A manhã da blasfêmia
A manhã chegou cinzenta e pesada sobre os telhados de Ceres.
No refeitório, a frase escancarada em vermelho:
Mãe Ceres, sua puta imunda!
Ninguém ousava falar alto. Um horror quase religioso pairava entre os alunos, como se a cidade inteira pudesse desmoronar sob aquele insulto. Alguns liam, baixavam a cabeça, tentando ignorar. Outros defendiam o sistema, quase num coro:
— Quem faria uma coisa dessas? Ninguém abandona a Mãe. Ela não abandona ninguém.
No alto, os silenciadores uniformizados já estavam ali. Capacetes arredondados, máscaras negras opacas que refletiam a frase pinchada nas lentes como um presságio. Não diziam nada. Não precisavam dizer.
Daime, com seu humor ácido, quebrou o silêncio:
— Quem será o infeliz que fez isso? Até o Dark, aquele filho da puta, consegue ser mais agradável que isso. Querem foder com o sistema da Mãe... que beleza.
Theo, recostado numa das mesas, respondeu seco:
— As duas coisas são detestáveis. Afinal, sou eu quem tem que segurar o Dark pela Mãe.
Foi quando Ceres surgiu atrás dele, com a mesma calma glacial:
— Como alguém tem coragem... de foder com a Mãe Ceres?
O silêncio ao redor se aprofundou. Todo mundo ficou surpreso com a intimidade com que ela falava do sistema, como se fosse pessoal.
Daime, sempre maldoso, ergueu as sobrancelhas e zombou:
— Olha só quem chega assim, toda íntima. Que intimidade é essa, hein?
Ceres, sem paciência, disparou um palavrão que arrancou um riso dele:
— Porra nenhuma com você, Daime.
Ele gargalhou, maldoso:
— Hahaha... gostei do cartão de visita, garota de gelo.
Dru, num tom diplomático, tentou comentar algo, e também levou uma resposta atravessada de Ceres. Theo assistia tudo, com um sorriso enviesado, e não resistiu a alfinetar:
— Cuidado, ou você vai acabar mais odiada que eu. Mas admito... não tá mal.
Ceres riu. Um riso frio, mas genuíno. Theo acompanhou, quase sem perceber.
O ar na sala mudou, como eletricidade no ar antes da tempestade.
Daime, ainda divertido, concluiu:
— Gostei dela. Essa mulher não precisa de aprovação de ninguém...
Ceres virou o rosto e respondeu, seca:
— Não preciso da sua, com certeza.
Ele fingiu ofensa, teatral:
— Eita. Falta de sensibilidade com os cadeirantes...
Mesmo assim... gostei ainda mais da resposta.
A tensão ficou suspensa no ar como um veneno doce. Até os silenciadores, imóveis, pareciam ouvir.
Ainda no refeitório, enquanto as últimas risadas de Daime ecoavam, Dark apareceu ao fundo. Ele chegava com aquele andar pesado, arrogante, a sombra sempre presente.
Quando ouviu seu nome ser citado por Theo — sou eu quem tem que segurar o Dark pela Mãe... — parou no meio do salão e disse, num tom grave:
— Segurar o Dark, é?
E por que não brigamos lá fora, Theo? Resolve de uma vez.
Um silêncio cortante se instalou. Daime, claro, atiçou o fogo:
— Ihhh... quero ver essa. Vai lá, Theo. Quebra ele.
Dru tentou intervir, tentando mudar o rumo da conversa:
— Chega, ninguém vai brigar aqui. Não é hora pra isso...
Mas Theo, ainda recostado, ergueu os olhos, entediado, e respondeu num tom tão frio quanto o de Ceres:
— Dark... você não vale o esforço.
Dark sorriu, cínico, vendo aquilo como um convite.
E foi então que olhou para Ceres, que não desviou o olhar. Ela só o encarou com desdém, como se já tivesse aceitado a briga antes mesmo de ele abrir a boca.
Dark zombou, venenoso:
— Vai deixar a garota de gelo te defender agora, Theo?
Bonito isso.
E ainda girou o rosto para Dru, malicioso:
— Ou será que é você, Dru? Parece que você também quer entrar nesse joguinho. Que triângulo patético.
Dru perdeu a paciência e foi para cima de Dark, mas Ceres o segurou pelo braço antes que ele avançasse. Ela segurava firme, como gelo sobre fogo. Dru relutou, mas recuou.
Dark riu mais alto, agora visivelmente divertido com o caos que causava:
— Isso! É disso que eu gosto. Essa bagunça.
Vocês três... isso é ridículo.
Daime, por sua vez, odiava tudo aquilo por dentro — e ainda assim, um sorriso maldoso brotava em seus lábios. Ele adorava ver os outros se destruindo.
Theo então se ergueu, finalmente, e sua postura sozinha foi suficiente para acalmar a cena. Com um tom baixo e cortante, disse:
— Já chega. Não vou dar esse show pra ninguém.
Volta pro buraco de onde você saiu, Dark.
Dark apenas riu, um riso rouco, satisfeito com o caos que deixou no ar, e foi embora sem olhar para trás.
Os outros ficaram em silêncio, tentando recompor o clima.
Só Daime murmurou baixinho, ainda sorrindo, como quem já esperava tudo aquilo:
— Esse jogo ainda vai acabar com vocês todos...
No canto do refeitório, Ana assistia a tudo. Não disse nada, mas seus olhos queimavam ao ver o desenrolar daquela manhã cinzenta.
Ela viu Ceres.
Viu como, sem dizer uma palavra direta, apenas com um olhar gélido e um gesto firme segurando Dru, Ceres controlou a situação inteira.
Viu como até Dark se sentiu provocado por ela, como Theo não a afastou, como até Daime elogiava a “garota de gelo”.
Ana sentiu o estômago embrulhar de raiva.
O rosto de Ceres, quase divertido diante da tensão, quase se deliciando em ver o circo pegar fogo.
Ana percebeu: ela vai me ganhar.
E não vai ter dó. Nem piedade.
Ceres parecia saborear cada segundo daquela vitória silenciosa, cada rachadura que se abria na liderança de Ana diante dos outros.
Era sutil, mas devastador: um jogo psicológico em que Ana estava ficando para trás.
Ana cerrou os punhos, o coração acelerado e a mente tomada por ódio.
Ela sabia o que significava aquela cena diante de todos:
a confiança na sua liderança estava abalada.
E o pior...
Era aquela maldita sensação de que Ceres estava se divertindo com sua derrota.
No vestiário, o cheiro de desinfetante e pano úmido se misturava ao silêncio pesado. Dru estava sentada no banco de madeira, esperando.
Quando Ceres entrou, as duas trocaram apenas um olhar longo — não era preciso anunciar nada.
— Vim… te agradecer — começou Dru, a voz baixa, mas firme. — Por não ter me deixado fazer besteira.
Ceres encostou-se ao armário, braços cruzados. Um sorrisinho gelado no canto dos lábios.
— Não fiz por você — disse apenas.
— Eu sei.
As palavras acabaram ali, mas os sentimentos ficaram pairando. Nenhuma das duas ousou colocar em frases o que, de fato, estava no ar: que cada gesto, cada palavra naquele campo era uma disputa sutil pela órbita em torno de Theo. Não era uma briga declarada — ainda —, mas cada olhar de Dru para Ceres, cada passo de Ceres em direção a Theo, era um aviso silencioso.
A conversa seguiu curta, fria, quase amistosa — mas como uma ponta de faca escondida num bolso. Quando Ceres finalmente se virou para sair, Dru disse, sem precisar de nomes:
— Só não esquece que orbitas… colidem.
Ceres não respondeu. Apenas sorriu por cima do ombro, gelada e divertida ao mesmo tempo, como quem diz: tenta a sorte.
Do banheiro, Ana saiu devagar, secando as mãos com calma, como se já soubesse que encontraria Ceres ali. O silêncio entre elas durou alguns segundos, só quebrado pelo som do pano de papel sendo amassado.
— Eu sabia que você estava aqui — disse Ana, sem sequer olhar para ela de início. — A gente sente o cheiro de gente derrotada de longe.
Ela se apoiou na bancada e finalmente ergueu o olhar, um sorriso quase piedoso nos lábios.
— Você me derrotou antes mesmo de começar… parabéns.
Ceres não respondeu. Nem um músculo do rosto se mexeu, e Ana continuou:
— Eu esperava mais de você. Achei que você seria mais… grandiosa, sabe? Valente, sim. Eu dou isso a você. Mas falta muito, muito mesmo, pra ser uma líder de verdade.
Ceres arqueou uma sobrancelha, como quem escuta um animal tentando falar uma língua humana.
— Líder? — disse ela, seca. — Eu não preciso que ninguém me siga. Só preciso que ninguém me atrapalhe.
Ana soltou uma risadinha debochada.
— É… isso é exatamente o que o príncipe da Mãe Ceres diria, não é? — E, com um último olhar reprovador, Ana foi embora, deixando Ceres sozinha, refletindo não só nas palavras dela, mas também no quanto já tinha aprendido a responder à altura, exatamente como Theo faria.
Sozinha diante do espelho, Ceres sorriu para o próprio reflexo — um sorriso gelado e cruel que já não precisava de aprovação alguma.
A luz do projetor iluminava o quadro branco com gráficos, frases e estatísticas. A aula era sobre doutrinação econômica — como gostavam de chamar —, e o professor caminhava devagar pela frente da sala, com a mão atrás das costas.
— Todas as ideologias… — começou ele — … falham diante do desejo desgovernado do ser humano. Porque o ser humano, mesmo em um paraíso, ainda busca destruir só para ver no que dá. Para sentir que mudou alguma coisa.
Ele parou diante de uma das lâminas do projetor: fotos em preto e branco de mercados ao ar livre, guerras, crianças famintas.
— Antes mesmo das ideologias modernas, já existia mercado. Já existia fome. Já existiam guerras e pestes. O que vivemos aqui é nossa herança — e nossa promessa. Se nosso sistema paga caro por manter todos vivos, imaginem o preço que se paga pela ignorância. — Ele ergueu um dedo. — Nós chegamos aonde nenhum governo jamais chegou.
O silêncio pairou por um instante, e então o professor lançou a pergunta para a sala:
— Quem me diz por que o sistema de Mãe Ceres torna todos iguais… pelo menos em termos de sobrevivência?
A voz de Ceres ecoou do fundo da sala, fria e segura:
— Porque funciona.
O professor assentiu, um leve sorriso nos lábios.
— E qual é o lema central de Mãe Ceres diante do próprio sistema?
Theo nem precisou erguer muito a voz:
— Sobrevivência acima da liberdade.
Os olhos dos dois se encontraram por um breve instante — um sorriso cúmplice, frio, calculado.
No canto da sala, Daime se inclinou para Dru e murmurou algo com um sorriso debochado. Ana, emburrada, rabiscava com força o caderno, desviando o olhar. Dark bocejava, entediado, com a cabeça apoiada na mão.
Já Kat e Gene, sérios, anotavam tudo em silêncio, como se cada palavra fosse uma peça importante de um quebra-cabeça maior.
No canto, Daime se inclinou para o lado, próximo ao ombro de Dru, a voz baixa mas carregada de malícia:
— Olha só… o casalzinho perfeito da Mãe Ceres. — Um riso curto, venenoso. — Vai vendo, Dru… se bobear, esses dois ainda acabam devorando a gente também, só pra manter a tal ordem deles.
Dru suspirou, cansado do tom provocador do amigo. Não respondeu — mas a tensão em sua mandíbula mostrava que não gostava do que ouvia.
Ana, por sua vez, mantinha o olhar colado ao caderno, embora não visse nada do que rabiscava. Por dentro, queimava. Sentia o coração bater mais rápido a cada olhar cúmplice entre Ceres e Theo. Não precisava ouvir as palavras para entender:
— Ela está me vencendo. Sem piedade. E ainda se diverte com isso. Eu era a líder aqui. Sempre fui. E agora… agora olham para ela.
Os dedos dela cravaram a caneta no papel, rasgando um pouco a folha.
— Eu vou recuperar o que é meu. Custe o que custar.
Gene ergue a mão, voz subversiva, mas calma:
— Mas, professor… e se um dia a gente quiser escolher liberdade em vez de sobrevivência?
O professor ergue um dedo, sorrindo frio:
— Sobrevivência acima da liberdade. A fome não espera.
Ele então desce do tablado e caminha entre as fileiras.
— Bem… as pessoas têm suas escolhas: queimar na Praça D… ou seguir a Mãe Ceres. Todos os dados estão aqui — (ele aponta para os gráficos projetados) — números reais, frios, implacáveis.
O tom dele endurece:
— Você pode ter “liberdade”… lá fora. Se conseguir sair de Ceres. Boa sorte. Mas me diga, Gene… o que é liberdade com o estômago vazio? Já teve liberdade com o estômago vazio? Já viu um libertário nos seus países com as costelas à mostra, mendigando pão?
Ele para ao lado de Daime e coloca a mão em seu ombro.
— Você, por exemplo. Seis refeições por dia. Uma cama limpa. Banho quente. Enfermaria. Assistência. Até suas fraldas trocadas, cheirosas, todos os dias.
Daime dá um sorriso maldoso e reforça:
— É verdade, professor… são todas cheirosas.
O professor retoma seu caminhar, voz mais forte:
— Vocês já viram algum dos heróis deles salvarem uma nação? Já viram algum dos deuses deles matarem a fome? Eu já vi cadáveres aos montes por causa da liberdade que eles tanto gritam. Aqui… nós vemos a Mãe Ceres. Nós vemos sua promessa cumprida. Como disse a aluna Ceres: “Porque funciona”. E como disse Theo: “Sobrevivência acima da liberdade”.
Ele volta ao púlpito, fecha o livro com estrondo e lança o último golpe:
— Para aqueles que buscam liberdade… boa sorte.
O silêncio que paira depois ecoa pesado na sala.
O projetor ainda pulsa a frase no quadro: “Sobrevivência acima da liberdade”.
Um por um, os olhares reagem:
Ana: sentada, as unhas cravam na mesa. Maxilar trincado, rosto corado de raiva. Ela sente o sangue ferver, mas não ousa se levantar. Por dentro, amaldiçoa Ceres, Theo, o professor, todos. Para Ana, a liderança escorre pelos dedos como areia.
Ceres: permanece imóvel, serena, uma sobrancelha levemente arqueada, como quem já sabia de tudo. Ela não apenas concorda com o professor — parece se deliciar com cada palavra, sentindo-se, de alguma forma, parte dessa força maior. Um leve sorriso gélido nos lábios, quase imperceptível, mas suficiente para Ana perceber.
Theo: entediado, como sempre. Recostado na cadeira, braços cruzados. Não é surpresa para ele. Já ouviu esse discurso mil vezes — talvez até tenha dado alguns parecidos. Mas por dentro, há um certo prazer em ver Gene acuado e Ana esmagada. Um sorriso cínico surge quando Ceres encontra seus olhos.
Gene: engole em seco, os olhos faiscando com indignação. Baixa a cabeça só para não explodir, mas seu punho se fecha sob a mesa. No fundo, a raiva só aumenta. A frase que ele pichou no refeitório ainda pulsa em sua mente: “Mãe Ceres, sua puta imunda!”.
Dark: recostado no canto, entediado como sempre, mas com um olhar de predador à espreita. Esse tipo de caos o diverte. Não dá a mínima para Mãe Ceres ou sua doutrina — só quer ver o circo pegar fogo. Um sorrisinho torto se desenha quando vê Gene engolir as palavras.
Daime: por fora, quieto e respeitoso, mas por dentro se delicia com o caos. Seus olhos saltitam de um para outro — Ana fervendo, Gene prestes a explodir, Theo sorrindo, Ceres impassível. Ele murmura para si mesmo, divertido:
— Essa aula tá uma delícia.
Dru: inquieto, como se não soubesse onde colocar as mãos. Alterna o olhar entre Gene e Ceres, tentando imaginar quem deveria ajudar. Os olhos suplicam por paz, mas ele mesmo sabe que isso não existe mais ali.
O professor apaga o projetor.
— Intervalo. Voltem em dez minutos.
As cadeiras rangem. Mas ninguém ousa falar alto.
O professor terminou com um leve sorriso, apoiando as mãos na mesa:
— Gostando ou não… Mãe Ceres funciona. E, se não funciona, que um deus desça do céu e faça algo. Ninguém, em todo o continente, ousa ir contra ela. Pense bem nisso, Gene.
Por um instante, só o zumbido do projetor quebrava o silêncio da sala. Gene baixou os olhos, sentindo o peso das palavras do professor. Não tinha uma resposta imediata — não ali, não naquela sala que parecia maior e mais fria agora.
Respirou fundo, ergueu o olhar para o homem e forçou um pequeno aceno de cabeça:
— Vou... pensar sobre isso, senhor.
O professor sorriu satisfeito.
— É só isso que espero de você por hoje.
Gene saiu da sala em silêncio, mas lá no fundo — bem lá no fundo — uma fagulha de raiva ainda queimava, escondida atrás do rosto resignado.
Naquela manhã, enquanto o professor encerrava a aula com sua última sentença — “Para aqueles que buscam liberdade… boa sorte!” — ninguém ousou rir. Ninguém ousou contestar. O silêncio da turma não era exatamente medo, mas algo mais profundo: uma aceitação quase religiosa.
Porque em Ceres não se tratava apenas de um regime político ou de uma administração eficiente. Não era só sobre ração e teto, nem só sobre segurança e remédios. A doutrina de Mãe Ceres era mais antiga que qualquer um deles — mais antiga que as promessas ocas dos libertários de fora, mais verdadeira que as lendas de deuses sedentos por sangue.
Mãe Ceres não pedia que a amassem. Pedia apenas que vivessem.
E viver era o único milagre verdadeiro que qualquer homem ou mulher podia testemunhar em um mundo assim.
Na doutrina de Ceres, liberdade era um luxo para quem já não tinha fome. Liberdade era um brinquedo de criança ou um privilégio egoísta que custava caro demais. Ela não fazia pactos vazios, nem prometia um paraíso inalcançável. Tudo que dava era simples, brutal e honesto: comida, teto, saúde. Um ventre que não abandonava nenhum de seus filhos, mesmo que eles a odiassem.
Deuses dos homens sempre quiseram sacrifícios de carne e rios de sangue. Mãe Ceres só queria uma coisa: mais filhos. Mais gente para cuidar, mais gente para servir à sobrevivência. Para ela, todo nascimento era uma vitória e cada estômago cheio, um ato de fé.
Por isso, todos naquela sala — inclusive Gene — sabiam, no fundo, que a Mãe era implacável. Não perdoava traições, não aceitava deserções. Porque, para ela, deserção era outra palavra para suicídio.
Naquele instante, enquanto Gene fechava os punhos por baixo da mesa e Ceres trocava um olhar frio com Theo, a verdade pairava no ar como um lembrete inevitável:
Sobreviver é obedecer. Sobreviver é servir. E servir é a única liberdade possível sob a Mãe.
Se algum dia alguém ousasse ir contra ela, não seria Mãe Ceres quem cairia — seria o próprio traidor, esmagado pelo peso do único milagre que já tivera e ousara cuspir.