
Theo estava lá.
Como sempre.
No mesmo lugar onde tudo começara, onde ela o vira dias atrás, os espasmos involuntários sacudindo-lhe as mãos como uma febre silenciosa.

Daquele vez, ele estava de lado para a torre, lembrava-se bem.
Era um gesto quase imperceptível, mas dizia muito...
De lado para a torre — como se mantivesse com ela uma relação íntima e desconfortável.
Como se a temesse e a desejasse na mesma medida.
Como se suas dúvidas fossem só deles dois, um segredo pesado demais para dividir com alguém mais.

Mas hoje era diferente.
Ceres demorou um instante para perceber o que exatamente mudara.

Então entendeu:
Ele estava de costas para a torre.
O corpo inteiro virado no sentido oposto.

Sem a menor cerimônia, sem sequer espiar por sobre o ombro.
Um traço de desafio?
Ou apenas cansaço?

Naquele instante, com as mãos nos bolsos e o queixo baixo, Theo parecia indiferente à presença da torre no horizonte.
Como se ela fosse nada.
Como se ignorá-la fosse natural — mas ela sabia que não era.

Nada em Ceres era natural.
Nada em Theo era indiferente.
Nada ali jamais seria apenas um acaso.

E, ainda assim, ele ficou ali.
Imóvel, de costas para a torre.
Como se o simples gesto de não encará-la fosse, por si só, uma resposta.
Ou um recado.
Ou talvez só mais um pedido de socorro silencioso, impossível de ser dito em voz alta.

Ceres sentiu algo dentro dela se apertar.
Como se seu corpo inteiro, por um instante, ouvisse um alarme que ninguém mais podia escutar.
E, pela primeira vez, não teve certeza se a Mãe Ceres aprovaria a forma como olhava para ele agora.


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