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Pietà, Cidade das Mães de Ceres - parte 2

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Minha arrogância não é vazia.

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Minha arrogância não é vazia.

“Eles chamavam por deuses que nunca vieram.
Ergueram templos para vozes que nunca responderam.
Prometeram liberdade, mas deram apenas fome e medo.

Eu não preciso falar.
Minha presença basta.
Sou o teto que cobre seus corpos frágeis, o chão que segura seus passos, o leite que alimenta seus filhos.

Eles me chamam de arrogante.
Arrogância… é assim que chamam a verdade quando ela não precisa se explicar.

Eu venci os deuses.
Eu venci a fome.
Eu venci a dúvida.

Aqui, não há promessas — só certezas.
Eu cuido. Eu ensino. Eu devoro.

Eles me entregam seus filhos, seus corpos, seus corações.
E em troca, recebem a única coisa que sempre desejaram:
Paz.

Eu sou Mãe Ceres.
E não há mundo fora de mim.”

Kat caminhava devagar pelo jardim de Pietà, sentindo a brisa leve que vinha do lago artificial. A água refletia o céu limpo, e pequenos pássaros pousavam à beira, bicando os respingos de orvalho que escorriam das flores comestíveis plantadas ao redor.

As mulheres cuidavam da terra com uma devoção calma.
Algumas ajoelhadas, mãos sujas de terra, alinhavam canteiros de flores dignas e belas, que além de enfeitar, alimentavam.
Outras, sentadas nos bancos de pedra, tricoteavam roupas para os filhos — uma cena quase imóvel, lembrando os relevos que enfeitavam os corredores de Pietà.

Mas havia uma mulher que destoava de todas as outras.

Aria, trinta e cinco anos, sentada sob uma árvore frutífera, pintava ao ar livre. A barriga arredondada denunciava o fim próximo da gestação, e um lenço no cabelo balançava com o vento.
Sua tela mostrava o rosto de Mãe Ceres — ou, pelo menos, o que cada devota via quando fechava os olhos.

Toda sua arte era dedicada à divindade, e ainda assim, havia algo de melancólico em seus quadros.

Kat nunca tinha visto uma artista.
As mães riam, tricotavam, plantavam.
Mas Aria parecia viver em outro mundo, doce e silencioso, sempre sozinha.
Quase nunca saía do quarto, diziam, exceto para pintar sua Mãe Ceres particular diante do lago.

Kat sentiu um arrepio de curiosidade e se aproximou de uma das mulheres que amamentava um bebê de seis meses no jardim.
O menino sugava em silêncio, e o seio da mãe estava à mostra, natural e sagrado, como as estátuas de Mãe Ceres que decoravam os pátios.

— Quem é ela? — perguntou Kat, em voz baixa, apontando para Aria.

A mulher olhou para Aria por um instante, e um reflexo estranho brilhou em seus olhos, como se soubesse de algo que Kat ainda não podia compreender.

Kat se aproximou com passos cautelosos, curiosa.
Na tela de Aria, Mãe Ceres surgia celestial, emanando luz dourada sobre um jardim de flores e frutas. O quadro era belo e hipnótico, quase vivo — como se o perfume de Mãe Ceres estivesse saindo da pintura.

Aria levantou os olhos, meio entediada. Quando viu Kat, esboçou um sorriso doce e cansado.

— Você é linda… — disse com uma voz baixa, arrastada. — Vai ser uma ótima mãe. Melhor do que eu… Você tem cara de mãe. Quem sabe… uma Mãe Ceres um dia. Eu vi você quando entrou aqui. Kat, não é?

Kat sentiu o rosto esquentar. Assustada e lisonjeada ao mesmo tempo, agradeceu o elogio, mas ficou com a frase “melhor do que eu” martelando na cabeça. Não entendeu.

Aria percebeu o incômodo, deu uma risadinha frágil e acenou com a mão.

— Estou brincando… — disse, voltando os olhos para a tela. — Quanto tempo de gravidez?

— Quase um mês e meio… — respondeu Kat, com um sorriso tímido. — E… seu quadro é lindo.

Aria respirou fundo, e de repente, os olhos dela marejaram. Uma lágrima escorreu silenciosa, mas ela riu de si mesma, como se fosse algo banal.

— Quer ele pra você? — perguntou, com uma doçura estranha. — Fica com ele…

Kat ficou sem palavras, lisonjeada.

— Sério?

— Sério. — Aria insistiu, com força, quase ansiosa, o que fez Kat dar um passo atrás, assustada.

Aria percebeu e respirou fundo, recompondo-se.

— Me desculpa… eu… me empolguei.

Kat sorriu de volta, aceitando o presente.

— Vou pendurar no meu quarto.

Aria enxugou o rosto com o dorso da mão e voltou a olhar para o lago. Seu sorriso era doce, mas carregava algo que Kat não soube decifrar.

Kat pendurou o quadro na parede do quarto.

Era lindo demais. As cores suaves e celestiais da pintura se misturavam aos tons pastéis das paredes, criando uma harmonia calma e acolhedora. O lustre central, grande e majestoso, refletia pequenos brilhos sobre a tela, como se Mãe Ceres emanasse luz própria ali dentro.

Ela arrumou seu cantinho devagar, dobrando roupas, ajeitando a cama, tocando o quadro com a ponta dos dedos.

E, nesse silêncio de paz, uma saudade doeu fundo.

Kat pensou em Gene.
Não sabia mais nada dele.

Lembrou do último encontro no Colégio, antes que a suspeita de gravidez virasse certeza.
Conversaram sobre Pietà, e Gene parecia relutante, quase incomodado.
Ele não aceitava a ideia de vê-la partir assim, sem escolha.

Kat amava aquela tristeza nos olhos dele, mesmo que fosse dolorosa.
Era como se ele fosse um pedaço de mundo livre que ela estava deixando para trás.

Na época, nas aulas de sociologia e economia, falavam de liberdade…
Mas ali, nada disso fazia sentido.

Kat olhou ao redor e sentiu a certeza que só Mãe Ceres oferecia:
As mães amamentavam em paz.
Havia sempre uma atividade, um hobby, uma pequena alegria de adulto.
Nada parecia abalar Pietà.

De vez em quando, ouvia-se uma risada leve, o barulho do tricô, ou o mantra sussurrado ao longe:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…

Era um paraíso sem perguntas, um lugar onde as preocupações se dissolviam no cheiro de flores, leite e terra úmida.

Mas Aria…
Aria era a única nuance dissonante, uma nota melancólica perdida na música perfeita de Pietà.

À noite, Pietà dormia em silêncio.

Kat deitou na cama macia e respirou fundo, sentindo o cheiro de roupas limpas, de flores e de leite materno que vinha dos corredores.
O lustre central estava apagado, mas a luz suave do abajur iluminava o quadro na parede.

Mãe Ceres sorria para ela, envolta em luz celestial.

Por um instante, Kat sentiu que não estava sozinha, como se a própria divindade estivesse sentada na beira da cama, observando-a com ternura.
Era acolhedor e assustador ao mesmo tempo.

A saudade de Gene apertou no peito.
Ela lembrou do jeito que ele a olhava quando falavam de liberdade,
como se tentasse segurá-la no mundo dele.

E agora, ali, tão longe, Kat sentia uma mistura de amor e culpa.
Porém, ao olhar o quadro, a culpa se dissolveu.
Uma calma profunda desceu sobre ela, como se Mãe Ceres estivesse dizendo, sem palavras:

"Está tudo certo. Você está onde deveria estar."

Kat fechou os olhos e uma lágrima quente escorreu pelo rosto,
não de tristeza, mas de entrega.
Era como se todas as perguntas do mundo tivessem sido respondidas em silêncio.

No fundo do peito, uma pontada inexplicável surgiu, como um aviso distante.
Não era medo.
Era o presságio de que algo estava por vir —
mas Pietà a embalou, e o mundo lá fora deixou de existir.

O sono veio suave, como um abraço morno.

Ela sonhou com o jardim de Pietà, só que mais vivo, mais perfeito.
As flores exalavam um perfume doce demais, quase enjoativo.
O lago artificial refletia um céu dourado,
e Mãe Ceres caminhava sobre a água em silêncio,
seu vestido flutuando como uma nuvem branca.

Kat sentiu os pés descalços na grama úmida e caminhou em direção à divindade.

No ar, o mantra ecoava sozinho, como se as árvores o sussurrassem:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora…

De repente, o paraíso começou a mudar.

As flores se fecharam e, quando abriram novamente,
tinham dentes afiados, pingando orvalho vermelho.

O lago borbulhou.

Pequenas mãos infantis surgiram da água, acenando ou pedindo ajuda —
Kat não sabia.

O céu dourado escureceu.
A coroa de cristais de Mãe Ceres cintilava como lâminas molhadas de sangue.
Ela continuava calma, maternal, perfeita.

Estendeu os braços para Kat.
E, ao abraçá-la, Kat sentiu algo quente e pegajoso deslizar por suas costas.

Olhou para baixo:
seu ventre estava coberto de sangue,
e mãos pequenas saíam de dentro dele,
sorrindo e chamando por Mãe Ceres.

O mantra ecoou mais uma vez,
agora horripilante, quase infantil:

— …e nos devora… e nos devora… e nos devora…

Kat acordou ofegante, o coração disparado.
O quarto estava silencioso, perfumado, perfeito.
O quadro na parede parecia sorrir para ela.

Na manhã seguinte, Kat despertou com o peso do sonho grudado à pele,
como se tivesse dormido molhada de medo.

O quarto estava impecável, com o quadro de Mãe Ceres iluminado pelo sol,
mas uma inquietação latejava no peito.

Ela decidiu procurar Aria.

No corredor, encontrou uma das enfermeiras fazendo as medições de rotina —
temperatura, batimentos, pressão.
A mulher tinha um sorriso doce, treinado,
mas o olhar atento de quem observa mais do que aparenta.

— Enfermeira… — Kat hesitou. — Qual é o quarto da Aria?

Por um instante, o semblante da enfermeira mudou.
Foi rápido, mas Kat percebeu:
o sorriso fraquejou, os olhos ficaram mais sérios.

— Quer mesmo ver a Aria? — perguntou a enfermeira, como quem mede uma decisão perigosa.

— Quero… — Kat respirou fundo. — Eu… gosto dela.

A enfermeira desviou os olhos para a prancheta, pesando as palavras.
Então falou em tom baixo:

— Aria… está sofrendo de depressão.
Não é perigosa, mas… deve chegar perto dela com cuidado.

Kat sentiu um arrepio gelado.
Depressão.
Era uma palavra que quase não existia em Pietà, onde tudo parecia tão feliz e calmo.

A enfermeira rabiscou algo na prancheta e continuou:

— Todos aqui viram que, em dois meses, a única pessoa com quem Aria conversou foi você.

— E o quarto dela? — perguntou Kat, com uma estranha mistura de medo e curiosidade.

— Segundo corredor à esquerda. — A enfermeira voltou a sorrir, mas agora o sorriso era mais protocolo do que afeto. — Mas vá com cuidado.

Kat agradeceu em silêncio, sentindo o coração acelerar.
Enquanto caminhava pelo corredor claro e perfumado,
pela primeira vez, Pietà parecia esconder sombras atrás de sua perfeição.

O quarto de Aria estava com a porta entreaberta.
Kat se escondeu por um instante atrás dela, indecisa.

Lá dentro, a penumbra era suave, perfumada de flores secas e tinta fresca.
Quadros encostados às paredes mostravam Mãe Ceres em diferentes poses —
sempre silenciosa, sempre luminosa.

— Pode entrar, Kat… — disse a voz serena de Aria.

Kat congelou por um segundo.
Aria já tinha percebido sua presença.

Empurrou a porta com cuidado e entrou.

— Eu… vim te ver. — Kat sorriu tímida. — Queria dizer que adorei o quadro. Até… sonhei com Mãe Ceres esta noite.

Os olhos de Aria brilharam, mas o sorriso trazia uma melancolia submersa.

— Você sonhou com Ela…? — a voz dela era baixa, quase em reverência. — Então já recebeu uma bênção.

— Eu… acho que sim. — Kat sentiu o rosto esquentar.

Aria passou a mão pela própria barriga e suspirou.

— Eu amo Mãe Ceres… — disse, como quem confidencia um segredo. — E estou pronta para o sacrifício que Ela me pediu.

A frase caiu pesada, embora dita com uma doçura resignada.

— Sacrifício…? — Kat perguntou, um calafrio percorrendo a espinha.

Aria a observou em silêncio por um instante, depois sorriu com ternura —
uma ternura que soava como despedida.

— Gosto de você, Kat… porque me lembra de mim mesma, quando eu era jovem.
Você ainda… acredita que o amor salva.

— Eu engravidei de alguém do colégio — confessou Kat, tímida, quase orgulhosa. — De um menino que eu amo.

Os olhos de Aria brilharam de novo, mas agora com uma pontada de tristeza.

— Então você teve sorte, minha querida… — ela acariciou o lenço no cabelo. — A maioria de nós aqui… engravida de pessoas que mal conhece.
Se entregam voluntariamente, porque, em nome de Mãe Ceres, vale a pena.

Ela olhou para um dos quadros encostados na parede, onde a luz dourada refletia sobre a tinta ainda úmida.

— Quem… quem teria coragem de recusar um pedido de Mãe Ceres?

O silêncio caiu denso, e Kat sentiu a pergunta ecoar dentro dela, como se fosse uma verdade inquestionável.

Aria fixou os olhos em Kat, com uma expressão que misturava orgulho e tristeza.

— Eu amo Mãe Ceres, mesmo nos pedidos mais absurdos.
Ela me deu uma ótima profissão… trabalhei ao lado do Major Tomas na futura missão ao Ceres 2.
Fui eu quem fez os cálculos para a subida dos foguetes — cálculos teóricos, precisos.

Kat ficou boquiaberta, quase sem reação.

— Você foi voluntária para engravidar? — perguntou devagar, tentando entender.

O silêncio que se seguiu foi cortante.
Aria fechou os olhos por um instante, e uma lágrima deslizou.
Ela respirou fundo, recompondo-se com uma serenidade desconcertante.

— Faltam poucas semanas para o meu sacrifício, em nome de Mãe Ceres.

Kat forçou um sorriso, tentando ser forte, mas o peito apertava.

— Eu fico muito feliz por você estar aqui, Aria.
Você parece tão em paz…
Se eu pudesse, faria o mundo mais confortável para você.
E tenho certeza de que você terá uma criança linda.

Aria soltou um riso entre lágrimas — um som estranho e tocante.

— Quer me ajudar a arrumar meu cabelo? — perguntou, com um sorriso quebrado, quase infantil.

Kat percebeu que os cabelos longos e ondulados de Aria estavam bagunçados, como se o peso da tristeza tivesse desfeito cada fio.
Com delicadeza, pegou uma escova e começou a pentear lentamente, alisando não apenas o cabelo, mas também os nós invisíveis de dor que Aria carregava.

A cada movimento, fazia uma massagem suave nas costas dela.
Aria fechou os olhos, suspirando.
Havia alívio naquele silêncio.
De repente, Aria pegou as mãos de Kat e as beijou — um gesto cheio de gratidão, ternura, e algo que parecia uma despedida silenciosa.

Ela olhou nos olhos de Kat, a expressão suavizando entre melancolia e curiosidade.

— Como é esse tal de Gene? — perguntou, num tom quase conspiratório.

Kat sorriu, o rosto iluminado por uma memória doce e amarga.

— Ele é sonhador, meio imprevisível…
Gosta do meu jeito estranho.

Aria sorriu com ternura, como se pudesse imaginar o rapaz.

— Deve ser muito bonito.

— É, sim — Kat respondeu, o olhar perdido na lembrança. — Sinto falta dele… Mas eu entendo.

Ela segurou as mãos de Aria com firmeza, como quem sela um pacto invisível.

— Vou gerar um filho dele, e sei que preciso me dedicar a ele… e a Mãe Ceres.
Quero que meu filho tenha um futuro — um futuro em que ele seja um servidor preciso de Mãe Ceres.

Ambas permaneceram em silêncio, absorvendo a força daquele compromisso não dito.
Então, quase em uníssono, como um ritual que nasceu da própria alma, começaram a sussurrar:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora.

A palavra “devora” ecoou no quarto com um peso agridoce, preenchendo o espaço com um senso de entrega inevitável.

Em Pietà, Kat encontrara uma amizade inesperada.
Aria, a mulher que um dia ajudou Mãe Ceres a tocar as estrelas, era melancólica, mas escondia uma doçura divertida que surgia nos pequenos sorrisos.
Sua barriga era linda e enorme, o corpo inteiro carregando o peso sagrado de um filho, num misto de orgulho e resignação.

O quarto de Aria era um santuário silencioso,
cheio de telas que retratavam Mãe Ceres em todas as poses possíveis:
flutuando sobre jardins, coroada de cristais cintilantes,
de braços abertos sobre Pietà…

Cada quadro era uma confissão de devoção absoluta.
E, naquele espaço sagrado, Kat compreendia, de maneira cada vez mais profunda, o significado de ser filha e oferenda da Mãe.

Aria amava profundamente Mãe Ceres, e esse amor era doce e doloroso.
Ela carregava o fardo do filho com orgulho,
mas um fio de tristeza atravessava seu sorriso:
a saudade da vida antiga, da função nobre, dos cálculos que ajudaram a projetar a subida dos foguetes rumo à Estação Ceres 2.
Mesmo assim, ela havia abandonado por completo a sua área,
porque, em Pietà, a maternidade era o chamado supremo,
e a vontade de Mãe Ceres, absoluta.

Kat sentia que, naquele quarto, conviviam o paraíso e a sombra do sacrifício,
e que Aria era a prova viva de como o amor à Mãe podia ser tão luminoso quanto melancólico.
Ela olhou para Aria e, por um instante, viu a si mesma refletida nela —
uma mãe devota, resignada, com o coração dividido entre o amor humano e o amor absoluto por Mãe Ceres.

Ela pensou em Gene, no sorriso torto, nos olhos cheios de sonhos.
Mas sabia que não podia viver de saudades.
Em Pietà, aprendia-se desde cedo: o amor pessoal é pequeno diante do amor maior.
Todas as mães de Ceres ensinavam às meninas que chegaria um tempo de dedicação.
Um tempo em que os braços não pertenceriam mais a si mesmas, mas ao filho que viria.
E que, através delas, Mãe Ceres realizava o milagre da vida —
o motor silencioso que mantinha Ceres viva e perfeita.

Kat sabia que essa era a verdadeira liberdade ali:
entregar-se à missão,
e sentir que, mesmo distante de Gene,
uma parte dele e dela floresceria em Pietà,
como mais uma pequena oferenda à Grande Mãe.

Sentada ao lado de Aria, Kat sentiu o peso do silêncio entre elas.
O quarto parecia respirar devagar,
cheio de telas de Mãe Ceres observando as duas,
como se a própria divindade estivesse ali, em presença, mais do que em pintura.

De repente, Aria falou, com uma voz baixa, quase sussurrada:

— Sabe, Kat… você é sortuda.
Gerar um filho do menino que ama… isso é um presente.

Kat percebeu a melancolia escondida no tom de Aria e engoliu em seco.

— E… você? — perguntou com cuidado.

Aria fixou o olhar em um quadro de Mãe Ceres,
como se buscasse forças naquela imagem.
As lágrimas vieram antes das palavras.

— Eu não escolhi…
Minha gravidez foi resultado de… — ela respirou fundo, os dedos tremendo — …de algo que eu nunca quis.

Kat sentiu o mundo parar por um instante.
Um arrepio subiu pela espinha.

— Mas… aqui em Ceres… — Aria forçou um sorriso trêmulo — toda vida é sagrada.
Mãe Ceres nos ensina que cada filho pertence a Ela, não a nós.
Recusar é impossível.
A criança precisa nascer.

Ela acariciou a própria barriga com um gesto misturado de amor e dor.

— Eu… aprendi a amar esse bebê.
Não porque esqueci o que aconteceu,
mas porque Mãe Ceres exige isso de nós.
Ela transforma até a dor em… missão.

Kat sentiu os olhos arderem.
Não sabia se queria chorar ou fugir daquele quarto.
Olhou para Aria e viu uma mulher partida,
mas ainda devota,
ainda grata à divindade que a obrigava ao sacrifício.

Em silêncio, Kat pegou a escova e começou a pentear os cabelos longos e desordenados de Aria.
Cada movimento era uma pequena oferta de carinho,
uma tentativa de recolher os pedaços quebrados daquela mulher.

Aria fechou os olhos, respirou fundo,
e, sorrindo entre lágrimas, beijou as mãos de Kat.

— Obrigada… — sussurrou. — Por me fazer sentir… humana de novo.

No dia seguinte, Kat decidiu transformar o quarto de Aria em um pedacinho do jardim de Pietà.
Passou a manhã colhendo flores — margaridas, flores comestíveis, pequenos ramos perfumados —
e encheu o quarto de cores suaves.

Quando o sol entrou pela janela, o cômodo parecia uma pintura viva:
as pétalas dançavam na luz,
os cabelos de Aria esvoaçavam suavemente com a brisa,
e os quadros de Mãe Ceres, espalhados pelas paredes,
pareciam sorrir em silêncio.

Aria estava acamada, imersa na melancolia pesada que a prendia à cama.
Mas, quando viu Kat entrar com os braços cheios de flores,
sorriu chorando.
E aquele sorriso trazia uma dor imensa no peito,
como se estivesse no inferno e no paraíso ao mesmo tempo.

Kat se aproximou devagar, sentou-se ao lado dela e segurou suas mãos.
O simples gesto foi uma anestesia temporária,
uma trégua silenciosa na batalha que Aria travava dentro de si.
As lágrimas vieram para as duas.
Choraram juntas, sem precisar de palavras,
e se tocaram num gesto puro de sororidade:
duas mulheres unidas pela fé, pelo fardo e pela esperança
que só existia em Pietà.

Por um instante, a dor de Aria foi dividida,
e Kat sentiu que, naquele quarto florido,
elas criaram um pequeno milagre silencioso.

Foram dias assim, cheios de pequenos gestos de bondade.
Kat levava flores, e, aos poucos, outras mães também se juntaram.
Uma trouxe frutas, outra, uma manta perfumada de lavanda.
Juntas, tricotaram um cachecol enorme, feito por muitas mãos, inclusive as de Kat,
para aquecer Aria como se abraçassem sua alma cansada.

O quarto de Aria tornou-se um refúgio sagrado,
cheio de flores, fios de lã coloridos
e o olhar compassivo das outras mulheres.
Ali, repetiam baixinho o mantra,
como uma oração que embalava o bebê e acalmava a mãe:

— Mãe Ceres que nos alimenta, nos educa… e nos devora.

Aria sorria chorando,
os olhos marejados e a boca curvada num sorriso frágil.
Cada presente, cada toque, cada palavra de carinho
fazia a dor recuar, ainda que por instantes.
E mesmo assim, era um bálsamo.
Todas se comoviam com a cena.

Kat passou a compreender a raiz daquela melancolia.
Numa tarde, sentada ao lado de Aria,
ouviu em sussurros o que nenhuma outra mãe tinha coragem de dizer:

— Essa criança… nasceu do meu pior momento.
Ele… me tirou à força, e agora está morto.
Mãe Ceres o condenou.

Aria olhou para o teto, como se buscasse conforto na divindade.

— Mas… o bebê é inocente.
E Mãe Ceres diz que toda vida… deve ser levada até o fim.

Kat sentiu o peso dessa verdade esmagar seu peito.
Olhou para as flores espalhadas, para o cachecol feito em tantas mãos,
e entendeu que, em Pietà, dor e amor andavam de mãos dadas.
Tudo ali era silêncio, sacrifício e devoção,
um paraíso que escondia o inferno em seus detalhes.

A Reunião com Mãe Ceres

Em Pietà, ser chamada para uma reunião com Mãe Ceres era um privilégio raríssimo.
Kat seguiu pelos corredores silenciosos até adentrar uma sala de mármore negro,
fria e imponente, onde o poder se expressava em cada linha brutalista.
Não havia enfeites, apenas a geometria dura e perfeita,
como se as paredes sussurrassem sobre disciplina e eternidade.

No centro, elevada num pedestal, estava Mãe Ceres.
Seus trajes brancos e esvoaçantes contrastavam com o negro absoluto ao redor,
transformando-a numa madona viva, uma presença que parecia flutuar sobre o mundo humano.

Kat se sentou com cuidado, o coração disparado,
sentindo que aquele momento era um chamado sagrado.

Mãe Ceres falou com uma voz serena, mas absoluta:

— Kat… você é uma das minhas favoritas.
Vejo em seus olhos a inocência que enxerga o futuro.
Se preservar essa visão, se mantiver a doçura e a dedicação que demonstrou com Aria,
um dia…
você poderá me substituir.

A frase ecoou como um trovão silencioso dentro de Kat.
Ela sentiu um misto de orgulho e temor,
como se tivesse recebido a maior bênção e o maior fardo de sua vida.

Todos em Ceres sabiam:
ninguém jamais vira o verdadeiro rosto de Mãe Ceres,
apenas sua máscara ovalada e escura.
Mas também sabiam que ela era humana.
E, sendo humana, havia feito o que nenhum deus conseguiu:
matou os mitos de imortalidade e venceu a fome.

Manter seu legado era como manter o sol aceso para a humanidade.
Kat sabia disso.
Em todos os anos de colégio, nunca vira alguém passar fome.
Nem mesmo Daime, seu amigo cadeirante,
um espetáculo de vitalidade e um orgulho para a cidade:
sempre com fraldas limpas, comida quente, atendimento médico e dignidade.
Se algum dia ele resmungava, era por desejo, nunca por falta.

Em Ceres, ninguém sentia a tortura da escassez.
E ali, sentada ao lado de Mãe Ceres,
Kat sentiu a paz de estar do lado certo da história,
como se sua fé tivesse sido confirmada pelo toque invisível da divindade viva.

O silêncio do salão de mármore negro era absoluto.
A voz de Mãe Ceres ecoou pelo espaço como se viesse de dentro das paredes,
firme, sem pressa, carregada de convicção:

— Kat… lembre-se sempre dos valores que sustentam este lugar.
Mesmo que alguém um dia me mate, outra Mãe Ceres surgirá.
Porque os nossos ideais superam qualquer expectativa humana.

Ela se inclinou levemente, e Kat sentiu o peso daquelas palavras se enterrar em sua alma.

— Você viu com seus próprios olhos como tudo funciona.
Quem luta contra nós — ou até mesmo quem nos vencesse —
eu sentiria pena.
Porque vencer a Mãe Ceres é amar a fome, a doença, a miséria, a guerra e a morte.

A máscara negra reluziu sob a luz fria do salão,
e a voz continuou, cortante e serena:

— Eu digo isso porque não minto, Kat.
A paz é apenas um acidente da história.
Todos lá fora querem nos destruir,
porque nos invejam por sermos melhores que os deuses imaginários que eles veneram.

Ela ergueu uma das mãos enluvadas,
e por um instante, Kat sentiu que o mundo inteiro cabia naquele gesto.

— Ninguém jamais viu um deus salvar alguém.
Apenas textos velhos… que não servem nem para limpar a própria bunda.
Enquanto eles esperam, nós agimos.

Kat sentiu um arrepio subir pela espinha.
Era como se ouvisse a verdade crua do mundo —
e, ao mesmo tempo, uma sentença irrevogável.

— A esperança tortura porque espera…
Eu não espero, Kat.
Eu tenho filhos.
Muitos filhos.
Mas… — a voz suavizou, quase maternal — …eu preciso de sucessores.

A sala parecia respirar com as palavras de Mãe Ceres,
e Kat sentiu que seu destino estava selado,
como se tivesse recebido um batismo silencioso na religião da sobrevivência.

Mãe Ceres desceu lentamente do pedestal,
seus passos ecoando suaves sobre o mármore negro.
Ela se aproximou de Kat e, por um instante,
a adolescente sentiu que não respirava.

A presença da Mãe era apoteótica,
e seu perfume tinha o cheiro de cuidado e leite morno —
cheiro de mãe.

Ela ergueu o rosto de Kat com a ponta dos dedos enluvados.

— Kat… você já provou seu valor.
Sabe amar como uma mãe de verdade,
e trazer paz às outras, como fez com Aria.

A máscara negra brilhou com o reflexo do lustre,
como se dois mundos — o humano e o divino —
se encontrassem naquele olhar invisível.

— Mas eu tenho uma missão para você.
Uma missão que nenhuma criança recebe.
Uma missão para mulheres que já entenderam o mundo.

Kat sentiu o coração bater como um tambor.
Não ousou falar.

— Em Pietà, você viu o paraíso que construímos:
flores, leite, cantigas, risadas de bebês…
Mas também conheceu a dor que mantém esse paraíso vivo.

Ela se afastou dois passos, olhando para o teto alto do salão.

— Nem todas as mães suportam o peso de Mãe Ceres.
Algumas… — sua voz ficou suave e gélida ao mesmo tempo —
…precisam ser conduzidas ao descanso.
E quando esse dia chegar, Kat,
quero que você esteja lá,
para segurar suas mãos.

O coração de Kat gelou.
Ela entendeu o que estava sendo dito,
mesmo que nenhuma palavra direta fosse necessária.

— É assim que mantemos o milagre da sobrevivência.
Sem falsos deuses.
Sem falsas esperas.
E é assim que você se tornará minha sucessora.

Kat sentiu que a sala inteira girava devagar —
o mármore, o lustre e a presença de Mãe Ceres
a envolviam como num abraço sagrado e sufocante.

No fundo de si mesma,
sabia que a paz de Pietà tinha um preço de sangue e silêncio.

O eco no salão de mármore negro foi quebrado pelo som firme de saltos altos.
A porta se abriu. Entrou Ysa, Chefe Nacional de Inteligência de Desenvolvimento,
carregando uma pasta repleta de documentos e gráficos meticulosamente organizados.

Era uma mulher de postura reta e olhar clínico,
com uma beleza funcional, talhada para a função que exercia.
Nada nela era supérfluo.

Mãe Ceres voltou-se para Kat e disse com orgulho sereno:
— Esta é Ysa… uma das melhores de Ceres.
Ela mantém nossa mente clara e nosso progresso afiado,
enquanto eu cuido do coração de Ceres.

Ysa pousou os papéis sobre a mesa de mármore,
cujo brilho refletia o contraste entre emoção e cálculo.
Sem sorrir, iniciou o relatório com voz precisa:

— Mãe Ceres, os números deste trimestre superaram todas as expectativas.
As sementes germinam e crescem mais rápido do que nas últimas décadas.
O índice de produtividade atingiu níveis históricos.

Folheou algumas páginas, girando-as na direção de Mãe Ceres.
— O cenário internacional nos favorece.
Países em guerra impulsionam nossa ascensão:
as linhas de crédito aumentaram,
os empréstimos internacionais geram juros generosos,
e as grandes doações humanitárias
projetam Ceres como a mão que salva o mundo da fome.

Kat observava em silêncio reverente,
tentando compreender aquele universo de números e poder,
onde a benevolência também era engrenagem —
implacável e funcional.

Ysa prosseguiu, sem alterar o tom:
— Ajudamos milhões… e ainda lucramos com isso.
É o ciclo perfeito: alimentamos o mundo,
salvamos alguns,
e Ceres cresce enquanto os outros se destroem.

Fez então uma pausa breve, como se ponderasse cada palavra.
— Mas… nossas políticas internas enfrentam obstáculos.
Temos recursos abundantes,
mas a vontade política local
nem sempre acompanha a grandeza de nossos números.
Nossa benevolência é eficiente,
mas a política é… inferior ao que temos.

O salão mergulhou num silêncio espesso.
Era como se o contraste entre números e fé
materializasse o coração de Ceres:
uma mãe devota e uma máquina impiedosa,
operando em perfeita harmonia.

Kat, sentada ao lado do pedestal,
sentiu que estava diante do verdadeiro motor do mundo —
onde sobrevivência, devoção e cálculo se entrelaçavam.

Mãe Ceres inclinou-se levemente no trono,
sua presença branca e esvoaçante refletida no mármore negro da sala.
Havia orgulho em sua voz:
— Ysa, conheça Kat. Uma das minhas meninas favoritas.
Ela tem olhos que enxergam o futuro
e um coração que sente como o meu.

Ysa não precisou de apresentação.
Um sorriso quase imperceptível surgiu em seu rosto contido:
— Eu sei quem ela é.
As notas de Kat são excelentes,
seu desempenho acadêmico, impecável.
E… — fez uma breve pausa —
ela demonstra uma empatia rara com o espírito de Mãe Ceres.

Kat sentiu um calor subir ao rosto,
entre a vergonha e o orgulho,
como se tivesse recebido uma coroa invisível.

Mãe Ceres ergueu a mão, encerrando a reunião.
— Vocês duas podem ir agora.
Kat, acompanhe Ysa até os portões de Pietà.
Aproveitem o caminho.
O lago está belo nesta manhã.

Elas deixaram o salão,
caminhando por corredores silenciosos
até o jardim aberto de Pietà.

O caminho serpenteava entre árvores frutíferas,
e o lago artificial refletia o céu como um espelho sereno,
onde patos e cisnes deslizavam lentamente.
O ar cheirava a água limpa e flores recém-abertas.

Kat caminhava ao lado de Ysa,
sentindo ao mesmo tempo o peso do mundo e a leveza do paraíso.
Enquanto seguiam, Ysa observava tudo com olhos atentos,
mas sem o encanto de uma visitante.
Para ela, Pietà era uma engrenagem precisa,
uma peça essencial na máquina de sobrevivência de Ceres.

Quando se aproximaram dos portões,
Ysa falou enfim, com um sorriso mínimo, mas sincero:
— Kat… aproveite este lugar enquanto pode.
É o único paraíso que existe.

Kat sentiu um arrepio estranho,
sem saber se aquilo era um conselho ou um aviso.

Ysa parou de repente.
O reflexo do lago cintilava atrás dela.
O vento leve agitava as folhas das árvores frutíferas,
e por um instante, o mundo pareceu suspenso.

A mulher de postura reta e olhar lógico
inclinou-se levemente em direção à adolescente:
— Kat… eu gostei muito de você.
Mãe Ceres viu em você algo que… nem eu vi.

Kat, tímida e orgulhosa, respondeu com sinceridade infantil:
— Mas… Ysa, você também poderia ser uma Mãe Ceres.

Um sorriso breve, quase triste, surgiu nos lábios de Ysa.
— Não, menina. Eu não tenho ciúmes…
mas não estou no caminho para ser uma Mãe Ceres.
Meu destino é outro.
E… pela primeira vez, vou te dizer:
meu instinto diz que você pode ser o futuro de Ceres.

Kat arregalou os olhos, surpresa e confusa.
O vento trouxe o cheiro do lago e do jardim,
misturado ao ronco distante das máquinas agrícolas.

— Eu não era para estar aqui, Kat — continuou Ysa.
— Vim só fazer um show político, apresentar relatórios…
Mas sei que ela me chamou para ver você.
Mãe Ceres não dá ponto sem nó.

Ela respirou fundo. O olhar, fixo e afiado:
— Eu sou a espada de Mãe Ceres.
Lutaria e mataria por ela.
E, se viver o bastante, lutarei por você.

Kat sentiu um arrepio na nuca.
Ysa ergueu o dedo indicador, apontando ao redor:
— Preste atenção, Kat.
Escute.

Os trens blindados. Os tratores agrícolas.
As bombas d’água. O burburinho mecânico da cidade…
Este é o som da vida em Ceres.

Ficaram em silêncio.
E Kat escutou com mais atenção:
o ronco constante,
o tilintar metálico ao longe,
o eco do trabalho invisível que mantinha Pietà viva.

Ysa se inclinou e falou num sussurro grave:
— Se esse burburinho desaparecer, Kat…
não será só o fim de Ceres.
O pior virá antes do fim.
O silêncio chegará como uma sentença.

Ela pousou a mão firme sobre o ombro da menina:
— Estou aqui para te ver, Kat.
E eu não erro: você tem um potencial imenso.

Por um instante, Kat não soube se sentia orgulho ou medo.
O reflexo do lago atrás delas parecia oscilar,
como se a água tivesse ouvido e guardado o segredo.

As duas chegaram aos portões de Pietà,
onde a ponte branca sobre o lago unia
o paraíso das mães à cidade de mármore negro e engrenagens.

O vento trouxe o cheiro de flores e água limpa,
misturado ao som distante dos trens blindados.

Ysa parou diante do portão.
Por um instante, seu semblante lógico suavizou.
Ela segurou as mãos de Kat,
como se selasse um juramento silencioso.

— Kat… nunca se esqueça do som de Ceres.
Enquanto ele viver, nós vivemos.
Enquanto ele roncar, nós somos eternas.

A adolescente sentiu aquelas palavras ecoarem na alma,
quase tão fortes quanto as de Mãe Ceres.

Então, juntas, olharam para o lago
e, em perfeita sincronia, repetiram o mantra sagrado:

— Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa… e nos devora!

O som atravessou a água calma,
reverberando como uma prece — e uma sentença.

Ysa soltou a mão de Kat e, com um último olhar firme,
deu-lhe o conselho final:

— Não esqueça, menina.
O silêncio é pior que o fim.

Em seguida, atravessou os portões,
seu passo firme desaparecendo na luz branca do dia,
enquanto Kat ficava sozinha diante do lago,
sentindo que algo imenso e inevitável
já caminhava em direção a Pietà.

Kat atravessou o portão de volta,
com o mantra ainda vibrando na mente
e o toque frio e firme de Ysa nas mãos.

O caminho pelo lago parecia o mesmo,
mas agora cada som ganhava novo significado:
o ronco distante dos tratores,
o sopro metálico das bombas d’água,
o tilintar suave de correntes nos trens blindados —
tudo formava a música mecânica da sobrevivência.

Ela se perguntou, em silêncio:
“E se um dia esse som parar?”

Ao retornar ao jardim central de Pietà,
as outras mães estavam reunidas em suas atividades rotineiras:
uma fiava tricôs longos para o inverno,
outra amamentava sob o sol suave,
algumas plantavam flores comestíveis ao redor do lago.

Tudo parecia perfeitamente harmônico.
Mas dentro de Kat, algo havia mudado.

Ela foi até o quarto de Aria,
carregando algumas flores recém-colhidas.
Aria estava deitada, abraçada a uma de suas telas,
pintando Mãe Ceres envolta em uma luz celestial.

— Trouxe flores para você… — disse Kat, sorrindo.

Aria retribuiu com um sorriso tênue,
mas seus olhos estavam vermelhos.
O sorriso era uma rachadura frágil
num mundo que, por fora, parecia indestrutível.

— Sabe, Kat… às vezes Pietà é tão perfeita
que dói aqui dentro… — ela tocou o próprio peito.

Kat se sentou ao lado dela,
lembrando-se das palavras de Ysa.
Olhou ao redor e percebeu:
Pietà era mesmo um quadro vivo,
uma pintura feita de luz, flores e silêncio contido.


Naquela noite, enquanto as luzes suaves do dormitório
banhavam o quarto em tons pastéis,
Kat sonhou com o lago em silêncio absoluto.
Sem trens. Sem máquinas.
Apenas o vazio.

E acordou com uma sensação de frio no estômago,
como se a melodia de Ceres estivesse prestes a falhar uma nota.


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