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Capítulo 5: Futuras Mudanças - parte 1

aleroz
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Depois do treino de flagball, todos ainda estavam no campo, sentados na grama artificial, suados, exaustos e rindo das piadas que disfarçavam o cansaço. O professor, de pé à frente deles, mantinha…

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Depois do treino de flagball, todos ainda estavam no campo, sentados na grama artificial, suados, exaustos e rindo das piadas que disfarçavam o cansaço.
O professor, de pé à frente deles, mantinha as mãos atrás das costas e o olhar duro fixo no horizonte do estádio. A desconfiança marcava seu rosto: por que os arcadianos queriam revanche de novo, justamente em nosso estádio? Ele murmurou, mais para si do que para os jogadores:
— Tem algo errado nisso... a tragédia deles já parecia pessoal... parece guerra, não esporte...
Alguém resmungou um “Hã?” confuso, mas ele não respondeu.
Dark, claro, não perdeu a chance de provocar:
— Vão vir mais famintos que o Tycho quando esquece de almoçar.
As risadas explodiram. Até o professor ergueu uma sobrancelha, sem comentar. Theo, porém, permaneceu quieto. Ofegante, olhos fixos no chão, como se o riso dos outros não o atingisse.

Quando o treino foi encerrado, o professor os dispensou, lembrando-os da disciplina. O campo se esvaziou aos poucos, as vozes diminuindo conforme os jogadores seguiam para o vestiário ou refeitório.
Mas Theo não foi com eles.
Caminhou sozinho até um canto discreto do campo — o mesmo onde, dias antes, encontrara Ceres. Por um instante, imaginou que ela poderia estar ali, esperando. Mas não havia ninguém.
O vazio não lhe trouxe frustração, apenas um silêncio frio, familiar. Sem pressa, deu meia-volta.

Foi então que Tycho apareceu correndo atrás dele, camisa suada, rosto vermelho, olhos marejados.
— Theo... eles ficaram me zoando... disseram que sou igual a você antes. Um gordinho chorão... — fungou.
Theo parou, encarou o irmão.
— E não é mentira. Eu também era gordinho e chorão como você — respondeu, sereno.
Tycho mordeu o lábio, tentando segurar a raiva.
— Mas... você é líder do time agora. Eu nunca vou ser como você...
Theo desviou o olhar para o campo iluminado pelas luzes frias do estádio.
— Eu também achava que nunca aconteceria — disse, por fim.
Tycho não respondeu, apenas abaixou a cabeça e caminhou ao lado do irmão, sentindo um calor estranho no peito. Talvez fosse esperança.

Theo a viu primeiro — sentada, à sombra das arquibancadas, como se já o esperasse.
Sem tirar os olhos dela, caminhou na direção de Ceres.
Ela ergueu o queixo, um sorriso cínico, quase verdadeiro, brincando nos lábios.
— Creio que me procurava naquele canto — disse.
Theo assentiu, seco:
— Sim. E daí?
— Hummm... — Ceres recostou-se, cruzando os braços. — Vi o grupo zoando seu irmão. Ouvi você dizer que já foi como ele, um gordinho e fraco. Parece mentira... Agora olha pra você. Líder do time. O príncipe liderzinho da Mãe Ceres.
O sorriso dela se alargou — venenoso, mas de um jeito honesto.
Theo arqueou uma sobrancelha.
— Você devia sorrir assim mais vezes.
Ceres riu baixo.
— Não é preciso. Eu não faço o que os outros mandam.
— Você faz o que quer. — Theo inclinou a cabeça, observando-a. — Mas também assusta qualquer um. Gosto disso. Até a Dru, que é tão social, fica intimidada por você.
— Hm. — Ceres estreitou os olhos. — E o que ela é sua?
— Amiga.
Ceres soltou um som seco, de desdém.
— Sei. Só amiga... Engraçado. Ela te segue por aí. Inclusive está escondida agora mesmo, nos espiando.
Theo sorriu de canto.
— Eu sei. Meus sentimentos por ela são bem resolvidos.
Ceres inclinou-se para a frente, curiosa:
— Essa sua "amiga" que orbita você... tem interesses bem diferentes de amizade.
— Pode ser. Não tenho problema com isso.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Como assim? Você é amigo do Daime e do Gene também. Nunca ficou com eles?
— Não.
— Por quê?
Theo a encarou, firme:
— Porque não era minha preferência. Isso não significa que eu não seja vulnerável. Só quer dizer que estou bem resolvido. A amizade que tenho com a Dru é clara, independente de qualquer envolvimento. Claro, há quem confunda e se envolva mais. Mas isso não é problema seu.

Ceres arregalou um pouco os olhos e riu, sem humor:
— Nossa… você é durão, não é?
Theo manteve o olhar cravado no dela.
— Eu e a Dru… sentimos conforto no silêncio um do outro.

Ceres silenciou também.
Uma pausa longa se instalou — um ensaio desconfortável de uma intimidade que nenhum dos dois estava disposto a nomear.
Era quase uma disputa: um devorando o outro com os olhos, testando quem recuaria primeiro.
E nenhum recuou.

O silêncio se estendeu.
Era grande. Quase insuportável.
Liderança contra liderança. Arrogância contra arrogância.
Um jogo de vontades tão denso que o ar entre eles parecia difícil de respirar.

E ainda assim, ali, encontraram algo inesperado:
Química.
A química perfeita.
Como duas forças iguais que não se anulam — colidem e queimam.

Na penumbra, escondida, Dru observava.
Por fora, calma.
Por dentro, despedaçada.
Ela queria Theo — e parte dela queria acreditar que ainda o tinha.
Mas ver aqueles dois juntos, naquela sintonia de fogo e gelo, era como sentir os braços dele escapando por entre os dedos.
Uma parte dela queria odiar Ceres.
Mas não podia.
Ceres era forte. Ainda não era líder… mas já carregava a aura de uma.
E Dru sabia: era uma vitória justa.

Ceres sustentou o olhar dele mais um segundo, quase rindo do esforço de ambos em não desviar.
Por fim, inclinou-se levemente à frente, convencida, e quebrou o silêncio:
— Você tem razão, Theo… — disse, com um sorriso quase terno. — Seu silêncio é confortável, liderzinho.
O tom era meio provocação, meio admiração.
Mas, pela primeira vez naquela noite, não havia cinismo nos olhos dela.

Ela se afastava, passos lentos, quando parou na porta.
Virou a cabeça, só o suficiente para lançar-lhe um último olhar — dessa vez, sem ironia, mas com algo novo, quase… humano.
— Tenho um pouco de inveja de você — disse ela, num tom baixo, quase um segredo. — Mas me pergunto… de que adianta ser durão, se no fim tem um coração vulnerável?

Theo não hesitou.
Olhou-a de volta, firme, e respondeu num tom calmo, mas cheio de peso:
— Eu nunca disse que meu coração não era vulnerável.
Fez uma pausa.
Um canto de sorriso brotou em seu rosto.
— Todos nós temos rachaduras… é aí que a luz entra.

Ceres sustentou o olhar mais um segundo.
E, pela primeira vez, baixou os olhos.
Um riso breve, quase imperceptível, escapou-lhe dos lábios.
O gelo entre eles… se quebrou.
E por um instante, naquela quietude, a cidade inteira pareceu pequena diante da grandeza daquele momento.

Então, sem mais nada, ela se foi.
E Theo ficou ali, sentindo, talvez pela primeira vez em muito tempo, que tinha encontrado alguém capaz de enxergar o que havia por trás das rachaduras.

Quando Ceres se afastou, Dru não aguentou mais permanecer nas sombras.
A respiração entrecortada, a garganta fechada em nó.
Esperou alguns instantes, engolindo as lágrimas, depois caminhou rápido para dentro do prédio, sumindo no banheiro.

Ali, apoiada na pia fria, finalmente permitiu-se respirar fundo.
O rosto refletido no espelho parecia estranho, sem cor.
Ela se perguntava o que, exatamente, tinha acontecido lá fora — e por que doía tanto ver aquela química entre eles.

Foi então que a porta rangeu, e passos leves ecoaram sobre os azulejos.
Dru olhou pelo espelho e, claro, viu Ceres.
Ela se encostou na parede, braços cruzados, apenas observando por um momento.
Havia um ar tranquilo nela — sem cinismo, mas sem pedir desculpas.

— Theo… é um ótimo amigo — disse Ceres, por fim. A voz era baixa, mas firme. — Só amigo.
Fez uma pausa.
— Porque, como eu disse… órbitas colidem. E hoje, colidiram. Você viu.

Dru apertou os lábios, tentando responder.
Mas nada saiu.

Ceres continuou:
— Não quero o seu mal, Dru. Nunca quis. Não sou dessas que saem por aí esmagando gente por esporte. Mas… as regras já estão definidas.
Por um instante, os olhos dela brilharam, dizendo mais do que as palavras.
— E eu prefiro que você saiba isso da minha boca.

Silêncio.
O som de um cano pingando era a única coisa que preenchia o banheiro.

Ceres afastou-se da parede e foi até a porta.
Antes de sair, virou-se uma última vez, com aquele meio sorriso indecifrável:
— Não procure por mim, Dru. Eu procuro você… e todos os outros. Sempre.
E desapareceu pelo corredor, deixando Dru sozinha, com um misto de mágoa e respeito queimando no peito.


Esperar, doce esperar

No dia seguinte, Kat acordou diferente.
O atraso menstrual, a náusea ao escovar os dentes, o cheiro do sabonete lhe enjoando o estômago.
Os seios sensíveis. Um peso no corpo.
Aquela vontade de chorar por nada.

Passou a manhã em silêncio, assustada com a possibilidade que sua mente sussurrava.
Em Mãe Ceres, uma gravidez era bênção — e sentença.
O que faziam com adolescentes e mulheres grávidas… não era fácil de explicar.
Não era cruel. Mas também não era certo.
Era diferente. Muito diferente.

No refeitório, o cheiro da comida quase a derrubou.
Reclamou baixinho, tentando disfarçar, enquanto ao redor todos seguiam sua rotina.
Era o dia do grande jogo entre Ceres e Arcádia.
Gene não falava de outra coisa, vibrando, gesticulando estratégias e provocações.
Os rapazes só pensavam no placar.

Kat se recolheu num canto, murmurando que precisava ir ao banheiro.
Dru a seguiu com os olhos, a preocupação evidente.
Até Ana, com sua antipatia habitual, parecia perceber.
E, de longe, Ceres observava.

Era curioso — uma epidemia silenciosa entre as mulheres.
Um segredo flutuava no ar, captado de forma diferente por cada uma.
Os homens não notavam nada.
Só pensavam no Flagball.

Kat trancou-se no banheiro.
Sentou-se na tampa do vaso, abraçando as pernas.
O azulejo frio. A luz branca demais.
O silêncio, interrompido apenas pelo som distante do refeitório e o gotejar do encanamento.

Tentou se convencer de que era só estresse. Um atraso, só isso.
Mas a náusea pela manhã… o cansaço… o cheiro da comida… e a dor nos seios.
Seu corpo gritava o que a mente não queria ouvir.

— Eu não quero isso… — murmurou, implorando que fosse mentira. — Aqui não… não agora…
Uma lágrima desceu, quente, queimando a pele fria da bochecha.
Depois outra. E outra.
Até o choro vir sem freio.

Os ensinamentos das Mães ecoavam em sua cabeça, como uma sentença repetida à exaustão:
“Mãe Ceres precisa de filhos.”
Diziam que ser escolhida para dar filhos à cidade era uma honra.
Que as Mães cuidariam dela.
Que a preparariam para servir de verdade.

Mas ela não queria.
Não ainda.
E o medo tomou conta.

Não existiam remédios para aquilo.
Não havia como voltar atrás.
Mãe Ceres precisava de filhos…
Mas a perspectiva de ser arrastada para aquele destino a assustava mais do que qualquer castigo.

Kat chorava baixinho, a cabeça encostada no azulejo gelado, perdida no desespero de quem percebe que talvez não tenha escolha.
Enfiou as mãos entre os cabelos, com a testa apoiada nos joelhos, e chorou.

O choro, aos poucos, foi cedendo a um silêncio denso.
Sem perceber, ela começou a sussurrar a oração que todas aprendiam desde crianças.

— Mãe Ceres, que alimenta… que educa… que devora… — a voz trêmula, sufocada. — Me ajude, por favor. Minha salvação. Eu estou em desespero.

Ela ergueu os olhos para o teto do cubículo, como se o olhar pudesse atravessar concreto.
Como se, lá em cima, alguém pudesse ouvir.

— Meu corpo está mudando… os alimentos parecem nojentos… eu vomito toda hora… — soltou uma risadinha nervosa, amarga, que mais parecia um soluço. — Eu falhei. Eu falhei nos métodos contraceptivos… era óbvio… mas vacilei. Que vergonha.

Um soluço rasgou-lhe a garganta, mas ela continuou:

— Mãe Ceres… por favor… eu não quero ter filhos agora… eu prometo que darei milhões um dia, quando a senhora quiser… mas não hoje… por favor… não hoje…

Encostou a testa no azulejo de novo, repetindo como um mantra:

— Não hoje… não hoje… não hoje…

Do lado de fora, o lamento abafado continuava.
Dru batia de leve na porta, a voz suave tentando atravessar a barreira:

— Kat… abre a porta. Eu não sei o que tá acontecendo, mas… me deixa ajudar.

Nada além de soluços como resposta.

Ana apareceu no corredor, braços cruzados, com seu típico sorriso enviesado:

— Tsc. Já disse que essa aí é fraca. Nem coragem tem pra abrir a porta.

O comentário venenoso foi feito alto, para que Dru ouvisse.
Dru cerrou os punhos.

— Cala a boca, Ana — rebateu, a paciência no limite. — Kat… por favor…

Ainda assim, nenhum sinal da outra lado.

O som de passos firmes ecoou pelo corredor.
Quando Ceres entrou no banheiro, o ambiente inteiro congelou.
Era como se o ar ficasse mais pesado, apenas pela presença dela.

— Que barulho é esse? — a pergunta foi direta, cortante.
Ninguém respondeu.
Só o choro abafado de Kat continuava, além da porta fechada.

Dru tentou se explicar, a voz embargada:

— Eu… eu não sei o que fazer. Ela não quer abrir…

Ceres ficou em silêncio por um momento.
Quando falou, sua voz era fria, precisa, como gelo rachando:

— Eu vou contar até três para essa porta abrir.
Ou eu a derrubo, e levo todas vocês para detenção por deterioração do banheiro.

O olhar dela era de aço.
Ninguém duvidou.

Até Ana recuou um passo.

Do outro lado da porta, Kat destravou a fechadura.
Quando a porta se abriu, ela estava pálida, os olhos inchados, o corpo curvado como se fosse desabar.

Ceres se aproximou em passos calmos.
As outras prenderam a respiração, esperando uma bronca cruel, uma punição exemplar.
Mas, ao invés disso, Ceres se ajoelhou diante de Kat.
Pegou-lhe as mãos geladas e olhou fundo nos olhos dela.

A voz de Ceres saiu baixa, doce, quase… materna:

— O que aconteceu, pequena?
Diz pra nós. Nós podemos ajudar.

Kat hesitou.
As lágrimas voltaram.
Sua voz era só um fio, quase inaudível:

— Eu… eu acho que estou grávida.

Um suspiro geral ecoou atrás de Ceres.
Quase um grito abafado.
Mas Ceres não se alterou.
Segurou firme as mãos de Kat, sustentando o olhar, serena.

— É só isso? — disse, num tom suave, quase tranquilizador. — Então tudo bem… Mãe Ceres vai cuidar de você.

Em seguida, com solenidade, Ceres começou a recitar o mantra que todas conheciam:

— Mãe Ceres, que nos alimenta… que nos educa… que nos devora…

As outras, ainda trêmulas, repetiram em coro atrás dela. Aquelas palavras, mesmo temidas, tinham algo de reconfortante.

— Mãe Ceres, que nos alimenta… que nos educa… que nos devora…

Kat chorava, mas já não parecia tão sozinha.

Ceres ainda segurava as mãos trêmulas dela, sem largá-las por nada. Ajoelhada à sua frente, o olhar de gelo derretido por um calor estranho, Ceres falou com doçura:

— Você acha que Mãe Ceres vai te abandonar? — perguntou, baixinho, quase num sussurro. — Não… não, pequena. Ela nunca abandona os filhos.

Kat a olhava, confusa, entre o medo e a esperança.

Ceres continuou, as palavras escorrendo como um feitiço:

— Dá medo… eu sei. Porque tudo pode ser diferente depois. Mas é assim mesmo. É natural temer… quando se está diante do milagre.

Ela levou a mão de Kat até seu próprio peito, como se quisesse que ela sentisse o coração bater firme.

— O verdadeiro milagre, Kat… é o surgimento e a geração de um filho. Não é à toa que a chamamos de nossa Mãe. Ela gerou todos nós. E agora… você poderá ser mãe também. Tão boa quanto Ela.

Kat engasgou num soluço. Ceres, ainda ajoelhada, ergueu-lhe o queixo com delicadeza, forçando-a a encarar seus olhos.

— Não existe nada mais mágico — disse Ceres — do que o nascimento de um filho que também vai amar a Mãe, servir a Ela, aprender com Ela. Você tem sorte de estar aqui conosco, sob o manto dela.

As outras meninas já não diziam nada. Apenas acompanhavam a cena em reverente silêncio, sentindo a força daquelas palavras ecoarem fundo.

Ceres abriu um leve sorriso, sereno, quase maternal, mas ainda com aquela pontinha de autoridade que ninguém ousava contestar.

— Todo o ego que você sente, todo esse temor, e todo amor que você ainda vai sentir… tudo isso emana da Mãe. Ela é real. Ela é a única verdade que temos.

Então, fechou os olhos por um instante e, com voz firme, recitou o mantra:

— Mãe Ceres… que nos alimenta… que nos educa… e que nos devora…

As outras repetiram atrás dela, como num coro sagrado. Kat, mesmo chorando, tentou murmurar as palavras também, sentindo, pela primeira vez, um fio tênue de pertencimento em meio ao desespero.

Ela ainda soluçava, agarrada às mãos de Ceres, enquanto as meninas continuavam, quase em transe:

— Mãe Ceres… que nos alimenta… que nos educa… e que nos devora…

Foi então que Ana quebrou o coro. Sua voz seca, mas firme:

— É isso mesmo. É a nossa Mãe.

Ela cruzou os braços, fitando Kat como quem encara alguém que precisa, antes de tudo, aceitar a realidade.

— Não adianta fugir, nem se esconder. Aqui ninguém escapa dela, Kat. Nós todas… já fomos devoradas. E olha pra gente. — Esboçou um sorriso torto. — Estamos aqui. De pé.

Dru se aproximou devagar, os olhos marejados, quase um reflexo da própria Kat.

— É a nossa Mãe… — repetiu, a voz terna, quase um pedido. — Ela não vai te deixar sozinha, Kat. Nunca. Nem agora.

Baixinho, ajoelhou-se ao lado de Ceres e tocou o ombro da colega.

— Nós estamos aqui também. Somos todas filhas dela. Não importa o que aconteça… você é uma de nós.

Kat engasgou num choro abafado, mas conseguiu erguer a cabeça. Viu Ana, de pé, com a dureza de quem já aprendeu a suportar. Viu Dru, ao lado dela, oferecendo calor humano. E Ceres, fria e doce ao mesmo tempo, ainda segurando suas mãos, selando um pacto invisível.

Juntas, num só fôlego, elas repetiram, como se o banheiro fosse uma capela:

— Mãe Ceres… que nos alimenta… que nos educa… e que nos devora…

Kat fechou os olhos, deixou as lágrimas correrem e, pela primeira vez, sentiu que talvez… só talvez… não estivesse completamente perdida.

— Quem é o pai? — perguntou Ceres, com a serenidade de quem perguntaria as horas.

Kat hesitou, os olhos úmidos.

— Gene…

Dru e Ana trocaram olhares, quase em uníssono:

— Você tem que falar com ele.

— Sim — concordou Ceres. — Mas hoje é o jogo. Amanhã, sem falta, todas nós iremos juntas aos inspetores. Vai acabar tudo bem.

Ela pousou as mãos nos ombros de Kat e, ainda ajoelhada, sorriu com um frio afeto:

— Se for confirmado… você vai operar o milagre de Mãe Ceres. Dizem que é o melhor lugar para as novas mães.

Ceres ergueu-se devagar. Levantou uma das mãos, como em bênção, e concluiu:

— Mãe Ceres, que alimenta, que educa, que nos devora…

As outras repetiram, em sussurros:

— Mãe Ceres, que alimenta, que educa, que nos devora.

O banheiro estava calmo agora. Um silêncio denso, quase sagrado, pairava no ar como uma bruma. Ceres permanecia ajoelhada, segurando as mãos de Kat. Dru e Ana, que antes se odiavam, murmuravam o mantra em uníssono, como uma meditação coletiva. Era um transe — um ritual silencioso que só quem nasceu sob os olhos da Mãe Ceres entendia.

No fundo, todas sabiam como era lá… com as Mães. Todas já tinham estado lá pelo menos uma vez. Era o paraíso na terra, diziam. Um útero gigantesco feito de ternura e disciplina, onde Mães — biológicas ou de aluguel — cuidavam de cada uma como filhas legítimas. O cheiro suave de flores, o calor acolhedor, as vozes baixas recitando o mantra em corredores brancos. Algumas sonhavam com aquele lugar. Outras temiam ter que voltar cedo demais.

Mas todas sabiam que, se chegasse a hora, Mãe Ceres jamais as abandonaria.

E, no íntimo, sabiam também: mais cedo ou mais tarde, todos os filhos voltam para a Mãe.

O silêncio se instalou enquanto Kat se afastava, seus passos firmes, carregando o peso de um mundo que ainda tentava entender. As outras, imersas na aura da Mãe Ceres, permaneciam ali, entre o medo e a reverência, como fiéis diante de uma divindade.

Ceres, com olhar cortante e voz firme, quebrou a magia do instante. Sua presença lembrava a todas do preço da desobediência — uma promessa silenciosa de que o poder da Mãe jamais seria desafiado impunemente. O mantra ecoou entre elas, um cântico que era, ao mesmo tempo, promessa e prisão. Nutrindo-as, educando-as e devorando-as em sua essência.

Ali, naquele instante, todas eram filhas de uma Mãe implacável. E o futuro se desenhava entre a esperança e o medo, enredado no sagrado mistério que só Mãe Ceres podia revelar.

Dru olhou para Ana e Ceres, tentando romper a tensão:

— Vocês duas não vão mesmo tentar se entender? Agora não é hora pra briga.

Ana respondeu, o olhar cortante:

— Se entender com essa daí? Não sei nem como ela aguenta fingir essa pose de líder perfeita.

Ceres arqueou uma sobrancelha, sem perder a compostura:

— Perfeita? Por favor, Ana. Você acha que liderar é passar maquiagem e sorrir pras câmeras? Liderar é carregar os ossos desse lugar nas costas.

Ana riu amargamente:

— Ossos? Você é só uma peça no jogo, como todo mundo aqui. Só quer mandar porque morre de medo do que é de verdade.

Ceres deu um passo à frente, o olhar cravado nela:

— Medo? Quem tem medo aqui, Ana, é você. Medo de ser esquecida. Medo de não ser ninguém.

Dru tentou apartar, a tensão quase insuportável:

— Calma… calma. O que importa é que Kat está com a gente. Essa disputa de ego não vai ajudar agora.

Ana: (suspira, ainda tensa) Eu só não quero ver a Kat sofrer. Vocês falam em proteger, mas tudo o que eu vejo são regras e controle.

Ceres: Regras que salvam vidas, Ana. Quer ouvir uma verdade? Você tem medo de perder a sua liberdade. Mas aqui, não existe liberdade sem limites.

Ana: (voz baixa) Então você acha que Mãe Ceres vai cuidar da gente? Mesmo quando a gente quer fugir?

Ceres: (sorriso cínico) Quem foge, Ana? Aqui, ou você é filho de Mãe Ceres… ou é nada.

(Silêncio tenso. As meninas trocam olhares, um misto de ressentimento e medo, até que Ceres quebra o gelo com uma provocação afiada.)

Ceres: Vê se aprende, Ana… Eu não estou aqui pra agradar ninguém, muito menos pra fazer a boazinha. Se quiser um conselho: esquece a pose. Aqui ninguém engana ninguém.

Ana: (sorri irônica) Ah, é? Então me diz, líderzinha, como é que se lidera um bando de desajustadas sem perder a cabeça?

Ceres: (com arrogância fria) Fácil. Você simplesmente… não perde.

Ana: (rindo com escárnio) Já tô vendo que o espetáculo vai ser bom. Só não esquece que, no final, até as máscaras caem.

Dru permaneceu ali, observando Ana e Ceres se afastarem em direções opostas, os olhares ainda carregados de tensão, mas agora com um respeito enigmático entre elas.

Ela suspirou, balançando a cabeça. “Não entendo essas duas... parece que se odeiam, mas às vezes é como se falassem a mesma língua.”

Dru se lembrou do que viu no banheiro — o silêncio quebrado, o cuidado de Ceres com Kat, a forma quase maternal que ela assumira, tão diferente da líder fria que todos temiam. Havia algo de verdadeiro naquilo. “No meio do caos, pelo menos ali houve verdade. Será que elas percebem isso? Será que conseguem enxergar além das farpas?”

Com um leve sorriso, Dru respirou fundo e seguiu atrás de Ana, querendo guardar aquele momento como uma pequena esperança em meio ao caos.

Ela caminhava ao lado de Ana, tentando encontrar palavras que atravessassem a muralha fria que a outra erguia ao redor de si.

— Ana… — começou, hesitante. — Eu sei que a Ceres parece dura, implacável, mas acho que, no fundo, ela é tão sozinha quanto a gente. Sinto isso nela. Igual a você. Igual a mim.

Ana não olhou para Dru. Apenas apertou os lábios, o olhar fixo no chão.

— Fica longe de mim, Dru. — A voz saiu firme, cortante, sem deixar espaço para réplica.

Dru engoliu o nó na garganta, mas não desistiu.

— Eu tento entender você. Tento encontrar algum vestígio… algo que mostre quem você realmente é, por trás dessa distância toda. Mas só vejo um muro que machuca.

Ana respirou fundo, desviando o olhar.

— Talvez eu só esteja descontando em você o que não posso descontar no Daime. Ele me despreza, me ignora… e eu acabo virando isso aqui. — Ela fez um gesto vago, como quem engole a própria sombra.

Dru sentiu a dor crua nas palavras, e o silêncio que veio depois só a tornou mais real.

— Eu me desprezo por querer seu amor, mesmo sabendo que você não quer. Isso dói mais do que qualquer outra coisa.

As duas ficaram em silêncio, dividindo uma tristeza que nenhuma delas ousava nomear.

Ana permaneceu imóvel por alguns segundos, encarando o corredor vazio à frente. As palavras de Dru ecoavam, pesadas como chumbo. Ela sempre se via como a mais solitária — afinal, ninguém entendia sua dor com Daime, ninguém sabia o peso de viver à sombra de Ceres. Mas, naquele instante, olhando para Dru, percebeu:

Dru não tinha nem a si mesma. Nem a própria voz, nem o próprio chão. Sempre à margem, mendigando um amor que não viria de Ana, e agora prestes a perder também Theo, mesmo sem nunca tê-lo de verdade.

Um peso diferente se instalou no peito de Ana. Pena. Uma pena que ela não queria sentir, mas estava lá.

Sem dizer nada, respirou fundo, virou as costas e se afastou em silêncio. Seus passos ecoaram no corredor, secos, como um último aviso de que ainda estava ali.

E quando desapareceu na curva, só restou a sensação amarga: apesar de todo o teatro, toda a disputa e toda a fachada dura, talvez a mais sozinha de todas fosse Dru.

Ana ajeitou a alça da bolsa no ombro, os olhos, que sempre cortavam como lâminas, se demoraram um segundo a mais sobre Dru. Nesse segundo havia algo difícil de nomear. Não era carinho, nem amizade. Mas também não era desprezo puro.

Dru, sentada no banco do corredor, enxugava discretamente as lágrimas, sem coragem de levantar os olhos. Quando sentiu o olhar de Ana sobre si, encolheu-se, esperando a próxima farpa.

Mas ela não veio.

Ana apenas respirou fundo, baixou os olhos, e seguiu para a porta. Seu cuturno ecoou pelo corredor vazio. Nenhuma palavra. Nenhuma humilhação final. Apenas o silêncio.

E, por um instante — breve como um soluço — Dru sentiu que o silêncio doía mais do que qualquer insulto.

Ou talvez não.

Talvez, só talvez, fosse o contrário.

Talvez, naquela quietude gelada, houvesse um fio de compaixão.


Ana (pensamento, enquanto caminha pelo corredor):

Eu podia ter dito alguma coisa. Qualquer coisa. Um “vai ficar bem”, um “força”, um “você não merece isso”. Mas eu sei que não seria sincero. Não agora. Ela não entende…

Não é nojo. Nunca foi nojo. É só… não é pra ser. Não entre a gente.

Ela me olha como se eu fosse a única coisa que restou pra ela se agarrar, e isso me assusta. Porque eu não tenho nada pra dar. Eu não tenho nada nem pra mim.

Melhor o silêncio. Melhor não mentir. Melhor não enfiar mais uma farpa onde já sangra.

É cruel, eu sei. Mas é o que dá pra ser.

Não é nojo… só não é pra ser.


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