Foram quinze dias na detenção. Quinze dias em que Theo descobriu que o corpo humano suporta muito mais dor do que imagina — e muito menos pensamento do que deseja.
A cela era um cubo de concreto gélido, sem janelas, iluminado por uma única lâmpada suspensa, que oscilava num zumbido irritante, lançando sombras trêmulas nas paredes. O colchão — se é que se podia chamar assim — era uma fina manta de lona estendida direto no chão. À noite, a água escorria das juntas entre as pedras, encharcando o tecido e tornando o frio insuportável.
Todas as manhãs, um guarda de máscara branca lhe trazia a ração: um pão duro, água barrenta numa caneca de estanho e uma tigela rasa de sopa cinzenta, feita de legumes indistinguíveis e gordura fria. Não havia tempero — só um gosto metálico que lhe subia à garganta e provocava ânsia.
Mas o pior não era a fome.
Era a doutrinação.
Logo no primeiro dia, amarraram-no a uma cadeira de ferro no centro de uma sala maior, cercada de espelhos falsos. Um enfermeiro — ou carrasco — aproximou-se com a cápsula. Era branca e azul, com a inscrição apenas: S–13.
— Para sua própria purificação — murmurou.
Theo engoliu sem protestar.
Então vieram as perguntas. Uma, duas, dez, cem vezes repetidas:
— Quem mais sabia?
— Quem estava com Gene?
— Você sabia da heresia da garota, não sabia?
— Ela lhe contou. Diga-nos. Diga-nos tudo.
O soro fazia o mundo girar. Os sentidos se confundiam, e o estômago se revolvia. Respondia com frases entrecortadas, gaguejando:
— Não… ninguém… só Gene… mais ninguém…
Os efeitos colaterais vinham uma hora depois: músculos travados, frio intenso, suores intermitentes, vômitos em convulsões. Era levado de volta à cela, onde passava horas ajoelhado no chão, com o rosto sobre um balde de metal. Sentia-se como um animal. Um cão sarnento que Mãe Ceres deixava sangrar de propósito, só para provar sua devoção.
E mesmo nos piores delírios, entre as ondas de febre e náusea, havia sempre um nome gravado no centro de seus pensamentos: Ceres.
Como um mantra. Uma oração.
Ceres.
Os olhos dela — olhos que cabiam o céu, frios e caçadores — vinham visitá-lo nos pesadelos.
Tycho também. O irmão mais novo sorria e acenava, estendendo-lhe um pão como fazia na infância.
Ele se agarrava a isso.
Cada noite era um novo teste. Às vezes acordava com chutes nas costelas, para assinar uma confissão. Outras vezes era deixado dias sem banho, a pele ardendo em feridas causadas por correias apertadas demais. Quando não vomitava, precisava engolir as palavras que queriam ouvir — mas não as disse.
Saiu de lá mais magro. Olhos fundos, boca rachada, e um peso novo nos ombros.
Mas saiu de pé.
E ainda amava a Mãe Ceres por tê-lo testado e não o ter abandonado.
E ainda amava Ceres — a garota — por tê-lo mantido inteiro.
No pátio, quando a luz do sol finalmente o cegou depois de quinze dias de trevas, um guarda comentou, baixinho:
— Esse aí vai ser grande.
E ele caminhou em frente, sentindo a Mãe respirar fundo através das montanhas e aprovar sua resistência.
Mesmo que, por dentro, algo tivesse morrido para sempre.
A primeira semana foi para quebrar o corpo.
A segunda, para moldar a mente.
Quando Theo acordou no oitavo dia, pensou que estava morto.
Não sentia frio. Não sentia dor. Não sentia mais nada.
A cela era outra: paredes limpas e acolchoadas, cama arrumada com lençóis de algodão, um prato com pão fresco e mel à sua espera. Havia uma jarra de leite. Toalhas mornas para o banho. O ar ali dentro tinha cheiro de lavanda.
A Mãe Ceres é justa, pensou. Testa seus filhos, mas também os recompensa.
Então vieram os psicólogos fascistas.
Sentavam-se em semicírculo à sua frente. Pranchetas no colo, uniformes impecáveis, óculos redondos. Não o espancavam. Não gritavam. Não traziam cápsulas nem água suja. Apenas o observavam, através das lentes grossas, como se fosse um animal raro sendo dissecado.
E era pior assim.
Cada um falava pouco — e sempre através das entrelinhas. Como se Theo já fosse culpado. Como se sua mente tivesse que ser consertada.
E então, todos os dias, o datashow.
As luzes se apagavam. As paredes tornavam-se uma tela fria em preto e branco.
Um a um, rostos conhecidos surgiam.
Gene, com o capuz de condenado na Praça D.
Daime, numa cadeira de rodas, rindo e xingando alguém fora do enquadramento.
Tycho, quieto, carregando um livro nos braços.
Ceres…
Ceres.
O rosto dela pairava na tela, imóvel. Gélido. Olhos que caçavam os dele mesmo ali, através das sombras.
— Ela também é uma traidora? — perguntavam.
— Ela sabia das pichações?
— Ela sabe de algo?
— Ela contou algo a você?
Theo engolia seco.
“Não. Ela é só… só uma amiga leal.”
Os psicólogos se entreolhavam, anotavam em silêncio e repetiam a mesma pergunta meia hora depois. Por três dias seguidos. Quatro horas em cada sessão. Cada vez mais devagar. Mais frio. Mais apavorante.
No intervalo entre as sessões, davam-lhe tempo para repousar. Traziam refeições quentes, roupas limpas, até um espelho para pentear o cabelo e se barbear. Uma enfermeira sorria para ele, gentil, ao aplicar pomadas nas feridas. Os Silenciadores passavam pelo corredor e cumprimentavam-no com um aceno curto e respeitoso — como quem diz: você ainda é um dos nossos.
Era a reconciliação.
A Mãe Ceres não abandonava seus filhos. Punia, testava, mas sempre os trazia de volta ao redil.
Era isso que ele repetia para si mesmo, enquanto os olhos de Ceres — azuis e impiedosos em sua memória — o mantinham inteiro, mesmo nas noites em que acordava suando frio, ainda ouvindo a voz metálica perguntar:
“E ela? Ela também?”
No último dia, um dos psicólogos finalmente sorriu para ele. Pela primeira vez.
“Você não quebrou. Bom menino.”
Theo sentiu um nó na garganta.
Saiu dali magro, os olhos ainda mais fundos, mas com a coluna ereta e o coração pesado — de orgulho e vergonha em igual medida.
A Mãe Ceres o havia esmagado e, depois, lhe estendido a mão.
E ele havia aceitado.
Naquela noite, o frio era cortante.
A sala escura se iluminava apenas pelo feixe do datashow.
Na tela, não estavam Gene, nem Ceres, nem Tycho.
Apenas… a medalha.
A medalha de lealdade.
A medalha que a Mãe Ceres lhe entregara em praça pública, enquanto todos aplaudiam, e ele sentia o peso de Gene sendo arrastado pelos Silenciadores.
A medalha de metal polido, símbolo do filho fiel que teve coragem de denunciar um subversivo.
Ali, na tela, ela aparecia amassada, torta, jogada no lixo, fotografada por alguma câmera escondida atrás do pátio.
O projetor estalava enquanto repetia a imagem de todos os ângulos.
Um dos psicólogos falou, baixo, seco:
“Por quê?”
Theo engoliu em seco.
Respirava rápido, os olhos fixos na tela.
O psicólogo insistiu:
“Por que desonrar o presente da Mãe? Por que cuspir na honra que lhe foi dada?”
Theo não conseguiu segurar.
Gritou, desesperado, a garganta rasgada de tanto silêncio:
“Eu não quero presente! Eu não quero uma medalha! Eu só quero que a Mãe Ceres me ame… como eu a amo!”
O som ecoou pela sala — ríspido, dolorido.
Os homens fizeram anotações, impassíveis.
Na tela, a medalha reluzia no lixo como um insulto.
Theo chorava, a respiração entrecortada, sem tirar os olhos da tela.
As correias prendiam suas mãos à cadeira, mas não conseguiam prender seu coração.
Dentro dele, só uma dor ardente, uma pergunta sufocada: por que a Mãe não o amava de volta?
Quando o projetor se desligou, a escuridão pareceu mais cruel do que nunca.
Um dos Silenciadores se aproximou e colocou a mão em seu ombro — um gesto frio, mas cheio de significado: você ainda é dela.
Theo fechou os olhos.
E, enquanto engolia o choro, repetia para si mesmo:
Eu amo a Mãe. Eu amo a Mãe. Eu amo a Mãe…
mesmo que ela nunca me ame de volta.
Era o quinto dia da segunda semana.
O cronômetro na parede girava devagar, como se o tempo fosse uma punição à parte.
Theo estava sentado na cadeira, as correias um pouco mais frouxas dessa vez.
As mãos tremiam, mas os olhos já não baixavam.
O datashow ligou.
Desta vez, nada de Gene.
Nada de Ceres.
Nada de medalha.
A tela mostrava imagens da cidade — a Mãe Ceres em todo seu esplendor.
As cúpulas brancas.
As praças geométricas.
As crianças correndo pelos campos com as fardas cinza e azul.
Os desfiles com bandeiras.
Os velhos veteranos, cabisbaixos, lustrando monumentos.
O Hino tocava baixo ao fundo, como um sussurro.
E então, uma voz — a Voz — ecoou pela sala.
Era a gravação que só se ouvia nos feriados:
“Meus filhos. Eu alimento vocês. Eu dou sentido às suas dores. Eu protejo vocês. E, se precisam ser quebrados para serem feitos melhores, então que assim seja. Vocês são meus. São todos meus.”
Os psicólogos se levantaram, um a um, e se alinharam atrás da tela.
Theo respirava fundo, o peito arfando.
Não chorava mais.
Não gritava.
Apenas… entendia.
A tela ficou preta.
Uma última frase branca brilhou no escuro:
Você ainda é meu?
Theo olhou para cima.
As luzes da sala ofuscavam sua visão.
E, com a voz rouca, a garganta em carne viva, ele respondeu:
“Eu nunca deixei de ser.”
O Silenciador mais velho se aproximou e inclinou a cabeça, aprovando.
Sem uma palavra, soltou suas correias.
Theo caiu de joelhos no chão frio, os braços pesados, as lágrimas quentes correndo pelo rosto.
Sentia-se… leve.
Ferido, mas limpo.
A Mãe o havia testado, esmagado, moldado.
E ainda assim, no fundo do coração, ele era dela.
Sempre fora dela.
Sempre seria.
Quando o retiraram da sala, de volta ao pavilhão branco onde ficavam os “em reconciliação”, Theo ergueu os olhos para o céu artificial do colégio.
E, por um instante, jurou ver os olhos de Ceres ali em cima — azuis, caçadores, eternos — como a lembrança que nunca o abandonara.