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Capítulo 7: A Queda de Ceres I – A Lenda da Fome

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A Queda de Ceres I – A Lenda da Fome

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A Queda de Ceres I – A Lenda da Fome

Dizem que, quarenta anos atrás, o coração do continente parou de bater.

Foi quando Mãe Ceres, em sua busca por glória eterna, aceitou trocar a vida de seus filhos pelo futuro das estrelas.

Naquele tempo, Ceres já era um jardim entre desertos. Seus campos de trigo, arroz, milho e soja alimentavam cidades inteiras, e seus cientistas sonhavam mais alto que qualquer outro povo. Queriam enviar sementes ao espaço, estudar a radiação cósmica e criar grãos que jamais morreriam. Mas o céu tinha um preço que nem seus cofres podiam pagar.

Então, no Conselho de Guerra, nasceu o plano que mancharia a história com cinzas e ossos.

— Se a fome não vier até nós, nós a traremos.

Criaram uma praga invisível, uma peste de laboratório, capaz de destruir qualquer lavoura do continente — até mesmo as de Ceres. Era uma traição ao próprio ventre que os nutria. Quando o vento levou as pragas, o silêncio caiu sobre os campos. O milho apodreceu, o trigo secou, e a terra ficou nua.

Foi o início dos Cinco Anos de Fome.

Pela primeira vez, os cidadãos de Ceres conheceram a morte lenta da desnutrição. Crianças choravam até perder a voz. Adultos desfaleciam sobre os sulcos vazios da terra. Alguns cientistas morreram abraçados às sementes guardadas em cofres, incapazes de plantar a salvação antes da hora certa.

Dizem que a primeira Mãe Ceres fez greve de fome em segredo, como oferenda ao sofrimento de seus filhos. Que definhou diante dos olhos de poucos, até que outra Mãe, já preparada, tomasse seu lugar. Para o povo, ela jamais morreu: era eterna, incorruptível. E a fé foi a única comida que restou.

No quinto ano, veio o milagre profano.

As sementes resistentes foram reveladas. Os campos floresceram como se nada houvesse acontecido. O continente inteiro, ajoelhado e faminto, recebeu a salvação das mesmas mãos que haviam provocado a fome. Ceres se tornou, ao mesmo tempo, santa e tirana.

Milhões de corpos ficaram para trás, mas os cofres de Ceres se encheram. E seus cientistas, enfim, ergueram os olhos ao espaço. Sobre ossos, fome e silêncio, nasceu a estação que levaria suas sementes para as estrelas.

E o continente jamais esqueceu: a vida que recebiam de Ceres podia ser retirada a qualquer momento.


Prólogo – A Queda e Ascensão de Ceres (Versão Arquivo Queimado)

(Página carbonizada, cheiro de fumaça antiga)

[Trecho recuperado]

Quarenta anos atrás, o coração do continente […].
Mãe Ceres aceitou trocar a vida de seus filhos […] futuro das estrelas.

Ceres era um jardim entre desertos. Seus campos de […] e soja alimentavam cidades inteiras.

No Conselho de Guerra nasceu o plano […].
"Se a fome não vier até nós […]" (queimado)

Criaram uma praga invisível […].
O milho apodreceu, o trigo secou, e a terra ficou nua.

(As bordas da página estão pretas; letras faltando)


ARQUIVOS DA FOME – ACESSO RESTRITO
(Carimbo desbotado, manchas escuras)

Ano 1 da Fome
"Hoje comi só uma raiz amarga que encontrei […].
Mamãe diz que o racionamento vai voltar, mas o vizinho morreu ontem […]."

Ano 2 da Fome
"Enterrei meu filho ontem. Ele tinha cinco anos.
Vocês prometeram que Mãe Ceres nunca […]."

(Página rachada – o resto é pó)

Ano 3 da Fome
"Roubei pão. Me perdoem.
Se me matarem, minha filha ainda terá amanhã."

Ano 4 da Fome
"As chaves do cofre pesam mais que minha própria vida […].
Ouço os gritos lá fora e sei que tenho a cura na mão […]."

Ano 5 da Fome
"Jejuo há quarenta dias.
O corpo falha, mas o plano floresce.
Que meus filhos […].
Que o mundo […].
Que as estrelas me recebam."

(A última frase está queimada; só restou cinza na borda)


[Trecho do Relatório sobre o Milagre – parcialmente ilegível]
O milagre veio. As pragas sumiram. O continente se ajoelhou.
Ninguém questionou de onde veio a fome, ninguém ousou dizer […].
Com os cofres cheios, Ceres iniciou a obra máxima:
a primeira estação científica no espaço.
Um templo em órbita, nascido de ossos.

(Há manchas que lembram impressões digitais, como se alguém manuseou antes de queimar.)


Nota Final (manuscrita, quase ilegível)
"Se você leu até aqui, já é cúmplice.
Queime este arquivo ou ele queimará você."

"Lembrem-se de nós. Fomos o solo sobre o qual Ceres cresceu para tocar as estrelas."

União do Conselho do Continente e as Tensões com Ceres I

No vasto território do Conselho do Continente, a nação fundamentalista Sagrado Opus Omni, situada a oeste de Ceres, ergue-se como a única voz que ameaça abertamente Ceres I. Acusam a nação de blasfêmia por “tocar os céus”.

Enquanto isso, outras nações adotam posturas pragmáticas:

  • Oplon, regime supremacista, apoia discretamente Ceres I, admirando sua audácia, mas aguarda provas concretas antes de investir.

  • Garpan, com sua indústria petrolífera devastadora, vê potencial na aliança com Ceres, mas suas cinzas negras envenenam o continente e mancham qualquer tentativa de se passar por herói.

  • Fiume, inimiga declarada de Garpan, torce em silêncio pela queda do projeto, sabendo que qualquer sucesso de Ceres favorece Garpan economicamente.

Mãe Ceres, estrategista, via as tensões como combustível. Para ela, o caos diplomático era fértil: onde outros viam conflito, ela via oportunidade.


Reunião do Conselho – O Céu em Disputa

A grande sala parecia pesar de tanto silêncio.

Ao centro, uma longa mesa de obsidiana refletia as expressões tensas dos líderes reunidos. O ar estava denso, quase sólido.

O representante do Sagrado Opus Omni, envolto em uma túnica escarlate bordada com símbolos de chamas, foi o primeiro a erguer-se:

— Cada vez que Ceres atravessa a atmosfera com sua estação, somos forçados a sacrificar cidadãos. Um tributo exigido para apaziguar os deuses ofendidos.

Fez uma pausa.

— O que eles chamam de progresso, nós chamamos de blasfêmia. Tocar os céus, manipular a vida, desafiar o sagrado — é arrogância.

O embaixador de Garpan, corpulento e suado, inclinou-se para o microfone:

— Respeitamos sua fé, Opus Omni, mas fé não enche estômagos. A ciência de Ceres I pode ser a chave para nossa sobrevivência frente às mudanças climáticas.

A representante de Oplon, pálida, olhos cortantes, soltou um riso baixo:

— E Garpan fala como se não estivesse afogando o continente em petróleo. Nós apoiamos Ceres I, mas só investiremos se houver garantias. Pragmatismo exige cautela.

No canto, a delegada de Fiume cruzava os braços, sua voz suave, mas cortante:

— Se der certo, Garpan enriquecerá. Se falhar, o continente pagará o preço. Eu digo: deixem a estação subir… e cair sozinha.

O embaixador de Arcádia pediu a palavra. Magro, elegante, sua voz era uma lâmina:

— Somos contra Ceres I.

Ele deixou a frase pairar antes de continuar:

— O céu não tem dono. E todos aqui sabem disso.

Um murmúrio percorreu a sala. Mesmo Oplon e Garpan assentiram, relutantes.

Era uma verdade incontestável: o espaço era de todos — e de ninguém. Uma estação em órbita era, acima de tudo, um alvo.

No fundo da sala, Mãe Ceres observava em silêncio. Seus olhos fixos na janela, onde a estação, invisível a olho nu, orbitava acima de suas cabeças — uma sentinela entre as estrelas e a terra.

O primeiro a falar foi o representante do Sagrado Opus Omni, envolto em uma túnica escarlate bordada com símbolos de chamas. Sua voz ressoou grave, como um sermão:

— Cada vez que Ceres atravessa a atmosfera com sua estação, sacrificamos cidadãos. Um para cada travessia. Um para cada afronta aos deuses!

A sala silenciou, o eco de suas palavras parecia arranhar o teto de vidro.

— Vocês chamam isso de progresso. Nós chamamos de blasfêmia.

O embaixador de Garpan, corpulento, o rosto suado sob as luzes, inclinou-se para o microfone com desdém:

— Respeitamos sua fé, Opus Omni, mas fé não enche estômagos. A ciência de Ceres I pode ser nossa única chance contra as mudanças climáticas que todos fingem ignorar.

A representante de Oplon, pálida, olhos afiados como navalhas, soltou um riso seco:

— E Garpan fala como se não estivesse afogando o continente em petróleo. Nós apoiamos Ceres I, mas não seremos tolos de investir sem garantias. Pragmatismo exige cautela.

No canto, a delegada de Fiume, com os braços cruzados, disparou com frieza:

— Se der certo, Garpan enriquecerá. Se falhar, o continente pagará o preço. Eu digo: deixem a estação subir… e cair sozinha.

Foi então que Arcádia pediu a palavra.

O embaixador, magro e elegante, falou com uma clareza que cortava como lâmina:

— Somos contra Ceres I.

Deixou o peso da frase pairar sobre a sala antes de continuar:

— O céu não tem dono. E todos aqui sabem disso.

Um murmúrio percorreu a mesa. Até Oplon e Garpan assentiram, relutantes.

Era uma verdade incômoda: o espaço pertencia a todos — e a ninguém. Uma estação em órbita era, acima de tudo, um alvo.


Bastidores

Os microfones desligaram. O protocolo anunciou uma pausa.

Foi quando os verdadeiros jogos começaram.

Garpan cochichava com Fiume, buscando garantias em troca de futuras concessões.

Oplon sussurrava sobre “medidas corretivas” — sabotagens silenciosas, caso Ceres crescesse demais.

Um assessor de Arcádia, discreto, deslizou um bilhete dobrado ao enviado do Sagrado Opus Omni. A mensagem era simples, escrita em letras firmes:

“Se fornecerem voluntários para um ato de fé, nós forneceremos o míssil.”

As alianças costuravam-se nas sombras, longe dos discursos oficiais.

No fundo da sala, em seu trono discreto, Mãe Ceres observava tudo. O cetro apoiado ao lado, os olhos fixos nos movimentos sutis, como uma rainha que já conhecia o resultado do jogo.

A Declaração de Mãe Ceres

Quando todos se sentaram novamente, ela finalmente se levantou.

O salão mergulhou em silêncio.

Sua voz era serena, mas cada sílaba caía como pedra em lagoa:

— Eu sei que o céu não tem dono.

Girou o globo holográfico de Ceres I no centro da mesa, a luz refletindo em seu rosto.

— Sei que minha estação pode ser destruída amanhã. Sei que cada segundo em órbita é um risco.

Fez uma pausa, mirando cada um dos líderes com um olhar que não pedia aprovação.

— Mas em meses, Ceres I produzirá pesquisas que gerarão bilhões.
Sementes resistentes. Relatórios transmitidos via rádio.
Mudaremos a história — em meses.

Ergueu a mão, apontando para o holograma que girava lentamente.

— A nossa Era de Ouro começou.

Fez um breve sorriso, e seu olhar brilhou como aço polido:

— E quando ela florescer… vocês verão que, mesmo que o céu não tenha dono, a terra tem quem a alimente.

O silêncio que se seguiu não era de aprovação, nem de medo.

Era o silêncio de quem percebe que o futuro já estava decidido.


O Silêncio da Rainha

A sala de comando ficava no 33º andar da Torre de Ceres.

Não havia janelas. Apenas projetores, iluminando mapas do continente e a órbita de Ceres I. A luz azulada desenhava no rosto de Mãe Ceres olheiras discretas e uma serenidade impenetrável.

Sobre a mesa de titânio, três pastas lacradas aguardavam:

  1. Perdas Humanas

  2. Andamento do Projeto

  3. Relatórios Financeiros

Ela abriu a terceira.

Lucros, empréstimos, reservas em ouro, promissórias de nações ajoelhadas diante da fome e da ciência de Ceres.
O continente inteiro reduzido a números.

A segunda pasta mostrava gráficos ascendentes:

  • Taxa de germinação em microgravidade: 217% acima do previsto

  • Relatório de radiação cósmica: promissor para sementes resistentes

  • Primeiro lote pronto para reentrada: 11 dias

Mãe Ceres sorriu de leve.

A pasta de Perdas Humanas ela não abriu.

A mão repousou sobre o lacre. Fechou os olhos por um instante e deslizou-a para o canto da mesa.

Não precisava ver os números. Já sabia o preço do milagre.


O Contato de Silencium

O projetor principal acendeu com um zumbido baixo.

A silhueta do Chanceler Áquila surgiu, envolta em tons de verde e dourado, como se até o projetor temesse a presença de um predador.

— Mãe Ceres — disse ele, com aquele sotaque arrastado de Silencium — vejo que Ceres I ainda paira sobre nós. Arcádia não atirou?

— Ainda não — respondeu ela, cruzando as mãos sobre a mesa. — E se atirarem… errarão.

Áquila riu baixo, o riso de quem já comprou e vendeu vidas na diplomacia.

— Recebi seu pedido de suprimentos. Metais raros, combustível secundário e… — ele leu a lista com prazer — …ah, os brinquedos de sempre.

Não são brinquedos, Chanceler. — disse Mãe Ceres, sem alterar o tom. — São sementes que podem comprar o futuro.

Áquila sorriu, como quem já esperava a resposta.

E o que você me dá em troca, Mãe Ceres?

Ela se aproximou do projetor, e por um instante, sua sombra pareceu maior do que ela mesma. A sala de comando se encolheu diante da presença dela.

O poder de não passar fome enquanto o mundo queima.

O silêncio que seguiu durou três segundos. Três segundos pesados.

Então Áquila inclinou a cabeça, em um gesto que misturava respeito e cinismo.

Feito. Silencium continua amigo de Mãe Ceres… enquanto Mãe Ceres continuar amiga de Silencium.

O projetor desligou com um estalo seco.

Mãe Ceres permaneceu imóvel, como se o fim da transmissão fosse apenas um detalhe. Ela já sabia a resposta antes mesmo de Áquila.

A guerra nunca é vencida no momento do tiro — mas no instante anterior, quando o inimigo percebe que já perdeu.

O Peso do Comando

Sozinha, Mãe Ceres caminhou até o painel de vidro, onde a órbita de Ceres I pulsava em projeção.
A luz do sol refletia na estação, fazendo-a brilhar como uma estrela artificial.
Por um instante, ela falou consigo mesma, num sussurro que nem a sala parecia digno de ouvir:

A minha Era de Ouro nasceu de cinzas.
Que os céus me perdoem… se conseguirem.

Atrás dela, a pasta Perdas Humanas permanecia fechada. Não era preciso abri-la. Os números já estavam gravados em sua pele.


O Crepúsculo de Mãe Ceres

O céu daquela noite estava limpo, irreal, como se o próprio mundo respirasse antes do golpe.
Do terraço da Torre de Ceres, ela observava o azul-escuro engolir os últimos vestígios do pôr do sol.
Lá em cima, solitária, Ceres I cortava o firmamento, uma joia entre sombras.

Ela sabia.

Não havia alarmes. Nenhum sinal no rádio. Apenas instinto. Algo estava vindo.

O mundo reteve o fôlego.

Então, um risco de luz rasgou o céu.

Um clarão — rápido demais para uma estrela cadente — atingiu a estação.
Ceres I explodiu em silêncio, desabrochando em mil fragmentos que refletiram o luar e o brilho distante das cidades.
Era uma chuva de diamantes e fogo, caindo em câmera lenta.

Mãe Ceres não gritou.
Não correu.
Apenas deixou que seus olhos marejassem.

Observava, sem desviar, a destruição coroando sua obra.
Cada pedaço incandescente riscava o céu como uma assinatura de tragédia.

Era como se o universo, por um instante, houvesse se curvado para assistir ao espetáculo de sua ruína.

Meu milagre morreu belo… — sussurrou, com um sorriso quebrado. — E o continente vai chorar sangue por ele.


Prólogo – Arquivos da Torre de Ceres

Estes registros foram resgatados em fragmentos carbonizados, ocultos nos porões da Torre de Ceres.
O selo oficial dizia “Confidencial – Conselho de Guerra”. O fogo consumiu o restante.

Se você está lendo isto, já é cúmplice da história que nunca será contada ao povo do continente.

Quarenta anos antes da chamada Era de Ouro, Mãe Ceres ousou desafiar os céus.
A mulher que transformou fome em poder sonhava em plantar sementes nas estrelas — onde radiação e silêncio forjariam colheitas que nem inverno, nem praga poderiam destruir.

A ciência prometia milagres.
A política cobrava sangue.

O plano de Mãe Ceres começou com a fome.

Por cinco anos, pragas devastaram o continente — pragas criadas nos próprios laboratórios de Ceres.
Os cidadãos sentiram a boca seca do desespero.
Milhares morreram.
E, no ápice do sacrifício, a primeira Mãe Ceres jejuou até a morte, para que sua substituta assumisse o trono com a fé intacta.
O continente ajoelhou.
Os cofres encheram.

E Ceres I nasceu — erguida com o metal de Silencium, os favores de Garpan, e o silêncio cúmplice de Oplon.

Mãe Ceres sabia dos riscos.
Sabia que, para cada semente germinada em órbita, haveria milhares de mortos na terra.
Sabia que Arcádia tramava: o fanatismo de um lado, os mísseis do outro.
Sabia que o céu não tinha dono — mas também sabia que a terra só comeria do que Ceres decidisse plantar.

Quando Ceres I subiu, oito astronautas acompanhavam o milagre.
Lá de baixo, o continente olhava para o céu com ódio e reverência misturados.

Naquela noite clara, Mãe Ceres subiu ao terraço da Torre.
O vento cheirava a pedra e metal.
E foi ali, sozinha, que ela viu sua ruína nascer linda nos céus.

Um risco de luz cortou o firmamento.
O impacto — mudo, perfeito — transformou Ceres I em um buquê de fogo e diamantes.
Fragmentos brilhavam como estrelas que choravam, espalhando-se no céu noturno.
Oito filhos de Ceres morreram em órbita.
E o continente assistiu ao espetáculo sem compreender que a Era de Ouro começava em cinzas.

Mãe Ceres sorriu.
Seus olhos estavam marejados, mas não era um sorriso de vitória. Nem de derrota.
Era o sorriso de quem entende que beleza e tragédia sempre andam de mãos dadas.

Meu milagre morreu belo, — sussurrou Mãe Ceres.
E o continente vai chorar sangue por ele.


No dia seguinte, os jornais estamparam em letras frias:
INCIDENTE EM ÓRBITA: CERES I PERDIDA

Nenhuma prova. Nenhum culpado. Nenhuma estátua para os oito mortos.
Mas nas sombras da história, nós — cúmplices por termos lido o que não devíamos — sabemos:
A Era de Ouro começou com fome, fogo e silêncio.


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