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Capítulo 5: Futuras Mudanças - parte 2

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O Prazer Proibido

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O Prazer Proibido

Dru não sabia exatamente quando começou a sentir vergonha. Talvez tenha sido quando percebeu que as outras meninas não sorriam tanto quanto ela ao trocar um batom por um segredo. Ou talvez naquele dia em que ouviu uma das Mães dizer que "o comércio é a raiz da decadência". Ela não via decadência em corar os lábios das colegas, em perfumar as palmas das mãos calejadas. Mas, ainda assim, a vergonha estava lá.

Toda vez que um cigarro feito por suas mãos passava discretamente debaixo da mesa, junto com um aceno silencioso, algo dentro dela se contraía — e ao mesmo tempo, se inflamava. Era errado. Mas era seu.

Dru gostava de ser necessária. Gostava quando as garotas a procuravam em segredo, como se fosse a guardiã de pequenas liberdades. Uma fita cassete escondida no bolso, uma borracha derretida que virava brilho labial, uma tragada de alívio ao fim do turno. Nada daquilo era permitido. Tudo aquilo a fazia se sentir viva.

Ela sabia que Mãe Ceres desaprovaria. Mas, ao mesmo tempo, em sua cabeça, era a própria Ceres quem lhe sussurrava: “Alimente-as.”

E Dru alimentava.

Às vezes, enquanto enrolava o fumo roubado das plantações ou diluía corante em álcool, sentia uma pontada de culpa — como se traísse tudo que aprendera nos cânticos. Mas, logo depois, vinha o prazer. Um prazer quente, quase doentio, de quem sabe ser essencial, mesmo por meios tortos.

Ela amava Mãe Ceres, com uma devoção que a cegava. Mas também amava quando uma colega sorria ao experimentar o batom escarlate que não deveria existir. Era um prazer egoísta, e ela sabia disso.

Havia noites em que se perguntava se, no fundo, ela própria era uma das “devoradoras”. Não com armas ou ordens, mas com pequenas migalhas de liberdade que trocava por um pedaço de si mesma.

E mesmo assim, continuava. Porque parar seria admitir que era só mais uma engrenagem obediente.

Dru sabia que era inofensiva. Sabia, e isso a irritava.

Enquanto as outras meninas treinavam a montagem de rifles com a devoção de quem aprende a rezar, ela preferia dissolver corantes em álcool ou misturar óleos roubados das colmeias. Não era rebelde. Era útil. E era por isso que Mãe Ceres ainda não a devorara.

Theo passava por ela no pátio como um sopro antigo. Um gosto de memória que ainda não tinha esquecido completamente. Dru não o amava mais. Não depois que ele foi designado como um dos “braços” de Ceres. Ele já fazia parte dela. Um apêndice. E Ana? Ana estava sumindo da sua mente como um perfume fraco — uma lembrança que dói, mas que perdeu a cor.

O amor, Dru entendia agora, era só uma fase de transição. Era bonito enquanto durava, mas tinha prazo de validade. Aos vinte anos, o que não servisse mais ao sistema seria devorado. Ela seria. E não havia poesia nisso. Não haveria lágrimas. Só um ritual silencioso, como uma colheita.

Mas até lá, ela ainda era livre para ser útil.

Os mentores já cochichavam que ela tinha duas rotas: o Centro Financeiro da cidade de Ceres, onde seria uma peça invisível nos cálculos que sustentavam a ordem; ou as fábricas químicas, onde sua precisão manual seria refinada até restar apenas a função.

Dru não sabia qual destino preferia. Talvez nenhum. Talvez ambos. O importante era que, por enquanto, ninguém olhava muito para ela. Mãe Ceres a observava de longe, como quem monitora uma planta que ainda não deu flor.

Mas um dia ela floresceria. E seria colhida.

Até lá, Dru continuaria a alimentar as pequenas vaidades, a trocar segredos por um sorriso. Porque era o único jeito de se sentir viva — antes de ser devorada.

O Peso do Latão

Dru não se lembrava exatamente quando teve a ideia das moedas de latão. Talvez tenha sido depois de ver tantas garotas escondendo cigarros sob as saias, trocando favores por promessas vazias. Favores evaporam, pensou. Mas o latão, não. O latão tem peso. Tem cor. Tem rosto.

E era o rosto de Mãe Ceres que estampava suas pequenas moedas.

Ela fabricava cada uma com paciência, raspando o latão das velhas fechaduras do colégio, moldando as peças no laboratório, polindo-as com cuidado até que brilhassem como relicários de bolso. No verso, uma inscrição simples: “Nos alimenta, nos educa, nos devora.” Era mais que um lema. Era garantia.

As moedas não eram autorizadas, claro. Mas funcionavam melhor do que qualquer ordem oficial. Quando alguém precisava de uma fita cassete proibida, um perfume, ou um cigarro, entregava uma moeda Dru. E Dru anotava tudo no seu Caderno Verde — uma relíquia encapada em couro gasto, onde registrava cada transação, cada lastro, cada débito e crédito, como se fosse uma prece contábil.

Não era só escambo. Era confiança.

O que começou com duas moedas virou cinquenta. Depois cem. Logo, o caderno tornou-se a bíblia econômica do colégio. Se alguém tentasse trapacear, não comprava nem uma borracha.

Mas Tycho… Tycho estava começando a atrapalhar.

Irmão mais novo de Theo, Tycho tinha mãos hábeis e língua afiada. Enquanto Dru se dedicava a criar um sistema de ordem — moeda, caderno, regras — Tycho preferia o caos das gambiarras. Consertava toca-fitas quebrados, inventava versões novas a partir de peças velhas e vendia por metade do preço.

Os toca-fitas eram o ouro do colégio. Música proibida valia mais que o mel da apicultura. E Tycho sabia disso. Cada aparelho que ele arrumava era um cliente a menos para Dru. E ele fazia questão de lembrar isso com um sorriso debochado.

Moedinhas de latão, Dru? — dissera certa vez, ajustando um toca-fitas remendado com fita isolante. — Enquanto você conta moedas, eu faço elas girarem.

Dru odiava Tycho, mas não podia ignorar que ele era bom. E isso a irritava mais do que a concorrência. Ele não respeitava o ritual. Não entendia o peso do latão.

O que Tycho não sabia — ou fingia não saber — era que todas as suas vendas ainda passavam pelo Caderno Verde. Porque, no final, ninguém confiava em promessas. Confiavam em Dru. E em suas moedas.

Mas por quanto tempo?

Dru sabia que era questão de tempo até Tycho tentar quebrar seu sistema. Ele não precisava criar moedas; bastava desmontar as dela, uma a uma, até que o colégio esquecesse o que era ter um lastro de verdade.

E quando isso acontecesse, quando as promessas voltassem a ser levadas pelo vento, Dru seria a única a sentir o peso do latão nas mãos.

O Cão Negro de Arcádia

Era noite em Ceres. O estádio já se acendia em cores, sons e bandeiras para o grande jogo contra os atletas de Arcádia. As ruas, por regra e por medo, estavam vazias. Ninguém queria estar fora de casa quando os sinos soassem para anunciar a chegada do trem blindado.

O trem cortou a escuridão com um rugido metálico, faiscando nas curvas até parar na plataforma central.

Um a um, os atletas de Arcádia desceram: jovens arrogantes, uniformes verdes e cinzentos, mascando chicletes, gargalhando, zombando do silêncio de Ceres. Nenhum deles parecia notar — ou se importar — com o que acontecia atrás.

Um compartimento especial, sem identificação, foi aberto na penumbra. Dois homens mascarados, que não pareciam atletas, empurraram para fora uma caixa negra, de metal grosso, com respiradouros cobertos por grades. Lá dentro, havia apenas um som: um rosnado surdo, carregado de ódio, e um par de olhos fosforescentes presos na sombra.

Sem dizer palavra, os homens destrancaram a grade e recuaram.

Dois cães negros de olhos vermelhos saltaram.

Eram grandes demais para serem apenas cães comuns. Pelo emaranhado como breu, patas pesadas que arranhavam o concreto. Eram músculos e raiva condensados, bocas espumando, dentes que batiam como lâminas. Criaturas mais próximas de um castigo do que de um ser vivo.

Eles não atacaram ninguém na plataforma. Nem sequer olharam para os arcadianos. Dispararam, silenciosos, pela rua deserta, em direção ao leste. Como se soubessem exatamente aonde ir.

Os homens mascarados trancaram a caixa vazia de volta no trem e desapareceram. Os atletas sequer olharam para trás, ocupados demais com suas piadas e a euforia do jogo.

Na torre de vigilância, uma sentinela de Ceres acompanhava a cena pela mira do rifle. Viu as sombras cruzarem a rua como dois demônios soltos do inferno. Sabia que não eram cães comuns. Fez um rápido sinal de rádio:

— Alerta. Código Ébano. Repetindo: Código Ébano na Zona Leste. Animal solto. Suspeita de sabotagem de Arcádia.

Silêncio do outro lado. Então, a voz calma e fria de um superior respondeu:

— Que a cidade faça o que sempre faz. Feche as portas. Tranque as crianças. Deixe a Mãe cuidar dos seus.

E os cães negros corriam. Corriam com um propósito. Não por instinto, mas para cumprir um experimento. Um teste. Um aviso de que o ódio de Arcádia por Ceres não conhecia limites.

Nas ruas escuras, o único som era o arranhar de suas garras no asfalto.

Estádio de Ceres — Noite do Jogo

O estádio pulsava em uníssono sob as luzes frias. Milhares de vozes ecoavam o nome dela como um mantra vivo.

Lá no alto, em seu camarote, Mãe Ceres observava o campo como uma leoa espreita sua caça.

Os filhos jogavam por ela. Apenas por ela.

Ao lado, sentado por cortesia diplomática, o líder arcadiano, Gots, suava frio. Diante dele, uma mesa imponente, repleta das melhores iguarias que Ceres oferecia — frutas cintilantes, carnes macias, vinhos densos como sangue.

Mãe Ceres sorriu sob a máscara escura, que refletia a imagem deformada de Gots.

— Não se intimide, Gots — disse num tom quase maternal. — Tudo aqui vem das minhas terras. Todo o continente compra de nós. Somos os melhores. Mas… como já sabem… eu nunca como fora de casa.

Gots apenas assentiu, esmagado pelo peso do olhar dela. Ceres inclinou-se levemente, olhos predadores, e falou baixo, mas audível a todos no camarote:

— Sua cidade jamais poderia ser melhor que Ceres. Isso vocês sabem. Mas fracassaram no óbvio.
Não por ambição — ah, a ambição é bem-vinda, é um pilar nosso.
Mas por ganância. Ganância estúpida. Foi isso que fez de Arcádia o que é hoje.

Ela ergueu a taça, um sorriso frio nos lábios:

— Vocês dividiram o país de onde viemos por poder e dinheiro.
Nós herdamos a vergonha. E a coragem.
Mas não somos ingratos.
Quando voltarem para casa, enviarei doações de mantimentos médicos.
Nunca fomos ingratos com nosso... "Pai".
Mas ele nos odeia. Porque somos melhores. Bastardos, sim. Mas melhores.

Ela riu, baixo e cruel, antes de continuar:

— Vocês sempre gostaram de dar nomes obscenos às coisas, não?
Seus bairros, suas ruas, suas máquinas... tudo com nomes fálicos, orgulho estampado em ferro e aço.
Foram vocês que globalizaram o continente. Que moldaram com martelo e fogo.
E eu digo, sem ironia: vocês foram... fantásticos.
Há trezentos anos.

Um silêncio pesado caiu sobre o camarote. Mãe Ceres recostou-se, saboreou o momento e cravou o olhar em Gots como uma estaca.

— Só que vocês falharam no óbvio.
Não foi burrice. Nem má administração.
Vocês esqueceram de fazer filhos em casa.
De dividir responsabilidades. De ensinar sucessores.
Acharam que viveriam para sempre, com seus órgãos sexuais na mão, deslumbrados com a própria virilidade...

Ela se ergueu, fitando as arquibancadas lotadas, onde milhares de vozes gritavam seu nome.

— Nós somos o oposto.
Nossa vagina produz filhos.
É por isso que me chamam de Mãe Ceres.
Eu alcancei a divindade que vocês nunca ousaram imaginar.
Eu ousei mais do que todos os deuses inventados juntos.

— Tolos — murmurou, quase com ternura.

O camarote ficou denso, como se o ar pesasse toneladas. O leve sorriso dela permanecia, os olhos fixos no campo, como se a cidade jogasse por ela.

Gots, esmagado na cadeira, trincou os dedos na borda, os nós alvos. A cada frase, a cada metáfora de sangue, suor e sêmen, ela arrancava mais um fiapo de sua dignidade.

Ele respirou fundo, tentando recompor a postura. Alisou o paletó num gesto seco e pigarreou:

— É... notável... a maneira como vocês aprenderam a falar — disse, entre veneno e elogio. — Um povo que há poucos séculos comia da nossa mão, agora acha que morde a mão que os alimentou.

Mãe Ceres virou-se para ele pela primeira vez naquela noite. Serenidade absoluta. A máscara escura refletia Gots como um espelho opaco.

— Não mordemos, senhor Gots. Aprendemos a cozinhar.

Ele fechou a cara. Um murmúrio disfarçado atravessou a comitiva de Arcádia — uns riram baixo, outros recuaram como se tivessem levado uma bofetada. Gots percebeu que estava perdendo o controle da própria delegação.

— Não se esqueça — continuou Gots, agora com a voz mais firme, quase colérica — que a língua que você usa para nos insultar é a mesma que nós levamos até vocês.

Mãe Ceres inclinou-se para ele, a máscara faiscando como uma lâmina polida.

— Sim. E um dia a terra devolve ao lavrador uma colheita que ele não pode controlar.

O silêncio voltou, pesado como chumbo. Gots sentiu a humilhação atravessá-lo como uma lâmina afiada. Endireitou-se, fechou a expressão, e não disse mais nada. Sua mandíbula se movia lenta, trincada, rangendo de ódio e vergonha.

Ele odiava aqueles bastardos.
Não por serem ruins —
Mas por serem bons demais.

No campo, a torcida de Ceres explodia em euforia a cada jogada. E, pela primeira vez, Gots percebeu algo que não ousava confessar nem a si mesmo:

Aquela cidade já não precisava mais deles.

O jogo — Ceres x Arcádia

O estádio pulsava.

Milhares de vozes ecoavam em uníssono o nome de Mãe Ceres, enquanto bandeiras brancas e douradas tremulavam nas arquibancadas. O cheiro de terra molhada, suor e adrenalina saturava o ar, misturado ao calor sufocante das luzes e da multidão.

Os cinco de Ceres estavam em campo: Vanks, Cors, Gene, Theo e Dark.

Vestiam as tradicionais camisas pretas com detalhes dourados e calções cinzentos. Não trocavam olhares. Não trocavam toques de mãos. Cada um carregava sua própria ambição como um peso invisível nos ombros.

Para eles, não havia time.
Só a vitória importava.

Theo, com seu jeito indiferente, já se posicionava na ponta, pronto para receber a bola e dar início ao jogo. Não dizia nada. Não precisava dizer.

Gene ajeitou as luvas com um estalo seco e trocou um olhar breve com Dark, que fingiu não notar. Cors estalou o pescoço e cuspiu no chão, um ritual antes do apito inicial. Vanks rosnava baixinho, murmurando promessas de estraçalhar cada arcadiano que ousasse encostar nele.

Quando o juiz apitou, a bola subiu aos céus e despencou em queda livre no centro do campo.
O rugido da torcida explodiu.

Foi então que ele apareceu.

Um jogador de Arcádia, vestindo o uniforme vermelho com vivos negros. A camisa número 8 colada ao peito. Baixo, ágil, feroz. Uma sombra vermelha que parecia se mover mais rápido do que os olhos podiam acompanhar.

Em menos de cinco minutos, atravessou a defesa de Ceres duas vezes, humilhando Dark e Cors na corrida. Os passes eram secos, cirúrgicos. Os giros, quase impossíveis de prever.
Era como se soubesse para onde a jogada ia antes de todo mundo.

— Quem é esse filho da puta? — grunhiu Vanks, fitando o placar, já marcando 2–0 para Arcádia.

Theo apenas arqueou a sobrancelha, como quem diz: não importa.
Mas por dentro, sentia algo diferente.
Aquele camisa 8… não era apenas bom.
Era um monstro.
E Arcádia nunca tivera um monstro assim antes.

Na arquibancada, Mãe Ceres assistia com um sorriso leve, quase maternal.

Ela cruzou as pernas no camarote, os olhos fixos na fera vermelha que massacrava seus filhos em campo. Ela sabia.
Aquilo não era apenas um jogo.
Era um recado.
Um recado de Arcádia, ainda que envenenado.

E ainda assim, ela não parecia abalada.
Era quase como se estivesse... se divertindo.

— Então vocês finalmente fizeram um filho... — murmurou, os olhos cravados no número 8.

A bola voltou ao centro.
E o jogo recomeçou.
Mais rápido. Mais violento.

A multidão rugia.

E os cinco de Ceres, mesmo separados, sabiam de uma coisa:
Se não se unissem agora, aquele camisa 8 acabaria com todos eles.

O camisa 8 de Arcádia era um predador.
Não apenas jogava bem — ele jogava com crueldade.

Um giro seco, um salto, e Dark voou pelo ar como um boneco de pano, caindo de costas na grama sintética com um estalo que fez metade da torcida prender a respiração.

O juiz apitou imediatamente.
Falta.
Advertência para o camisa 8.

O arcadiano apenas ergueu os olhos, apáticos, como se não ligasse para nada do que acontecia.
Seus olhos, de um cinza metálico, fitaram Theo com um desinteresse quase desumano.

Dark, ainda zonzo, se levantou apoiando-se nas próprias pernas, cuspindo sangue no canto da boca.
Sacudiu a cabeça, cambaleando, e rosnou:
— Não preciso de ninguém pra me defender… ninguém.

Mas Theo não se conteve.

Deu dois passos firmes em direção ao camisa 8, a mão espalmando o peito do adversário e empurrando-o com força.
O público explodiu em vaias e aplausos ao mesmo tempo.

O 8 recuou um passo, sem reação.
Como uma máquina sem sentimentos, apenas piscou, impassível, incapaz de se importar que estivesse sendo confrontado.
Ainda assim, seus olhos seguiram Theo com um brilho gelado — uma promessa silenciosa.

O árbitro não hesitou:
Advertência para Theo também.

Dark se endireitou, apoiando-se num joelho, e murmurou baixo para Theo, a voz ainda rouca:
— Fica fora disso. Esse desgraçado não me assusta. Cuida da sua parte, Theo.

Theo não respondeu.
Apenas o encarou por um segundo, percebendo que, apesar das palavras duras, havia algo quebrado em Dark naquele momento.
O camisa 8 não derrubara apenas o corpo de Dark.
Esmagara seu orgulho.

No camarote, Mãe Ceres entrelaçou os dedos, os olhos fixos no campo, e sorriu de leve.
— Ah, meus filhos… aprendam a se unir, ou serão devorados um por um.

O jogo seguiu.
Mas o ar estava mais denso, mais agressivo.
As torcidas se inflamavam.
E Theo, sentindo aquele olhar vazio do camisa 8 sempre em sua direção, soube de uma coisa:
Aquele homem não estava ali para jogar.
Ele estava ali para destruir.

Quase no fim do primeiro tempo, o camisa 8 de Arcádia continuava infernal.
Tirava todos da frente como se fossem crianças.
O público já gritava seu número como um vilão digno:
— OITO! OITO! OITO!

Mas Theo não ia recuar.

Na jogada seguinte, mirou-o.
Veio rápido, baixo, calculado, e derrubou-o com uma falta dura.
Os dois rolaram pelo gramado, o apito soando estridente, a torcida rugindo num misto de vaias e aplausos.

O camisa 8 ficou caído por um instante, respirando pesado, os olhos fixos no teto do estádio.
Theo se ergueu primeiro e lhe estendeu a mão.

O arcadiano hesitou.
E então, aceitou.

Era pesado. Músculos de ferro.
Mas Theo percebeu algo mais:
Ele sentia.
Ele gemia.
Ele caía.

Ao erguê-lo, Theo murmurou, baixo, só para ele:
— Você é forte... tem fibra. Mas não mais do que eu.

Por um instante, o 8 o encarou com aqueles olhos metálicos, um músculo tremendo no canto do maxilar.
Não disse nada. Apenas ficou de pé, rígido como uma estátua, o peito arfando.

E foi então que Theo ouviu.
Algo pequeno.
Um som agudo, quase um gemido — mas não masculino.
Feminino.
Fino.
Como se viesse da garganta do próprio camisa 8.

Theo franziu o cenho.
Soltou-o devagar, os pelos da nuca eriçados.
Mas não disse nada.

O apito final do primeiro tempo ecoou pelo estádio, e os times recuaram para os vestiários sob uma explosão de gritos e cantos.
Na tribuna, Mãe Ceres não tirava os olhos de Theo e do 8.
Um sorriso enigmático curvou-lhe os lábios.
— Oh… então você também sente, não é?...

No túnel, Theo ainda ouvia o eco daquele gemido feminino em sua mente.
Que diabos é você, número 8?...

O vestiário estava carregado de tensão, como sempre.
Dark e Cors discutiam perto do chuveiro, a adrenalina do primeiro tempo ainda queimando nas veias.
Dark, com um sorriso cínico, cutucou Theo:
— E aí, Theo? Por que diabos você levantou aquele arcadiano depois de derrubá-lo? Tá mole ou tá com medo?

Cors cruzou os braços e resmungou:
— Foi estranho mesmo. Todo mundo viu que ele quase te tirou do jogo.

Theo revirou os olhos, pronto para cortar aquela conversa idiota, mas antes que pudesse responder, o técnico entrou com um olhar que gelou o ambiente:
— Parem com isso. Vocês precisam focar. O segundo tempo é mais importante que qualquer briga besta.

Dark deu de ombros, mas não se conteve:
— Tá bom, treinador, mas me diz uma coisa: quando você vai pegar as duas, Dru e Ceres? Essas vadias… Não dá pra ficar só na vontade, né?

O vestiário congelou.
Theo fechou o rosto, a raiva estampada na mandíbula travada:
— Dark, para com essa merda. Isso aqui é jogo, não teu boteco de quinta.

Mas Dark só riu, um sorriso torto, provocador, cuspindo veneno:
— Ah, vai se foder, Theo! Tá com medo de encarar a real? Ou tá só querendo bancar o certinho?

Cors tentou intervir, mas a tensão já era gasolina no fogo. Os dois estavam a meio passo de se empurrar quando o técnico se colocou no meio, a mão erguida e a voz cortando como lâmina:
— Cala a boca, vocês dois! Parece até superstição: toda vez que vocês brigam no intervalo, a gente vence no final. Tomara que hoje não seja diferente.

O silêncio se impôs, pesado.

— O primeiro tempo foi horrível — continuou o técnico, encarando Theo —, não tem como piorar no segundo. O pior já foi feito.

Ele fez uma pausa, a voz desceu um tom, carregada de exigência:
— Theo, que merda é essa? Você precisa ler o comportamento do 8, caralho! Não é líder quem sabe gritar ordens. É líder quem enxerga a mente do inimigo. Descubra a falha dele. É lá que a gente vai vencer ou perder.

O silêncio que seguiu era mais denso que o concreto ao redor.

Dark não perdeu a oportunidade:
— Agora sim, treinador. Vamos ver se o líder tá à altura.

O apito do segundo tempo soou, e o estádio explodiu num rugido abafado pelas viseiras e pelo impacto brutal da bola.

Theo olhou direto para o camisa 8 de Arcádia.
Ele parecia diferente.
Mais lento.
Os movimentos menos precisos.

Theo gritou:
— F! F! F!

O código de fadiga.
Simples. Cru. Mas agora, uma fagulha incendiando a equipe.

O 8 não se mexia muito, a viseira escura escondia seus olhos.
Mas quando cruzaram o olhar — mesmo por trás do visor opaco — Theo percebeu algo.
Não era só cansaço.
Era medo.
Medo gelado, profundo, sufocado.

Theo sorriu por dentro.
Era isso. O momento.

— Não vamos deixá-lo se levantar — pensou, sentindo a adrenalina devorar seu peito.

No banco, Dark sorria, olhos ardendo de expectativa. Cors já se posicionava para entrar com a fúria de quem espera o bote.

O jogo seguia, o tempo corria, e o medo do camisa 8 começava a apodrecer por dentro.

Theo não deu espaço.
Avançava como um trator, rompendo a defesa.
Passava pelo camisa 8 como se ele fosse ar, derrubando-o outra vez com a frieza de um carrasco.

Sem hesitar, estendeu a mão e o ajudou a levantar.
Mantinha o olhar fixo. Perfurante.

Mas de novo, como um sussurro entre a multidão, Theo ouviu.
Aquele gemido.
Suave. Feminino.
Misturado ao rugido das arquibancadas.

Ele ignorou.
Medo não tinha vez em campo.

Gritou para o time, com a voz rouca e cortante:
— M! M! M!

O código de medo.
O recado: ele já está caindo.

O time de Ceres absorveu a mensagem como fogo em estopa.
A tensão explodiu em ação.
Eles sabiam que era agora ou nunca.

E a multidão… a multidão delirava.
O estádio vibrava como se estivesse vivo.
E o camisa 8, aquele monstro de Arcádia, começava a se tornar o que sempre foi:
Um corpo pesado, com medo, tentando resistir ao inevitável.

O Segundo Tempo — Massacre de Ceres

O segundo tempo foi um massacre.
O time de Ceres atropelava sem piedade: jogadas rápidas, violentas, certeiras. Theo sentia como se o camisa 8 tivesse perdido a alma — tremia, olhava para ele como um animal acuado. Um trator no primeiro tempo, agora um carrinho de bebê.

Dark não perdeu a chance. Passava por ele e o empurrava, jogando-o ao chão de novo. Advertência para Dark. Ele nem ligava, ria com desdém.
Na jogada seguinte, quase foi expulso. O camisa 8 mal conseguia ficar em pé diante da pressão.

O apito final soou com a goleada: Ceres 8 x 3 Arcádia.
O estádio explodiu em euforia — bandeiras erguidas, cânticos pelo nome da cidade e da Mãe Ceres.

Theo caminhou até o 8, ainda ofegante no meio do campo, e estendeu a mão para cumprimentá-lo.
Antes que os dedos se tocassem, Dark empurrou a mão de Theo para baixo, furioso:
— Porra, Theo! Não cumprimenta inimigo, não! Tá ficando mole agora? Quer beijar a boca dele também?

O camisa 8 recuou dois passos, os olhos escondidos pela viseira, e então o tumulto estourou no meio dos jogadores.
Pancadaria generalizada.
Reservas, juízes, comissários entraram para apartar a briga, mas era tarde: socos, cotoveladas, empurrões para todos os lados.

No meio do caos, o camisa 8 correu sozinho para o túnel dos vestiários. Sumiu.
Quando a confusão foi contida, os dois times foram obrigados a voltar para os vestiários separados, ainda trocando insultos no ar.

No vestiário de Ceres, a adrenalina ainda fervia.
Dark xingava o adversário, cuspindo no chão. Cors jogava a toalha no banco, irritado. Gene passava gelo no ombro.
Theo sentou-se em silêncio, ainda pensando no olhar do 8.
Havia algo errado ali. Algo que ele não conseguia tirar da cabeça.


Mãe Ceres — Depois do Camarote

O jogo havia terminado.
As arquibancadas se esvaziavam em ondas de vozes e passos apressados, deixando para trás o cheiro de suor, cerveja e pólvora leve.
No camarote VIP, as luzes iam se apagando aos poucos.
Só restava ela, de pé diante de um grande espelho emoldurado por madeira escura.

Ainda vestia o mesmo traje elegante. As joias cintilavam frias contra sua pele.
Os olhos encaravam a própria imagem — um par de olhos que não piscavam, que pareciam julgá-la.

Ela sorriu.
Um sorriso pequeno, contido, quase triste.
E sussurrou para si mesma:
— Difícil, é? Pois que seja. Não me deram nada. Nem mesmo um nome sem vergonha de bastarda. Eu tomei tudo. Tomei, e nunca pedi desculpas.

Ajeitou um anel no dedo, quase distraída.
— Todos eles querem metade do que tenho… mas nenhum aguentaria carregar isso um só dia. Nem mesmo os deuses ousariam fazer o que eu fiz com este ventre e estas mãos.

Por um instante, os ombros dela pareceram curvar sob um peso invisível. Uma faísca de cansaço cruzou-lhe o olhar — breve, mas real.
E, ainda assim… ergueu a cabeça de novo, dura como uma rocha, soberana como uma estátua viva.
— Eu não devo nada a ninguém. Nem a Arcádia. Nem a esses bastardos. Nem aos deuses… — fez uma pausa, olhando fundo para o espelho — … principalmente aos deuses.

Virou-se e caminhou para a porta, passos firmes ecoando no salão vazio.
A divindade que ela havia construído para si mesma não era leve.
Mas era dela.
E que ousassem tentar tomá-la.


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