Na manhã seguinte, o refeitório inteiro parecia respirar diferente.
Theo entrou com a medalha ainda presa ao uniforme, cintilando sob a luz pálida das lâmpadas. Não a retirara nem para dormir — não ousara. E agora, cada olhar que recaía sobre ele carregava orgulho, inveja… e medo.
Porque todos sabiam: Theo sabia.
Ele vira a lata de tinta de Gene, mas também vira a fita cassete escondida de Daime, o passado de Ceres, as quinquilharias de Dru, as gambiarras de Tycho, as anotações subversivas de Cors e Vanks. Theo agora era um filho leal de Mãe Ceres — mas um filho que poderia deletar qualquer um deles da história.
Sentou-se à mesa de sempre, com o peso da honra no peito, que era também o peso da vergonha.
Ceres, à sua frente, tentou esboçar um sorriso — meio pálido, meio hesitante. A lembrança recente de ter confidenciado sua origem ainda a queimava por dentro. Um erro? Talvez. Mas, ao olhar para a medalha no peito de Theo, ela murmurou para si mesma, quase inaudível:
— Theo ama Mãe Ceres como eu amo.
Tycho, mais adiante, sorria para o irmão como quem não tinha dúvidas. Como quem só via o brilho da medalha, e não o chumbo por trás dela.
E então, claro, Daime quebrou o silêncio, com sua voz anasalada e seu humor infame:
— É isso mesmo, Theo! — disse alto, o suficiente para que vários ouvissem. — Você tá certo! Tem é que denunciar esses desgraçados! Queriam foder com o esquema da nossa Mãe! Libertários filhos da puta!
Alguns riram, nervosos. Outros não.
Na outra ponta da mesa, Cors e Vanks apenas ergueram os olhos para ele, demorados — meio inveja, meio desprezo. Dark, impassível, mexia na comida como quem não come nada.
No fundo, ninguém ousava dizer mais nada.
Mas todos sabiam que o traidor fora arrastado por aquela porta, e que agora qualquer um deles podia ser o próximo.
Sabiam também que Theo já não era só Theo — era a mão invisível de Mãe Ceres, mastigando pão ao lado deles, como se ainda fosse igual.
E no ar, pairava o mantra, entre murmúrios:
Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa… e nos devora.
Tycho sorriu para o irmão naquela manhã, no refeitório.
Era um sorriso sereno, cheio de aprovação — um gesto mudo, que bastava para Theo.
Aquilo era suficiente para carregar no peito a certeza de que fizera a coisa certa.
Mas para o resto do colégio… não.
Para os demais, não era suficiente.
Os olhos ainda o perfuravam.
Os cochichos eram lâminas afiadas.
Assim que terminou de comer, Tycho jogou a mochila nas costas e saiu para o pátio.
O dia estava nublado e seco.
Perto do muro, sobre um tapete surrado, Dru ajeitava suas quinquilharias para vender: fitas, canivetes, bottons com símbolos antigos, uma bússola, meias com listras.
Tycho parou diante dela, curioso.
Dru ergueu os olhos com um sorriso leve:
— Olá, Tycho.
Ele devolveu o sorriso, calado.
Então, do lado, surgiu Cors, com seu toca-fitas enorme debaixo do braço.
— Tá com defeito — disse ele, com a cara fechada. — A fita fica presa, não gira.
Dru se inclinou, ágil:
— Eu tenho outro aqui, perfeito estado — disse, tirando um da pilha e levantando como um prêmio. — Quarenta e cinco créditos.
Cors arregalou os olhos.
— Quarenta e cinco?! Tá louca?
Tycho, que observava em silêncio, riu de lado e comentou:
— Eu posso consertar esse aí.
Dru parou de sorrir na hora. Ficou dura, como se tivesse levado um tapa.
— O quê?
Cors virou-se para Tycho, interessado:
— Quanto?
Tycho encolheu os ombros, casual:
— Vinte e cinco.
Cors arqueou a sobrancelha.
— Vinte, vai… deve ser teu primeiro cliente.
Tycho estendeu a mão para pegar o aparelho e respondeu, firme:
— Fechado.
Dru, vermelha, rangeu os dentes:
— Cai fora, fedelho. Você tá atrapalhando meu negócio. Sai daqui.
Tycho apenas riu enquanto Cors já se afastava com ele. Antes de ir embora, virou-se para Dru, ainda sorrindo:
— Só pra você saber… eu teria feito por cinco.
E deixou Dru ali, nervosa, chutando o tapete e ajeitando as fitas de volta à pilha.
Tycho seguiu para o laboratório de mecânica, no subsolo do colégio, carregando o toca-fitas com cuidado. Cors caminhava ao lado, curioso, mas sem falar muito — apenas chutava pedrinhas pelo caminho, ansioso para ver se o garoto daria conta.
O laboratório estava vazio àquela hora, ainda cheirando a óleo e ferro quente. Tycho acendeu uma das luminárias da bancada e colocou o aparelho sobre a mesa de metal.
— Pode sentar aí — disse ele a Cors, já pegando uma chave de precisão e um alicate fino.
Cors cruzou os braços, apoiado na parede, observando.
— Tu tem mesmo mão pra isso, é?
Tycho apenas deu de ombros, desmontando a tampa. Em poucos minutos, o toca-fitas estava aberto, revelando as engrenagens gastas, as molas frouxas, a correia arrebentada. Ele girou uma das polias com a ponta do dedo, avaliando o mecanismo com calma.
— O problema tá aqui — murmurou, quase pra si mesmo. — A correia de rotação estourou.
Cors se inclinou para olhar mais de perto.
— Isso tem conserto?
Tycho já andava pelo armário de peças, procurando o que precisava. Puxou um pedaço de borracha sintética, uma lâmina de corte e um molde.
— Tem. E vai ficar melhor que a original.
Cortou a borracha com precisão milimétrica, usou uma gota de cola especial para unir as pontas e montou a correia nova no lugar. Os dedos eram ágeis, seguros, como quem já fizera aquilo dezenas de vezes em segredo.
Quando recolocou a tampa e encaixou as fitas de teste, girou o botão play.
O rolo começou a girar suave, sem chiado. Uma melodia antiga preencheu a sala, metálica, mas perfeita.
Cors abriu um sorriso satisfeito:
— Olha só… ficou melhor mesmo.
Tycho limpou as mãos num pano sujo de graxa e devolveu o toca-fitas.
— Vinte créditos, como combinamos.
Cors entregou as moedas sem pestanejar, mas antes de sair lançou um olhar meio cúmplice:
— Pena que teu irmão não é tão bom com as mãos quanto tu. Ele só sabe apontar o dedo.
Tycho não respondeu. Apenas abaixou os olhos para a bancada, guardando as ferramentas no lugar, enquanto a fita continuava tocando, baixinho.
Quando Cors foi embora, Tycho ficou sozinho no laboratório, ouvindo a música preencher o silêncio.
E, por um instante, pensou no peso que Theo carregava no peito… e no quanto aquele peso podia esmagar.
Tycho saiu do laboratório com as mãos ainda cheirando a graxa e um sorriso leve no rosto. Guardou os vinte créditos no bolso — moedas de latão reluzentes, gravadas com o perfil severo e sereno de Mãe Ceres. Na borda de cada moeda lia-se:
"Que nos alimenta, nos educa, nos devora."
Ele girou uma delas nos dedos, sentindo o peso frio e a perfeição do entalhe. Moedas cunhadas por ninguém menos que Dru. Ela as fazia clandestinamente no porão e estabelecera um “caderno” — um livro grosso, de capa dura, onde cada crédito emitido tinha registro. Para todos no colégio, as moedas de Dru valiam quase como oficial. Ela tinha o dom de fazer um sistema paralelo parecer legítimo.
No pátio, Dru estava sentada sobre o tapete já desbotado, vendendo mais quinquilharias para alguns garotos. Quando viu Tycho se aproximar, ergueu uma sobrancelha, desconfiada.
— Veio se gabar?
Tycho apenas abriu a palma e exibiu as moedas que ganhara consertando o toca-fitas. O latão brilhou sob o sol.
— Só vim mostrar que eu confio na sua moeda — disse ele, com um sorriso leve.
Dru bufou, mas não conseguiu esconder o orgulho.
— Normal. O meu caderno tem lastro, não é essas porcarias que a coordenação usa. Eu tenho 50% de lucro.
Tycho torceu levemente os lábios, negando com a cabeça.
— Não.
— Não? — ela rebateu, já com a língua afiada.
— Não vale isso tudo. É engenhoso, Dru… mas não vale 50%.
Ela estreitou os olhos, desafiadora. Antes que a conversa azedasse, Tycho pegou uma moeda do bolso e a jogou no tapete, bem aos pés dela.
— Mas ainda assim… merece reconhecimento. Seu esquema funciona.
Dru pegou a moeda, girou-a nos dedos e, mesmo tentando disfarçar, deixou escapar um leve sorriso.
— Pelo menos você não é burro. É bom ver alguém que entende como as coisas realmente giram por aqui.
Tycho apenas acenou de leve e se afastou, voltando para os corredores com as mãos no bolso. Deixou Dru para trás, sozinha com seu tapete, suas tralhas… e a moeda que ele largara como um sinal de respeito.
Quando Tycho sumiu pelos corredores, Dru ficou parada no pátio, encarando a moeda que ele largara no tapete. Girou-a entre os dedos, sentindo o peso do latão gravado, a superfície fria e bem-acabada. No reflexo opaco, ela via o próprio rosto — sério, fechado.
Puxou o caderno do lado e abriu na página certa, rabiscando a entrada da moeda devolvida por Tycho:
"Crédito 1347 — devolvido. Lastro garantido."
Fechou o caderno com força. Soltou um suspiro entrecortado.
Por dentro, uma mistura incômoda fervia no peito. Havia algo de bonito em ver seu sistema funcionar para além dela mesma — as moedas eram sólidas, confiáveis, respeitadas. Todos no colégio as aceitavam sem pestanejar. Isso a fazia sentir um orgulho silencioso, quase maternal, pelas pequenas peças de latão circulando de mão em mão.
Mas junto vinha a pontada amarga: Tycho já era mais um concorrente. E um concorrente perigoso. Ele não era só mais um garoto trapaceiro — era inteligente, eficiente, e parecia entender exatamente como as engrenagens dali giravam.
Dru pensou na lata de chocolate em pó, semanas atrás, que Tycho pegou do carrinho de reposição no refeitório, discretamente. Naquele dia, ela não interveio — deixou passar, achando que o moleque tropeçaria e cairia sozinho. Não caiu. Pelo contrário: consertou o toca-fitas de Cors com perfeição, ganhou confiança rápida, e ainda pagou a ela com sua própria moeda… só para provar que o sistema funcionava.
Mordeu o lábio inferior, entre raiva e admiração. Passou a mão no tapete, recolhendo as moedas que havia espalhado para exibir.
— Maldito fedelho… — murmurou para si mesma. — Você é bom demais pra esse lugar. Bom demais até pra mim.
Guardou tudo de volta na caixa de madeira: moedas, caderno, mercadorias. Ficou sentada por um instante, cotovelos nos joelhos e a testa entre as mãos, pensando.
Sabia que não podia mais subestimá-lo. Tycho tinha virado a engrenagem que ela mesma inventou… e agora começava a girar contra ela.
Mesmo assim, quando levantou para voltar ao prédio, um leve sorriso teimava em aparecer no canto dos lábios. Ele a irritava — mas parte dela queria ver até onde ele conseguiria chegar.
Dru recolheu a última moeda do chão, fechou bem a caixa de madeira e ficou de pé. Girava a moedinha devolvida por Tycho entre os dedos, sentindo o relevo do rosto de Mãe Ceres no latão frio.
O sorriso no canto da boca não desaparecia, mesmo com o nó de raiva que ardia no estômago.
— Eu te fiz, Tycho… — murmurou baixinho, quase como uma prece para si mesma, os olhos fixos na direção por onde ele tinha ido. — …e eu posso te quebrar também.
Guardou a moeda no bolso, ajeitou o tapete dobrado debaixo do braço e entrou no prédio, a cabeça já maquinando o próximo movimento.
Porque o jogo, para Dru, nunca terminava.
Sala de Sociologia e Economia de Ceres
Os projetores zumbiam, lançando luz fria sobre a parede, enquanto os alunos sentavam em silêncio. Theo num canto, Ceres no outro. Ela, inquieta, buscava o olhar dele, tentando comunicar alguma réstia de ternura, mas Theo permanecia irredutível, os olhos cravados na mesa, a mente ainda pesada com a lembrança de Gene — o amigo que, em duas semanas, seria executado na praça D. Amigos… pelo menos tinham sido.
O professor, de paletó puído mas voz afiada, irrompeu com a lição, o tom grave da doutrinação:
— Aqui vemos os sistemas que existem: Socialismo, Capitalismo e Ceresianismo.
O projetor estalou e exibiu uma sequência de palavras sobre um fundo vermelho.
— O socialismo — prosseguiu o professor, caminhando de um lado ao outro — é um sistema político, social e econômico que defende a propriedade social ou estatal dos meios de produção, buscando uma distribuição mais igualitária de riqueza e poder. É caracterizado pela busca da igualdade social, o controle estatal sobre a economia e a ausência de classes sociais, com o objetivo final de alcançar uma sociedade comunista, sem propriedade privada e sem Estado.
A classe permaneceu muda. Ceres fitava a tela, Theo não se mexia.
O professor parou bem ao centro, o dedo em riste:
— Mas… há uma falha irreparável. Todos, mesmo sob este sistema, carregam o egoísmo humano, a ânsia de sobressair. Nunca passou do papel onde foi implementado — um papel, aliás, não mais útil que papel higiênico.
A projeção mudou para uma figura em silhueta preta, etiquetada “CG67”. O professor escarneceu:
— Aqui entra o nosso libertário CG67. Não direi seu nome — porque é proibido sequer pronunciá-lo, este verme. Ele vende sonhos para que outros tenham poder. São mortos de fome sem esperança… mas afinal, a esperança também é uma tortura, não é? Sonhos infantis, de gente chamada “esquerdopata”, “assassinos de bebês a favor do aborto”.
A voz dele ficou carregada de desprezo:
— Corrompem cidadãos em nome de uma liberdade imaginária. Uma liberdade sem propósito, sem liderança, sem sentido.
O fundo da tela agora mostrava fotos em preto e branco de revolucionários mortos, jovens com armas erguidas, bandeiras rasgadas, inscrições: “Viva la Revolución”.
O professor riu seco, encarando a turma:
— Que patético… frases de efeito para anestesiar a verdadeira luta.
E o silêncio voltou a tomar a sala. Ceres baixou os olhos. Theo sequer piscou.
O projetor trocou de slide. Agora, uma nota sem valor desdobrava-se na tela — uma colagem de arranha-céus, bolsas de valores, homens engravatados apertando mãos.
O professor limpou a garganta, abriu um sorriso irônico e continuou:
— O capitalismo… uma ideologia muito boa. — a sala estremeceu com a provocação. — Sim, boa… pelo menos para alguns.
Fez uma pausa, deixando o incômodo se espalhar.
— Uma pena que muitos por aí repetem: “ah, capitalismo é selvagem.”
Ele franziu o cenho, saboreando o deboche.
— Selvagem? — repetiu, forçando a palavra como uma ferida aberta. — Selvagens são as pessoas. O defeito não é do sistema, é humano.
Caminhava pela frente da classe, cada vez mais inflamado, enquanto os alunos o seguiam em silêncio.
— Eles se escondem atrás de termos bonitinhos: oferta e demanda, lucro rápido… como se fossem uma maneira educada de dizer: podemos pisar em seus pescoços, formalmente, delicadamente, sem fazer barulho.
O projetor mostrava agora gráficos ascendentes, slogans de multinacionais, imagens de fábricas com trabalhadores exaustos.
— Usam o capitalismo — assim como usaram o socialismo — para esconder o caráter. Disfarçam opiniões dentro de “argumentos”, para não admitir que são apenas egoístas, em nome de famílias disfuncionais e deuses imaginários. E ainda por cima… brigam uns pelos outros por isso!
Alguns alunos se remexiam desconfortáveis nas cadeiras. Theo permanecia imóvel. Ceres mordia o lábio inferior.
O professor abriu um sorriso frio:
— Sabem? Há pessoas nesse sistema que gostam de dizer: “tenho opiniões fortes”. Mas, na verdade… isso é apenas uma confissão de que são fracos.
O projetor então mudou para um mosaico brutal: dados, números, fotos de crianças em prostíbulos, homens acorrentados, tráfico humano.
— O capitalismo pode funcionar, sim. Funciona! — ele ergueu a voz, afiada. — Mas por trás das cortinas… nos países que “vencem” com o capitalismo… há hoje mais escravos do que trezentos anos atrás. — bateu na tela com a palma aberta — A maioria, escravos sexuais.
A sala respirava pesada. O professor cruzou os braços, a voz encharcada de veneno:
— Mas parem para pensar… por que existem mais escravos do que no passado?
Silêncio.
— Porque isso dá lucro.
Se dá lucro… também poderia dar lucro ajudar as pessoas, não?
Ele sorriu, impiedoso.
— Pensem bem.
O silêncio que se seguiu era tão denso que parecia esmagar o ar.
O projetor trocou de slide. Agora, uma imagem aérea de Ceres se erguia diante de todos — campos verdes sem fim, cidades limpas e simétricas. No rodapé, as palavras:
MÃE CERES NOS ALIMENTA. MÃE CERES NOS EDUCA. MÃE CERES NOS DEVORA.
O professor ficou calado por um instante, apenas contemplando a imagem, antes de falar, grave:
— Agora… o Ceresianismo.
A ideologia da nossa Mãe Ceres.
Ele andava lentamente entre as fileiras, mirando um aluno após o outro, até que sua voz cortou o silêncio:
— De que adianta falar de comida… de falta… de assistencialismo… quando se tem a barriga cheia?
Parou, imponente, no centro da sala:
— Nosso sistema não se preocupa com liberdade. Se preocupa com sobrevivência acima da liberdade.
Apontou para a imagem de Ceres na tela:
— Todos vocês aqui têm o que comer, o que beber, lazer, estudo, trabalho digno. Todos vocês são valorizados… e devorados… dentro do escopo que a Mãe Ceres permite.
Têm o direito de ter filhos, segurança, atendimento médico, empregos grandes ou pequenos, garantidos.
E então, a frase que calou até os mais céticos:
— E mesmo assim… com tudo isso… tiramos de vocês a única coisa que sempre destruiu os homens: a escassez.
Havia algo de quase religioso em sua fala, algo que ressoava fundo nos corações ali.
— Em Ceres não há fome. Nem cães, nem ratos, nem gatos passam fome.
Nossa terra é fértil. Exportamos tecnologia, agronegócio, medicina. Erradicamos 95% das doenças e vírus conhecidos.
As nossas mães vão para Pietà, com assistência total aos filhos até os 10 anos. Temos uma natalidade de 90%.
A voz dele ficou mais suave, quase paternal:
— As mulheres que perdem os filhos, por destino ou violência, permanecem em Pietà para cuidar das futuras mães.
As mulheres estupradas são cuidadas, protegidas, mas têm o direito de deixar os filhos em Pietà e voltar às suas funções.
E, então, o sorriso. Frio. Triunfante.
— O custo disso tudo?
A liberdade.
A palavra pairou no ar como uma sentença.
— Aquela mesma liberdade que sempre destruiu impérios, famílias, pessoas.
O professor caminhava devagar, como quem saboreia cada passo.
— O Ceresianismo provou ao mundo que podemos cumprir o que nem mesmo um deus imaginário conseguiu.
O projetor trocou para uma imagem brutal: caixões enfileirados, cobertos com inscrições de antigos deuses e profetas.
— Nós matamos os deuses. — a voz dele era baixa, mas cortante. — Metaforicamente, trouxemos seus caixões e mostramos como se faz.
Fez uma pausa, deixando a imagem queimar na retina de cada aluno.
— Nenhum desses “deuses” jamais alimentou o mundo. Nenhum educou. Nenhum devorou como a Mãe Ceres faz todos os dias.
Ela não é imortal. Mas, ainda assim… atingiu a perfeição: a dominação da liberdade em um sistema que… funciona.
O professor ergueu a mão aberta para a sala inteira, como um maestro prestes a iniciar o clímax da sinfonia.
— Vocês não verão um cidadão de Ceres com as costelas à mostra de fome.
O silêncio era absoluto. Ele sorriu.
— A Mãe Ceres conquistou algo maior do que qualquer deus cósmico.
Aqueles que são contra? Boa sorte a eles.
Boa sorte contra a fome.
Boa sorte contra nós.
As últimas palavras ecoaram como um trovão na sala.
Por um instante, o silêncio foi tão denso que parecia que ninguém ousaria quebrá-lo.
Então, um aplauso tímido soou — hesitante, solitário. Mas foi o suficiente.
Outros se seguiram, crescendo em volume, até que a turma inteira estava em pé, aplaudindo de forma ensurdecedora.
Mas não era só aplauso.
Era real.
Era orgulho… e inveja. Uma inveja crua, de quem sabe que vive sob um poder absoluto — e, ao mesmo tempo, teme e admira esse poder.
E então, como um coro uníssono, a sala recitou:
— Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa… e que nos devora.
Na Piscina de Ceres, Depois da Aula
O som da água batendo nas bordas ecoava pelo ginásio como um metrônomo. As meninas já se dispersavam em grupos, comentando a aula de sociologia e zombando da doutrinação do professor. Mas, na piscina, restavam apenas duas.
Ceres ajeitou a touca preta, o maiô grudado no corpo, e já estava na beira da raia quando sentiu o ombro de Ana roçar no seu. Não foi um toque. Foi um recado: sai do meu caminho.
— Sempre nessa raia, hein, querida? — disse Ana, doce como veneno.
— É a que tem menos ondas — respondeu Ceres, seca, sem olhar.
O professor, sentado com prancheta e cronômetro, assistia com aquele sorriso sádico. Era o jogo dele: ver qual das duas quebraria primeiro.
As duas se posicionaram lado a lado, na tampa de saída. O ginásio ficou tenso. Um grupo de meninas cochichava no canto, divididas entre torcer, invejar ou temer.
— Valendo — disse o professor.
Elas mergulharam ao mesmo tempo. A água se abriu num estrondo. Cada braçada era um ataque. Cada respiração, uma vitória momentânea.
Subiram quase juntas na borda oposta, escorregando para a próxima tampa, agora correndo. Quando Ana a ultrapassou, deixou o ombro bater com força. Ceres desequilibrou por um segundo. Mas devolveu o favor na escada, com um empurrão nada acidental.
No final da rampa, ambas arfavam — gotas d’água e lágrimas de raiva misturadas. O professor sorria.
— Bom trabalho, Ana. Liderança, por enquanto. Mas Ceres… você a obrigou a evoluir. É isso que quero ver. Sem modéstia. Sem desculpas.
Ana inclinou-se para Ceres e sussurrou, cruel:
— Não preciso de uma cadela no cio tentando se esfregar no Theo.
Ceres sorriu de volta, amarga:
— No cio sim. Pelo menos o pênis do Theo funciona comigo.
Elas se encararam como predadoras, lágrimas quentes de ódio silencioso.
O professor apenas anotava, satisfeito:
— Continuem assim. É assim que se cria campeãs.