Carregando…

Capítulo 6: Assum D36L

aleroz
Pública 0 conversa 0 pensamento 30 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Assum era a única cantora oficial da Cidade de Ceres. Embora a música fosse proibida, ela era conhecida como a mulher com a voz de Deus . As letras eram vetadas, mas Assum cantarolava — entoava…

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

Assum D36L

Assum era a única cantora oficial da Cidade de Ceres.
Embora a música fosse proibida, ela era conhecida como a mulher com a voz de Deus.
As letras eram vetadas, mas Assum cantarolava — entoava melodias em aparições públicas, nos colégios, e até mesmo diante da própria Mãe Ceres.

Foi a única libertária de Ceres que encantou Mãe Ceres a ponto de fazê-la chorar.

Assum era subversiva — não por odiar o Sistema, mas porque havia algo dentro dela que não podia ser contido.
Não era revolta.
Era vocação.
Seu canto era mais forte que o silêncio, mais puro que as ordens.
Era a alma da cidade transformada em som.

Ela não desafiava Ceres por vaidade.
Era dominada por um dom incontrolável — como se a própria cidade cantasse através dela.
Foi a única que, sem levantar bandeiras, tripudiou de Mãe Ceres… e a encantou.

Ninguém mais tinha aquela voz. Era única em todo o continente.

Mãe Ceres, que havia vencido os mitos e os deuses, foi vencida por um canto.
E, por isso, a nomeou “A Voz de Ceres” — o mesmo nome das chamadas diárias, às 19h, no informativo oficial da cidade.

As ondas de rádio antigas, de longo alcance, ainda ecoavam em lugares distantes, até mesmo em Silencium — onde, ironicamente, imperava o mais absoluto silêncio.

Assum era lindíssima.
Longos cabelos negros, lisos como rio.
Pele pálida como mármore.
E olhos azuis tão profundos que pareciam conter o céu inteiro.
Olhos de facas. Olhos que caçavam almas. Olhos que detectavam mentiras.

Era devota à Mãe Ceres — não por submissão, mas por gratidão.
Pois se Mãe Ceres havia vencido os mitos, foi vencida apenas uma vez: pelo canto de Assum.


A Transmissão de Assum

Ninguém andava pelas ruas de Ceres.
O toque de recolher já havia sido anunciado.
As sirenes brancas, suaves como vento, sinalizavam o início da Transmissão das 19h.

Nos colégios, os jovens se sentavam em silêncio absoluto.
Em Pietà, a Cidade das Mães de Ceres, mulheres vestidas de branco ocupavam os auditórios subterrâneos.
Na torre de vigília, os cientistas e engenheiros interrompiam as análises.
Nos salões frios do Conselho da União Continental, até os diplomatas cessavam as palavras.

Todos voltavam os olhos para a mesma imagem.

Assum, vestida de cinza claro, com os cabelos soltos como um rio de sombras, surgiu no centro do círculo de luz.
Não havia letra.
Não havia palavra.
Apenas o canto.

Um som que não parecia humano, nem divino — mas algo entre os dois.
Um lamento ancestral, que escavava memórias esquecidas em cada um.

Os corações batiam mais devagar.
As mãos tremiam.
As lágrimas vinham — até daqueles que não choravam há décadas.

Mãe Ceres, assistindo da cúpula de observação, não piscava.
A mulher que projetou a cidade, que aboliu religiões, símbolos e emoções primitivas, estava rendida.

E, pela primeira vez em muitos ciclos, alguém foi aplaudida em Ceres.
Mas não por desobediência.
Por revelar a alma da própria cidade.

A Queda de CERES I

Era um tempo próspero em Ceres.
As colheitas multiplicadas, os algoritmos climáticos domavam os ventos, e as sementes germinavam com precisão matemática.
Sob o olhar de Mãe Ceres e de seu Conselho Aeroespacial, foi lançado CERES I — a primeira estação orbital da cidade.

Tripulada por nove cidadãos, escolhidos entre os mais puros, disciplinados e devotados, a missão simbolizava o ápice da autossuficiência e da neutralidade de Ceres.
Ceres não queria dominar o espaço.
Queria organizar o tempo.
E, com ele, as estações, a luz solar, a engenharia da produtividade.

Mas nem todos viam com bons olhos a ascensão silenciosa da cidade neutra.

Do sul profundo, nas cordilheiras proibidas, veio a resposta brutal.
O Sagrado Opus Omni — uma coalizão religiosa que cultuava um deus invisível chamado Omni — declarou que nenhum homem podia subir aos céus impunemente.
Cada peça instalada na órbita — e foram quinze, ao longo de nove anos — custava o sangue de mil inocentes, sacrificados em Opus Omni, queimados vivos como penitência.

Diziam que Mãe Ceres blasfemava contra o divino.

E então veio o golpe final:
Objetos não-identificados, construídos com tecnologia acadiana (supostamente roubada de Ceres), atingiram a estação em órbita.
CERES I caiu como um anjo mutilado.

Não houve aviso.
Nem explicações.

O Conselho da União Continental, em resposta, declarou:

“O espaço não pertence a Ceres.
O espaço não pertence a ninguém.”

Mãe Ceres não chorou publicamente.
Mas algo nela mudou.

Foi nessa época que surgiram os primeiros ruídos em Silencium.
Mensagens cifradas.
Ondas cortadas no ar.
Antenas paralisadas.

E então, uma carta.
Vinha assinada por Chanceler Áquila
um dos membros mais antigos do Conselho, habitante da fria e soturna Silencium,
onde até a neve parece ouvir em segredo.

Era a primeira vez que ele se comunicava diretamente com Mãe Ceres.

A mensagem era curta:

“A Voz de Ceres ecoa para além do permitido.
A mulher chamada Assum é um problema.
As ondas chegam aqui, onde cultivamos o silêncio.
Onde o céu ainda é inviolado.”

Mãe Ceres leu.
Releu.
Não respondeu.

Mas naquela mesma noite, sozinha em sua cúpula, ela ouviu o canto de Assum novamente, vindo do reator central, em loop.

E chorou.


A Visita de Áquila

Após semanas de recados e mensagens veladas, Chanceler Áquila veio pessoalmente a Ceres.
Sua chegada foi silenciosa, como tudo que vinha de Silencium.

A torre principal foi esvaziada.
O ar, rarefeito.

Mãe Ceres, vestida de prata escura, o recebeu sozinha no Salão da Neutralidade.

A negociação durou pouco.
Palavras frias, contidas, técnicas.

Áquila queria o fim das transmissões sonoras.
Mãe Ceres exigia respeito à liberdade interior de sua cidade.

E então, em um gesto que beirava a imprudência, Mãe Ceres chamou Assum.

"Você quer entender Ceres?", ela disse.
"Ouça."

Assum entrou como quem pisa em santuários.
Olhos baixos. Cabelos, como véus.

E, sem anunciar, cantou.
Não uma canção.
Um fragmento de sombra e luz.
Uma voz que atravessava tempo e matéria.

O Chanceler ouviu.
O Chanceler parou.
O Chanceler se perdeu.


A Conversa Inesquecível

Após o canto, veio o silêncio.

Mais tarde, num corredor de vidro suspenso, Áquila encontrou Assum a sós.

"Qual o horário que você mais gosta de cantar?", ele perguntou, num tom quase ausente.

"À noite.", respondeu ela, com um sorriso leve.

"Por quê?"

"Porque à noite... eu vejo quem eu quero."

Nada mais foi dito.

Mas desde aquele instante, algo se acendeu em Áquila.
Ou talvez, se rompeu.


O Início da Obsessão

Três vezes por mês, o Chanceler passou a visitar Ceres.
Acompanhado por comitivas silenciosas, pedia uma audiência apenas para ver Assum cantar.

Mãe Ceres, desconfiada, ordenou o cessar das transmissões de ondas longas.
Passou a usar ondas curtas, diretas, intensas, protegendo Assum dos ecos externos.

Mas era tarde.

Áquila não queria apenas ouvir.
Queria possuir.

Os Sussurros Sobre Áquila

Em Silencium, diziam que o Chanceler não era o que aparentava.
Por trás da fachada gelada e dos discursos diplomáticos, escondia uma galeria secreta.

Chamavam-na de A Capela das Mãos.

Lá, segundo boatos de exilados e traidores, estavam guardadas mãos humanas —
todas cortadas cuidadosamente: dedos finos, calos de cordas, cicatrizes de talento.

Eram mãos de músicos, artesãos, cantores...
gente que havia tocado o céu através da arte.

Áquila não as matava por ódio.
Matava por fascínio.
Era um colecionador de almas através da carne.


O Pedido e o Preço

Nas últimas visitas, Chanceler Áquila falou com Assum a sós, num tom mais calmo que o habitual.

“Assum, quero propor algo.”

“Mais uma música?” — ela riu.

“Não. Um casamento.”

Assum franziu o cenho.
Não entendeu.

Ela nascera em Ceres, crescera em suas cúpulas e auditórios, educada sob os pilares da neutralidade.

Casamento era uma palavra sem sentido, uma cerimônia de outro mundo, pertencente a mitos antigos, abandonados junto aos símbolos.

“Que cerimônia é essa?” — perguntou, sincera.

Áquila apenas sorriu.

Ela voltou à torre de Mãe Ceres e repetiu o que ouvira.
Com os olhos marejados, sussurrou seu mantra pessoal — aquele que recitava antes de cantar:

“Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa... que nos devora.”


O Amor da Deusa

Mãe Ceres ouviu em silêncio.

Assum era mais que uma cidadã.
Era sua criação. Sua centelha viva.
A única filha que escolhera amar.

Jamais cedeu às investidas do Chanceler.
Não por ciúme.
Mas porque via nas palavras dele o veneno da posse.

Mãe Ceres conhecia os homens como Áquila.
Sabia que o que ele chama de amor é só uma forma de dominação ritualizada.

CERES II

Foi nesse mesmo ciclo que o Conselho da União Continental se reuniu para discutir a construção da nova estação espacial — CERES II.

O projeto era ousado: experimentos de agricultura orbital, mapeamento climático via rádio, oferta de dividendos para os que colaborassem.

Mas o custo era altíssimo.
As últimas colheitas não haviam sido boas para muitas nações.
A maioria recusou.

Apenas 20% do financiamento necessário foi reunido.

E então, Chanceler Áquila se levantou.
Disse em voz clara:

— “Silencium cobre os 80% restantes.”

— “Sem exigências?” — perguntou alguém.

— “Apenas uma: que Ceres aceite minha aliança. E que Assum me acompanhe na cerimônia inaugural.”

O salão silenciou.
Alguns riram, pensando tratar-se de um blefe.
Outros baixaram os olhos — sabiam do que se tratava.

O Conselho de Mãe Ceres não respondeu imediatamente.
Mas todos em Ceres sabiam que a estação CERES II já não era só uma proposta científica.
Era um dote velado.


O Conselho das Estrelas

O homem ofereceu o universo.
Mas todos sabiam que ele era um psicótico sem limites.
Um homem que poderia falir Silencium por capricho, movido apenas pela obsessão de possuir aquilo que não compreendia.

Mãe Ceres sabia disso.

Ainda assim, convocou seu Conselho de Astrofísica e Cosmologia —
mentes que haviam lido o tempo, redesenhado o clima, reconstruído o DNA das sementes.

Um deles falou, com a voz trêmula de quem testemunha o nascimento de uma era:

— “Toque as estrelas, Mãe Ceres... e ganhará a eternidade que ainda não tem.
Você é o milagre racional da raça humana.
Hoje tem mil filhos.
Amanhã terá um bilhão.”

Outro completou:

— “A CERES II nos levará não cem anos à frente. Talvez quinhentos.
A neutralidade te protege.
A lógica te guia.
A fome de conquista não é sua.
Sua fome é outra: a de transformar o universo com estratégia, ciência e trabalho duro.”

E então o mais velho entre eles citou, com os olhos marejados:

— “Um físico de milênios atrás disse: ‘Dê-me um ponto de apoio, e levantarei o mundo.’
Pois agora, Mãe Ceres...
o mundo te dá esse apoio.
E você poderá levantar o universo.”

O Preço

Assum aceitou.
Não por ingenuidade.
Nem por desejo.
Mas porque entendeu que seu destino, naquela era de cálculo e silêncio, era ser o preço.

O projeto CERES II começou a ser construído com uma velocidade assombrosa.
Silencium quase faliu.
Chanceler Áquila sacrificava tudo — suas reservas, sua diplomacia, sua própria nação — por um único objetivo: Assum.

E então, ele a tomou para si.


A Noite Eterna

— “Você canta melhor à noite”, disse ele.
— “Então agora viverá em escuridão.”

Áquila cegou Assum.
Disse que assim ela cantaria para ele o tempo todo, como se fosse sempre noite.

Durante meses, ele a violou, prendeu, banhou em sangue e cobriu de ouro, como se ela fosse uma relíquia viva — uma oferenda a si mesmo.

Era um louco vestido de diplomata.
Um colecionador de beleza que não compreendia.

Mas Assum...
Assum nunca quebrou.


O Mantra

Mesmo ferida, suja, despida de visão e liberdade, ela cantava.
Cantava não para ele, mas como se estivesse diante de Mãe Ceres.
Como se, a cada nota, lembrasse a si mesma por que estava ali.

E sempre, entre um canto e outro, murmurava:

“Mãe Ceres, que nos alimenta,
que nos educa,
e que nos devora.”


Uma Alma de Chumbo

Seus sentimentos já não eram feitos de melodia, mas de chumbo.
Pesados. Densos.
Mas reais.

Assum sangrava, mas nunca se calou.

Áquila tentou quebrá-la de mil formas.
Quis arrancar dela o último fragmento de alma.
Quis ser não só dono do corpo, mas do som.

Nunca conseguiu.

Porque Assum não cantava para ele.
Cantava para o futuro.
Cantava para a eternidade de Mãe Ceres.
E cantava para que o universo soubesse que ela resistiu.

O Milagre

Do ventre de Assum, nasceu Ceres.
Filha de um homem-monstro.
Filha da escuridão.
Mas também filha do canto.
Filha do sacrifício.
Filha do milagre.

Assum, ao tocar a pele da criança pela primeira vez, sorriu como quem vê a própria alma renascer.
Chamou-a de Ceres —
por amor à sua cidade.
Por amor à sua Mãe.

A criança tinha os mesmos olhos da mãe:
azuis tão profundos que pareciam conter todo o céu.
Mas neles havia algo mais.
Uma calma antiga. Uma força ainda sem forma.


O Horror do Chanceler

Quando soube do nascimento, Chanceler Áquila ficou atordoado.
Aquilo o feria de forma nova, inexplicável.
Aquela criança era dele...
Mas não pertencia a ele.

E por isso, quis destruí-la.

Tentou argumentar, ameaçar, negociar.
Por fim, contactou Mãe Ceres:

— “Tire-a daqui.
Essa criança deve desaparecer.”


A Resposta de Mãe Ceres

Mãe Ceres ouviu a mensagem.
Fechou os olhos.
Ela já havia perdido uma filha para o universo.
Agora, o universo devolvia uma neta.

Com voz baixa e precisa, respondeu:

— “Ela é uma filha de Ceres.
E será protegida como a mais cara de todas.”


A Herança

Ceres, a criança, foi levada em segredo.
Cresceria entre algoritmos e silêncio,
mas traria consigo o eco da voz de Assum.

Não foi criada por uma mãe.
Foi criada pela memória de uma mãe.

E por isso, seu canto — quando viesse —
não teria melodia.
Teria verdade.


Related posts