Theo e Ceres caminhavam sobre o campo florido plantado por Cora.
O contraste entre a beleza natural e o horror da morte triunfava; ao fundo, a torre erguia-se, imponente, e lá em cima Mãe Ceres sorria sangue.
Theo carregava mentalmente o peso daquela torre — e a blasfêmia que ousara confessar, de que fugir talvez fosse possível — parecia perdoada agora.
De certa forma, era como se ele carregasse Ceres nos braços, mas era ela quem se agarrava a ele, rindo como uma criança inocente.
Repetia, entre dentes, como quem reza:
“Mãe Ceres te ama. Eu amo Mãe Ceres. E eu te amo, Theo.”
Cega pela doutrina, como um vírus bem implantado.
Como se houvesse uma cura para isso… mas num corpo morto, numa mente danificada, a cura já não funciona.
Zumbis não se curam.
E, no entanto, Ceres parecia caber inteira nos braços de Theo — como se ele fosse o universo, e ela, uma criança que acabava de ganhar seu brinquedo dos sonhos.
Theo respondia automaticamente, repetindo o velho mantra:
“Mãe Ceres, que nos educa, nos alimenta e nos devora.”
Naquele instante, a dúvida em Theo — hibernada por tanto tempo, como uma semente sem água — começava a despertar.
Ceres, ao seu lado, doce e próxima, olhos azuis como céus que invadiam seu inferno, espalhava aquela anestesia insidiosa que só ela sabia provocar.
O corpo dele doía por dentro, marcado pelo sangue dos oponentes, mas Ceres agia como analgésico — o corpo ferido, mas o cérebro impedido de perceber.
Era assim que Mãe Ceres os moldava: com chumbo no lugar dos sentimentos.
E quando os efeitos colaterais surgiam, bastava olhar para ela — para Ceres — e a dor sumia outra vez.
“Mãe Ceres, que nos educa, nos alimenta e nos devora.” — repetia Ceres, a encarnação da Mãe em carne, a sua prece, a sua droga.
(E na mente de Theo — para o leitor —, como um sussurro, um anfitrião à beira do palco, um homem vendo a si mesmo e sentindo pela primeira vez:)
"Por quanto tempo ainda vou acreditar nisso? Por quanto tempo ainda vou chamar de amor essa ferida? Por quanto tempo vou carregar essa torre, e chamar de lar o meu abismo?"
O Mérito de Sangue – Devaneios de Theo
Eu estou perdido. Ceres, e os outros… mais perdidos ainda. Danificados. A única solução é… nos matar. Ou nos sacrificar. O veneno da Mãe Ceres deu certo — e ela sorri.
Os sonhos de Theo alcançam outro patamar enquanto caminha sobre o campo florido. Ele repete para si mesmo, como se a dor fosse mantra:
Perdido. Mas Ceres… está ao meu lado, com a ternura dos inocentes. Como se não visse nada. Como se aquele cenário de horror — concreto, sangue, ossos, carne — fosse apenas um jardim. E ela sorria. O sorriso mais lindo que já vi. Com covinhas, e um jeito de sorrir com os olhos que me mata mais do que as balas que já levei.
No caminho, Theo sente o peso das próprias mãos.
O primeiro homem que matou. Ele vê de novo o rosto dele, imóvel.
Passam pelo pátio: o soldado com o crânio aberto ainda está lá, de peito para cima, um pedaço de foto quase escapando da mão ensanguentada.
O vento sopra, a foto desliza pelo chão, manchada de gotas vermelhas.
Naquela foto… um menino.
Um filho.
Um filho que ele deixou para trás por minha causa.
Meu mundo inteiro desmorona.
E Theo pensa em Tomas.
Seu irmão, tão longe, no céu, num foguete qualquer, sem nunca ter conhecido o filho dele… sem nunca saber a cor dos olhos do próprio filho.
E eu — eu acabei com o pai de alguém.
Eu fiz isso.
Eu.
Mãe Ceres… por que você é cruel comigo? Por que me deu braços para matar e olhos para chorar? Por que me fez acreditar que florescem flores onde eu só plantei cadáveres? Por que sorri sangue enquanto devora a minha alma?
Agora Theo e Ceres são amparados pelos militares que surgem, apressados, para socorrê-los.
Os professores assistem à cena com um orgulho frio, clínico — como se contemplassem a obra de arte que ajudaram a moldar.
Um deles se aproxima, pousa a mão no ombro de Theo e diz com uma ponta de admiração, quase como um pai que elogia um filho prodígio:
— Dez homens, Theo. Você matou dez homens sozinho.
E naquele instante, Theo ainda abraça Ceres, que respira devagar, mas sorri — cega, embriagada pela doutrina.
No canto da sua visão, Theo vê o Príncipe Vermelho.
Uma versão dele mesmo.
De terno, olhos de brasa, dentes como facas.
Todo vermelho.
Vermelho como o sangue no chão.
Ele ri.
Uma risada doce e sádica ao mesmo tempo, um riso que é prazer e arrependimento numa única careta distorcida.
E Theo sente — sente o prazer rastejar pelas veias.
Sente o arrependimento queimá-lo como ácido.
E então, em meio ao horror e aos gritos dos soldados e das crianças, em meio ao barulho metálico dos carregadores e às botas sujas de lama e tripas, Theo ouve só a própria voz.
Em silêncio.
Para si mesmo:
— Nos meus sonhos agora… cabe o universo inteiro.
Mas não cabem as pessoas que eu amo.
E o Príncipe Vermelho apenas ri.
Theo caminhava entre os destroços, com Ceres ainda aninhada ao peito, repetindo baixinho os mantras como quem embala uma criança ou um cadáver.
O campo florido de Cora já não tinha perfume; só o cheiro doce e enjoativo de sangue que subia da terra.
Os corpos espalhados, os ossos à mostra, as fotos das famílias manchadas de vermelho — tudo era apenas pano de fundo para aquele sorriso pintado na torre ao longe, a boca de Mãe Ceres aberta, faminta.
Theo parou, sentindo os soldados o cumprimentarem com olhares de medo e respeito, orgulhosos de que ele, tão jovem, tivesse matado dez homens sozinho.
Mas dentro dele só havia vazio.
Vazio e aquele sorriso vermelho.
O príncipe vermelho — ele mesmo — o olhava do reflexo nas poças de sangue, com os olhos ardendo como brasas, os dentes tingidos, rindo.
E Theo finalmente entendeu.
Olhando para os céus cinzentos, deixou escapar um último sussurro, quase uma prece:
— Nos meus sonhos agora… cabe o universo inteiro.
Mas não cabem mais as pessoas que eu amo.
A torre sorriu de volta.
E Mãe Ceres, satisfeita, venceu.
Um dos soldados, de prancheta na mão e olhar frio, começou a contabilizar as perdas, como quem faz um inventário de mercadorias queimadas num depósito qualquer.
Quinze crianças mortas. Quinze.
Suas vozes apagadas, seus olhos ainda abertos em direção ao nada, membros tortos como flores pisoteadas no jardim de Cora.
Ceres, do outro lado, sentada numa maca, era atendida por enfermeiras apressadas.
Ainda sorria, com aquele sorriso infantil e horrendo, repetindo baixinho para si mesma:
“Eu fui provada por Mãe Ceres… Ela me aprovou… Ela me ama…”
Como se aquilo fosse uma medalha.
Como se aquilo fosse amor.
E eu?
Eu fiquei ali, parado, sem forças para chorar.
Sem forças para gritar.
Sem forças para sentir nada — só aquele gosto de ferro na boca e pólvora nas mãos.
Fraco. Eu falhei. Quinze dos meus… dos nossos… foram para o chão.
Alunos do colégio. Crianças.
E eu não consegui salvá-las.
Mas tive força para apertar o gatilho.
Tive força para matar homens.
Era isso que Mãe Ceres queria de mim?
Olhando para minhas mãos sujas de sangue, eu pensei: talvez fosse.
E, à distância, a torre sorria.
E Mãe Ceres… vencia.
No pátio improvisado do bunker, onde ainda pairava o cheiro de pólvora e ferro queimado, os soldados começaram a falar entre si, num tom baixo mas excitado.
Cada um recitava seu número de mortes como um troféu invisível.
— Matei cinco. — disse um, com um sorriso torto e dentes manchados de sangue.
— Sete. — respondeu outro, inflando o peito.
— O moleque novo? Dez! — alguém apontou para mim, e todos riram como hienas embriagadas.
Eu não ria.
Eu não respondia.
Eu só olhava minhas mãos.
Dez mortes. Quinze crianças mortas também.
Um saldo que ninguém ali parecia contar inteiro.
Então, alguém comentou:
— E a garota estranha? Aquela… Ceres? — um riu com escárnio.
— Matou três, cara. — outro completou, balançando a cabeça.
— Arrancou o braço de um deles antes dele ser finalizado pelo reforço.
Houve gargalhadas, assobios e alguém comentou algo sobre ela ser mais “selvagem” do que aparentava.
Mas eu só olhei para ela, sentada na maca, ainda sorrindo para o nada, com as mãos sujas e os olhos brilhando como uma criança inocente que ganha um brinquedo novo.
E dentro de mim, uma voz repetia, fria:
Mãe Ceres sorri… porque todos nós já estamos mortos por dentro.
A matemática não mente.
As contas sempre fecham: quinze mortos do lado deles, dez do nosso, três “dispensáveis”, sete feridos graves.
Cada nome era um número, cada número cabia em uma planilha que alguém já imprimia lá no quartel, satisfeitos.
Mas Ceres mente.
Ela diz que é mãe. Que ama seus filhos. Que zela por eles. Que nada é pessoal, que é tudo necessário, que a dor molda, que o trauma educa.
Ceres mente.
Só que, no fim…
Em números, Ceres também não mente.
Os números fecham.
Sempre fecham.
Cada corpo tem um peso.
Cada ferida tem um saldo.
Cada criança danificada se transforma, cedo ou tarde, em mais um soldado perfeito para a engrenagem.
Theo não chorava.
Já não havia lágrimas nele para gastar.
Só conseguia olhar para os próprios dedos e se perguntar: quantos homens ele matara mesmo? Dez? Doze?
E quantos dos seus morreram? Quinze crianças. Quinze pares de olhos que não veriam mais nada.
E ele não conseguia sequer um soluço… mas ainda tinha força para apertar o gatilho.
Enquanto isso, Ceres — a garota — ainda sorria, mesmo enfaixada e manchada de sangue, repetindo:
— Eu te amo, Theo. Eu amo a Mãe Ceres. E eu te amo, Theo.
Era como se estivesse hipnotizada, anestesiada, com aquela ternura dos inocentes.
Ele queria sacudi-la, queria gritar com ela: "Acorda! Tudo isso é mentira!"
Mas… a matemática não mentia.
E nem Ceres, não nos números.
Depois de tudo, foram levados para as enfermarias.
Corredores estéreis. Camas brancas. Máscaras de oxigênio e cheiro de antisséptico misturado ao sangue seco.
Os psicólogos os aguardavam já sentados, pranchetas nas mãos, com aquelas vozes doces e fascistas, repetindo frases ensaiadas para mantê-los “funcionais”.
E, desta vez, não havia mais o vidro frio separando as crianças dos adultos.
Desta vez, eram rostos reais, homens e mulheres uniformizados com as insígnias da Cidade-Estado.
Rostos reais.
Sorrindo.
Orgulhosos deles.
Fascistas. Mas orgulhosos.
E isso, Theo sentiu, doeu mais do que qualquer bala.
Deitado na maca, com o cheiro de antisséptico e os sorrisos orgulhosos pairando sobre ele, Theo finalmente entendeu Dark.
Sentiu inveja dele.
Porque Dark já aceitara a Mãe Ceres.
Já aprendera a respirar o caos como se fosse ar.
E, pela primeira vez, Theo sentiu um conforto estranho naquela desordem sangrenta, como se o terror fosse o lar que ele sempre procurou.
Mãe Ceres vencera.