Um dos povos mais antigos do continente. Homens atarefados, obcecados por poder, riqueza e ganância — embora sua ganância fosse maior que suas próprias ambições. Eram um povo próspero, governado por comerciantes e líderes sábios, mas no fundo, todos igualmente gananciosos.
Os arcadianos dominaram o continente. Foram os primeiros a globalizar rotas comerciais, especialmente de especiarias. Dominavam com mão de ferro. Dominavam com sangue, suor e sêmen.
Construíram um império que se espalhou por 300 anos. Foram dominantes, gloriosos, vitoriosos. Canções eram compostas para celebrar suas vitórias e arrogância. Possuíam a tecnologia do aço e a vontade de ferro, temperadas com o gosto de ouro, prata, cobre e pedras preciosas.
Em suas terras — principalmente na capital Litus, que um dia foi a cidade mais desejada do mundo — havia fartura, mas ainda mais miséria. Fome, epidemias, guerras. Mesmo entre eles, havia desavenças: queriam ordem, mas esqueciam que governar não é jogar um tabuleiro por uma hora — é tarefa para toda a vida.
Arcádia era próspera. Grandes ideias surgiam, mas jamais eram praticadas. Havia rígida divisão de classes. Para manter a economia funcionando, escravizar era considerado necessário, uma forma de "enxugar" o sistema. A maioria da população era humilhada, tratada como cães — às vezes por puro entretenimento. Crianças eram preferidas, pois "a carne rasga mais fácil". Crânios esmagados viravam brinquedo, mascados como goma.
Os arcadianos eram sábios, sim — mas egoístas. Não compartilhavam conhecimento. O saber era uma fortaleza trancada. O egoísmo perpetuava o domínio.
Em suas terras, orgulhavam-se de seus órgãos sexuais. Serviam pratos com nomes obscenos. Ainda assim, a língua arcadiana era belíssima — falar arcadiano era como adivinhar pensamentos, desenhar sons perfeitos para o amanhecer, o entardecer, amar, enlouquecer... Mesmo as palavras mais cruéis soavam belas: estripar, empalar, violar, matar, enforcar, roubar.
Eram ótimos administradores. Mas tropeçaram em seu maior orgulho. Violaram milhares de mulheres e espalharam filhos bastardos pelo continente — mas se esqueceram de criar filhos em casa. Erraram no óbvio. Achavam que viveriam para sempre. Não foi burrice. Foi falta de legado. Falta de sucessores.
Muitos arcadianos renegados migraram para o centro do continente, para o vale onde hoje se ergue a Cidade de Ceres. Eles são os filhos bastardos dos arcadianos.
Hoje, os remanescentes de Arcádia ainda se acham gloriosos, como se vivessem trezentos anos no passado. Sua decadência é um corte na garganta: lento, constante, sangrento. Estão caindo — não porque foram vencidos, mas porque se recusam a aceitar a queda.
A Cidade de Ceres superou o pai que a renega, odeia e inveja. Um pai ausente, um fantasma morto no parto. Ceres, por vezes, ainda busca essa aprovação — aprovação de mortos. Aprovação que nunca virá.
Arcádia atacava Ceres antes dos acordos multilaterais do continente. O continente, antes em guerra, decidiu onde centralizar suas riquezas. Ceres foi escolhida: cercada por montanhas nevadas, um local considerado amaldiçoado. Sua maldição foi sua redenção.
Hoje, atacar Ceres é atacar o continente.
E Arcádia?
Arcádia ama odiar Ceres.
Arcádia hoje nem chega a ser sombra do que foi.
Uma cidade sempre destruída, repleta de velhos orgulhosos, rancorosos, invejosos...
Velhos que morrem sozinhos.
Odiar Ceres já faz parte de seu código genético.
Arcádia é governada por Antus Alme, eleito por seu Senado de dez integrantes.
E, por ventura, Mãe Ceres nunca lhes virou as costas.
Devemos cuidar e honrar aquilo que colocamos no mundo.
Mãe Ceres faz isso com seus filhos.
No fundo, o maior medo dos arcadianos não é a derrota.
É o dia em que os deuses deles desçam dos céus, ajoelhem-se diante de Mãe Ceres, e confessem:
— Tentei mudar o mundo inteiro duas vezes. Falhei nas duas.
Eu, sendo imortal, com a eternidade a meu favor, com as condições perfeitas...
Como você conseguiu, Ceres?
Pausa.
Mãe Ceres sorriu.
E então arrancou os corações dos deuses — com as próprias mãos — e os comeu ainda crus.
O sangue escorreu por seu queixo como vinho sagrado.
Os deuses caíram diante dela, como estátuas partidas.
A eternidade deles terminou ali.
E então ela falou:
— Vocês, deuses em seus pedestais, precisam de fé, de alma, de devoção...
Eu só precisei de filhos.
— Eu sofro. Tenho fome. Tenho sede. Tenho sono. Eu sangro...
E ainda assim, sou mortal.
E foi com isso que venci vocês.
Arcádia é um zumbi esperando sua cova.
Um império apodrecido que respira por teimosia.
Mãe Ceres, por compaixão ou pacto, estende a mão — faz doações, oferece cooperação. Existe ali uma simbiose amarga: rancor e amor dançam no mesmo corpo.
Mas os arcadianos… eles ainda roubam.
Roubam fórmulas, invadem laboratórios, espionam experimentos secretos.
São o rugido de um rato diante da força da natureza.
Um ex—deus presente, potente, que se recusa a aceitar sua queda — e todos tremem por reflexo antigo.
E mesmo assim, Mãe Ceres mantém sua lealdade ao acordo.
Os arcadianos, por sua vez, não se dobram.
Odeiam as doações.
Cospem nelas. Tocam fogo.
Mãe Ceres não se importa.
Para ela, é como uma bactéria no corpo que grita por significância.
Como um humano que berra sua existência diante do silêncio do universo.
Ela entende. Ela aceita.
Sabe que não se pode mudar o pai.
Mas há nobreza em conviver.
Há beleza em amar um pai que te odeia.
Em seguir adiante, sabendo que a aprovação nunca virá.
E mesmo assim, seguir plena.
União do Conselho Continental
Todos os líderes do continente estavam reunidos na Torre de Mãe Ceres, numa sala isolada feita inteiramente de mármore negro. O ambiente — silencioso, luxuoso, hermético — oferecia camarotes elevados com alimentos fartos, vinho, frutas e derivados de Ceres em abundância. Ali estavam os chefes de Estado acompanhados de seus secretários.
Alac Bilac, de Oplon, conhecido como o homem que jamais perdeu uma guerra, estava presente. Nunca se ouvira sua voz em público. Sua presença bastava. Governava a ditadura racista conhecida como O Escudo Branco.
Antus Alme, líder de Arcádia, compareceu à força, já que seu país havia atacado o colégio de Ceres, a apenas três quilômetros da fronteira.
A República de Fiume enviou representantes, pois seu presidente estava em guerra com a República de Garpan — que, por sua vez, também mandou delegados, já que seu líder se mantinha nas trincheiras do outro lado da linha de frente.
Silencium estava representada por sua Chanceler, Áquila, fria e composta.
Outros representantes vieram, mesmo com seus países em guerra em outras partes do mundo.
A reunião fora convocada por Mãe Ceres em pessoa. Ela adentrou o salão com seu vestido esvoaçante, tão longo que cobria os pés. Deslizava pelo chão como se flutuasse. Seu rosto estava oculto por um escudo negro opaco, coberto por um véu, e sobre a cabeça repousava uma coroa em arco de cristais iridescentes.
Ela propôs sanções imediatas contra Arcádia, em razão do ataque que matou 15 crianças no colégio de Ceres.
Antus Alme rebateu, dizendo que, durante a ofensiva, perdera 80 dos seus melhores soldados e que uma única criança de Ceres matou 10 deles.
O restante do conselho achou a reunião irrelevante.
“Em outras regiões do mundo, perdemos 3 mil homens por dia”, disse alguém. “Ceres já tem filhos demais. É neutra. É funcional. Que aceite as perdas.”
Apesar da frieza, propuseram um acordo.
Algo que Mãe Ceres queria de Arcádia.
O silêncio pairava como fumaça espessa. Mãe Ceres permaneceu de pé, imóvel, sem sequer ajustar o véu. Quando ela falava, não se via sua boca — apenas ouvia-se uma voz que parecia surgir da própria sala, como se o mármore negro murmurasse.
Mãe Ceres:
— Arcádia violou os limites da neutralidade. Quinze filhos foram cremados. Em minha doutrina, uma criança vale mais que cem soldados. Vocês falam de números, mas nós criamos almas. E agora, peço uma alma.
Antus Alme inclinou-se à frente, sua voz áspera, sem nenhuma reverência:
— Vocês chamam de alma o que eu chamo de arma. Aquela criança matou dez homens. Vocês doutrinam, treinam e enchem de fanatismo. Nós perdemos oitenta. Onde está o equilíbrio?
Mãe Ceres:
— Não há equilíbrio entre o que semeia e o que destrói. Vocês fizeram da guerra um culto. Nós fizemos do sacrifício um pilar. Mas uma alma, sim... há uma que Arcádia possui e eu reivindico.
Chanceler Áquila, de Silencium, ergueu os olhos, a primeira vez que falava:
— O Conselho não negocia prisioneiros políticos, nem indivíduos. O que Arcádia possui que Ceres exige?
Mãe Ceres:
— Exijo Koee Nahin.
A sala estremeceu. O nome caiu como um sino em templo deserto.
Antus Alme (responde lentamente):
— Koee Nahin não é cidadão de Ceres. Nasceu em Arcádia. É meu. É do meu sangue.
Mãe Ceres:
— O sangue é irrelevante. Ele foi aluno do Colégio de Ceres. Escreveu versos com cheiro de primavera. Falava com as plantas como se fossem antigas irmãs. Está registrado em nosso livro de intenções — pediu para servir à Mãe, para ser semente.
Alac Bilac, pela primeira vez, inclinou o queixo, murmurando para sua secretária. Seu rosto era neutro, mas os olhos denunciavam fascínio.
Antus Alme (a voz treme):
— Ele é o único herdeiro direto do meu clã. Me pertence por direito ancestral. Mataram meus soldados. Isso já não basta?
Mãe Ceres:
— Não. Meus filhos mortos não voltarão. Mas, se Koee Nahin vier, poderei plantar em sua alma o silêncio que purifica. Ele viverá entre nós. Será educado. Não haverá vingança. Só o testemunho vivo do que perderam e do que poderíamos ter sido. A neutralidade de Ceres não se rompe com armas, mas com esquecimento.
O Conselho murmurou entre si. Fiume e Garpan mantinham silêncio, evitando irritar Arcádia ou Ceres. O Chanceler de Silencium observava, implacável, como um juiz.
Chanceler Áquila:
— Se Arcádia ceder Koee Nahin, Ceres retira todas as sanções e mantém a neutralidade?
Mãe Ceres:
— Sim. Declaro publicamente: não pedirei mais sangue. Uma criança por quinze. Isso é misericórdia.
Antus Alme, trêmulo, balança a cabeça em negativa.
— Ele não vai sobreviver lá. Vai desaparecer no silêncio de vocês.
Mãe Ceres (sem emoção):
— Ele será lembrado em mármore, se desejar. Ou em terra, se quiser brotar.
Uma pausa pesada pairou. Lentamente, Antus Alme se levantou.
Antus Alme:
— Levarão Koee Nahin ao entardecer. Mas que fique registrado: não há acordo entre nossa moral e a de Ceres.
Mãe Ceres:
— Não há moral em um campo de cinzas. Só sobrevivência.