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Capítulo 20: Sementes Rasas

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No centro geométrico da cidade de Ceres, onde os corredores do poder são revestidos de concreto polido e silêncio institucional, localiza-se o Escritório Nacional de Inteligência de Desenvolvimento.…

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No centro geométrico da cidade de Ceres, onde os corredores do poder são revestidos de concreto polido e silêncio institucional, localiza-se o Escritório Nacional de Inteligência de Desenvolvimento. Entre seus corredores monolíticos, em uma sala sem adornos, sem janelas, sem distrações, reina Ysa 1QM2 — a mulher de chumbo perfeito de Mãe Ceres.

Vestida com um traje cinza escuro de linhas finas, o emblema das chaves cruzadas repousa orgulhoso sobre seu peito. O coque rigorosamente preso, a postura ereta, a expressão neutra como o aço que sustentava a própria cidade.

A porta se abre suavemente com um sussurro mecânico e se fecha sozinha com um estalo. Entra Amós X4O1, A.D — advogado diplomata, um dos raros cidadãos com passe de fronteira. Terno preto, maleta lateral, olhos cansados demais para sua idade.

Ele se senta. Ela já está sentada.

Silêncio.

Ysa não sorri. Não cumprimenta. Apenas pergunta, como quem lê um relatório:

— O que veio fazer aqui, Amós?

Ele responde, com um esboço de humor que não encontrará eco:

— Nada. Vim ver uma amiga.

Ysa ergue levemente o queixo.

— Sei... Fiquei sabendo que localizou os dois cães. Parabéns. — Ela pausa, por puro cálculo. — Não fez mais do que sua obrigação.

Amós cruza uma perna, relaxado, quase insolente:

— Sério. Só vim te ver.

— Você utiliza o passe mais desejado por todos os cidadãos de Ceres… para vir me ver?

— Sim.

— Mas nos vimos ontem. Num momento íntimo.

— Sim — confirma ele, sem desviar o olhar.

Ysa se inclina levemente para frente, os cotovelos sobre a mesa crua de cimento liso.

— Amós, sei que tenho momentos de desejo — diz com uma franqueza cirúrgica — o que é normal para uma mulher como eu. Mas também sou uma oficial com um cargo de alto escalão. Eu lido com dados catalogados que nos conduzem à relevância e à epifania de Ceres.

Pausa.

— Erradicamos doenças epidêmicas em 95%. Nosso IDH ultrapassa 98%. A natalidade é controlada com excelência em 95%. E mantemos 90% de eficácia no cuidado com os idosos, como o seu pai… — A voz dela permanece constante. — E você acha que isso aqui é brincadeira?

Amós sorri com um desdém sutil. Mas não responde de imediato. Porque em Ceres, até o silêncio tem valor probatório.

Amós (encostando-se suavemente na poltrona diante dela):

— Como vão seus filhos?

Ysa 1QM2 (ergue os olhos lentamente de um terminal fosco, sem pressa, como quem registra a pergunta):

— Vão como devem ir. São filhos de Ceres agora. Seguem bem alimentados, abrigados, e estudam com os melhores algoritmos pedagógicos até os vinte anos. Estão seguros, e por aqui, segurança não é promessa — é protocolo.

Amós (observando o emblema das chaves cruzadas em seu peito):

— E você? Sente falta deles?

Ysa (recosta-se, com um leve sorriso que não chega aos olhos):

— Sinto orgulho. Falta é um luxo burguês. Em doze anos, cumpri meu papel — gestar, cuidar, formar. A partir daí, confiei no sistema que ajudei a construir. Não os entreguei a uma creche ou a um mundo instável — os entreguei à Mãe.

Amós:

— Você poderia ter continuado com eles. Seu cargo permite exceções.

Ysa (arqueando a sobrancelha, quase divertida):

— E abrir mão de ser útil no que sou mais eficiente? Escolhi este cargo não por ambição, mas por aptidão comprovada. Sou a melhor em minha área. E quando se é a melhor… sentimentalismo é só um atraso de desempenho.

Amós (cruzando os braços):

— Alguns diriam que isso soa frio.

Ysa (com a voz baixa, firme, como se citasse um dado estatístico):

— E alguns ainda medem o mundo por afeto. É por isso que morrem de fome em democracias instáveis. Veja os índices: nos cinco maiores países fora de Ceres, 42% das crianças não concluem o ensino básico. Aqui? 99,3%. A taxa de mortalidade materna em Pietà é inferior à de qualquer nação ocidental.

— (pausa) —

Os números não mentem. Mas o sentimentalismo adora gritar mais alto que eles.

Amós:

— E quanto às mulheres violentadas? O sistema obriga a levar a gravidez até o fim. Não parece... contraditório?

Ysa (direta, sem alterar o tom):

— O sistema não obriga. Ele exige responsabilidade. A mulher pode decidir: ou volta à sua formação profissional — e a criança será acolhida pelo núcleo educacional —, ou permanece com ela até os dez anos, como eu fiz. Mas abortar? Não.

— (olha diretamente para Amós) —

Nós não matamos vida potencial. Nós a convertemos em força útil.

Amós (sereno, mas provocador):

— Você soa como alguém que acredita que o corpo já não é seu.

Ysa (sorri com firmeza, sem humor):

— Aqui em Ceres, meu corpo é livre como nunca foi sob bandeiras feministas. Faço sexo com quem quero, quando quero. Nenhum homem tem sobre mim poder algum. Nenhum juiz, nenhum padre, nenhum chefe, nenhum "companheiro". Só a rotina me rege.

— (pausa) —

O feminismo queria liberdade. Mãe Ceres nos deu sobrevivência. E das 1.042 mulheres que entraram comigo no Instituto de Formação, 1.040 estão vivas e produtivas. Quero ver o feminismo garantir isso num mundo de salários desiguais, abortos traumáticos e mortes evitáveis por romantismo.

Amós (olha para a mesa dela, sem falar por um momento):

— E o que resta para quem discorda?

Ysa (fecha um relatório com um clique seco):

— A dúvida é aceitável. A sabotagem, não. Quem discorda tem acesso a voz — mas não ao caos.

— (inclinando-se, com olhos de aço) —

Em Ceres, não temos mártires. Só dados.

Amós (apoiando os cotovelos nos braços da cadeira):

— E se um de seus filhos discordar? Quando crescer… e decidir não ser devoto da Mãe?

Ysa (olhar fixo, voz branda):

— Ele terá liberdade para pensar. Mas não para agir contra o bem coletivo. Em Ceres, a liberdade não é o direito de ferir o outro. É a capacidade de servir sem medo.

Amós:

— Isso não é liberdade. Isso é ordem.

Ysa (sorri levemente, como quem já ouviu o argumento antes):

— E desde quando ordem é um defeito? Você viu o que há lá fora, Amós. Democracias que colapsam a cada eleição, mulheres desaparecendo em vielas, crianças vendendo os próprios corpos em troca de comida.

— (encara) —

Eles têm “liberdade”. Nós temos resultado.

Amós (pausa longa):

— Mas a que custo?

Ysa (suavemente, quase doce):

— A um custo que a maioria aceitou pagar, mesmo que ainda não saiba. A paz exige silêncio. E o silêncio exige estrutura.

Amós:

— Então é isso? Um mundo em que pensar diferente é apenas... estatística fora da curva?

Ysa (fecha os olhos brevemente, como se estivesse ouvindo uma sinfonia):

— Um desvio controlado. O algoritmo absorve as exceções — como você.

— (abre os olhos) —

Você viaja, vê o mundo, sente as rachaduras. Mas sempre volta, Amós. Por quê?

Amós (sorri, pela primeira vez sincero):

— Talvez porque aqui, mesmo algemado, eu saiba onde estão as chaves.

Ysa (olha para o próprio peito, onde estão as chaves cruzadas):

— E talvez por isso você nunca terá coragem de usá-las.

— Amós, me escute — disse ela, firme, mas sem elevar o tom. — Você quer dados. Eu respiro dados. Sei o que acontece fora dos nossos muros, e sei o que conseguimos aqui. Mãe Ceres atingiu o que nenhuma ideologia, doutrina ou teoria social jamais conseguiu: a sobrevivência funcional da maioria.

— Mulheres vivem mais. Crianças aprendem mais. Velhos morrem com dignidade. Não é justiça poética, nem liberdade ilusória. É eficiência.

— Você quer exceções, Amós. Mas exceções são o que nos destruiu antes da fundação. Aqui, exceção é desvio. E desvios... são corrigidos.

(Silêncio.)

A porta se abre sozinha. A reunião termina sem aviso. Ambos se levantam devagar. Ela se aproxima e ajeita levemente a gola do casaco de Amós, sem dizer nada. Ele a encara, mas não toca em sua mão.

Ysa (quase num sussurro):

— Acredite, Amós… eu gosto de você. Mas gostar nunca esteve acima do desempenho.

No centro nervoso de Ceres, atrás de portas reforçadas e sensores biométricos, está a sala de Ysa 1QM2 — Chefe Nacional de Inteligência de Desenvolvimento. Em sua mesa, todos os números convergem. Estatísticas, algoritmos, previsões, desvios. Nada escapa aos seus olhos ou ao crivo da Mãe que tudo vê. O tecido escuro de seu vestido parece absorver a luz artificial do teto, e o emblema das chaves cruzadas repousa sobre o peito como se estivesse cravado na carne.

Quando Amós X4O1 entra na sala, os dois sabem que aquela conversa não é apenas pessoal. Por trás do charme calculado e do tom contido, há uma solicitação perigosa: Amós quer acesso a um relatório confidencial contendo os nomes de todas as crianças registradas nos últimos vinte anos. Um pedido que, sob os protocolos da Mãe Ceres, configura alta traição.

Ysa não precisa perguntar o motivo. Ela já sabe. E justamente por saber, se mantém irredutível.

Ela já teve dois filhos, entregues ao sistema após completarem dez anos, como manda o protocolo. Não se arrepende. Pelo contrário: se orgulha. O sistema horizontalista de Ceres — onde toda criança tem garantidos alimentação, moradia, educação e função social até os vinte anos — foi, para ela, a verdadeira libertação. Ela não sente falta dos filhos porque aprendeu que a Mãe Ceres é mãe de todos.

Mais que isso: aprendeu que saudade é um luxo de sociedades falidas.

Ysa acredita que Mãe Ceres devolveu dignidade às mulheres. “Feminismo”, na visão dela, é um termo antigo, frágil, inflado por dados mascarados de países decadentes. Em Ceres, 95% das mulheres sobrevivem até a velhice. Em Ceres, nenhuma morre de parto. Em Ceres, até as violentadas têm opção — podem cuidar do filho até os dez anos ou retomar sua trajetória profissional. A única coisa que não podem fazer… é interromper o ciclo.

“Mãe Ceres nos alimenta, nos educa, e nos devora.”

Esse é o mantra que Ysa repete como uma oração ateia. E é o que ela sussurra, quase com piedade, quando olha para Amós e vê que, mesmo após tudo, ele ainda quer a exceção.

Ela sabe que Amós não é um traidor. Mas também sabe que, em Ceres, a intenção é um dado. E que os dados… não mentem.

Se ele insistir, virará um número. Um desvio a ser corrigido. E Ysa — com a mesma frieza com que deletaria um arquivo — terá o prazer silencioso de vê-lo queimar na Praça A.


Pensamento de Ysa, sozinha:

A sala voltou ao silêncio assim que Amós saiu. A porta se fechou com o som sutil da engrenagem automática. Nenhuma música, nenhuma luz desnecessária. Só o ruído baixo do sistema de ventilação.

Ysa ficou sentada, olhando para a parede opaca à sua frente, onde não havia nada — nem quadros, nem lembranças, nem distrações. Apenas o concreto.

Ela piscou uma vez. Respirou fundo.

Pensou nos filhos. Nos dados. Em Amós.

Em quantas vezes já repetira o mantra.

Em quantas vezes fingira que não hesitava.

Em quantas vezes sentiu algo próximo da dúvida… e matou antes que florescesse.

E então, sozinha, ela se permitiu pensar o que jamais diria em voz alta:

"E se os opressores estiverem certos sobre nós?"

A ideia ficou suspensa como fumaça.

Depois, ela se levantou com precisão militar. Ajustou o coque. Alisou o vestido cinza escuro com as pontas dos dedos.

E sussurrou, baixinho, como uma prece reversa:

— Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora.

Saiu da sala sem olhar para trás.


Ysa 1QM2 – Chefe Nacional de Inteligência de Desenvolvimento

Ysa 1QM2 é uma das mulheres mais influentes de Ceres, abaixo apenas de Mãe Ceres na hierarquia funcional. Aos 37 anos, ocupa o cargo de Chefe Nacional de Inteligência de Desenvolvimento, onde atua com rigor lógico e absoluto compromisso com o sistema.

Ysa viveu durante 12 anos em Pietà, a cidade das Mães de Ceres — um espaço exclusivo onde todas as mulheres grávidas são realocadas para cuidar de seus filhos durante os primeiros 10 anos de vida. Pietà é o berço de todos os cidadãos de Ceres, o núcleo do desenvolvimento humano da nação.

Apesar de não ter se identificado como mãe por vocação, Ysa teve dois filhos, como prevê a função biológica mínima em Ceres. O primeiro foi concebido antes de seu período em Pietà. O segundo nasceu durante seus anos na cidade, fruto de uma conexão emocional rara com o único homem autorizado a trabalhar por tempo integral em Pietà. Esse envolvimento prolongou sua permanência no local.

Ysa é uma cidadã modelo de Ceres, completamente fiel à ideologia do Ceresianismo — um sistema que substituiu o antigo conceito de feminismo e todas as outras formas de luta identitária, ao estabelecer uma igualdade plena baseada em mérito funcional. Para ela, lutar contra um sistema vigente é inútil. O verdadeiro avanço acontece quando um novo sistema torna o anterior obsoleto.

Ysa considera o feminismo algo datado, superado pela lógica e eficiência do Ceresianismo, onde não há gênero, apenas função e resultado. Segundo sua visão, o mérito e a utilidade suplantam qualquer debate ideológico. Em Ceres, não há espaço para discursos — só há espaço para entregas.

Ela não tolera falácias, sentimentalismos ou retóricas vazias. Sua comunicação é direta, racional e, por vezes, incômoda para quem ainda carrega traços do mundo antigo.


Sobre o sistema que Ysa defende

Em Ceres, o aborto é proibido. Contudo, a mulher possui duas opções institucionais:

  • Gerar e criar o filho por 10 anos em Pietà, recebendo todo o suporte físico, emocional e técnico oferecido pelo Estado.

  • Gerar e entregar o filho ao sistema, onde será alocado para outra mãe — geralmente uma mulher que perdeu o próprio filho, seja por acidente ou causas naturais.

Mesmo nos casos de violência sexual, a política de Ceres se mantém: a mulher pode optar por uma dessas duas vias. Os violadores, por sua vez, são condenados à prisão perpétua com trabalhos forçados, mas dentro de um sistema que garante moradia, alimentação, atendimento médico e uso funcional da mão de obra — pois, para Mãe Ceres, tudo e todos devem ter utilidade.


Filosofia de Mãe Ceres

“O mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente. A sobrevivência está acima da liberdade.”

Este é o lema central do regime. E Ysa o repete com convicção sempre que é questionada sobre os limites éticos do sistema. Para ela, a eficiência e a estabilidade de Ceres são provas de que o Ceresianismo funciona — e de que os antigos sistemas falharam.

Ysa tem uma vida sexual ativa e livre dentro dos parâmetros de Ceres, onde relacionamentos afetivos duradouros não são encorajados nem comuns. Seu comportamento nunca foi questionado — sua competência é o bastante para silenciar qualquer tentativa de moralismo.


Mármore e Chumbo

A Sala dos 12 estava silenciosa. O mármore negro refletia os rostos pálidos dos representantes, todos alinhados como peças numa grade. As paredes de concreto bruto davam à reunião um peso ritual. Lá fora, os sinos da neutralidade tocavam no ritmo de Ceres — exatos, frios, regulares. Lá dentro, Ysa 1QM2, vestida em cinza escuro, cor da função, se levantava diante da mesa de projeção translúcida.

A República de Fiume enviara sua proposta: acordos bancários reforçados, reconhecimento político mútuo — e uma cláusula de exceção. Queriam que Ceres cedesse, ainda que minimamente, à “liberdade de expressão feminista” dentro de suas instituições comerciais.

Ysa leu o relatório completo em silêncio. Depois, levantou os olhos. Sua voz era seca, firme, com a densidade de um veredito.

— Senhores — disse — Fiume não está aqui por diplomacia. Está por desespero.

A projeção mostrou um gráfico de declínio funcional. Números, não palavras.

— Enquanto Ceres cresce 4,2% ao ciclo e reduz em 3% a inutilidade funcional, Fiume aumenta seus gastos com campanhas emocionais em 12%, enquanto 1 em cada 5 núcleos urbanos sofre evasão produtiva. Eles não querem nosso aval. Querem o nosso chão. E não terão.

Alguns conselheiros se entreolharam. Um deles tossiu discretamente, desconfortável. Ysa não vacilou.

— O feminismo, como outros sistemas anteriores, pediu voz. Nós concedemos função. E quem entrega, sobrevive. Quem reclama, ruína.

Ela deu um passo adiante. A sombra da sua silhueta cobria parte da mesa.

— Se querem continuar com os fundos armazenados em nossos cofres, que o façam. Somos neutros. Mas se desejam plantar discursos em solo de mármore, falharão. Ceres não negocia sua exatidão.

Ela fez uma pausa. O som da sala parecia ter sido sugado.

— Nós venceremos não pela força, mas pela utilidade. Enquanto eles falam de liberdade, alimentamos seus bancos. Enquanto eles marcham, computamos suas perdas. A história já escolheu. E foi escrita por quem entregou.

Outro gráfico apareceu. Taxas de natalidade de Pietà. Níveis de eficiência materna. Reintegração laboral. Nenhum número mentia.

— Mãe Ceres não nutre com amor — concluiu. — Nutre com exatidão. E isso… é o suficiente.

Silêncio.

No fundo da sala, uma luz acendeu. Era apenas uma lâmpada automática, detectando movimento. Mas naquele momento, pareceu um sinal.

Ysa voltou ao seu lugar. Mármore por fora. Sentimentos de chumbo por dentro. E uma leve, quase imperceptível fissura no olhar — a brecha que nenhuma nação enxergaria. Apenas ela sabia: até a engrenagem mais perfeita, em algum ponto, sussurra.

Antes que a respiração da sala pudesse voltar ao ritmo, a cadeira ao lado oposta da mesa se moveu com um leve ranger. A representante da República de Fiume — uma mulher de meia-idade, vestida com um conjunto militar estilizado, porém menos rígido, em tons vermelhos e pretos — ergueu-se com uma calma forçada.

— Senhora Ysa — começou ela, a voz firme, mas com um traço de desafio — compreendo o apreço que Ceres tem por números e ordem. Porém, não podemos nos esquecer que por trás de cada estatística, existe um povo, com necessidades reais, com vontades, com histórias.

Ela fez uma pausa calculada, olhando cada membro do conselho.

— O feminismo não é um capricho ou um modismo. É uma resposta às desigualdades que sistemas meritocráticos como o seu tendem a ignorar. Sem voz, o mérito torna-se privilégio; sem liberdade, a função vira servidão.

Ysa permaneceu imóvel, com o olhar fixo, como se pesasse cada palavra.

— Meritocracia — respondeu ela, pausadamente — é a única verdade que não pode ser disputada por opiniões. Em Ceres, não julgamos o que deveria ser, mas o que é. Vocês lutam por igualdade. Nós aplicamos eficiência. Vocês defendem o individual. Nós protegemos o coletivo — ainda que a um custo que muitos não querem pagar.

A representante de Fiume apertou os punhos, sentindo a frieza do ambiente.

— Ceres detém as riquezas, os bancos, o poder econômico de todo o continente. Mas a República de Fiume não vai renunciar à sua identidade, mesmo que isso signifique ser marginalizada. Vocês podem ter o controle das contas, mas não terão o controle das consciências.

Ysa esboçou o que poderia ser um sorriso severo.

— Consciências são irrelevantes. O que importa são os resultados. Vocês têm liberdade, sim. Mas ela é o luxo das civilizações mortas.

Um silêncio denso tomou conta da sala. O conselho aguardava a decisão final.

— Portanto — concluiu Ysa — reforçaremos nossa vigilância nas operações financeiras e logísticas da República de Fiume. Qualquer tentativa de infiltração ideológica será considerada ato de subversão. O sistema de Ceres não é aberto a revisões por demandas emocionais.

Ela virou-se lentamente para a mesa, os saltos ecoando no mármore negro.

— Em breve, iniciaremos a realocação das atividades bancárias para centros sob total controle ceresiano. Fiume poderá manter seus discursos e marchas, mas aqui, no coração do continente, imperará a ordem.

Na saída, a representante de Fiume lançou um último olhar para Ysa.

— Vocês podem vencer no campo da eficiência, mas perderão na alma.

Ysa não respondeu. Sabia que a alma era uma variável que o sistema não admitia.

A representante de Fiume saiu pela pesada porta de aço com um passo firme, a voz ecoando nas mentes do conselho. A sala retomou seu silêncio, pesado como o mármore que os cercava.

O presidente do conselho, um homem grisalho de expressão impassível, que até então ouvira em silêncio, finalmente falou:

— A resposta da Senhora Ysa é firme, mas alguns de nós devemos considerar o risco de isolar ainda mais a República de Fiume. Manter relações comerciais é essencial para a estabilidade.

Um conselheiro mais jovem, de olhos vítreos e expressão dura, rebateu imediatamente:

— Estabilidade não se sustenta com concessões a ideologias decadentes. Se começarmos a ceder, abriremos brechas para a corrupção e a desordem. O sistema de Ceres não pode ser maculado.

Outro membro, com cicatrizes visíveis no rosto, acrescentou:

— O sistema é perfeito porque é intransigente. Somos o último bastião do mérito e da função. Não podemos nos permitir fraquezas, sob o risco de sucumbir.

Os olhares se voltaram para Ysa. Ela permaneceu imóvel, como uma estátua, a rigidez de seus ombros como uma muralha.

— O Ceresianismo — disse ela, em voz baixa, porém clara — é a evolução do sistema social. Não podemos mais alimentar falsas esperanças em discursos que se sustentam da emoção e da queixa. Nosso compromisso é com a sobrevivência, não com a compaixão vazia.

Um leve suspiro percorreu a sala. A dureza das palavras ecoava, mas uma tênue sombra de dúvida parecia se infiltrar entre alguns.

Quando o conselho se dispersou, Ysa permaneceu sentada por mais alguns minutos, olhando para a imensidão da cidade neutra através das janelas de vidro escuro. A luz fria do entardecer refletia em seu rosto inexpressivo.

Em sua mente, uma breve hesitação: aquela brecha que sempre existia — uma falha imperceptível na armadura de chumbo. A humanidade, mesmo em Ceres, ainda deixava um rastro.

Ela fechou os olhos por um instante.

O mundo estava em guerra constante. A paz era apenas um acidente.

E ela, mulher de mármore e sentimentos de chumbo, precisava garantir que a engrenagem nunca parasse.


Vozes e Funções

A sala estava cheia. Entre os rostos austero e impassíveis do conselho, Ysa ergueu-se com a firmeza de quem carrega a responsabilidade de toda uma cidade. Sua voz ecoou, clara e cortante, enquanto seus olhos fixavam cada um dos presentes.

— O feminismo — começou — foi um movimento de resistência, uma voz que ecoou nas sombras das desigualdades. Mas aqui, em Ceres, essa voz perdeu a razão de existir.

Ela fez uma pausa, quase sorrindo em desdém.

— Feminismo pede voz. Ceresianismo exige função. Vocês querem saber por que o feminismo tornou-se obsoleto? Porque na guerra constante que é o nosso mundo, reclamar não alimenta nem protege. Somente a entrega, o mérito e a exatidão garantem a sobrevivência.

O murmúrio do conselho se dissipou. Ysa continuou:

— O feminismo luta contra estruturas, muitas vezes criando outras — injustiças veladas — sob o pretexto da igualdade. Mas a igualdade que defendemos não é um discurso, é um sistema. Aqui, não existe espaço para privilégios baseados em gênero, raça ou desejo. Existe espaço para a função que se cumpre.

Ela caminhou lentamente pela sala, a voz firme, quase fria.

— A emoção é tolerada, sim. Mas até o limite da função. Lá fora, nas repúblicas decadentes, a liberdade é o luxo dos que já morreram para a verdadeira luta. Aqui, em Ceres, a liberdade é risco. E risco é fraqueza.

Outro conselheiro, mais jovem, ousou levantar a voz:

— E a compaixão, Ysa? Onde fica a humanidade, a empatia?

Ysa o olhou com uma calma assustadora.

— Nada em Ceres é inútil — respondeu — nem o erro, nem o sofrimento. Mas a compaixão não é nossa prioridade, é um luxo. O mundo está constantemente em guerra. A paz é apenas um acidente.

Ela finalizou com a voz mais baixa, quase um sussurro que percorreu toda a sala:

— Nosso compromisso é com a ordem, com a eficiência, com o futuro. O feminismo, com sua busca por voz, é uma história do passado. O Ceresianismo é a revolução do presente.


O Dissonante

Depois do discurso de Ysa, a tensão na sala de mármore negro não havia diminuído. A voz firme dela ainda reverberava no ar pesado.

O conselheiro Galian, um homem de meia-idade, rosto marcado pela experiência, levantou-se com um olhar que misturava cansaço e preocupação.

— Senhora Ysa — começou, escolhendo as palavras com cuidado — compreendo sua posição, mas temo que esse extremismo do Ceresianismo possa sufocar a inovação e a esperança. Um sistema que nega a voz humana está fadado a perder sua humanidade.

Um murmúrio de apoio e desaprovação percorreu o conselho.

Ysa inclinou a cabeça, mantendo o olhar firme.

— Galian — respondeu com voz calma, mas incisiva — a inovação não nasce do direito à reclamação, mas da necessidade imposta. Esperança é frágil, ela não sustenta sociedades. O mérito, sim, sustenta.

Uma conselheira mais jovem, Celina, que há pouco ingressara no conselho, ergueu-se com determinação.

— E quanto às vozes silenciadas? As mulheres que não encontram espaço nem para existir como mães, nem para trabalhar? O sistema que negamos, o feminismo, pelo menos clama por dignidade e proteção.

Ysa franziu levemente a testa, quase imperceptível.

— Em Ceres — disse ela — não há espaço para vítimas nem para mártires. Há lugar apenas para os que cumprem sua função. A dignidade está no que se entrega ao coletivo, não em reivindicações individuais. Quem hesita, fere a engrenagem.

O silêncio foi esmagador. O debate não encontrava resolução, apenas o peso inabalável da ideologia de Ysa contra os tímidos apelos à humanidade.


A Mãe de Chumbo

Ysa sentou-se no sofá austero de seu apartamento no centro de Ceres. As paredes de mármore negro refletiam a luz artificial, sem janelas para o mundo exterior — apenas silêncio e a ordenação perfeita de cada objeto ao seu redor.

No peito, um vazio que nem o rigor do Ceresianismo podia preencher.

Ela não tinha fotos dos filhos espalhadas, nem brinquedos ou objetos que denunciassem memórias afetivas. Cumprira sua função. Era mãe. Não nascera para isso, e sabia que não precisava nascer.

Quando sentia saudades, apegava-se a poucas lembranças — um sorriso rápido, um toque suave durante o breve tempo em Pietà. Mas eram emoções contidas em chumbo, moldadas pela mão firme de Mãe Ceres.

“Se for chorar, chore no banho, numa cama quente,” repetia para si mesma, a voz grave e sem ternura, quase um mantra.

Mãe Ceres a alimentara, a educara, a devotara ao sistema — e isso, para Ysa, era mais que suficiente.

Ela sabia que o amor tradicional não existia ali. Não havia espaço para fraquezas, só para a entrega precisa da função.

Por trás da neutralidade do cinza escuro de sua roupa, do olhar impassível, escondia-se uma mulher que sentia a ausência de algo que nem sabia nomear.

No silêncio do seu apartamento, onde nada se movia além da ordem e do propósito, Ysa fechava os olhos e deixava a saudade lhe roer, invisível.




O Monólogo de Chumbo

Sozinha no seu apartamento sem janelas, Ysa fechou os olhos por um instante. O silêncio era quase um grito.

— Eu não nasci para ser mãe.

A frase repetia-se, ecoando pesada dentro dela como um sino distante.

Ela cumpriu a função. Dois filhos, criados por outras mãos em Pietà. Cumpriu o ciclo imposto. Mas a ausência deles era um peso que nem a lógica podia explicar.

Saudade não é falha.

Era um pensamento que ela não podia admitir em voz alta.

Lágrimas? Não.

Choro? Um luxo que só os fracos permitiam.

Ela era feita de chumbo, de mármore e de aço frio.

Mas, por trás da armadura, a verdade permanecia: uma mulher que sabia o que era ausência.

Ausência de toque.

Ausência de risos.

Ausência de memórias que se guardam em fotografias — porque elas não existiam.

— Mãe Ceres não nutre com amor. Nutre com exatidão.

Essa era sua verdade.

Sua sentença.

Seu fardo.

Ela respirou fundo, lentamente, como quem engole uma dor que não pode expulsar.

No fim, era só isso: um vazio bem guardado, embalado por dever.




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