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Capítulo 8: Soldados de Brinquedo - parte 4 final

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A quinta-feira amanheceu como qualquer outra em Ceres. Os garotos se odiavam — uns em silêncio, outros aos gritos. Como sempre.

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A quinta-feira amanheceu como qualquer outra em Ceres.
Os garotos se odiavam — uns em silêncio, outros aos gritos. Como sempre.

Dark comia devagar, como em Pietà, mastigando com um sorriso interno, como quem saboreia um segredo antigo.

Cors cochichava com Kan, o novo jogador no lugar de Gene.
— De que lado você tá? — perguntou, direto.

Kan respondeu sem pressa, olhando para o prato:
— Até sexta que vem, vocês vão saber.

Vank ouviu de longe e gritou:
— Covarde, cuzão!

Kan nem piscou. Continuou comendo, como se o sabor da comida fosse mais interessante que qualquer ameaça.

Daime observava Dark e comentou com Theo:
— Ele tá calmo demais. Deve ter feito alguma coisa… esse desgraçado me assusta mais quieto.

Theo murmurou, sem levantar a cabeça:
— Deixa o Dark em paz. Se ele não mexe com ninguém, que fique na paz dele.

Daime desviou o olhar para Ceres.
— Olha o olhão azul da Ceres… olho tão grande que não cabe no rosto. Linda demais. Você tem sorte, cara.

Theo e Ceres se entreolharam. Ela ignorou.
Daime insistiu, provocador:
— Lindos e odiosos. Era pra vocês dois estarem se lambendo.

Theo riu.
— Você fala merda demais.

— Tô falando, tô falando… Theo, seu desgraçado… como é sexy ver a Ceres comendo!

O riso de Theo foi alto dessa vez.
Daime sorriu, satisfeito.
— Esse é o verdadeiro Theo.

O olhar entre Theo e Ceres foi longo.
Carregado.
Silencioso.

Theo voltou a se fechar.
— Vou indo. Aula complementar de mecânica. Pelo menos as máquinas não falam tanta besteira.

Daime respondeu de longe:
— Sim, seu imbecil. As máquinas não têm sentimento como o seu, animal bosta!

Theo deu de ombros e foi.
Ceres seguiu por outra direção, calada, indiferente a todos.

Dru chegou carregando pacotes de cigarro — feitos por ela mesma.
Daime arregalou os olhos:

— Já tão cedo, Dru? Tem hora pra fumar, é?
E, rindo, Daime jogou vinte moedas de latão sobre a mesa.
— Espero que não seja só estrume dentro!

Dru pegou as moedas e sorriu torto:
— Então deve ser por isso que você fala tanta merda.

— Olha como você trata os clientes! — retrucou Daime, acendendo um cigarro. — Vou ali fumar minha merda em paz.

— Vai, ninguém tá te segurando.

— Vou mesmo. Tchau, Dru!

Ceres estava sentada sozinha, mastigando devagar, indiferente ao barulho ao redor. O refeitório vibrava com conversas, passos, discussões, mas ela era uma ilha — fria, imóvel — no centro de tudo.

Dru se aproximou, hesitante.
— Ceres… — murmurou.

Ceres nem virou o rosto.
— Não fala comigo.

Dru congelou. Engoliu seco. Afastou-se rápido, os ombros curvados.

No corredor, cruzou com Ana.
— Tá olhando o quê? — disparou Ana, sem parar.

Dru não respondeu. Sumiu de novo no fluxo do corredor, como um vulto pequeno demais pra importar.

Ana e Ceres se encararam brevemente — olhares afiados, venenosos. Depois, Ana desviou sem dizer nada e subiu as escadas para a aula de Economia. Cada passo dela era uma afronta silenciosa.

No fundo do refeitório, Tycho saía com a mochila pendurada de lado, a caminho de mais uma entrega. Kan, sentado com os cotovelos sobre a mesa, o chamou com um gesto curto.
— Ei, você conserta coisa?

Tycho parou.
— Se tiver peça e paciência, conserto.

Kan puxou um toca-fitas velho da mochila.
— A tampa tá solta.

Tycho pegou o aparelho, examinou com atenção.
— Posso arrumar a alça. Vai custar quinze créditos da moeda da Dru.

Kan assentiu.
— Feito.

Entregou o toca-fitas para Tycho, que guardou o objeto com cuidado e seguiu caminho sem mais uma palavra.

Fora dali, ao norte do pátio principal, existe um campo florido — um raro santuário de cor e silêncio. Ali vive Cora, a menina das flores. Ela cuida de animais vadios, criaturas sem nome, sem dono, sem destino.

Cada um tem um nome engraçado, inventado na hora: Capitão Farelo, Dona Pulga, General Cocô. Ela distribui a eles os restos do refeitório como se fossem banquetes reais. Eles comem com pressa e olhos desconfiados, mas com uma fidelidade inabalável.

Cora se diverte com seus bichos, protegida pela cabana que ela mesma reforçou — tábuas tortas, mas firmes, adornadas com desenhos toscos, feitos com amor nas aulas de carpintaria.

É jovem demais para o peso dos campos de simulação de guerra. Por isso, frequenta apenas as aulas teóricas, quase sempre ao lado de Tycho. Os dois, por enquanto, ainda estão fora do radar do ódio genuíno de Mãe Ceres.

Theo também era assim, um dia: calmo, brando, puro. Hoje é o que é.
Porque Mãe Ceres molda. Corrige. Aperfeiçoa.
Ela não abandona nenhum de seus filhos — nem os falhos, nem os lentos.

Diz-se em Ceres, de geração em geração:
“Nem cães, gatos ou ratos morrem de fome em Ceres.”
E isso, às vezes, é triste.
Porque os bichos são cuidados com mais zelo do que qualquer pessoa do continente.

Para Cora, Mãe Ceres é uma deusa dos milagres.
Ela acredita, de coração, que a própria Mãe sussurra em seus ouvidos:
“Dê comida a eles. Eles têm fome.”
E ela dá.
Porque ama.
Porque acredita.
Porque é simples.

Todos amam Mãe Ceres — até os ratos, de forma inocente.

O campo é calmo. Os ventos suaves do leste trazem consigo o cheiro das fronteiras — Silencium e Arcadia, dois mundos distantes e quietos, onde o tempo parece andar de lado.

Às vezes, ao fundo, ouve-se o ronco dos trens blindados que cruzam os trilhos:
Alguns trazem mantimentos para o colégio.
Outros seguem em linha reta, atravessando a pátria como lanças de ferro.

Mas ali, entre flores, cães e madeira crua, tudo permanece em paz.
Pelo menos, por enquanto.

Cora observava o campo florido.
Por algumas horas, aquele lugar era um mundo particular — só dela e das flores. Não exatamente dela, claro, mas como se fosse.

Ela recolhia sementes por toda a região e as plantava com paciência, decorando cada canto com o que encontrava:
Estacas coloridas, tecidos velhos, cacos de vidro translúcidos.

Guardava as sementes no avião velho tombado no canto do campo, como se fosse um templo.
As marigolds eram suas preferidas.

Enquanto brincava com seus bichos — cães vadios, gatos ariscos, um porco sem uma pata e até uma galinha manca chamada “Comandante” — Cora percebeu um ponto negro no horizonte.

Primeiro, não ligou. Era pequeno, distante.
O tipo de sombra que dança com o calor da terra.

Voltou à rotina, penteando o pelo de um cachorro com uma escova de sapato.

Minutos depois, olhou de novo.
O ponto estava maior.
Mexia-se.

Franziu a testa, levou a mão à testa para sombrear os olhos.
Aquele movimento era estranho.
Um trem? Não.
Algo vivo.

Quando, enfim, conseguiu ver direito, o sangue gelou:
Era uma criatura enorme, escura, errada.
Como se fosse um cão, mas não era.

O andar era tenso.
O corpo, comprido.
Os olhos — dois rubis derretidos.

O cão que escapara do hangar de Dark.

Cora não sabia disso.
Não sabia o que era.
Mas entendeu o bastante:
Aquilo não pertencia ali.

Os cães dela perceberam antes. Rosnaram, levantaram-se e correram na direção da criatura para defender seu campo, seu lar.
Não tinham chance.

O monstro os dilacerava com uma brutalidade silenciosa. Um por um.

Cora gritava, mas ninguém a ouvia.

Correu de volta, ofegante, desesperada, atravessou os corredores da escola pedindo ajuda — mas ninguém se importava.
Não era "urgente" o suficiente. Não era importante.

Foi então que encontrou Theo.

Ofegante, em lágrimas, sem fôlego nem palavras claras. Mas seus olhos diziam tudo.

Theo entendeu. Cora não pedia flores, nem por si mesma.
Pedia pelos seus cães. Pelos únicos seres que nunca haviam mordido ela em Ceres.

Theo viu Ceres ao longe. Gritou com firmeza, num comando que ecoou pelo corredor como aço batido:
— CUIDE DELA. EU VOU LÁ... VOCÊS FIQUEM AQUI! É UMA ORDEM!

Ali, não era mais o Theo calado do refeitório, nem o irmão gentil, nem o garoto contido.
Era o soldado de chumbo de Mãe Ceres.

Quando a sobrevivência era ameaçada, eles mudavam. Tornavam-se aquilo para o que foram treinados: instrumentos precisos de ação e destruição.

Mãe Ceres os alimentava, os educava — e depois, os devorava.

E ela sorriu, lá no fundo, onde vive o controle. Seu plano dera certo.

Theo correu em disparada pelo pátio. Seus passos ressoavam secos no solo duro.

Quando chegou ao campo, o paraíso já se transformara num altar sangrento.

Os gatos de Cora miavam em pânico: alguns sobre a cabana, outros mortos, estraçalhados, tripas pendendo dos galhos e do chão.

A grama florida agora era vermelha e púrpura. Sangue de bicho, sangue inocente.

E, no centro de tudo: ele.

A criatura.

Um cão — ou algo parecido com um cão. Quase cinquenta quilos, olhos vermelhos, focinho como uma fenda negra aberta no mundo.

Tinha prazer no que fazia. Rasgar. Mastigar. Desfigurar.

Como se tivesse vindo do inferno apenas para arruinar tudo o que era delicado.

Ele não pertencia àquele lugar, nem àquele planeta.

O cão parou e viu Theo.

Mas não viu um oponente. Viu mais carne.

Theo não hesitou. Enrolou o casaco no braço esquerdo, preparando a defesa.

A criatura avançou com fúria. Theo desviou. Os dois se encararam.

Então, como um estalo dentro do peito, algo foi acionado no fundo da mente — nos nervos, nos ossos —

Theo ouviu de novo o apelido que tanto odiava: "Príncipe de Mãe Ceres."

Era o chamado. O vermelho dentro dele.

O cão avançou outra vez.

Dessa vez, Theo agarrou suas patas traseiras. Girou o corpo num movimento brutal e bateu o animal no chão. Uma, duas, três vezes. Como um boneco grotesco.

O crânio rachou. O som foi seco, doído, final.

Theo soltou o cão. O corpo caiu, ainda estribuchando. O cérebro vazava em uma polpa escura, mas ele não morreu de imediato.

O corpo parecia não entender que já não estava vivo.

Só depois de alguns espasmos, parou por completo.

Então Theo olhou ao redor.

O campo florido. A cabana colorida. As flores pisoteadas. Os corpos dos bichos. O sangue quente misturado à terra.

Aquele lugar, que por alguns minutos fora um refúgio de inocência, agora era só ruína e silêncio.

Theo voltou ao colégio em passos firmes. Seu rosto era pedra, seu corpo ainda carregava o cheiro da terra e do sangue.

Procurou os coordenadores, relatou tudo.

O cão não era dali. Não era de Ceres. Era um intruso, uma ameaça.

Relatórios foram abertos, chamados enviados aos Silenciadores.

Mas apenas poucos sabiam o que realmente havia acontecido.

O resto... seguia comendo, estudando, dormindo.

No refeitório vazio, Ceres cuidava de Cora. Ela estava em choque, o rosto perdido entre pânico e tristeza.

Theo chegou até elas, abaixou-se até a altura de Cora e falou, olhando nos olhos:
— Cora, você já sabe o que aconteceu. Quer ajudar?

Cora hesitou. Os olhos encheram de lágrimas. Respirou fundo e disse, quase num sussurro:
— Não... Eu faço sozinha.

Por um momento, silêncio.

Mas no silêncio, disseram tudo.

Cora entendeu. Theo também.

Ela precisava crescer. Precisava entender o mundo real — e nele, Mãe Ceres era implacável.

Não havia espaço para doçura quando o futuro era feito de ferro, aço e disciplina.

O que havia acontecido era o primeiro golpe do mundo contra ela. E seria apenas o primeiro.

Cora lamberia suas próprias feridas.

Ela viu isso no olhar de Theo — porque muitas vezes, ele não estaria ali.

Então sorriu. Um sorriso melancólico, frágil, como uma flor murchando com dignidade.

E, mesmo sem perceber, Cora começou a afundar no plano de Mãe Ceres.
Não era visível, não era imediato.
Era como um transe lento, silencioso.
Como um metal denso e cinzento sendo depositado no fundo da alma.

Mãe Ceres iniciava o implante.
Implantava chumbo em seus filhos.

E o chumbo... não é doce.
Não é amargo.
É só soso.
Soso.

O chumbo não é doce, nem amargo.
É soso.
Como o gosto do sangue seco nas gengivas.
Como o silêncio depois da chacina.
Como a primeira vez que se entende que Mãe Ceres nunca teve rosto — mas sempre teve dentes.

Naquele dia, flores morriam em pé.
E Cora aprendeu, sem palavras, que milagres e monstros comem no mesmo prato.

O campo florido, antes seu pequeno reino, agora era uma pintura feita à unha e carne.
Gatos pendurados como frutos podres.
Tripas balançando com a brisa.
Cabana de madeira rabiscada de vermelho.

O Príncipe Vermelho de Mãe Ceres fez seu trabalho.
Matou.
Mas não salvou.

Porque em Ceres, salvação não é um direito.
É um erro estatístico.

Theo sabia disso.
Cora entendeu agora.

O programa de Mãe Ceres não falha.
Ele molda.
E moldar dói.

Enquanto o cão morria devagar, com o crânio aberto, a infância de Cora morria junto.
Sem cerimônia.
Sem aviso.

No colégio, ninguém falou sobre o cão.
Nem sobre os gatos.
Nem sobre o chumbo começando a se derreter dentro do peito.

Silêncio.

É assim que o gosto soso se instala.

“Soso é o gosto da vida em Ceres.
Nem sal, nem açúcar.
O sal arde, o açúcar vicia.
O soso mantém.
Sustenta.
Não consola.”

“Mãe Ceres não quer que sintamos demais.
Quer que obedeçamos.
Quer que suportemos.
E o gosto soso… é o tempero da obediência.”

Theo saiu sem olhar para Ceres, mas ela entendeu.
Theo não era qualquer um.
Não foi pena o que moveu seus passos até Cora — foi obediência.
Um chamado interno.

Ceres reconheceu o gesto: aquilo era um alerta silencioso, um código antigo entre soldados que entendem a linguagem de Mãe Ceres.
Era como se dissesse: um dos filhos está em perigo.

Cora, ainda em choque, não compreendia tudo racionalmente, mas algo nela se moveu.
Uma semente foi plantada.

Ela sentia — não como pensamento, mas como instinto — que havia um propósito mais profundo, escuro e calculado por trás daquilo tudo.
Que Mãe Ceres cuidava, sim, mas à sua maneira: com aço, disciplina e destino programado.
O cuidado era um pretexto para o controle.

Ceres observava Cora com a frieza necessária.
A emoção da menina não abalava o protocolo.

Ela sabia o que estava acontecendo — mais uma filha sendo moldada, mais uma seiva sendo drenada para alimentar o corpo de chumbo da Revolução.

Implantar ideologia era como afogar devagar.
Cora, sem saber, já mergulhava.

E Theo?
Theo não voltaria por ela.
Não porque não se importava — mas porque assim era o plano.

Crescer em Ceres era aprender a doer sozinha.

E, mesmo que Cora ainda não tivesse consciência disso, parte dela já sabia: a infância havia acabado ali, no campo florido pintado de sangue.

Os filhos de Mãe Ceres não morrem.
Eles endurecem.

Theo tentava processar aquelas imagens que surgiram em sua mente — a criatura sendo levantada como um boneco, leve demais, errada demais.

O cão não era dali. Nunca visto. Algo nele era absolutamente suspeito.

Na coordenação, parabenizaram a ação.
Disseram que foi correta.

Mas entre os colegas, a coisa era diferente.

Era um cão.
E ninguém ali tinha visto de perto o tipo de criatura que era.

A ordem era clara: até segunda decisão, tudo estava proibido.
Amanhã viriam os Silenciadores.
Nada da cena poderia ser tocado.

Os alunos olhavam estranho para Theo.
Julgavam.
Achavam que ele poderia ter controlado o pobre animal.

Mas não sabiam o que era aquele cão.

Era algo além de cão.
Sabemos que cachorros atacam por medo. Ou por instinto.
Mas aquele não tinha medo. Nem estresse.

A leitura de Theo era clara: o cão veio para morrer ou sobreviver.
Sem meio-termo.

E ao ver os restos dos animais que ele estraçalhou — corpos retorcidos, patas rasgadas — não parecia defesa.
Parecia diversão. Prazer. Ódio.

O mesmo ódio que Theo conhecia.
Só que agora, ele não sabia se era dele ou da criatura.

Foi a melhor escolha?
Ninguém sabe.

Mas funcionou.

Nenhuma baixa. Nenhum dos filhos de Mãe Ceres morreu.
E isso é o que importa no fim.

Como bons soldados moldados pelo chumbo.
Soldados-brinquedo de Mãe Ceres.

Mesmo assim, todos repetem o mantra.

Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e nos devora!


Pensamentos de Theo, andando pelos corredores

Ainda era tarde.
O sol entrava pelas janelas, mas nada parecia claro.

Os olhares vinham de todos os lados.
Olhares que julgavam, que pesavam.

Matei um cachorro.
Era isso que todos viam.
Era só isso que conseguiam ver.

Cora... ainda sentida.
Amanhã ela saberia o que fazer com a cabana. Com o estrago.

Dark, de longe, me olhava.
Olhar fixo, sorriso pequeno demais para ser cordial.
Movia os lábios devagar, só o suficiente para eu entender —
“Gostou?”

Podia ser imaginação minha.
Mas acho que ele sabia.
Ou queria que eu acreditasse nisso.

Não me importo.
Ninguém viu o que eu vi.
Preferem me acusar por matar um pobre cão.

Mas eu era o pobre cão.
O cão de chumbo.

Ceres me olhava estranho também.
Mas lá no fundo...
Lá no fundo, ela não acreditava.
Foi ela quem cuidou de Cora. Foi por meu pedido.

Cora não falava.
Só processava tudo.

Dark continuava me observando, como se soubesse que eu tinha gostado.
Como se visse algo em mim que ninguém mais via.

Há rumores sobre ele.
Dizem que mata cachorros. Gatos. Tudo o que se mexe.
Mas sempre foram só isso — rumores.

E quando um animal sumia, diziam que o trem passou por cima.
Ou que foi outro bicho. Ou morreu sozinho.

Mas eu não duvido de Dark.


Dormitório. Luz fraca.

Theo deita, olhos abertos.
Os pensamentos não param.

Ainda era tarde, mas parecia noite dentro de mim.

O corredor ficou para trás.
Os olhares, as palavras não ditas...

Agora tudo é silêncio —
Mas por dentro, não para.

Matei um cachorro.
E todos viram isso.
Só isso.

Ninguém viu o que eu vi.
Ninguém leu o que eu senti.

O bicho não era normal.
Não tinha medo. Não tinha fome.
Tinha uma missão.

Veio para matar, ou morrer.

Como eu.

Mas agora... agora sou o monstro.
A sombra.
O estranho.

Cora ainda está calada.
Talvez chore depois.
Talvez me odeie agora.

E Dark...
Dark me olhou como se soubesse.
Como se dissesse:
— Gostou?

Talvez ele saiba de algo.
Mas talvez eu esteja sendo injusto.

Dru me confessou que já ficou com ele.
Se afastou depois.
Disse que ele era perturbador.

Dark é o tipo de gente que até os passarinhos evitam.
Nem a própria sombra quer ficar perto.

Mas... em campo?
Em campo, ele era outro bicho.
Um cão de guerra.
Seu sadismo era combustível.

E, por mais que nos odiássemos, eu me alimentava daquilo.

Tinha sangue nos olhos.
Gosto de sangue na boca.

Quando eu passava uma bola perfeita...
Ele quebrava uma clavícula como se fosse técnica refinada.
Maldade com precisão cirúrgica.
E nunca era expulso.

Cada xingamento era um aplauso disfarçado:
— Seu merda.
— Passa logo, seu lixo.
— Cuzão.
— Filha da puta.

No fundo, eu ouvia:
— Valeu, você é fera.
— Continua assim.
— Parabéns.

O ódio deles...
Era minha motivação.

Liderá-los não era um cargo.
Era um tipo de laço, de pacto não escrito.

Nunca perdemos.
Nunca.

Sangramos nas brigas.
Nos vestiários.
Nos jogos.

E se não tinha sangue...
Não era vestiário. Era igreja.

A execução da jogada era sagrada.
E o professor sorria no final.

Mas agora...
Minha liderança está por um fio.
Denunciei Gene.
Matei o cachorro.

As paredes estão apertando.
Os olhos me cortando.
Tudo desmoronando.

Que se fodam.

Mãe Ceres nos alimenta.
Nos educa.
E, se preciso...
Nos devora.


Dia seguinte.

Um trem blindado rasga a garganta de aço da Torre de Mãe Ceres.
Ele segue em direção ao último colégio, nos limites do setor leste da cidade.

O ruído metálico corta o céu da manhã como um anúncio de guerra.

Desde o último jogo de Flagball contra Arcádia, os cães têm sido um problema.
Não é coincidência.

Convicções sólidas indicam que os animais vieram de dentro de um dos trens blindados de Arcádia.
Foram lançados em Ceres.
Um ataque.
Silencioso. Preciso.

Foram semanas de caçada.

Agora, o trem avança veloz.
E dentro dele, estão os Silenciadores.

Eles usam capacetes semelhantes ao ícone de Mãe Ceres.
Nenhum rosto.
Nenhuma voz.
Apenas ordens.
Frieza mecânica.

Entre eles está Amós.
Um A.D. — Advogado Diplomata.
Um dos poucos homens com livre acesso dentro e fora da cidade.

Em Ceres, só se atravessa fronteiras com peso institucional.
E Amós é esse peso.

Sua roupa militar é impecável.
Sobretudo cinza-escuro de corte assimétrico, com botões laterais.
Broche com o rosto de Mãe Ceres no peito.
Óculos escuros.
Cabelos penteados para trás com gel.
Sua presença é cortante.

Em mãos, uma mala de couro negro, repleta de papéis, relatórios e acusações.
Ele carrega o silêncio legal da cidade.
A burocracia da culpa.

Enquanto o trem adentra a periferia, o sol completa sua viagem, rasgando o horizonte com uma luz dourada e irônica.

Amós lê. Relembra.
Ele já sabe de um dos cães — foi abatido.
Mas onde estão os outros?

A dedução é certeira.
Advogados Diplomatas não erram no óbvio.
Não quando carregam fichas completas dos alunos.

Durante o briefing, recebeu dois nomes.
Dois potenciais:
Theo 7A3X.
Dark 9X1B.

Ali estão seus históricos, suas notas, seus devaneios.
Ambos brilhantes.
Ambos perigosos.

Mas Dark...
Dark era uma anomalia documentada.
Desde o protocolo Pietà, ele foi classificado como "Psicopatia Fria".
Era óbvio demais.

E Amós não gosta de suposições.
Ele caça certezas.

Gente assim...
Precisa de um ninho.
Ou de um esqueleto no armário.
Ou de um mausoléu de delícias escondidas.

Ele conhece o padrão.
A cena.
O cheiro.

Então, faltando 3,5 km para o colégio, ele vê um hangar.
Um simples hangar abandonado.
A cidade tenta fingir que ele não existe.
Mas Amós vê.

E Amós ordena:
— Parem o trem.

Parar um trem em Ceres é como parar o tempo.
Como interromper o processo.
Mas o silêncio obedece.

E, pela primeira vez desde o nascer do sol, a cidade respira em expectativa.

O trem freia com um assobio metálico.
Um lamento cortando os trilhos.

Os Silenciadores saem em silêncio, armas em punho, olhos invisíveis atrás dos visores opacos.
Não se fala nada. Tudo já foi decidido antes de sair da torre.

Amós é o último a descer.

O hangar diante deles é grande, cinzento, abandonado — mas vivo por dentro.
Um concreto velho que respira medo.
A porta principal está entreaberta, como se esperasse por eles.

Amós caminha devagar.
O sobretudo balança com o vento seco.
Ele respira fundo.
— Laboratório da desgraça humana... — murmura.

Mas não era com gente. Ainda não.
Ali faziam testes com cães, ratos, macacos.
Aversão, recompensa, choque, isolamento, privação.
Condicionamento extremo.

Se fazem isso com animais...
...imagina com gente.

Os Silenciadores entram primeiro.
A ponta das botas afunda em um chão manchado.
Sangue antigo. Arranhões nas paredes.
Coleiras rompidas. Jaulas abertas.

No canto, um projetor antigo pisca, como se ainda quisesse contar algo.
Amós observa. Anota algo.
Está procurando por padrão. E o padrão sempre aparece.

Em uma bancada enferrujada, encontra fichas amassadas com números de registro.
Alguns batem com os arquivos dele. Outros não.

— Aqui é o ninho — diz, como se confirmasse algo que já sabia.

Ele vira-se para o oficial ao lado.
— Isolem tudo. Agora. Ninguém entra. Ninguém toca.

O oficial não responde com palavras. Apenas acena.

Do lado de fora, o sol começa a perder força.
E dentro do colégio, Theo e Dark ainda não sabem que a caça mudou de lado.
Agora, eles são os alvos.

Enquanto os Silenciadores avançam, meticulosos e silenciosos como sombras, Amós caminha entre as colunas de concreto do hangar.
Os feixes de luz que atravessam os buracos no teto revelam mais do que poeira: mostram pedaços de algo... diferente.

Ele para subitamente diante de uma estrutura metálica enferrujada, como um antigo suporte cirúrgico improvisado.
Ali está ele.
O segundo cão.
Ou o que restou dele.

Mas não destruído como se espera de um corpo atacado — ele foi cuidadosamente desmontado, membro por membro, órgão por órgão, como se alguém tivesse estudado e montado um quebra-cabeça cruel.
Estava suspenso por fios de aço, cada parte encaixada com precisão absurda.
Uma escultura de desespero.

O crânio limpo, com a arcada dentária exposta em um sorriso involuntário.
As patas abertas em cruz, presas por grampos metálicos.
Os olhos vazados, mas as órbitas limpas — como se quem fez aquilo tivesse prazer em preservar a forma original, mesmo após tirar-lhe toda a vida.

Na parede ao lado, com o próprio sangue seco, alguém desenhou um círculo assimétrico — um símbolo tribal, rudimentar, sem lógica aparente.

Amós suspira, sem surpresa. Ele vê mais do que os olhos permitem.
— Obra de arte — disse quase com nojo.
— Alguém que não matou por raiva. Matou por expressão.

Ele tira um lenço de couro e limpa a lente dos óculos.
— Não é sobre morte. É sobre controle.

Um dos Silenciadores se aproxima e murmura:
— Senhor, parece... ritualístico.

Amós concorda com um aceno lento.
— Não parece. É. — Fecha a pasta e retira as fichas novamente.

Theo 7A3X. Dark 9X1B.

Ele olha fixamente para o nome de Dark.
— Esse aqui é um problema com pernas.

Volta os olhos para o cão montado como troféu de um artista demente.
— E isso aqui... isso é uma assinatura.

Fecha a pasta com estalo seco e murmura, como se Mãe Ceres ouvisse:
— Vamos ver se esse soldadinho de chumbo vai continuar em pé quando a marreta descer.

Do lado de fora, o vento traz o cheiro do leste.

Mais cães?
Ou mais monstros?

No refeitório, o burburinho de vozes se amontoava no ar como poeira — leve, mas impossível de ignorar. As colheres raspavam os pratos de aço inox com violência passiva. Os olhares? Cortantes. Todos voltados para Theo.

Ceres estava à mesa ao lado, tentando não encarar.
Mas encarava.

Theo fingia não notar — mastigava devagar, mecânico, como se a comida fosse uma punição. No fundo, sabia: ninguém esquece um herói que matou um cachorro. Ainda mais depois da aula de ontem, com os instrutores ensinando sobre contenção, neutralização, calmantes improvisados, aproximação pacífica...

Mas ninguém viu o que ele viu.
Ninguém sentiu o que ele sentiu.

Então, Daime chegou.

A cadeira de rodas freou com um rangido leve ao lado da mesa de Theo. Ele tinha aquele sorrisinho torto de sempre, braços cruzados sobre o colo.

— Que dia de cão, hein? — soltou, alto o suficiente para metade do refeitório ouvir.

Theo apenas desviou os olhos, sem responder.

— Tu tá maluco, cara. — Daime riu pela garganta. — Mas sei lá... tenho minhas dúvidas. Aquilo ali não era cachorro de rua, não, hein? — balançou a cabeça. — Dizem que era só um totózinho, mas sei que não foi só isso.

Theo suspirou, afundando um pouco mais nos próprios ombros. A comida já não tinha gosto.

Daime continuou, sem piedade:

— Para de olhar com essa cara de cachorro arrependido... Tá parecendo que tá com pulga atrás da orelha, cara.

Deu uma risada. Theo apenas tolerou.

— Eu sei que foi pesado, tá? — disse Daime, mais sério. — Mas alguma coisa passou aí nessa sua cabeça torta. Gene, Ceres, sua liderança caindo pelas beiradas... ou então você viu alguma coisa que ninguém viu. Porque você não é disso, campeão.

Theo finalmente o encarou, com uma mistura de raiva e dúvida.

Daime sorriu — agora com leveza sincera.

— Tem muito mais cara de Dark esse rolê, pelas fofocas que rolam por aí.

— (pausa) —

— Mas fica frio. Tô do seu lado. Zoando, mas do seu lado. Rindo, mas do seu lado.

Theo forçou um meio sorriso, quase imperceptível.
Mas por dentro, o chumbo ainda derretia.

O refeitório fervilhava em sussurros, talheres arranhando pratos com ritmo nervoso. Theo ainda mastigava, forçando-se a permanecer indiferente, quando o silêncio absoluto caiu como um machado.

A porta metálica se abriu.

Entraram os Silenciadores.

Entraram todos ao mesmo tempo.

Capacetes negros, semblantes apagados, uniformes idênticos. Nenhum rosto, nenhuma expressão. A presença deles era um apagamento: onde pisavam, até o som parecia recuar.

Atrás deles, em passo lento, porém firme, Amós.

O refeitório parou.

Dru congelou com a colher no ar.
Cora apertou os dedos no tecido da calça.
Ceres se inclinou, como se o corpo previsse algo.
Vanks, Kan, Cors e Ana não sabiam se olhavam ou fingiam não ver.

Amós não disse nada. Apenas apontou.

E os Silenciadores foram direto até Dark.

Ele não protestou.
Não lutou.
Não disse uma palavra.

Simplesmente se levantou, ergueu os braços e deixou-se ser levado.
Como se já conhecesse o caminho.
Como se fosse rotina.
Como se... aceitasse.

O som das botas reverberava pelos azulejos.

Apenas ao chegar na porta, Amós parou.
Seu sobretudo impecável tremulava discretamente.
Ele virou o rosto em direção à mesa de Theo.
A voz soou clara, cortante:

— Theo, me acompanhe até a sala de coordenação. Agora.

Silêncio absoluto.
O mundo parou por meio segundo.

Daime, baixinho, como quem entrega um veredito inevitável:
— Fudeu.

Sala de Coordenação — Fechada. Fria. Clinicamente limpa.
Amós está de pé, imóvel, com as mãos cruzadas atrás das costas. Theo permanece de pé também, como um soldado esperando veredito. Nenhuma cadeira é oferecida.

Amós (voz firme, sem inflexão):
— Theo 7A3X, belo nome...
Estou aqui para perguntas objetivas.
Quero respostas de sim ou não.
Nada de desvios. Nada de floreios.
Entendido?

Theo (olhos fixos, postura rígida):
— Sim.

— Você viu o Dark ser levado à detenção?
— Sim.

— Ele não resistiu?
— Sim.

— Foi você quem matou o cão?
— Sim.

— O corpo do cão ainda está no campo?
— Sim.

— O cão era fora do comum?
— Sim.

Pausa. Amós relaxa os ombros. Solta o ar pelo nariz, como se estivesse satisfeito. Olha para Theo agora como quem contempla uma peça rara.

— Muito bem... Fique tranquilo, Theo.
Você é um filho de Mãe Ceres.
Um rapaz de sobrancelhas confiáveis...

Amós se aproxima; a voz muda de tom. Agora é sedosa, quase doce.

— Sei que tem um irmão... Tycho.
Gordo, preguiçoso... como você era antes.
Mas vai evoluir. Isso é normal.

— E seu irmão mais velho...
O 13º astronauta a chegar em CERES II.
Isso é grandioso, garoto.
Você deve se orgulhar.
Vocês serão o orgulho de Mãe Ceres.
Este colégio... é o único lugar onde terão a ilusão de liberdade.

Amós começa a circular Theo, como um treinador que observa um boxeador antes da luta.

— Depois... serão engolidos.
E quando isso acontecer, será o fim deste lugar para vocês.

— Mas você... você ainda tem chance.
Tem fibra.
Você é um líder... e o mais raro de todos:
Um líder que não usa a força.

Amós para à frente dele. Sorri de canto.

— Era para a Cora estar aqui.
Mas provavelmente faria xixi nas calças que Mãe Ceres deu para ela.

Pausa. Olhos fixos.

— Agora, escute com atenção, Theo...
Nunca diga a ninguém que era um “maldito cão estranho”.
Diga apenas: era um cão.
E que você o sacrificou.
Porque era uma praga.
Como eu também acho que era.

— Não queremos alarme.
Não queremos pânico.
Entendido?

— Sim.

Amós coloca a mão no ombro de Theo. Firme. Pesada.

— Infelizmente... é assim, meu filho.
O chumbo provoca isso.
Você é honrado.
Mãe Ceres merece filhos assim.

Olha nos olhos dele. Última frase, como mantra:

— Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa... e que nos devora.

Solta o ombro de Theo. Volta à posição militar.

— Dispensado. Saia.


Corredor Principal — Pós-interrogatório
Porta se abre com som metálico seco.
Theo sai. Olhar firme. Nenhuma palavra.

No fim do corredor, Dru, Cora, Kan e Vanks esperam, mas não se aproximam.
O silêncio é denso, cortante.
A tensão pulsa no concreto das paredes.

Dru (sussurrando para Cora, sem tirar os olhos de Theo):
— Ele tá diferente... Olha o jeito que ele anda.

Cora:
— Não é o jeito. É o olhar. Parece que alguém acendeu algo dentro dele... ou apagou.

Theo cruza por eles sem dizer nada.
O único que ousa se mover é Daime, que se aproxima em sua cadeira, girando lentamente para segui-lo.

Daime (tentando aliviar o clima):
— E aí, general... tudo sob controle? Ou vão tatuar o rosto da Mãe Ceres na tua testa?

Theo não responde. Apenas caminha. Firme. Silencioso. Daime o observa ir.


Corredores da Ala Principal – Final da Tarde

O som da sirene abafada indica o fim das atividades.
Os alunos caminham em silêncio, mais lentos que o normal.
Há um peso no ar — algo sumiu. Alguém.

Theo passa por Ceres. Ela não o encara. Não o evita. Apenas... respira mais forte.

Kan, que normalmente nunca falava, anda com passos curtos, olhos no chão.
Cors pergunta baixinho, sem nem saber para quem:
— Eles levaram mesmo o Dark?

Dru, sempre com uma resposta pronta, apenas encolhe os ombros.

Ana (com raiva, mas em sussurro):
— Isso não se faz com um aluno... Por mais estranho que ele fosse...

Vanks (tentando racionalizar):
— Ninguém é levado assim... sem motivo...

Cora, pela primeira vez, fala firme:
— Ele sabia que estavam vindo. Não resistiu. Isso me assusta mais do que se ele tivesse fugido.

Todos olham uns para os outros. Nenhuma resposta.
Só perguntas e um espaço vazio — à mesa, no dormitório, no campo.


"Um Olho na Sombra"

Após a chegada dos Silenciadores e de Amós, o caso foi encerrado com uma eficiência assustadora.
O animal fora encontrado, desmontado como uma obra de arte sombria, e recolhido.
Ambos, cão e Dark, foram levados no trem blindado em direção ao centro de Ceres.
Ninguém ousava perguntar o que acontecia lá. Ninguém voltava de lá.

O clima era denso como fumaça de chumbo.
Theo, agora condecorado com a Medalha de Honra, sentia o peso do metal mais como uma algema do que um reconhecimento.
A liderança que um dia pulsou em seus músculos agora sangrava em silêncio.
Era como se, a cada dia, sua alma estivesse sendo trocada por chumbo — sem anestesia.

Nos corredores, os olhares cortavam.

Cors, ríspido:
— Fracassado.

Vanks, ácido:
— Entregador.

As consequências nunca caem em quem as merece, mas sim em quem é mais fácil culpar.

Dark não avisou sobre os cães — e mesmo assim, Theo virou o vilão.

Ceres o observa no refeitório. Ela não diz nada. Ninguém diz. Mas os olhos dela falam:
“Deixe sua mente aceitar o que seu coração já sabe.”

Mas Mãe Ceres ensinou outra coisa:
“Maior que o amor... é o medo.”

E o medo reina.

Entre o barulho dos talheres e os cochichos, apenas um rosto carrega um sorriso — Tycho, seu irmão.

Sem cerimônia, senta ao lado de Theo e lhe entrega um antigo toca-fitas, com a fita já colocada. Ele sussurra:
— Escuta essa quando ninguém estiver por perto... Welcome to the Darkness / The Brilliance.

Theo não entende.

Tycho continua, como se falasse de um ritual de guerra antigo:
— Soldados que lutavam nos trens escuros... antes de entrarem, tampavam um dos olhos.
Na luz, o outro via.
Mas, na escuridão, o olho protegido enxergava tudo. E vencia. Entendeu?

Theo fica em silêncio.

Tycho sorri, cúmplice:
— Faz o mesmo.

Theo respira fundo. Pela primeira vez em dias, sorri.
Ele vê o irmão crescendo, se transformando — como ele mesmo já foi um dia.

Agora Theo está nas sombras.
E todos que o julgam estão sob a luz.
Eles não enxergam nada do que aconteceu lá dentro.

Mas ele enxerga.

“A Prece de Cora”

Depois que os Silenciadores limparam o campo, restaram apenas vestígios de sangue seco sobre a terra.
O vento levava embora o cheiro da morte, mas o vazio permanecia.

Cora voltou ao campo de flores onde os animais sobreviventes ainda perambulavam, ressabiados e silenciosos.
Quando a viram, se aproximaram.
Aninharam-se nela.

Ela se abaixou, tirou do bolso pequenos pedaços de pão e ofereceu — um de cada vez.

Era um fim de tarde avermelhado, como os olhos dela.

Cora sorria com tristeza. Uma melancolia alegre, como quem sabe que perdeu... mas ainda tem por quem continuar.
Os animais sentiam sua energia. Ela não precisava falar — era como se pensassem juntos.

Para homenagear os que se foram, Cora fincou pequenas estacas no chão.
Fez todas em formato de M, de Mãe.
Cada uma com um nome engraçado dos bichos que cuidava:
— Bananinha, Trapo, Abobrinha, Triscavinho, Mordiscudo, Catapimba...

Nominar era eternizar.

Cora ajoelhou-se. Olhou na direção da torre e fechou os olhos.
O silêncio do campo era total, como se até o ar estivesse ouvindo.

Ela começou uma prece.
A voz saiu tremida, como quem fala com algo real.
E era real para ela.

— Mãe Ceres...
Perdoa o cão raivoso. Alguém deve ter feito mal pra ele...
O pobrezinho nem chegou a comer sua comida.
Porque em Ceres, nenhum cão, gato ou rato morre de fome em suas terras...

(Soluço.)

— Perdoa o Theo também. Ele tem um bom coração... foi o único que me ajudou.

(Soluço.)

— Eu te amo muito, minha Mãe Ceres.
Eu sei que tenho que ser forte pra lutar do seu lado... pra te proteger...

(E agora a voz falha, engasga.)

— ... sabe por quê?

(Um sorriso úmido, infantil, cansado.)

— Porque eu consigo te ver. Eu vejo você. Como é bom te ver sempre...

— Eu tenho muita gratidão, Mãe.
Meus bichinhos ainda vivos... estão aqui comigo.

Ela abraça dois deles. Um rosna de leve, o outro lambe sua mão com carinho.

— Mãe Ceres... que nos alimenta, que nos educa... e nos devora.

Cora soluça. Mas permanece ajoelhada.
Firme.
Forte.

Como uma raiz que, mesmo sangrando, ainda floresce.

A VOZ DE CERES
(fundo musical: Danièle Licari – Concerto pour une Voix)

"Cidadãos e Filhos de Mãe Ceres...
Informamos que, nesta manhã, ocorreram as execuções dos indivíduos 3B9X, 4K1T, 7D2L e 2R8P, nas Praças A e C, conforme ordenança nº 7229 da Alta Administração.
A segurança da cidade permanece inabalável.

Ainda nesta manhã, recebemos a visita oficial do Advogado Diplomata Amós 6F7C, em missão protocolar de investigação. Confirmamos que o animal encontrado nos arredores do Colégio do tratava-se de um cão raivoso em estágio terminal, debilitado pela idade avançada e por falhas neurológicas.

Um dos alunos demonstrou bravura e responsabilidade ao impedir um possível desastre nas dependências da escola.

Não há motivo para preocupação.
Mãe Ceres continua zelando por cada um de vocês.

Mãe Ceres nos alimenta, nos educa...
...e nos devora."

(Som de estática suave. Fim da transmissão)


Entre a Luz e o Chumbo


A semana se passou na escuridão onde Theo vive agora.
Entre a luz — e a sombra.
Um olho se acostumou à claridade, o outro permanece fechado, preservando a visão noturna. É uma penitência silenciosa, ou talvez… o início da transformação.

Mãe Ceres vai injetando chumbo.
Não de uma vez — mas aos poucos, como quem monta um brinquedo novo com peças usadas.
Troca os sentimentos dos filhos por metal frio, sem anestesia. Um adolescente lapidado para a guerra.

Cora, antes feita de doçura e riso, agora começa a trocar sua inocência pelo gosto amargo do chumbo.
Tycho, enganado por Dru, se viu obrigado a evoluir — mas o câncer também evolui.
Ambos crescem. Ambos doem.

Mãe Ceres não ensina na derrota.
Ela se instala nela.
É no momento da queda, do choro, da falha... que o chumbo encontra espaço.
É quando o coração racha que ela planta sua semente.

O ódio é a força mais pura que conhecemos.
Ele não precisa de lógica. Ele queima. E destrói.
Mãe Ceres sabe disso — ela manipula vontades com as ferramentas que os homens escondem no peito:
Inveja. Ressentimento. Raiva. Dor.
Nada deve ser desperdiçado.
Nenhuma força humana é inútil.
Ela recicla tudo.
Ela alimenta.
Ela educa.
E ela devora.

Ceres o observa de longe.
Theo está sozinho. Mastiga o alimento como se fosse chumbo derretido.
Na bandeja, a comida parece inofensiva.
Mas cada mordida pesa. Pesa como culpa, como lembrança, como nome de amigo no alto-falante da execução:
Gene.

Hoje é o dia.
E a dor de Theo não é pela perda em si.
É por ter sido ele quem entregou.
Mesmo que o sistema tenha premiado sua atitude, mesmo que a medalha de honra brilhe em seu peito como uma condenação dourada.

Ceres o assiste — e não vê apenas um garoto.
Ela vê o abismo crescendo em silêncio.

Theo matou um cão.
Brutalmente.
E o que assusta Ceres é que ele não hesitou.
Mas ela viu. Ela viu o que os outros não enxergaram.

O cão não era um cão.
Não era deste mundo.
Era algo além da carne, algo torcido demais para viver.
Mas a decisão, o ato — foi humana. Humana demais.

Do outro lado do refeitório, Cors o encara.
Aponta o dedo, como quem diz:
“Você é meu.”
É pessoal. Uma caçada.

Vanks apenas balança a cabeça.
Desaprovação muda.
Como se dissesse: “Não importa o que fizeram com você. Ainda assim, você escolheu.”

Kan observa tudo em silêncio.
Sabe que Theo está num inferno particular.
Aquele que ninguém vê.
Aquele que só arde por dentro.

A medalha de Theo pesa mais que o uniforme inteiro.
É como se carregasse dentro dela o próprio inferno de Ceres.

Dark continua na detenção.
Pra ele, é terça-feira.
Não é a primeira vez, e todos acham que será mais uma punição esquecida.
Mas ninguém sabe o motivo dessa última.
Ninguém sabe que ele também está mudando.

Hoje, porém, é dia de combate.
Campo de simulação.
A disputa entre líderes.
Homens contra mulheres.
Violência gratuita, travestida de diversão.
Uma simulação que ensina a ferir e sorrir ao mesmo tempo.

E Theo vai ter que escolher — lutar como líder ou afundar como peso morto.
Mas chumbo, quando se acumula, afunda até os mais fortes.

Sexta-Feira de Sangue

Era sexta-feira.
Dia de brigas pela liderança.
Dia em que Mãe Ceres cobrava sangue para saber quem ainda era digno de sentar entre os primeiros.

Theo acordou antes do toque da sirene.
O estômago revirado, as mãos frias.
Na cabeça, a voz da Centelha, zombeteira:
— Você sabe o que vai fazer, não sabe?
Você vai me trair também.

Sim.
Antes do desjejum, Theo já havia subido ao balcão da Guarda Interna para sussurrar o nome de Gene, como quem confessa um pecado e tenta escapar do inferno.
“Ele é quem escreve as blasfêmias.”
“É ele quem profana a Mãe.”

E não teve coragem de olhar para trás quando dois homens de vidro negro entraram no refeitório e o arrastaram pelo colarinho.
Gene nem gritou. Nem lutou.
Apenas olhou para Theo com olhos incrédulos, tentando entender — por quê?

Theo desviou o olhar, com medo de perder tudo:
Seu nome.
Seu irmão.
E… Ceres.

Naquela manhã, o campo de luta estava lotado.
Os grupos separados por hierarquia e idade, o chão já riscado de giz para marcar as arenas.

Era dia de enfrentamento entre os homens pela liderança do esquadrão contra Cors — um brutamontes com sorriso de chacal — e entre as mulheres, a aguardada luta entre Ana e Ceres.

Ana já estava lá, impecável.
Franja perfeita sobre a testa, uniforme alinhado, sorriso gelado.
Por dentro, um turbilhão: desejo de ver Ceres tropeçar, quebrar o pescoço, chorar na frente de todos.

Porque Ana gostava de Daime.
Não gostava de admitir, mas gostava dele antes do acidente, quando juntos eram o casal de ouro do colégio.
E depois, quando Daime ficou preso à cadeira de rodas, ela o abandonou — porque ele já não brilhava como antes.

E então veio Ceres.
Ceres que ocupou seu território como quem senta na janela do ônibus sem pedir licença.
Ceres que não se abalava, que parecia até sentir pena de Ana, com um certo deboche.

Ana cerrava os punhos.
Ceres sorria para ela, impassível, como quem diz: “Venha. Prove que você é melhor.”

Ao longe, Theo assistia, mas não sentia orgulho.
Sentia o gosto de bile na garganta.
O silêncio da Centelha agora era mais pesado que seus sussurros.

Ele já imaginava Gene, algemado, levado aos muros de excomunhão, a máscara de vidro encarando-o em julgamento.
Sentia-se sujo.
Covarde.

Mas ainda assim… não dizia nada.
Não podia perder.
Não podia ser ele no lugar de Gene.

E no campo de lutas, Ana e Ceres se encaram, os olhos faiscando.
Uma odiando.
A outra, por dentro, tão solitária quanto vitoriosa.

E o colégio inteiro — como sempre — assistia.
Gritando por sangue, por glória.
Por Mãe Ceres.

O comandante caminhava pelo campo com as mãos atrás das costas.
O cheiro no ar era nauseante: suor, lágrimas, medo e ódio misturados com a poeira do chão.

Ele aspirou fundo e disse, como se falasse para ninguém:
— Eu sinto o cheiro deles.
Eu sinto o sangue chegando.

As fileiras de adolescentes silenciaram ao som da sirene.
Era hora.

Primeiro combate: Theo contra Cors.

E ali, naquela arena, Theo não parecia mais Theo.
Não era apenas um menino.
Era uma besta.
Um animal selvagem possuído por ódio — e não apenas de Cors, mas de si mesmo, de tudo, da traição recém-cometida, da própria covardia.

Cors avançou com o habitual sorriso cruel.
Theo o derrubou de imediato.
Uma, duas vezes, como se estivesse moendo carne.

Cors tentou reagir, furioso, mas o chute que Theo desferiu acertou sua têmpora com um estalo seco e o apagou instantaneamente.

Por um instante, todos se calaram.
Até Ceres recuou meio passo, sentindo a aura bestial de Theo irradiar pela arena.

Ele ergueu os olhos para ela, como um predador à procura de outra presa.
E Ceres entendeu.

Sem palavras, Theo parecia dizer:
— Você é a próxima.

Ceres se arrepiou.
E aceitou.

Depois foi a vez de Ana contra Ceres.
Ceres entrou de mãos abertas, provocando:
— Não preciso de nada além disso para acabar com você.

Ana explodiu, atacando com toda a raiva acumulada.
Mas Ceres era um redemoinho de precisão: dois golpes rápidos fizeram Ana rodopiar no ar e comer poeira.

Ana reagiu com um soco certeiro no estômago, derrubando Ceres de joelhos.
Empate.

Por alguns segundos, as duas se encararam, ofegantes, antes de se lançarem juntas numa colisão brutal.
Mas Ceres venceu.
Deixou Ana no chão, encolhida e tremendo de raiva, enquanto os outros gritavam seu nome.

E então chegou o confronto que todos esperavam:
Theo e Ceres.
A fera contra a rainha.

Theo ainda estava possuído, mas algo em seu peito já doía mais que o desejo de vencer.
Cada grito da multidão só fazia ecoar a lembrança de Gene sendo arrastado pelos guardas.
Ele não lutava contra Ceres.
Ele lutava contra si mesmo.

Quando Ceres avançou, olhos fixos, sem medo, Theo nem tentou parar o chute que veio em seu rosto.
Sentiu o impacto seco, sentiu o chão frio... e nada além disso.
Porque a dor verdadeira já queimava por dentro.

Ceres ficou de pé sobre ele, vitoriosa, carregada nos ombros pelos outros.
Sorria.
Mas, ao olhar para Theo, caído, percebeu — por um instante — que ele não estava bem.
Não era o chute que doía.
Era algo mais profundo, mais corrosivo, algo que ninguém ali podia ver.

Theo se levantou devagar, sem emoção no rosto.
A derrota não pesava.
Não doía.
O que o despedaçava era o nome que havia entregue naquela manhã.
O nome do único que, talvez, ainda acreditava nele.
Gene.

E agora, Ceres podia vencer quantas vezes quisesse.
Nada disso tiraria a sensação de estar já morto por dentro.

Depois do campo

A arena se esvaziou aos poucos, gritos ecoando, risadas, palmas para Ceres.
A multidão adorava vencedores.
Ninguém ligava para os derrotados.

Theo ficou para trás, sentado num canto, o rosto ainda latejando pelo chute.
Sentia gosto de ferro na boca, mas era só sangue.
Por dentro, o gosto era outro.
Um gosto amargo que nem sabia dar nome.

Ceres passou por ele carregada nos ombros, coroada de glória e pó, e mesmo ela — talvez só ela — viu os olhos dele.
Viu que ali dentro não havia raiva, nem inveja.
Só um buraco negro que crescia cada vez mais.

Mais tarde, sozinho no campo, Theo se deitou de costas no chão.
O teto o encarava como se fosse um tribunal mudo.

Pegou o fone, o velho fone de ouvido escondido na mochila.
Conectou no aparelho proibido e girou o dial até encontrar a faixa.

E quando a guitarra suja entrou, rasgando o silêncio, Theo fechou os olhos.
Não chorou.
Não se mexeu.
Só ficou lá, deixando a música engolir tudo, sentindo a voz áspera gritar por ele.

Imaginou Gene naquela cela fria.
Imaginou Gene com os óculos tortos, as mãos presas atrás das costas, e o olhar que teria dado aos guardas sem entender nada.
Imaginou o momento em que descobrisse quem o havia traído.

Theo engoliu em seco.
Sentiu a respiração pesar, o coração bater mais devagar.

Sim.
Contagioso.
Podre por dentro.

Era isso que se tornava agora — a mesma besta que havia mostrado no campo.
A mesma que Ceres vira nos olhos dele.

Aquela tarde foi longa.
Ele não descansou.
Repetia a música em looping, baixo volume, como um castigo secreto.

E prometia para si mesmo:
ninguém nunca saberia que foi ele.
Ninguém.

Mas por dentro, já estava queimando.
E era só questão de tempo para que tudo pegasse fogo.


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