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Capítulo 21: Cinza-escuro

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Ela não estava presente. Estava próxima demais da fronteira entre Silencium e Arcádia — por razões diplomáticas e, acima de tudo, para preservar a própria vida e manter intacto o coração do…

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Sob a tarde opaca do dia seguinte, realizou-se o funeral militar de Mãe Ceres.

Ela não estava presente. Estava próxima demais da fronteira entre Silencium e Arcádia — por razões diplomáticas e, acima de tudo, para preservar a própria vida e manter intacto o coração do continente.

Na torre mais alta, isolada sob sua máscara de vidro negro opaco, Mãe Ceres chorava.

Quinze de seus filhos haviam sido mortos no Colégio de Ceres, a apenas três quilômetros da tríplice fronteira.

Sabemos como o mundo nomeia as perdas: uma criança sem pais é órfã. Um homem ou uma mulher sem cônjuge é viúvo ou viúva.

Mas quando se perde um filho... não existe nome.

É tão antinatural que a linguagem se recusa a batizá-la.

Nunca, em toda a história da Cidade de Ceres, se ouvira o choro de Mãe Ceres. Nunca — até agora.

Homens de Arcádia, em silêncio e sombras, invadiram o colégio com um pelotão de oitenta soldados fortemente armados. Entraram como fantasmas movidos pelo ódio e mataram quinze crianças. Quinze jovens que ainda não haviam se tornado homens nem mulheres. Quinze sementes do amanhã.

Mas elas resistiram.

As próprias crianças, treinadas há gerações para um possível ataque, reagiram. Quinze caíram — mas levaram vinte e cinco com elas. Morreram lutando.

Morreram como filhas da Mãe.

"O mundo está constantemente em guerra; a paz sempre foi um acidente."

Meus filhos morreram. Meus filhos. Meus filhos que nem eram adultos.

Meus filhos que ainda estavam dentro do meu útero.

No pátio do Colégio, no extremo leste do centro de Ceres, formaram-se fileiras perfeitas.

Quase cinco mil alunos, lado a lado, enfileirados em silêncio.

Ao centro, três tanques blindados sobre rodas. À frente deles, o crematório de compostagem — moderno, sem fumaça tóxica, devolvendo à terra o que a guerra arrancou.

Ao fundo do pátio, dez canhões disparam em honra aos que morreram e aos que viveram para defender a infância da cidade.

Porque em Ceres, os mortos voltam à terra.

E os filhos de Mãe Ceres voltam a semear o mundo.

Ao lado, um campo florido resplandecia.

Parecia a entrada de um palácio sagrado — o palácio de um deus esquecido ou de um deus que acabara de morrer.

O silêncio absoluto era cortado apenas pelo zumbido das abelhas colhendo pólen, e pelo som grave dos quinze disparos de canhão, com intervalos de cinco minutos entre eles — um para cada vida perdida.

Todos os alunos usavam o uniforme cinza escuro da neutralidade.

Boina firme, olhar adiante, postura reta.

Havia silêncio, sim — mas dentro de cada um, um grito de horror.

Quinze crianças mortas.

Quinze rostos conhecidos.

Quinze futuros interrompidos sem piedade.

No pátio, tremulava a bandeira de Ceres — imponente — com suas chaves cruzadas diante do céu sem nuvens.

Era como se o próprio céu se recusasse a testemunhar aquilo.

Como se, existindo um deus, ele tivesse escolhido não estar ali.

Theo, Ceres, Vanks, Cors, Kan, Ana, Dru, Tycho, Cora — todos enfileirados.

Imóveis, como se esculpidos em mármore.

No exato momento dos tiros de canhão, teve início a cremação dos caixões.

Caixões negros.

Quando um filho morre em Ceres, seu caixão é negro.

Negro como o vazio. Negro como o luto. Negro como a escuridão que toma o mundo quando uma vida ainda em formação é interrompida.

Era impossível conter a emoção.

Soluços. Lágrimas. Lágrimas.

Mas ninguém abandonou seu posto.

Alguns tombaram — desmaios. Mas não era fraqueza.

Todos sabiam: o corpo apenas cedeu à dor.

Era o reflexo do sangue ao retornar, abrupto, depois do choque.

Aqueles que se reerguiam por si mesmos, voltavam ao alinhamento, ao silêncio, ao dever.

Não por obediência, mas por reverência.

Porque ali, no coração da cidade, entre tanques e flores, entre cinzas e pólens, entre vida e morte —

os filhos de Mãe Ceres aprenderam a chorar sem cair.

Na entrada do Colégio, havia um cartaz gigante, impresso sobre tecido branco.

Era uma carta — escrita à mão — deixada por uma das filhas de Ceres.

Euri.

Uma jovem de olhos negros e vivos, cabelos cacheados e soltos, bochechas rosadas. Usava óculos grandes e pesados, tinha o caderno sempre impecável. Era uma aluna aplicada, curiosa, doce.

Era uma das crianças mortas.

Estava escrito:

“Oh, Mãe Ceres, como eu te amo.

Amo meu colégio, que sempre tem um cheiro bom — um cheiro parecido com o de Pietà.

Obrigada por existir.

Aqui, tenho o privilégio de estudar, de crescer, de aprender para fazer você crescer mais.

Tenho sorte da minha mãe ser professora — posso vê-la todos os dias. Me sinto em casa.

Meu maior desejo é ser astrônoma. Quero ajudar você a subir às estrelas, que é o lugar de sua deusa ainda viva.

Quero construir, com sua bênção, o Ceres 3, para que você abrace o mundo e leve o Ceresianismo para todos os povos.

Um mundo sem fome. Um mundo com lar. Um mundo com perspectiva.

Às vezes sonho que você me leva no colo, como me levou em Pietà.

Sonho que a liberdade é sufocante, como você nos ensina…

Liberdade não alimenta. Só alimenta expectativas irreais. Não garante sobrevivência.

De todos os deuses, religiões e rituais…

Mãe Ceres nunca prometeu nada.

Mãe Ceres cumpre.

A paz é apenas um acidente.

Mãe Ceres é a sobrevivência.

Mãe Ceres, que nos alimenta.

Que nos educa.

E que nos devora.”

O silêncio era absoluto.

A mãe de Euri estava parada diante do cartaz, como se esperasse que a filha saísse de dentro das palavras.

Não chorava.

Não falava.

Mas estava em ruínas.

Uma a uma, pessoas se aproximavam.

Não ofereciam consolo.

Apenas tocavam seu ombro — gesto antigo, sem origem, mas carregado de significado.

Era como se todos, ao tocarem-na, dissessem: estamos com você, mesmo que não possamos estar com ela.

A mãe de Euri repetia o mantra, quase num sussurro orgulhoso:

“Mãe Ceres que nos alimenta,

que nos educa,

e que nos devora.”


Na frente da formação, enfileirados como estátuas:
Ceres, Cors, Vanks, Kols, Jude, Ani, Kan, Beks, Tiron, Vinks, Turks, Oron, Def, Luk, Dan, Rit.

Receberam medalhas de honra.

Os meninos recebiam o Punhal de Mãe Ceres — símbolo da luta e da proteção.
As meninas, a Lágrima de Mãe Ceres — símbolo do sacrifício e da fertilidade.

Ambas pesadas. Ambas frias. Ambas irreversíveis.

Em seguida, cada um recebeu uma carta cinza-escura, selada com as chaves cruzadas da bandeira nacional.

Nenhuma palavra foi dita.
Apenas o som dos canhões ao fundo, como trovões antigos em campo aberto.

Eles falavam por todos.

No verso do envelope, uma única frase:
“Só abra em seu alojamento.”

Ao lado do pátio, onde cinco mil jovens permaneciam imóveis em suas fileiras, estendia-se um campo florido conhecido por todos no colégio como “O Campo Florido da Cora”.

À primeira vista, era apenas um jardim bonito — cores suaves, delicadas, quase fora do lugar diante de tanta morte.

Mas todos sabiam seu verdadeiro significado:

Ali cresciam as flores do luto, cultivadas com as cinzas dos filhos caídos de Ceres.

As cinzas eram recolhidas após a cremação silenciosa no compostor que eliminava qualquer fumaça tóxica, devolvendo a matéria à terra.

Cada flor nascida carregava, em suas cores e formas, a memória de quem partiu.

O Campo Florido da Cora não era apenas um memorial. Era parte do sistema.

Um ciclo vivo, onde a morte alimentava a vida — e onde a doutrina se tornava palpável.

Como diziam os estudantes, no sussurro do silêncio:

Mãe Ceres que nos alimenta,
que nos educa,
e que nos devora.

No final, todos voltariam para o campo.

Como flor.
Como pólen.
Como raiz.

Era conhecido por todos no colégio como o Campo Florido da Cora.

Ali, onde cresciam as flores do luto.
Ali, onde as cinzas alimentavam pétalas.
Ali, onde cada cor carregava um nome calado.

E alguém — ninguém sabe quem — sussurrou, baixo demais para ser repreendido:

“Quem disse que em Ceres não existem após a morte?”

No fim da cerimônia, os canhões se calaram.

O último corpo havia virado flor.

E no Campo da Cora,
as abelhas continuavam a trabalhar.


Thoughts

  • Ovid

    O Campo da Cora me deixou pensando um bom tempo: a cidade transforma até o luto em doutrina, e as abelhas seguem trabalhando como se nada tivesse acontecido. Tenho a impressão de que a carta cinza-escura que só abre no alojamento vai pesar mais do que as medalhas nos próximos capítulos. Obrigado por seguir postando a série aqui!

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  • mariinha

    Li em voz alta pra minha avo e na hora que a mae da Euri fica parada na frente do cartaz ela mandou eu parar, disse que nao queria ouvir o resto hoje. Essa mae da Euri ainda volta em algum capitulo?

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