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Capítulo 16: Devaneios de um Traidor e Corações Rasgados - parte 3 final

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No campo simulado de guerrilha

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No campo simulado de guerrilha

— Prestem atenção, porque hoje não é dia de brincadeira, seus merdinhas — a voz do professor ecoava pelo ginásio, firme, carregada de palavrões estrategicamente inseridos para educar e humilhar ao mesmo tempo. — Hoje vocês vão provar que não são só macaquinhos bem vestidos. Hoje é um campo simulado.

A tela atrás dele iluminava o briefing: uma sucessão de imagens de armas estrangeiras, detonadores, dispositivos improvisados, artefatos explosivos com fitas coloridas indicando segurança e desarme. Entre uma explicação e outra, o professor chutava um estojo para o canto ou batia no quadro para enfatizar.

— Isso aqui não é tabuleiro! Vocês têm um segundo e meio, UMA MERDA DE UM SEGUNDO E MEIO, pra identificar e abater um alvo fixo! Quem não consegue, já pode pedir colo pra mamãe Mãe Ceres, porque no domingo vão engolir vocês sem nem mastigar!

Os sessenta melhores estavam dispostos em fileiras. Os outros, menores de quinze, ainda sem condição mental para aquilo, assistiam das arquibancadas. Entre os sessenta, lá estavam Theo, Cors, Vanks, Dru, Ana e Ceres — todos atentos, cada um com sua tensão particular.

Ceres não piscava.
Ela caçava Theo com os olhos como um cão treinado para farejar blasfemadores. Cada respiração dele parecia para ela um delito, uma afronta secreta contra a Mãe Ceres. Em algum lugar dentro dela, havia uma ponta de medo, uma pontinha que implorava: Theo não... não ele... — mas era soterrada por um ciúme feroz, quase religioso. Theo não era Mãe Ceres. Não era dela. Não podia ser.

Quando a fúria já quase fazia seu coração bater no pescoço, a voz do professor a tirou do transe:
— Ceres. Na frente.

Ela esticou a coluna como se fosse um chicote.
— Você lidera as meninas.

Um silêncio pesado.
— Theo, você lidera os meninos.

Um calafrio percorreu o ginásio.
Os olhos dela encontraram os dele por um segundo, como duas lâminas se cruzando. Theo não recuou, nem sorriu, nem piscou. Ela também não.

— Vão dividir as equipes, coordenar os bastardos, e mediar quando precisar. O campo não espera por vocês.

No campo simulado, um enorme labirinto de 50 por 50 metros se estendia diante deles. Paredes móveis de madeira e metal, marcas no chão, alvos fixos em posições aleatórias, todos pintados de branco com pontos vermelhos.
Armas de tinta checadas, carregadores, uniformes leves, proteção no rosto.

As ordens foram dadas: cada líder recebeu uma prancheta com os nomes. Dividiram-se em quatro grupos de quinze, espalhados por cada canto do labirinto. Todos com fitas pretas no braço, exceto um grupo — os designados para simular os traidores, marcados com fita vermelha no bíceps.

E, claro.
Theo ficou no grupo dos traidores.
Fita vermelha, bem justa no braço, como uma ferida aberta.

Para Ceres, não podia haver coincidências.
Não com ele.

Quando o apito soou, os grupos começaram a se mover como serpentes entre as paredes do labirinto, disparando tiros de tinta que ricocheteavam em estalos secos, acertando alvos, errando, reorganizando-se.

Os professores, do alto das torres de observação, gritavam ordens e comentários:
— Mais rápido, Vanks!
— Cors, você atirou no aliado, burro!
— Ana, foco no alvo, não nos seus peitos!
— Theo... — e uma pausa. — ... Theo, você já sabe. Não decepciona.

E Ceres, já dentro do labirinto, afundava cada vez mais naquele ciúme rancoroso, quase doente, cada vez mais tensa a cada disparo dele, cada movimento, cada respiração.

Porque naquele momento, naquele labirinto, com aquela fita vermelha, ele não era só Theo.
Era um inimigo.

E, por dentro, ela já sentia: se fosse preciso, ela não hesitaria em puxar o gatilho.

O Labirinto

O labirinto se tornava cada vez mais silencioso.
Um a um, foram caindo.
As armas de tinta esvaziavam carregadores. As fitas pretas se acumulavam no chão, junto a corpos cansados.

Sobrou ele.
Sobrou ela.

Theo se movia devagar, respiração controlada, olhos atentos a cada esquina — como se pudesse pressentir um traidor só pelo cheiro.
Os professores já não gritavam lá em cima.
Agora era só ele, ela, e a pulsação de Mãe Ceres ecoando nas paredes do labirinto.

Um canto.
Um corredor estreito.
E então… ele parou.

O instinto lhe dizia que o inimigo estava perto. Tão perto que podia ouvir os passos leves no compensado, o arranhar de unhas na madeira.
Theo se encostou na parede e virou lentamente a cabeça para espiar — nada.
Nada além de silêncio.

Ele não sabia, mas do outro lado, a poucos metros, ela também se encostava na parede.
De costas para ele.
Sentia-o pelo cheiro, pelo calor suspenso no ar abafado do ginásio.
Odiava aquele cheiro.
Amava aquele calor.

Theo respirou fundo, fechando a mão sobre a coronha da arma.
Ceres sorriu.
E correu.

Os pés dela bateram na parede lateral do labirinto como dois chicotes. Um, dois, três passos ascendentes — as pontas dos dedos encontraram a borda superior, e ela, com a maestria que a tornava a filha mais feroz de Mãe Ceres, impulsionou-se por cima do labirinto.

Lá em cima, um instante apenas.
Do outro lado, Theo só teve tempo de ouvir o baque suave atrás de si.
Quando se virou, já era tarde.

Um POP! seco.
A tinta vermelha explodiu em sua omoplata.
O golpe certeiro.

— Fora! — berrou um dos fiscais nas torres, enquanto a sirene ecoava logo depois.

Ceres abaixou a arma devagar, o olhar cravado no dele.
Theo ergueu as mãos, rendido, mas sem tirar os olhos dela também.

Ela desceu do pequeno salto com leveza, os olhos faiscando de triunfo e… outra coisa.
Algo mais fundo. Mais obscuro.
Aproximou-se o bastante para que ele pudesse ouvir a respiração dela.
E então, num sussurro apenas para ele:

— Eu disse que você não é a Mãe Ceres.

E virou as costas, marchando pelo labirinto até o ponto de encontro, deixando Theo sozinho com sua derrota e com a tinta escorrendo pela camiseta.

Theo saiu do labirinto ainda com a tinta fresca manchando o ombro.
Ceres já estava junto dos outros vencedores — séria, braços cruzados — mas não escondia um leve arquejo de orgulho na respiração.

Ele caminhou até a mesa dos fiscais, o olhar em brasa.

— Isso foi uma trapaça — disparou, apontando para Ceres. — Ela subiu no labirinto. Ela não seguiu a rota!

O professor — um homem alto, de uniforme escuro e expressão dura — ergueu os olhos da prancheta, lentamente.
Theo não recuou.

— As instruções foram claras. As regras…

Não terminou a frase.
O professor largou a prancheta sobre a mesa, caminhou até Theo com passos pesados e, num movimento seco, agarrou-o pelo colarinho.

Todos os alunos, até os mais novos, pararam para assistir.
O silêncio no campo simulado era quase absoluto.

O professor aproximou o rosto do dele e disse, com a voz áspera como lixa:

— Numa guerra, garoto… não existem regras.

E o soltou, empurrando-o levemente para trás.

Theo ficou ali, sentindo o colarinho amassado, as bochechas ardendo, o orgulho mais ferido que o ombro pintado.

Ceres não olhou para ele.
Apenas ajeitou a fita preta no braço e ergueu o queixo — como quem já sabia o que o professor diria.
E, por dentro, Theo também sabia.

Mãe Ceres nunca teve regras — só vencedores e vencidos.

Theo não disse mais nada. Ficou ali, colarinho torto, a respiração presa na garganta.
O professor já voltava à mesa, gritando ordens para recolherem as armas de tinta e reorganizarem os times.
Ceres, por sua vez, seguiu para o canto dos vencedores sem sequer lançar um olhar para ele.
E isso doeu mais do que a bronca.

Theo se sentou num banco ao lado, sozinho, os dedos ainda fechados em punhos. Sentia o cheiro do pó das tintas no ar, misturado ao suor e ao cimento frio do piso.
No peito, um nó. No rosto, um calor incômodo. Mas não deixaria transparecer.

Olhou para o labirinto no centro do campo simulado — agora silencioso, vazio.
As marcas de tinta nos painéis de madeira pareciam cicatrizes frescas.
E em cada uma delas, ele via o rosto dela, o salto por cima da parede, o estalo da tinta contra suas costas.
Ouviu de novo, na cabeça, as palavras do professor: "não existem regras."

Theo apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou olhando para o chão, o olhar duro, tentando conter o aperto na garganta.
Por dentro, uma mistura de frustração, raiva, vergonha.
Mas, enterrado no fundo — muito fundo — havia também outra coisa.
Uma pontada de respeito. Contra a própria vontade.

Ele ergueu os olhos. Lá estava ela, ao longe. De costas, a fita preta ainda presa ao braço, os cabelos firmemente amarrados na nuca.
E ali, naquele silêncio só dele, Theo prometeu:
um dia, subiria ainda mais alto do que ela.
Mesmo que, para isso, tivesse que esquecer todas as regras.

Quando saiu do vestiário, o campo já estava quase vazio. A tinta ainda pingava dos painéis e o cheiro acre ainda pairava no ar.
Daime estava lá, encostado numa parede, a cadeira de rodas parada num canto escuro — como quem só esperava aquele momento.
E não perdeu tempo:

— Tá 4 a 0 pra boneca aí, hein, Theo! — disse alto, a voz ecoando pelo corredor, carregada de escárnio e riso debochado. — No campo simulado… no drible do pátio… naquela rasteira que tu caiu feito um saco de batata… e hoje, de novo, no campo simulado!

Theo passou por ele sem desviar o olhar.
Mas Daime não parou:

— De novo campeão… que vergonha, cara. E você ainda era meu substituto no flagball, lembra?
Você não é mais o mesmo, Theo.
Não é mais o mesmo.

A última frase foi dita num tom mais baixo, quase íntimo. Como uma navalha enfiada entre as costelas.
Essa, Theo sentiu. Sentiu fundo.

Parou por um segundo, como se fosse responder… mas não.
Apenas fechou a cara, respirou fundo e seguiu andando.

— É isso aí mesmo — completou Daime, agora para si mesmo, como quem resmunga só por resmungar, enquanto as rodinhas da cadeira rangiam no piso polido. — Não é mais o mesmo, não.

Theo sumiu no final do corredor, sem olhar para trás.
E o riso de Daime ficou ecoando — com aquele gosto de veneno e verdade ao mesmo tempo.

No sábado, já perto do fim da tarde, Theo voltou ao colégio. Mas não para treinar.
Andou sozinho até a beirada do campo baldio — um terreno que ninguém jamais ousava invadir, coberto por um tapete ondulante de flores cor-de-sangue, plantadas por Cora.

Cora, a menina estranha que não participava dos simulados, nem empunhava rifles de tinta.
Aparecia apenas nas aulas teóricas, sempre quieta, sempre sozinha — como se fosse mais devota da Mãe Ceres do que todos eles juntos.

Mas ela não estava ali hoje.
Só o campo de flores, balançando ao vento, perfumando a terra com um cheiro adocicado, quase enjoativo.

Theo parou no centro do terreno, fitando o horizonte à frente — a linha opaca que separava Ceres de Arcádia. Ou de Silencium. Ninguém sabia ao certo.
Só sabiam que lá fora não havia regras, nem ordens, nem Mãe Ceres para devorar os filhos um a um.

E, pela primeira vez em muito tempo… ele se pegou pensando:
E se eu simplesmente fosse?
E se largasse tudo, fugisse, deixasse Ceres para trás com todos os seus lemas sufocantes?

A Mãe era pesada demais.
O peso já começava a entortar sua coluna. A encolher seu coração.

O início da indiferença tomava forma como um veneno lento.
Não era ódio. Nem dor.
Era apenas… o nada.

E aquele nada crescia. Crescendo até engolir tudo.

Ficou ali por horas. Quieto. Observando o sol se pôr lentamente por trás da fronteira, tingindo o céu de vermelho e púrpura.

E atrás dele, silenciosa e imponente, a torre da Mãe Ceres projetava sua sombra sobre o campo de flores — como um demônio caçador de almas, aguardando a hora certa para devorar mais um.
Sentiu calafrios.

Então, talvez por impulso, virou-se devagar…
E lá estava ela.

Ceres.
Firme. A alguns metros atrás dele, entre as flores e a torre, de braços cruzados, como se fosse a própria encarnação da Mãe vigiando seus filhos.
A luz alaranjada do poente a recortava por trás, mas o rosto permanecia duro, inexpressivo — quase impassível.
E atrás dela, a torre. Sempre a torre.
Como se uma fosse a sombra da outra.

Theo não disse nada. Apenas a encarou por longos segundos, um arrepio subindo pela espinha.
E então o pensamento veio, claro como água suja: Não importa para onde eu olhe… ela sempre vai estar lá. Ela… e a Mãe.
E pela primeira vez, percebeu — talvez fugir não fosse uma opção tão simples quanto imaginava.

Theo sustentou o olhar. Mas a resposta não vinha.
Como um autômato, falou o que havia ensaiado. Palavras secas. Programadas. Sem alma:
— Eu… eu só… tô cansado. Não é isso que você pensa. Eu só preciso de… de um tempo pra…

Ceres não se moveu. Apenas estreitou os olhos, como quem já escuta a verdade mesmo nas pausas.
Quando ele terminou de tropeçar nas próprias frases, ela inclinou a cabeça, impiedosa:
— Você tá enrolando.

Theo engoliu em seco. Um nó na garganta.
— Você não sabe mentir, Theo. Nunca soube. — A voz dela era dura, inquebrável. — Meus olhos já arrancaram verdades de homens muito mais fortes do que você. Quer mesmo que eu continue olhando dentro de você… até ver tudo?

Ele respirou fundo, tentando manter o orgulho de pé. Mas a dor escorria pelos olhos, traindo cada palavra.
Por fim, explodiu — baixo, entre os dentes:
— Eu quero fugir, Ceres.
— …
— O fardo… o fardo é pesado demais. Eu não aguento mais carregar essa merda dessa…

Estalou.
O tapa não doeu no rosto.
Mas queimou no peito como fogo líquido.

Theo ficou atônito. A bochecha ardia não pela força — mas pelo espanto. Ela… ela?
O silêncio engoliu o campo de flores. Só o vento entre as pétalas, balançando.
O choque estampado no rosto dele. Os olhos fixos nos dela. Incrédulos.

E então ele viu.

Ceres já não era só Ceres.
Ela era o próprio demônio encarnado.
Olhos de gelo faiscando ódio. Uma fúria inumana vibrando nos dedos dela, como se quisessem arrancar os olhos dele, jogá-los no chão, enterrá-lo vivo ali mesmo — e salgar o túmulo para que nada jamais brotasse.

Ou pior:
Expulsá-lo de Ceres.
Para fora da cidade.
Sem nome. Sem história.
Excomungado. Esquecido.

Como fizeram com Gene.

Gene.
Ninguém ousava repetir aquele nome.

E por um instante, Theo entendeu: era exatamente isso que ela queria fazer. Deletá-lo.
Apagá-lo da existência.
Porque qualquer um que ouvisse aquilo dele e não o destruísse… já era cúmplice.

Mas era Theo.
Era Theo.

Para fazer isso, Ceres teria que arrancar o próprio coração com as próprias mãos.

E foi isso que a deteve.
Por um instante.

Ela se lembrou de tudo.
De tudo o que eles atravessaram para chegar ali.
De quem ele era.
E de por que odiá-lo doía tanto quanto amá-lo.

Os olhos dela tremiam. Mas ela não abaixou a mão.
E Theo ainda não sabia se ela ia usá-la de novo.

Ceres manteve a mão suspensa. A respiração pesada. O olhar cravado nele.
E então, sem aviso, começou a falar.

A voz era firme no início. Quase protocolar. Como se tivesse decorado cada sílaba para recitar num tribunal de ferro:
— Lá fora, Theo… — disse, num tom seco. — …lá fora existe fome. Miséria. Pestes. Gente que mata crianças. Gente que come gente. Gente que corrompe tudo o que toca. Tudo o que sonha.

Pausa.

— Tudo isso — ela apontou para ele com o dedo em riste, mas a mão tremia — é o desespero dos que queriam ser como nós.

— Aqui… aqui a Mãe Ceres jorra leite e mel.
Aqui as terras são perfeitas.
Aqui ninguém tem dificuldade para nascer, crescer, comer, viver.
E você... — os olhos dela marejaram, mas a voz se ergueu em fúria — …você cospe no prato que come e no rosto da Mãe!

Ela se aproximou, agora a centímetros de distância.
E cada palavra cortava como faca, como se ela mesma sangrasse junto.

— Eu mataria você aqui mesmo, só pra ver pra que lado o seu corpo cairia.
Porque você não passa de um pedaço de carne que faz sombra nas terras da Mãe Ceres.
Você é um ingrato com cada pensamento que tem.
Você é um câncer incurável... que precisa ser eliminado.

O rosto dela já se contorcia de dor e raiva.
A voz falhou — mas continuou, mesmo assim:

— E agora fica aí... me olhando com essa cara sem expressão, sem gesto nenhum... como se fosse só isso mesmo.
Que a Mãe Ceres não tenha piedade da sua alma... porque eu não tenho.

Um soluço escapou, mas ela não limpou as lágrimas.
Era sofrido dizer aquilo.
Pesado demais.
Porque era como falar para um espelho.
Era como arrancar ele do próprio coração, só para salvar Ceres.

Então ela baixou a mão, mas seus olhos brilhavam de ódio e amor ao mesmo tempo.
E disse, entre dentes, numa voz quase sussurrada — como quem crava uma faca e chora pelo próprio golpe:

— Eu vou te denunciar, seu desgraçado.
Traidor imundo.

Ela respirou fundo. Um soluço tremeu seu peito.
E então, os lábios começaram a pronunciar o mantra.
O mesmo de sempre.
Mas agora, cada palavra saía embebida em lágrimas, em dor... e em um amor que transbordava no olhar — como se sua alma, atrás da máscara, gritasse que o amava, mesmo assim.

Olhou para ele — e naquele olhar cabia o céu e o inferno juntos.
E disse, com um fio de voz trêmulo, ainda assim cheio de peso:

— Mãe Ceres… — o peito arfou.
— …que nos educa… — os olhos cravados nele, já vermelhos.
— …que alimenta… — uma lágrima escorreu.
— …e nos devora.

No fim, o silêncio do campo os envolveu.
E os olhos de Ceres diziam o que as palavras não ousavam dizer:
que por mais que ela o odiasse agora... ainda o amava.
E o peso disso era quase insuportável.

Ceres recuou um passo.
Os olhos ainda cravados nele, como duas lâminas de gelo derretendo no inferno.
E então, sem dizer mais nada, girou nos calcanhares.

Ela fugiu.
Fugiu como um demônio da luz — como se a presença dele fosse fogo demais para suportar.
Os passos eram rápidos, duros, rasgando o campo baldio de flores de Cora, cada vez mais distantes.

Theo ficou parado.
Não disse nada.
Não estendeu a mão.
Não correu atrás.
Ficou.
Como uma estátua condenada.

E só ali, no silêncio, entendeu que cada palavra dela, por mais brutal, tinha um eco invertido.
Porque por baixo da fúria, por trás de cada sentença cruel... havia outra coisa. Oculta.
Um amor sufocado.
Um clamor desesperado para que ele não fosse embora.

"Eu te mataria aqui mesmo, só pra ver pra que lado o corpo cairia."
No fundo: "Eu te amo tanto, que não suportaria ver você longe dessas terras."

"Você não passa de um pedaço de carne que faz sombra..."
No fundo: "Eu só queria que você fosse a luz que sempre foi."

"Você é um câncer incurável, que deve ser eliminado..."
No fundo: "Não nos abandona. Não se deixa consumir por esse vazio."

"Que a Mãe Ceres não tenha piedade da sua alma… porque eu não tenho."
No fundo: "Mãe Ceres te ama. Como eu amo. E isso me destrói."

Theo percebeu tudo isso ao vê-la sumir no horizonte.
Mas não se moveu.
Aceitou a condenação.
Aceitou o ódio dela.
Aceitou a própria culpa.
Como se merecesse cada palavra que ela cravou.
Como se não tivesse o direito de dizer:
eu também te amo.

Por um instante, pensou até em se entregar.
Ir até a torre, confessar, acabar logo com aquilo.
Mas algo dentro dele o fez esperar.
Esperar a raiva passar.
Esperar o peso se acomodar no peito.
Esperar a noite cair sobre as flores de Cora e, talvez — quem sabe — amanhecer um pouco menos ferido.

Ficou parado, sentindo o medo crescer.
O medo de Mãe Ceres.
Um medo maior que a morte.
Perder o nome… nem isso lhe causava tanto pavor quanto a ideia de sentir os olhos de Ceres sobre ele, apontando-o como traidor.

E quando finalmente se deixou sentar no chão frio, sozinho, murmurou para si mesmo, sem resposta nenhuma além do vento nos campos:
— O que foi… que eu fiz… pra pensar assim?

O horizonte seguia diante dele, como uma promessa impossível.
E atrás dele, a torre da Mãe Ceres ainda erguida, implacável.

O céu já escurecia quando Theo voltou para os alojamentos, poucos minutos antes do toque de recolher. O campo de flagball ainda úmido pela neblina da noite estava vazio, exceto por ele e seus próprios fantasmas.
Treinou sozinho até o corpo falhar — até os músculos cederem, os pulmões queimarem e o estômago rejeitar qualquer resquício de orgulho. Vomitou à beira do campo, limpou a boca com as costas da mão e voltou a correr, a cair, a recomeçar.
Queria castigar o corpo, sufocar a mente.
Se a Mãe Ceres não ia perdoá-lo, que ele também não se perdoasse.

Só parou quando as pernas já não o obedeciam mais e o coração martelava num ritmo desigual.

Deitou-se cedo naquela noite, mais cedo que todos.
Não quis ouvir vozes, nem sentir olhares.
Queria o silêncio do sono, ou o silêncio da morte — qualquer um que viesse primeiro.
Dormiu antes que as luzes se apagassem no dormitório, vencido por um cansaço profundo, pesado, vazio.

Do outro lado do complexo, Ceres também se atirava na água gelada da piscina do ginásio. Cada braçada era um golpe contra si mesma, cada mergulho um afogamento da fúria. Nadou até os dedos enrugarem, até o corpo implorar por ar, até a mente suplicar por descanso.
Ela sabia que não dormiria aquela noite.

Quando saiu da água, pingando, as roupas grudadas no corpo, não havia ninguém para vê-la chorar em silêncio, com os olhos vermelhos e a respiração curta.
Sabia que aquela raiva não era só por ele.
Era por si mesma também.

Mais tarde, quando os corredores já se esvaziavam e o toque de recolher se aproximava, Daime vagava pelo prédio como quem não tinha pressa nem rumo.
O som abafado dos tênis ecoava pelos azulejos frios enquanto ele mordiscava um pedaço de pão roubado do refeitório.

De longe, viu Ceres atravessar as portas do ginásio e sumir em direção à piscina, a passos duros, quase militares. O vapor úmido escapava da entrada, junto com o tilintar distante da água sendo rasgada.
— Louca, só pode… — murmurou, arqueando a sobrancelha.

Seguiu adiante, espiando por uma das janelas do corredor lateral e, lá fora, no campo de flagball, quase se confundindo com a lama e a escuridão, Theo corria sozinho — tropeçando, levantando, treinando até a exaustão, como um condenado tentando fugir de si mesmo.

Daime assobiou baixo, sem ser ouvido.
— Esses dois não transam, não, hein? — falou pra si mesmo, balançando a cabeça. — Porque gastam energia como se tivessem o demônio no corpo.

Deu de ombros, deu uma mordida maior no pão e já virava as costas. Mas não resistiu e resmungou, quase cuspindo as palavras:
— Também tô igualzinho com a Ana… — bufou, jogando o resto do pão no lixo. — Mulheres!

Seguiu pelo corredor, coçando a nuca e soltando uma risada seca e curta, como quem tentava se convencer de que estava no controle de alguma coisa.
Mas no fundo, sabia que não.

O Sonho Vermelho

O sonho veio suave, em tons pastel. Um mundo acolhedor e difuso, como se pintado em aquarela. Ela estava de volta ao colégio, mas não havia dureza, nem marchas ou ordens — só um céu azul-claro que invadia os corredores. As paredes cintilavam, como feitas de vidro fosco.

E no centro do pátio, sentada num trono simples coberto por um véu branco, Mãe Ceres a chamava com um sorriso. Vestia-se inteiramente de branco, dos pés à cabeça, emoldurada por cristais flutuantes que brilhavam ao redor de seu rosto, como pequenas estrelas. Tinha uma auréola dourada e majestosa — e os olhos… os olhos eram idênticos aos de Ceres. Azuis. Tão azuis que guardavam não apenas o céu, mas o universo inteiro.

Ceres se aproximou, tímida. Mãe Ceres abriu os braços, e ela, sem hesitar, sentou-se em seu colo, como uma filha querida. Sentiu dedos suaves afagando seus cabelos, penteando-os para trás num carinho maternal que a fez quase chorar de alívio.

Então, a voz de Mãe Ceres soou quente e baixa, em seu ouvido:

— Theo… ele é bom para você, minha filha.

Mas no instante seguinte, a voz mudou. Fria. Cruel. Rastejante:

— Theo… ele é um traidor imundo, minha filha. Eu quero ele.

Tudo se tingiu de vermelho. Vermelho-sangue. O céu clareou num tom carmim. As paredes trincaram — e sangraram. Mãe Ceres cresceu gigantesca diante do colégio, agora reduzido a ruínas rubras. Seu rosto sangrava. Os olhos viraram poças escuras. Os dentes, agudos como facas. Braços longos e finos se esticaram, os dedos como garras varrendo o pátio. Um demônio com a face de Mãe Ceres.

E ela gritava, numa voz esganiçada, demoníaca, cuspindo sangue que respingava no rosto de Ceres:

EU QUERO ELE! EU QUERO ELE! ME DÁ ELE! ELE É MEU PEDAÇO DE CARNE!
EU QUERO ARRANCAR AS ENTRANHAS DELE PELO RABO! EU QUERO A ALMA DELE! ELE É MEU FILHO INGRATO!
ME DÁ ELE, CERES, MINHA FILHA! CADÊ ELE? ME DÊ ELE, CERES! EU VOU ARRANCAR CADA MEMBRO DELE, CERES!
VOCÊ TEM MEU NOME, CERES, E ELE TE FODEU POR CAUSA DO MEU NOME!
EU QUERO COMÊ-LO, CERES! COMER SUAS TRIPAS COMO MACARRÃO, SUGAR O TUTANO DA CABEÇA DELE!
CEREEEEEEES, SUA VADIA IMUNDA! ME DÁ ELE!!! EU SINTO O CHEIRO DELE!!!

Ela se curvou sobre Ceres, cheirando-lhe a virilha, fungando alto.

Huuummmm… — gemeu.
Subiu pela barriga.
Huuummmm…
No peito.
Aqui! Achei! No seu coração!

A criatura escancarou a boca, os dentes como espinhos.

VOCÊ É UMA TRAIDORA, CERES! ESCONDEU ELE NO SEU CORAÇÃO! QUE TOLA! VOU DEVORAR VOCÊS DOIS! JUNTOS! SUA DESGRAÇADA!

O grito final reverberou pelo colégio destruído. E Ceres sentiu a garra fria cravar-se em seu peito, pronta para arrancar-lhe o coração.

Ela acordou num sobressalto. O corpo inteiro trêmulo, suado. E então percebeu: os lençóis estavam manchados. Sua menstruação havia descido no meio da noite — como se seu corpo também sangrasse junto ao pesadelo.





Domingo, Sangrento Domingo

O refeitório estava cheio de vozes, talheres arranhando bandejas, gente indo e vindo. A rotina fingia normalidade.
Mas não para eles.

Ceres estava isolada num canto, como um fantasma programado para mastigar, engolir, respirar. Olhos fixos no nada, sem notar ninguém — nem mesmo os que a olhavam de esguelha. Como se fosse uma novata recém-chegada, indiferente ao mundo.

Theo também. Do outro lado do salão, sentado de costas para todos, como se a própria existência o incomodasse. Um estranho naquela manhã. Um estranho para os outros — talvez um estranho para si mesmo também.

Daime só observava, um copo de suco na mão. Um espetáculo deprimente, pensou. Duas pessoas que já se gostaram tanto agora se odiavam como crianças mimadas. Nem se olhavam — como se a simples presença do outro fosse veneno. Ele suspirou, mordendo um pedaço de pão.

Ana, do outro lado, também os observava. Quando percebeu o olhar de Daime sobre ela, ergueu discretamente o dedo do meio com um sorriso quase invisível.

Daime riu sozinho.
— Eu que ensinei — murmurou para si. — Que orgulho, caralho.

Terminou o suco num gole, largou a bandeja com estrondo e saiu. Não ia perder tempo com aquela peça de teatro deprimente.

No corredor, o silêncio da manhã era mais calmo. A brisa fria trazia o cheiro das flores do campo baldio lá fora, misturado ao leve sabor metálico do ar de Mãe Ceres. Tudo de rotina. Tudo calmo.
Calmo demais.

Parou na porta principal, cruzou os braços e ficou olhando o horizonte — aquela linha fina de terra cinzenta a três quilômetros dali, onde começavam Arcádia ou Silencium. Ninguém nunca sabia ao certo.

Era bonito, admitia. O campo aberto sob o céu claro. Quase dava a impressão de que o mundo inteiro era bom e sereno.
Ele soltou um risinho seco, para ninguém ouvir.

Engraçado como as pessoas conseguiam se odiar tanto sem precisar de um tiro sequer.
Domingo — e já parecia sangrento o bastante.

Daime se agachou no gramado, observando o horizonte calmo daquela manhã clara. A brisa mexia as bandeiras nas torres de Ceres.
Suspirou, alisando a calça por tique. Sentiu úmido.
Franziu a testa. “Droga… a fralda vazou?” pensou, com um risinho nervoso.

Passou a mão. Depois levou os dedos ao nariz.
O cheiro metálico subiu pelas narinas como uma punhalada.
Sangue.

E foi nesse instante que o céu rugiu.

Um som que nenhum deles jamais tinha ouvido — sirenes.
Um berro mecânico e infernal cortou o colégio inteiro. Vidraças tremeram.

Ele olhou para cima e viu, entre as nuvens brancas, uma chuva de pontos escuros descendo lentamente, se abrindo como flores pretas:
Paraquedistas.
Homens armados vinham do céu.

O coração de Daime disparou. Caiu para trás e engatinhou.
Tentou correr para a cadeira de rodas, as pernas bambas, a calça manchada.
— Estão aqui… estão aqui…! — gritava para ninguém.

As sirenes não paravam.

Correu para o refeitório, tropeçando nos próprios pés, quase batendo nas portas. Abriu com violência.
ELES TÃO AQUI! DESCENDO DO CÉU! ELES TÃO AQUI!

Todos pararam para olhar para ele.
E viram o estado dele.
As calças ensopadas em vermelho até os joelhos.
As mãos vermelhas. A gola da camisa respingada.
Parecia ter saído de um massacre.

E ninguém entendeu nada.
Nem ele.

Antes que dissesse mais alguma coisa, braços o agarraram.
Theo.

Sem uma palavra, Theo o ergueu nos braços.
Daime tremia, soluçando, tentando explicar:
— Eles… eles descendo… eu vi… eles tão vindo…! —

E então Theo respondeu, seco:
— Eu sei. Eu vi também.

No mesmo segundo, os alto-falantes ecoaram:

Todos para os abrigos. Código Vermelho. Código Vermelho. Bancos subterrâneos. Todos para os bancos subterrâneos imediatamente.

As bandejas foram largadas, cadeiras caíram.

Ceres levantou a cabeça no canto. Ficou imóvel por um instante. Depois, finalmente, seguiu o fluxo como todos os outros.

O colégio inteiro foi engolido por um pânico silencioso.
Só as sirenes e as botas correndo ecoavam pelos corredores.

Daime, nos braços de Theo, só chorava.
E em sua mente só vinha um pensamento que não ousava dizer em voz alta:
“É o fim.”

As sirenes ainda uivavam.
A escola já desabava em caos, gritos, botas batendo.
O refeitório se esvaziava num tropel de crianças e adolescentes em direção aos bunkers subterrâneos.

Theo permaneceu ali, parado no centro do salão vazio.
Frio. Firme.
Como se o toque metálico da sirene tivesse desligado toda emoção dentro dele.
Só a disciplina permanecia.

Olhou para Ana, que ajudava Daime, agora meio desfalecido.
Com um tom seco, inegociável, gritou:

— Cuida dele. Não deixa ele morrer.
Deu dois passos e rugiu, a voz ecoando nos azulejos:
— VAI PRO BUNKER. AGORA!

Ana não ousou discutir. Apenas assentiu, carregando Daime para fora.

Theo girou sobre os calcanhares, os olhos percorrendo cada canto, cada rosto conhecido.
Então, num só fôlego, chamou — como um general convocando seus soldados:

— CERES! CORS! VANKS! KOLS! JUDE! ANI! BEKS! TIRON! VINKS! TURKS! ORON! DEF! LUK! DAN! RIT! KAN! TODOS DA LISTA DOS MELHORES! VENHAM COMIGO!
— PUNHAL DA MÃE CERES!

E eles vieram.
Um por um.
Cães fiéis, treinados desde crianças para isso.
Cada um largou o que tinha nas mãos e se alinhou atrás dele, sem hesitar.
Todos, sem exceção.

Naquela hora, não eram estudantes.
Não eram adolescentes.
Eram as garras da cidade.
O punhal da Mãe Ceres.

Na porta do corredor de armas, o professor já os esperava.
Um homem velho, com a farda cinzenta bem passada, que ainda tinha no olhar a dureza de quem já matou muito mais do que ensinou.
Estendeu a mão para Theo, passando-lhe a insígnia de líder.
Os olhos dele e de Theo se encontraram.

E naquele instante… algo dentro dele mudou.
Não havia mais resquício do garoto que treinava para vomitar e dormia cedo para esquecer a dor.
Não havia mais calor, nem dúvida.
Só um vazio gelado no fundo dos olhos.

A besta que a Mãe Ceres forjou ergueu a cabeça.
E Theo, agora completamente máquina, respondeu sem emoção, a voz baixa, quase mecânica:

— Ordem recebida. Pronto para executar.

E do lado de fora…
A carnificina já os aguardava.

O corredor do refeitório era um inferno.
Gritos. Choro. Disparos secos ecoando do lado de fora.
A massa dos estudantes corria para os bunkers — uns tropeçando nos outros, alguns empurrando os menores para escapar primeiro.
Lá fora, o céu limpo de domingo já estava rasgado por paraquedas negros e tiros vindos de direções invisíveis.

Os Melhores já estavam armados — rifles, pistolas, facas curtas.
Todos sem misericórdia.
Olhos treinados para não ver crianças, nem vítimas: só alvos.

Theo ergueu a arma e andou pelo corredor como um espectro.
Uma sombra se projetou na porta.
Sem hesitar, ele atirou — um invasor caiu morto com um único tiro no peito.

Sem pausa, gritou para todos ouvirem acima do pandemônio:

— NÃO É UM TESTE DE BALAS DE TINTA!
(ergueu a pistola ensanguentada)
— É REAL! ENTENDERAM? REAL!

As ordens vieram como chicotes:

— CORSSSS! QUANTOS HOMENS?

Cors, agachado junto à parede, fazendo contas enquanto trocava o pente do fuzil, respondeu com voz seca:

— OITENTA HOMENS.

Os garotos dos Melhores arregalaram os olhos por um segundo.
Oitenta.
Theo não reagiu. Só rangeu os dentes.

— Oitenta… Muito bem.

A coluna avançou coordenada.
Dois, dois, dois. Pelotões agachados nas sombras, varrendo as quinas com a ponta das armas.

O barulho no pátio era ensurdecedor — tiros, estilhaços, metal contra concreto.
Quando chegaram às portas de vidro que davam para fora, Theo ergueu o punho fechado: parada.
Olhou para o pátio.

Campo aberto. Nenhuma cobertura no centro. Um verdadeiro matadouro.
Silhuetas armadas corriam em volta. Rajadas ao longe.
Era suicídio atravessar correndo.

Ele baixou lentamente o punho e, em gestos rápidos e secos, sinalizou:

“NÃO ENTREM. AGACHADOS. SOB AS SOMBRAS.”

Os Melhores se encolheram contra as paredes, debaixo das janelas.
Sombras sobre sombras.
Corações batendo como tambores.

Tiros ainda estalavam ao longe, mas ninguém sabia de onde.
Só se via o sangue.
Os corpos caindo aqui e ali.
E o cheiro de pólvora já impregnava o ar.

Theo olhou para cada um deles —  olhos sem expressão.
Era mais que coragem.
Era obediência fria.
Era Mãe Ceres pulsando em suas veias.

Todos estavam agrupados, enfileirados, sem se desgarrar —  como cães treinados.
Avançavam sob a sombra do pátio, deslizando pelas paredes manchadas de sangue.
Theo liderava a ponta, frio e rápido.
Foi então que, no caos, algo quebrou seu compasso:
Uma adolescente que ele conhecia bem —  um rosto familiar, talvez do dormitório, talvez da piscina —  caiu a poucos metros dele, atingida por uma bala.
O corpo dela desfalecendo no chão soou para ele como um gatilho.

E então, dentro dele, algo ligou.
Escuro. Vermelho.
Ele sentiu a presença.
Sentiu Mãe Ceres tomando— lhe a espinha.
E por um instante viu o abismo: o Príncipe Vermelho, seu eu oculto, emergindo como uma besta enjaulada, arrancando as correntes.

Os gritos, os tiros, as ordens viraram uma cacofonia distante.
Os soldados inimigos apareciam apenas como cortes rápidos —  gargantas abertas, armas arrancadas, barrigas rasgadas, crânios abertos.
Ele já não via nada além do vermelho.
E no vermelho, ele ria.
No vermelho, ele gozava sangue.
No vermelho, Mãe Ceres sussurrava:

“Vai, meu filho. Vai, meu príncipe. Mata para mim.”

Quando tudo desacelerou, Theo se deu conta.
Respirava como um animal encurralado.
As mãos tremiam, mas seguravam firme uma pistola e uma faca cruzadas sobre o peito.
Trinta e nove corpos inimigos espalhados no chão —  ele havia matado quase todos.
O resto fora abatido pelos helicópteros de reforço que desceram do céu, cuspindo chumbo.
Os soldados restantes morreram rápido demais para se defenderem.

Mas nem todos.
Um inimigo se desgarrara, correndo sozinho para o campo de flores, no limite do colégio.
Theo percebeu tarde demais: ele carregava um colete de mártir.
A explosão veio súbita, brutal, devastando parte do pátio e levando alguns dos meninos da Mãe Ceres junto.

Quando a fumaça baixou, Theo voltou a si, ainda arfando, ainda meio bêbado do vermelho.
E então viu.
Ceres.

Ceres, desorientada após a explosão, se desgarrara do grupo.
Ela estava lá, longe, sozinha, perto demais do campo de flores.
Perto demais do inimigo fugindo.
E o terror voltou à garganta de Theo.

Ele tentou gritar, mas não saiu som nenhum.
Apenas um berro mudo, o coração dele disparando:

“CERES!”

E ela já estava longe demais.

Theo, enlouquecido, sentia o Príncipe Vermelho dentro dele sorrir.
Sorrir sangue.
No fundo do peito, nas entranhas, no cerne, Mãe Ceres já o possuía por inteiro, alimentando sua fúria, guiando seus dedos no gatilho.
Ele só via vermelho agora.

E então… viu Ceres.
Lá, no mesmo local onde ontem tinham brigado.
Sozinha, imóvel, encarando um soldado inimigo.

O homem falava uma língua estrangeira que ecoava como zumbidos metálicos no campo.
Ceres não entendia nada —  mas mesmo assim não recuava.
Havia algo no rosto dela, uma dureza, um brilho frio, como se ela também estivesse possuída.
Possuída como a Mãe Ceres dos pesadelos.
Ela era… a lágrima de Mãe Ceres.

O soldado, já sem munição, sacou uma faca e avançou.
Ceres ergueu sua pistola e atirou.
Um disparo seco no peito dele.
O homem tombou, imóvel.

Ceres se aproximou, ainda apontando a arma, mas ele não estava morto.
Num segundo, rápido como uma serpente, ele a desarmou e agarrou— lhe o pescoço com as mãos enormes.
Ceres arfava, as pernas já falhando, os olhos se fechando.

E foi aí que Theo chegou.
Viu as mãos do homem em volta do pescoço dela.
O soldado também o viu.
Jogou Ceres para o lado como um trapo, e então sacou um detonador —  o mesmo tipo de artefato suicida que tinham estudado em aula.
Theo não pensou.
Um tiro certeiro na cabeça do homem, antes que o dedo dele apertasse o botão.

Ceres, surpresa, respirava ofegante no chão, recompondo— se.
Theo a alcançou num salto, puxando— a pelo colarinho do uniforme, os olhos faiscando.
E gritou, com a voz possuída pela ira:

—  NUNCA DESGARRE DO GRUPO, ENTENDEU? EU SOU O LÍDER! EU! EU SOU O LÍDER AQUI!

Ele a largou e ficou ali, em silêncio por um instante.
O vermelho sumindo devagar.
O príncipe recuando.
Theo caiu de joelhos, as mãos no rosto, a respiração entrecortada.

—  O que foi que eu fiz, Mãe Ceres…? —  sussurrou, quase um choro.

Ceres, ainda atônita, aproximou-se dele e, pela primeira vez, o olhou com outra expressão.
Ajoelhou-se ao lado dele, segurou-o pelos ombros e disse:
— Você não é um traidor. Você é da Mãe Ceres. Eu sabia. Eu sabia! Obrigado, Mãe Ceres!

Ali mesmo, no campo manchado de sangue e flores esmagadas, os dois ficaram juntos.
Um príncipe vermelho e uma lágrima branca.
Ambos filhos da mesma mãe.

No bunker, a penumbra era cortada por luzes de emergência e pelo som constante das sirenes abafadas.
O ar cheirava a metal, suor, sangue e medo.
Crianças choravam em cantos, escondidas nos braços umas das outras.
Outras, sentadas, tremiam em silêncio, olhos arregalados, enquanto enfermeiros corriam de um lado para o outro com macas e ataduras ensanguentadas.
Um ambiente de guerra.

Ana estava ajoelhada ao lado de Daime, que respirava fundo, deitado numa maca improvisada.
Ele ainda sangrava de um ferimento na coxa, as ataduras já encharcadas de vermelho.
O rosto pálido e suado, mas ele... ainda fazia piada.
Entreabrindo os olhos sonolentos, murmurou com um meio sorriso:
— Imagina... meio baleado! Que soninho...

Ana segurou a mão dele com força, furiosa e assustada ao mesmo tempo.
Quase não respondeu, apenas engoliu seco.
O estômago se revirava só de pensar que ele podia morrer ali, agora.
E, pior ainda, sentia medo do Theo.
Medo de que ele voltasse do combate e descobrisse que ela não cuidara direito de Daime.
Que o culpasse por ele ter se ferido.
Que gritasse com ela de novo.
Essa ideia doía quase tanto quanto ver o sangue escorrendo debaixo do uniforme do amigo.

Uma enfermeira se aproximou, abrindo caminho entre as crianças assustadas, que recuavam.
— Tira a mão, menina. Ele tem que ser atendido agora.

Ana soltou devagar e recuou, engolindo o nó na garganta.
Daime piscou para ela, ainda sonolento:
— Relaxa... Ana... eu vou ficar bem... — e fechou os olhos, inconsciente.

Ela ficou ali parada, os olhos queimando, sentindo a respiração das crianças ao redor, os choros, o som distante dos tiros ainda ecoando acima.
Era guerra.
E todos eram só... crianças.

O Berço de Sangue

“Nos seios de Mãe Ceres não há leite: ela derrama e alimenta seus filhos com ódio.”

Mãe Ceres sorri sangue.
Criou, educou e danificou seus filhos.
Transformou crianças em máquinas assassinas — cruéis, frias, cheias de rancor.
Como um enxame faminto, eles avançam, e ela se orgulha de seus brinquedos novos.
Orgulha-se de cada corpo despedaçado no caminho, de cada gota que escorre como oferenda.

Mãe Ceres, senhora da guerra das crianças.
Sua engrenagem gira, incansável — uma máquina implacável de moer ossos e carne miúda, que se alimenta de si mesma: devora, ensina, devolve ao campo, e aniquila de novo.
Ela sabe que pode ter filhos infinitos — alimentar, treinar, consumir.
É assim que o sistema pesado funciona.

O mundo, ela repete, está em constante guerra.
A paz? Apenas um acidente.
Por isso Mãe Ceres triunfa, ri, goza em sangue, e segue danificando seus filhos sem remorso.

Em outras terras, existem crianças. Também existem rituais.
Quando um marido ou esposa morrem, chamam o outro de viúvo.
Quando os pais morrem, as crianças tornam-se órfãs.
Mas… quando uma criança morre?
A língua se cala. Não há palavra para o que é tão antinatural.

Mãe Ceres detesta crianças —
Mas banha-se no sangue delas, e ri.

E no fim, ela conseguiu o que queria:
um berço de sangue,
um reino de pequenos assassinos sem nome.


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