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Capítulo 14: A Engrenagem

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O despertador da base soou às 4h30 em ponto, como sempre. Um som metálico, suave no tom, mas imperioso na intenção. — “Bom dia, filho de Ceres. Cumpra seu dever.” — repetia a voz feminina nos…

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O despertador da base soou às 4h30 em ponto, como sempre. Um som metálico, suave no tom, mas imperioso na intenção.
“Bom dia, filho de Ceres. Cumpra seu dever.” — repetia a voz feminina nos alto-falantes, quase maternal, quase zombeteira.

Tomas abriu os olhos, já desperto antes mesmo do aviso. O teto metálico do alojamento parecia ainda mais cinza naquela madrugada, refletindo a luz fria dos corredores. Sentou-se no beliche, os pés descalços tocando o piso gelado, e por um momento ficou ali, apenas respirando, tentando ignorar a dor surda nas articulações e o peso constante no estômago.

Levantou-se, vestiu o uniforme sem pressa, num ritual preciso, quase reverente. Dobrou a manta com perfeição, alinhou o colarinho, engraxou a bota para que brilhasse sob a inspeção. Quando terminou, enfiou a mão no bolso e sentiu o relevo da medalha dos irmãos — uma pequena lembrança que guardava às escondidas. A única coisa que não fazia parte de Ceres.

No pátio central, o vento frio cortava a pele. A bandeira da Mãe Ceres balançava no mastro, enquanto os alto-falantes entoavam o hino. Todos repetiam o juramento diário, em uníssono:
“Mãe Ceres nos alimenta, nos educa, e nos devora.”
Cada palavra soava mais verdadeira a cada dia.

O treinamento físico começava assim que o sol rasgava as montanhas. Corrida pelo pátio circular, gritos de contagem, hinos militares em alto volume. Depois vinham as flexões no cimento, a escalada das cordas, o circuito de obstáculos. Tomas corria, suava, caía e levantava, sentindo cada músculo protestar. O cheiro de graxa e ozônio impregnava a manhã.

O teste mais cruel, porém, ainda o aguardava: a centrífuga. O cilindro metálico girava no hangar como um animal faminto, gemendo, rangendo. Ele entrava, sentava-se na cápsula, fechava os olhos enquanto sentia o corpo esmagado contra o assento sob dez vezes a força da gravidade. Às vezes temia que o coração parasse ali mesmo. Mas sempre saía vivo.

Depois vinha a água. Tanques enormes, de água turva e fria, simulando gravidade reduzida. Vestia o macacão espacial e mergulhava, flutuando lentamente enquanto mãos anônimas cronometravam e gritavam instruções pelas bordas. Ali, no silêncio líquido do tanque, Tomas podia fingir por alguns instantes que não existia nada — nem base, nem juramento, nem filho, nem irmãos.

O filho.

Um ano de idade agora. Vivia em algum alojamento infantil dentro de Ceres, longe da periferia, sob cuidados estatais. Nunca o segurara, jamais ouvira sua voz. Sabia apenas que, quando completasse dez anos, seria enviado ao colégio militar, onde aprenderia a mesma máquina cruel que agora o consumia. Às vezes, à noite, Tomas se perguntava se o filho o odiaria por não estar lá. Ou, pior, se nem ao menos se lembraria de seu rosto.

Após o almoço — ração fria, espessa, servida em bandejas de alumínio — vinham as salas de instrução. Quadros-negros cobertos de esquemas, projetores barulhentos, manuais técnicos. Psicólogos aplicavam testes: resistência ao estresse, perguntas doutrinárias, slogans repetidos até perderem o sentido.

“Você pertence a Mãe Ceres?”
“Sim, para sempre.”

Mesmo que a resposta doesse mais a cada vez.

À noite, voltava ao alojamento em silêncio. O corredor cheirava a ferro e óleo. Luzes piscavam sobre sua cabeça. Deitava-se no beliche com a medalha entre os dedos, pensando nos irmãos Tycho e Theo — a poucos quilômetros dali, na periferia que já não podia visitar sem autorização formal. A cidade os havia separado por castas, setores, muros invisíveis que ninguém jamais ousava cruzar.

Escrevia, às vezes, rascunhos de cartas que acabava por rasgar. Só podia mandar três por ano. E a cada rascunho sentia que restavam menos palavras para dizer.

“Mãe Ceres nos alimenta, nos educa, e nos devora.”

Essa frase ecoava em sua mente enquanto o sono pesado finalmente o levava.

Sabia que ainda restavam seis meses. Mas, dentro dele, já se sentia um homem condenado a partir.


Glória à Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa e nos devora.

Esse é o mantra que todo cidadão de Ceres repete, sem sequer perceber que o faz. Está gravado em nossos ossos. Eu mesmo o repito todos os dias, mesmo quando minhas mãos sangram nas barras da centrífuga, mesmo quando vomito na piscina de gravidade simulada, mesmo quando fecho os olhos e vejo a torre.

E quando acordo no alojamento, às vezes penso: “Será que ainda sou eu? Ou já sou apenas mais um dente nessa máquina?”

Porque Ceres não perdoa.
Ceres não esquece.
Ceres nunca abandona seus filhos.

Nós é que a abandonamos — e pagamos o preço.

Eu vejo como funciona a engrenagem, porque vivo dentro dela. Vejo os trens blindados descarregarem toneladas de ouro, cobre, cereais, ovos e carne fresca vindos do continente. Vejo os estrangeiros embasbacados com nossas ruas limpas, filas ordenadas, lixo reciclado até o último osso — pois em Ceres nem ratos, nem cães, nem gatos morrem de fome. Até o esgoto aqui é nutritivo, e a compostagem alimenta as hortas verticais.

Fome não existe em Ceres.
Nem doença.
Nem lixo nas calçadas.
Por isso, eles nos invejam.

Os estrangeiros têm fome, guerras civis, epidemias. Eles têm revoluções, bandeiras, heróis e vilões.
Eu os invejo por isso.

Eles têm sobrenomes herdados. Comemoram aniversários. Cantam hinos que não são só para a Mãe. Lembram-se de quem foram os pais, os avós, os tios. Eles têm passado.

Em Ceres não existe passado.
Em Ceres só existe Mãe.
E a Mãe nos alimenta, nos educa e nos devora.

Eu vejo cada setor girar como um relógio:
os bancos no Centro, onde bilhões em metais preciosos passam pelas mãos daqueles que não ousam respirar mais alto que a Torre;
os laboratórios de química;
os campos de agricultura automatizados;
as fazendas de carne e ovo;
os pavilhões de medicina.

E a cada 20 anos, um novo grupo de crianças entra no colégio, dá o próprio nome... e, dez anos depois, todos são devorados.

Em Ceres, perder o nome é pior que a morte.
É ter a alma arrancada e queimada em praça pública, para todos verem.

Eu vi Rob ser queimado, lembram?
C3P6Q.

Eu vi Deb desaparecer entre os corredores de concreto, engolida para nunca mais ser vista.

E eu continuo.
Porque eu amo a Mãe. Porque todos a amamos.

Mas não pensem que somos puros.

A fome biológica ainda vive aqui dentro.

Em Ceres existem as Casas da Cor do Som, salões clandestinos nas periferias onde homens e mulheres se entregam mascarados aos desejos que a Mãe proíbe.

Ninguém ali é de ninguém.
É um simulacro de liberdade.
Sonho dos oprimidos, desespero dos opressores.

Mesmo nos almoxarifados dos centros já ouvi gritos abafados e gemidos escondidos entre caixas e cabos.

Corpos enlaçados como ratos na escuridão.
Favores sexuais vendidos em silêncio.
Gravidezes proibidas, abortos forçados.

E quando alguém é pego, quando a Mãe descobre, não há piedade.

Os condenadores arrastam os corpos até as praças.
E o corpo queima,
e o nome vira número,
e o número vira nada.

Os silenciadores não hesitam em lembrar a todos que:
— “Órgão excretor não reproduz!”

Aqueles que desejam iguais a si são punidos.
A Mãe não quer amor. Quer eficiência.

Então, por que eu fico?
Por que não corro?

Porque eu amo a Mãe.
Porque em Ceres eu nunca tive fome.
Nunca tive frio.
Nunca fiquei doente.
Nunca vi um mendigo morrer no beco.

A Mãe me dá um teto, um uniforme, um prato cheio.
E quando quiser, ela vai me devorar.
E eu vou aceitar.

Porque a liberdade é inimiga.
Porque a liberdade mata.
Porque só a Mãe tem o direito de tirar o que ela mesma me deu.

E eu repito, todo dia, baixinho, antes de dormir:
Glória à Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora.

E durmo em paz.




Entre Memórias e a Máquina de Mãe Ceres

Eu acordo às 4h30, no alojamento onde dormem os futuros devorados. A luz fria da central automática nunca me deixa esquecer que o dia já começou, mesmo que eu ainda queira ficar um pouco mais nos lençóis sintéticos.

A torre de vigilância da Mãe Ceres se recorta contra o céu da periferia, mais alta que qualquer montanha. São 1.500 metros de aço e câmeras que observam tudo. Quanto mais perto do centro, mais importante você é — dizem.

Eu estou no centro, onde as decisões são tomadas e os planos traçados, onde o ouro passa pelos dedos e a ciência vira mercadoria.

Eu penso em Rob C3P6Q, meu amigo de infância. Antes, só Rob. Depois, só C3P6Q. Perdemos nossos nomes porque a Mãe não quer que tenhamos passado, nem história. Ela quer que sejamos peças na engrenagem.

Deb, a garota dos mergulhos sincronizados. A melhor jogadora de Flapball que Ceres já viu, invicta em 50 anos de esporte. Ela me ensinou a sorrir, a sonhar que éramos mais que números. Mas Deb sumiu. Foi devorada. Nunca mais a vi.

O colégio, entre os 10 e 20 anos, foi a última época em que tive liberdade — ou ao menos a ilusão dela. Tudo era treino, estudo, disciplina, mas também risadas, jogos, esperanças. A Mãe ensinava, alimentava, mas já começava a devorar.

A centrífuga de 10 g esmagava meu peito; a piscina de gravidade zero me fazia sentir que flutuava entre os mundos. A engenharia dos treinamentos é brutal, mas havia uma espécie de amizade silenciosa entre nós. O rigor da Mãe é frio, mas a empolgação pelo futuro — para ser o próximo astronauta — nos mantinha vivos.

Eu serei o décimo terceiro a subir para a estação espacial, um privilégio que carrega a sentença de que posso nunca mais voltar. Sei disso. Sei que a missão pode ser desastrosa. Que a gravidade do espaço é menos implacável que a da Mãe Ceres.

Ela nos alimenta, nos educa, e nos devora.
Eu repito isso em silêncio, como um mantra para suportar a dor.

Fora daqui, só há caos. Guerras, fome, miséria. Aqui não. Aqui não há fome. Nem doença. Nem um cãozinho faminto nas ruas. Tudo é aproveitado, até o lixo vira comida.

Mas não há liberdade.
A liberdade é inimiga.
Só a Mãe pode concedê-la — e ela dá ou tira com mão de ferro.

Já vi colegas serem queimados em praça pública, por desobedecer, por amar errado, por querer mais que a Mãe. Nomes viram números, números viram nada.

Existe um mundo oculto na periferia, as Casas da Cor do Som. Lá, os oprimidos buscam o proibido, o prazer, o sonho de existir além da máquina. Alguns conseguem escapar da vigilância, mas a Mãe tem olhos em toda parte.

Eu amo a Mãe Ceres.
Porque ela me deu tudo.
Porque sem ela, eu não existo.
Porque se eu fugir, eu morro.

Eu durmo ao som da máquina, com o rosto suado e o coração pesado. Amanhã, eu acordo e começo tudo de novo.

Glória à Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora.


No ginásio do Centro de Treinamento Esportivo

O cheiro metálico das barras untadas de graxa e suor impregnava o ar, misturado ao leve chiado dos cabos e contrapesos deslizando pelas guias. O ginásio do Centro de Treinamento Esportivo, na periferia mais disciplinada de Ceres, nunca dormia. Era tão implacável quanto a própria Mãe que os moldava.

Major Tomas estava no banco de supino, deitado sob a barra fria. Os músculos dos braços tremiam levemente, mas o movimento era firme, ritmado, ensaiado mil vezes. Enquanto ergueia peso, sua mente se ocupava de um fardo ainda maior: os relatórios de agricultura sobre sua mesa no alojamento.

Sementes resistentes ao calor. Resistência para enfrentar um futuro que já chegava atrasado. As previsões indicavam que as temperaturas no continente aumentariam ainda mais, resultado inevitável do próprio crescimento da cidade. Mesmo com um índice de poluição insignificante para o que produzia, Ceres começava a alterar o clima. Ceres evolui. Até um câncer evolui para vencer. E nós somos seu tumor mais perfeito, pensou, enquanto descia a barra com cuidado até o peito.

Lembrou-se da República de Garpan, com suas chaminés vomitando fumaça e os campos carbonizados. Petróleo barato, nuvens negras e queimadas intermináveis, um contraste grotesco para a ordem cirúrgica de Ceres. Eles poluíam por descuido, por ganância. Já Ceres… poluía de forma limpa. Metódica. Irretocável. Até a sujeira era convertida em adubo. Até o esgoto se tornava útil. Nada se perdia. Nada além de almas.

Apoiada a barra, ele se sentou, ainda ofegante, e olhou pela grande janela. A torre central da cidade rasgava o céu como uma lança de aço, imponente, lembrando a todos que ninguém estava fora do alcance da Mãe.

Foi para a máquina de remada. Ajustou o peso quase instintivamente, sentou-se e começou o movimento rítmico, os cabos rangendo em protesto. As sementes — sempre as sementes — dominavam seus pensamentos. Elas precisavam ir para o espaço com ele. Para entender como se comportariam diante da radiação cósmica, como poderiam ser adaptadas para safras cada vez mais robustas, mais rápidas, mais nutritivas. Já tinham batido recordes na última pesquisa… mas ao custo de perdas significativas. A Mãe aceitava essas perdas. Tomas também. Não havia alternativa.

O futuro exigia mais. Mais colheitas para alimentar mais bocas. Mais bocas para reforçar a própria engrenagem que triturava aqueles que ousassem sonhar diferente. Era sempre assim: a Mãe alimenta, educa… e devora.

Ele largou o cabo e se levantou, caminhando até a barra fixa. Suas mãos se fecharam nos apoios gélidos, e o peso do corpo se alongou, tenso, quase em dor.

Ali, suspenso, Tomas sentiu-se apenas um número, um filho obediente no seio de algo que não compreendia por inteiro. Tinha inveja dos estrangeiros, mesmo com seu caos e sua sujeira. Eles tinham aniversários. Têm heróis e vilões. Eles podiam escolher odiar ou amar.

Ele só podia repetir, como um filho devoto:
"Glória à Mãe Ceres. Que nos educa. Que nos alimenta. Que nos devora."

E, mesmo assim, se Ela mandasse que fosse ao espaço, ele iria. Veria as sementes germinarem lá em cima. Ou morrerem sem sua mão.

No fundo, pensava, esse era o verdadeiro teste: descobrir se ainda havia vida possível… mesmo depois de serem devorados.

Ele abriu os olhos, encarou a torre pela janela e deixou o corpo pender na barra, o suor pingando no chão como orvalho metálico.
E repetiu, baixo, só para si:
— "Glória à Mãe Ceres."

O chiado metálico do cabo cessou quando a porta do ginásio se abriu com um estalo seco. Tomas, ainda preso na barra fixa, inclinou os olhos na direção da entrada. Era ele. O estrangeiro.

O homem da República de Garpan caminhava como se carregasse um fardo invisível, sempre seguido por dois silenciadores que não desgrudavam um passo sequer. Mesmo com sua “autonomia” concedida por Ceres, ainda era um intruso sob vigilância constante. Capitão Masord Gifuke — um homem com dois nomes, coisa absurda para qualquer filho da Mãe.

Tomas soltou-se da barra e deixou os pés tocarem o chão com um baque controlado. Ergueu o queixo e acenou. Um gesto protocolar, mas já livre da hostilidade dos primeiros encontros.

Ele respeitava o outro astronauta — mesmo que relutantemente. Depois dele, seria Gifuke quem subiria no satélite, carregando junto a esperança de sua pátria manchada de petróleo e fuligem. Era, afinal, o dinheiro de Garpan que havia financiado parte do projeto. Em troca, enviaram um homem. Sempre vigiado. Sempre estranho. Mas um homem.

Conversavam às vezes, sob a vigilância silenciosa dos guardas, trocando palavras com a formalidade forçada de duas culturas que mal se compreendiam. Gifuke falava sobre seu país com uma melancolia que Tomas não entendia. Chamava Ceres de “totalitária”. De “hipócrita”. Gargalhava das orações à Mãe e chamava aquilo de superstição.

— “Vocês adoram uma parede. Eu levanto as mãos para alguém que não posso ver… vocês beijam o chão de concreto.”

Tomas se lembrava bem da primeira vez que ouviu isso. Quis quebrar-lhe o pescoço ali mesmo, no banco de supino. Se fosse fora de Ceres, teria sido queimado na Praça A por menos.

Mas a Mãe falou com ele naquela noite. Tomas ouviu a voz da Mãe em seu quarto, doce e implacável:

— “Você é um dos meus filhos favoritos. Tenha paciência. Respeite-o. Há sabedoria naquilo que ele não sabe dizer.”

Então ele cedeu.
Começou a ouvir. Aos poucos, o sotaque dele, tão ridículo no começo, ficou… simpático. Era como assistir a uma criança aprendendo a andar. E Tomas, com a indulgência que só os filhos favoritos da Mãe podiam ter, ensinou-lhe a falar corretamente, corrigindo palavra por palavra, sempre zombando do jeito “lolo” — como ele dizia — que soava na língua dele.

E pouco a pouco, o respeito se misturou a algo mais confuso. Um afeto desconfortável. Um certo orgulho. Não sabia como um homem como Gifuke podia ter saído de uma república onde as pessoas escolhem seus próprios carrascos e se matam para decidir quem vai roubar mais. Um milagre, pensava Tomas. E dizia isso sem ironia, por mais que o outro risse do apelido.

Masord Gifuke era, em muitos sentidos, o oposto dele. Falava sempre de um filho pequeno — dois anos, dizia — com olhos e nariz iguais aos dele. Carregava fotos dobradas e cartas perfumadas no bolso do uniforme. Às vezes, no dormitório, mostrava as cartas a Tomas, apontando para a criança e sorrindo com uma tristeza inexplicável. Chorava por saudade, escondendo os olhos com a mão. Tomas nunca sabia o que dizer.

Ele mesmo não sabia a cor dos olhos do filho que a Mãe lhe arrancara há anos. Nunca vira o rosto dele. E cada vez que via Gifuke falar daquele menino, sentia dentro do peito algo entre inveja e ódio. E um peso enorme, como chumbo quente, na boca do estômago.

Quando Gifuke falava sobre aniversários, Tomas só franzia o cenho. Que sentido tinha aquela celebração tola, acender velas porque se completaram trezentos e sessenta e cinco dias? Mas mesmo sem sentido, Tomas invejava aquilo também. Um ritual que dizia: “Você está vivo. Você importa para alguém.”

Gifuke estava ali pelo filho, Tomas sabia. Já quis desistir mais de uma vez, mas Tomas sempre o convenceu a continuar. Às vezes à força. Às vezes apenas lembrando-o, em silêncio, de que nada nem ninguém sobrevive sem a Mãe.

E quando Gifuke chorava à noite, Tomas também chorava. Mas sempre no banho. Para que ninguém visse. Para que a Mãe não o considerasse fraco demais para carregar o fardo que Ela lhe dera.

Enquanto ajeitava a barra para a próxima série, Tomas fechou os olhos e murmurou para si mesmo:

— “Oh, Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e que nos devora… por que és tão cruel comigo ao me negar o rosto do meu filho? Mas eu sigo por Ti. Por Ti, Mãe.”

E quando abriu os olhos, lá estava Gifuke, com aquele sorriso tímido, segurando mais uma carta do filho, como um milagre que teimava em existir.

Tomas pensou: “Ele é diferente. Por isso, eu o suporto. Porque a Mãe mandou.”

Tomas limpou o suor do rosto com a toalha e sentou-se no banco ao lado das máquinas, sentindo o coração ainda martelar no peito. Gifuke aproximou-se devagar, os dois silenciadores atrás dele mantendo a mesma distância mecânica de sempre. Na mão, uma folha dobrada, amarelada nas bordas.

— “Hoje chegou mais uma carta…” — disse Gifuke, quase um sussurro, como se estivesse contando um segredo aos guardas também.

Tomas ergueu uma sobrancelha, mas não olhou para ele de imediato. Preferiu fitar o chão, como se fosse indiferente. Mas, por dentro, cada palavra daquele sotaque arranhado ainda o atiçava de formas que ele próprio não entendia.

— “Ele…” — continuou Gifuke, hesitando por um momento — “Ele já… já corre pela casa agora. Meu filho. Corre e derruba as coisas. Minha esposa diz que ele é um furacãozinho… Igual eu era.”

Tomas finalmente ergueu os olhos para ele. O homem sorria, mas havia um brilho de lágrimas contido no canto dos olhos. Aquelas mãos calejadas seguravam a carta com tanto cuidado, como se fosse feita de vidro. Tomas sentiu a velha pontada de inveja no peito, mas também — contra sua vontade — um certo calor.
— É… bonito, isso. — disse Tomas, seco, pegando a barra de ferro para mais uma série.

Gifuke soltou uma risadinha baixa, um riso inapropriado para qualquer um nascido de Ceres.
— Você nunca me disse nada do seu filho. — comentou ele, puxando um dos bancos para sentar-se também. — Ele também já corre pela casa?

Tomas parou, sentindo os músculos tensos nas mãos. Apertou a barra até os dedos embranquecerem. Depois, largou-a no suporte com um estalo e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu… não sei. Nunca o vi.

Gifuke ficou em silêncio por um instante. O sorriso desapareceu e a testa se franziu, como se tentasse resolver uma equação difícil.
— Isso é… cruel.

Tomas soltou uma risada curta, amarga.
— É assim que a Mãe nos molda. Cruel, quando precisa. — Fitou-o nos olhos. — Você nunca vai entender isso.

Gifuke não desviou o olhar. Em vez disso, fez algo que Tomas não esperava: pousou a carta sobre o banco entre eles.
— Então… fica com a carta um tempo. Não tem foto, mas… lê. Imagina como é.

Tomas arregalou os olhos, surpreso, depois voltou a olhar para a folha como se fosse um artefato proibido. Por fim, fechou os dedos em torno dela.
— Você é mesmo um milagre, não é? — murmurou, quase para si mesmo.

Gifuke sorriu outra vez, aquele sorriso torto e teimoso.
— Milagre “lolo”, como você diz.

Tomas balançou a cabeça, quase sorrindo também — mas conteve-se. Não daria a ele a satisfação. Em vez disso, levantou-se e guardou a carta no bolso do uniforme, sentindo um nó quente na garganta.
— Volta pro treino. Amanhã teremos mais um teste. E eu não vou deixar você me envergonhar lá em cima.

Gifuke ergueu as mãos num gesto rendido, com seu sotaque cantado.
— Sim, senhor. Filho favorito da Mãe.

Tomas cerrou o maxilar para não rir.
E enquanto voltava para a barra, sentiu — pela primeira vez em muito tempo — que talvez houvesse espaço para outro tipo de devoção, bem ali ao lado daquela que sentia por sua Mãe Ceres.

À noite, depois do último apito de recolher, o ginásio fica vazio. Só o som do vento passando pelos dutos, o farfalhar das bandeiras de Ceres penduradas no teto alto, as luzes brancas piscando aqui e ali. Eu fico deitado no beliche, encarando a madeira da cama de cima.

Sinto o peito pesado. Um peso que não consigo descrever — só sei que está lá desde o dia em que a Mãe me devorou, aos vinte anos. Eu juro que antes não era assim. Antes, quando corria no campo com a Deb, quando marcava os gols no Flapball, quando sonhava com o espaço… eu sentia outra coisa. Algo que era leve. Quente. Algo que fazia meu corpo inteiro parecer maior do que é.

Agora parece chumbo. Ela arrancou os sentimentos que eu tinha — medo, alegria, raiva, amor — e derreteu todos, moldou em lingotes e colocou de volta dentro do meu peito. Porque chumbo não pula, não grita, não chora. Chumbo só pesa. Só afunda.

E eu sei que é isso que ela quer. Que todos nós sejamos de chumbo, para não voarmos para fora de seus muros. Que ninguém flutue. Que ninguém escape.

Mas chumbo não combina com humanos.

Essa é a tragédia secreta de todos nós aqui dentro: seguimos, comemos, treinamos, respiramos, obedecemos, fingimos que o chumbo basta. Mas, nas horas mortas, no banho, nas sombras, quando ninguém está olhando, ele começa a derreter. Eu sei disso porque sinto escorrer pela garganta. Às vezes amarga como sangue, às vezes salgada como lágrima. Eu sinto o chumbo derreter em mim, um pouco por noite.

Eu escuto os outros também chorando no escuro. O Masord pensa que esconde quando se enrola no cobertor para não fazer barulho, mas eu ouço. Eu também. Somos todos iguais.

Ela pensa que somos todos de chumbo. Mas ainda somos de carne.

E carne dói.

Quando penso no meu filho que não conheço, quando lembro da Deb, quando vejo a bandeira tremulando lá fora e a torre nos vigiando… eu penso que Mãe Ceres não é só mãe. É madrasta. Nos alimenta, nos educa, e nos devora. Mas, lá no fundo, não nos transforma realmente em outra coisa. Não importa quantas vezes ela repita que agora somos apenas números e engrenagens — a gente ainda sangra.

Eu sangro por dentro, em silêncio, todas as noites.
Eu sou chumbo por fora. Mas por dentro ainda tenho fogo.

Por isso sorrio para Masord, ensino a ele minhas palavras, rio do seu sotaque. Ele não entende que eu o invejo não só pelo filho dele, mas porque, mesmo carregando a tristeza, ele ainda não esqueceu quem era. Eu? Não sei se ainda sei quem sou.

Sou Major Tomas. Sou o décimo terceiro astronauta. Sou filho da Mãe Ceres.
E sou só um homem tentando sobreviver ao chumbo dentro de mim.

Esta noite eu fecho os olhos, e por um instante vejo você.
Não sei o teu rosto. Não sei a tua cor, se herdou meus olhos escuros ou os dela, se tem o nariz largo ou a boca fina. Eu não sei nada, filho. Só imagino. Imagino que você seja leve — porque criança ainda não é de chumbo. Imagino que corra descalço, que ria alto, que caia e levante, que chore sem medo. Imagino que ainda não saiba o que é ser devorado.

E peço à Mãe Ceres, todos os dias, que te mantenha assim, mesmo que seja mentira, mesmo que eu saiba que ela só cria filhos para devorar depois. Mesmo assim, eu peço.

Aqui é difícil lembrar por que eu faço tudo isso. Às vezes, quando o treino aperta, quando os silenciadores passam, quando sinto a raiva de Garpan, a inveja de Masord, a dor de Deb, eu penso em largar tudo. Penso em deixar o chumbo me puxar até o fundo. Porque é isso que ela quer, filho. Que a gente esqueça que ainda somos humanos, mesmo debaixo dessa carcaça de metal.

Mas eu me agarro a você.

Eu queria poder te dar um aniversário. Te ensinar a bater a bola, como eu fazia na escola. Eu queria que você soubesse que teu pai não esqueceu de você, mesmo sem nunca ter te visto. Que ele treina todo dia, que se esgota, que morde a dor, que sorri por fora para não ser queimado na Praça A… tudo para, talvez, um dia, fazer algo certo por você.

Mas você tem que me perdoar, filho. Aqui não há espaço para amor. Aqui a gente aprende a engolir tudo, até o amor. Porque ela nos alimenta, nos educa, e nos devora.

E eu deixo ela me devorar por você.

Eu juro, filho, que, mesmo sendo só chumbo por fora… por dentro ainda sou teu pai. Ainda sou teu.

Um dia — mesmo que só em sonho — eu ainda vou segurar tua mão.

E quando chegar esse dia…
…eu vou sentir de novo como é ser leve.

E quando penso nisso — nesse chumbo todo — lembro de algo que li num daqueles relatórios médicos, escondido.

Chumbo envenena.

É verdade. O chumbo entra no sangue, se acumula nos ossos, devora o cérebro por dentro. Dá confusão, tremor, esquecimento, loucura.

O médico do centro de treinamento escreveu que o chumbo enlouquece porque se instala devagar, como um parasita — ninguém nota no começo. Só depois, quando já é tarde, quando você já não sabe mais quem era.

Talvez seja isso mesmo o que a Mãe Ceres faz com a gente. Ela não precisa cortar nossos corações, nem explodir nossas cabeças nas praças. Ela só precisa de tempo. Ela só precisa deixar o chumbo fazer seu trabalho em silêncio.

Quando olho para os outros homens no ginásio, vejo as marcas. Eles tremem de leve enquanto fazem musculação, têm olhares vazios, esquecem nomes, não riem de verdade. Já vi soldados veteranos que não sabiam mais nem falar direito, que choravam sem saber por quê.

Às vezes penso: será que eu também já estou assim? Será que essa dor na nuca, essa raiva surda, essa saudade do meu filho… será que tudo isso já é o chumbo, corroendo minha mente?

Talvez seja por isso que eu ainda fico com raiva do Masord. Porque ele ainda parece vivo por dentro. Ele ainda faz piadas idiotas, ainda tem sotaque, ainda chora por um filho que pelo menos conheceu. Ele ainda não tem chumbo até a medula.

E eu invejo isso. Porque sei que aqui ninguém sai limpo. Ninguém escapa. Mais cedo ou mais tarde, todos nós nos tornamos pesados demais para lembrar por que estamos aqui.

Mãe Ceres diz que isso é o preço.

“Nos alimenta.
Nos educa.
E nos devora.”

Mas, por dentro, às vezes eu penso: e se já for tarde demais? E se, quando eu enfim subir para a estação, eu já não for mais eu?

E se o filho que eu nunca vi só herdar um pai feito de chumbo e saudade?

Eu não quero enlouquecer, Mãe. Eu não quero esquecer dele.

Eu só quero que ele saiba que eu lutei, até o fim, para não deixar o chumbo me devorar todo.

Porque ainda há uma parte aqui dentro…
que insiste em ser leve.

Ginásio. As máquinas rangem. O ar cheira a ferro.

O som dos cabos de aço e do atrito dos pesos preenche a mente de Tomas, já dormente de tanto chumbo. Ele continua com as repetições, músculos em tensão, olhos baixos. As palavras do seu próprio monólogo ainda ecoam: chumbo enlouquece, e nós somos feitos de chumbo, não de carne. A Mãe sabe o que faz. Mas chumbo não combina com gente…

Então, atrás dele, a voz familiar soa, com aquele sotaque enrolado de Garpan:

— “Você vai acabar dobrando essa máquina, Tomas. O ferro aqui não tem culpa dos seus fantasmas.”
Tomas ergue os olhos devagar e vê Masord apoiado na parede, com a camisa do uniforme meio aberta, suado de um treino anterior. Entre eles, sempre, os dois Silenciadores — imóveis, postados junto à porta, observando com seus olhos sem cor, seus capuzes pretos. Sentinelas de chumbo também.

— Você não devia me chamar assim — resmunga Tomas, largando os pesos. — Não é permitido. Meu nome é... meu número.

Masord sorri. Aquele maldito sorriso.
— “Ah, mas eu não vim aqui para amar a sua Mãe Ceres, Tomas. Eu vim aqui pra olhar a cara de quem ainda lembra que é humano.”

Tomas franze o cenho, mas não responde.

Masord continua, andando devagar pelo ginásio, como quem não tem medo dos Silenciadores:
— “Sabe por que vocês enlouquecem? Não é só por chumbo no sangue. É porque vocês esquecem que eram gente. Sua Mãe devora vocês vivos, mas não deixa morrer de vez. Eu não entendo vocês. Vocês têm tudo: comida, remédio, camas quentes... e um buraco enorme no peito. Aqui...” — ele bate no próprio peito — “Um buraco de silêncio.”

Tomas respira fundo.
— Você fala demais.

Masord ri.
— “E você sente demais. Por isso me odeia. Porque eu não tenho medo de falar, e você não tem coragem de sentir.”

Por um instante, Tomas aperta os olhos, como se fosse um soco. Lembra das palavras que pensou minutos atrás: chumbo enlouquece. Ele queria socar Masord até fazê-lo calar, mas uma pontinha dentro dele, escondida sob camadas de chumbo, sente inveja daquele homem que ousa rir num ginásio de Ceres.

Os Silenciadores dão um passo à frente.

Tomas ergue a mão.
— Não. Tudo bem. Ele está só... falando demais.

Eles recuam, sem palavra alguma.

Masord encara Tomas, ainda com aquele sorriso torto.
— “Sabe, chumbo não combina com gente. Mas ouro também não, Tomas. O ouro que vocês arrastam pra cá envenena a alma. A diferença é que eu prefiro ferrugem à loucura. E você? Vai deixar a Mãe te derreter também?”

Tomas não responde. Volta para a máquina. Começa outra série. O ferro range sob seu peso.

Mas, pela primeira vez naquela noite, ele não consegue afastar a sensação de que um pedaço pequeno — mínimo, quase imperceptível — do chumbo dentro dele rachou.

E isso o assusta mais do que qualquer condenação.


Vestiário. Tarde da noite.

O ginásio já está vazio. O som agora é só da água caindo do chuveiro, incessante, como chuva dentro de um túnel. Tomas está apoiado na parede fria de azulejos, a cabeça baixa, deixando a água escorrer pelo rosto.

As palavras de Masord ainda ecoam.

“Prefiro ferrugem à loucura.”
“Chumbo não combina com gente.”
“E você? Vai deixar a Mãe te derreter também?”

Ele aperta os olhos, como quem tenta expulsar a voz do estrangeiro da cabeça. Mas não consegue.

Sente um nó na garganta. E outra vez aquele sentimento proibido, aquela vergonha maior que qualquer outra coisa em Ceres: vontade de chorar.

Um filho que nunca viu. Um filho que não sabe se tem seus olhos ou os da mãe.

Não sabe se ainda vive ou se já foi devorado pela Mãe.

A Mãe que os alimenta, os educa, os protege... e os devora.

Ele desliza pelas costas molhadas da parede e se senta no chão, ainda sob o chuveiro, a água quente misturando-se com as lágrimas que ele não admite serem lágrimas.

Por um instante, fecha os olhos e imagina uma cena que nunca viveu:

Uma criança deitada num berço, as mãos pequenas tentando agarrar o dedo dele. Um par de olhos brilhantes o olhando como se fosse tudo no mundo.

E ele, Tomas, sorrindo. Um sorriso de verdade, não o riso ensaiado que se faz para os Silenciadores.

Mas a imagem se desfaz como vapor.

A água está ficando gelada.

Ele ergue os olhos para o teto do boxe e murmura bem baixo, quase inaudível, a oração que todos em Ceres aprendem:

— Ó Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa, que nos protege... que nos devora... não esqueça de mim.

Fica assim por mais um tempo, sentado na água que já se acumula no chão, sentindo-se pesado. Pesado como chumbo.

Depois, se levanta devagar. Fecha a torneira.

E com as mãos trêmulas começa a se vestir.

No bolso, carrega um rascunho amassado de carta — uma carta que nunca enviará — endereçada a um filho sem nome.
"Quando eu voltar, se eu voltar, espero que você ainda esteja aqui. E que um dia me perdoe por ter sido filho da Mãe Ceres antes de ser pai de você."

Ele guarda o papel no uniforme. Respira fundo.
Sai do vestiário de cabeça erguida, porque é isso que os filhos da Mãe Ceres devem fazer.
Mesmo com o chumbo trincando por dentro.


A Carta de Tomas

Filho,

Eu não sei se você vai receber isso um dia.
Na verdade, nem sei se você ainda existe, ou se a Mãe já te devorou como devora tudo o que um homem sonha em ter.
Eu… também não sei se posso te chamar assim.
Porque pai… pai é quem está presente. E eu nunca estive.
Mas ainda assim… filho… não encontro outro jeito de me dirigir a você.

Eu estou bem.
Pelo menos é isso que se espera que eu diga.
A Mãe cuida bem dos seus filhos. Ela alimenta, educa, protege… e devora.
Sempre devora.

A comida dela é boa, os abrigos são limpos, os remédios funcionam… mas cada um desses presentes dela tem gosto de ferro na boca. Gosto de chumbo.
E você vai descobrir, se um dia também for filho dela, que chumbo, filho, enlouquece a gente por dentro.
Mas ninguém aqui tem coragem de dizer.

Hoje conheci um homem de fora daqui.
Ele fala de liberdade como se fosse um deus, fala do filho dele como se fosse um milagre.
E eu invejo isso nele.
Eu invejo tanto que chego a odiá-lo um pouco, porque ele tem o que eu nunca tive.

Ele sabe a cor dos olhos do menino dele. Sabe como soa o riso dele. Sabe a temperatura das mãozinhas dele.
E eu… eu nem sei se você é menino ou menina.
Se tem meus olhos.
Se já disse sua primeira palavra.
Se já corre por aí.
Se ainda respira.

E é isso que me corrói, filho.

Eu dei minha vida à Mãe Ceres porque eu acreditava que era certo, que era tudo que um homem podia ser.
Mas à noite, no vestiário, com a água caindo, eu sinto… que foi covardia.
Que eu devia ter ficado pra te segurar no colo, mesmo que fosse pra morrer de fome com você.
Mas eu não fiquei.
Eu vim pra cá, porque a Mãe me prometeu que cuidaria de você melhor do que eu jamais poderia.
E eu acreditei.
Eu ainda acredito.
Mas cada vez mais isso me dói.

Por isso eu escrevo.
Mesmo que ninguém leia.
Mesmo que você nunca leia.
Porque enquanto eu escrevo, eu me lembro de que tenho um coração.
Um coração que ainda bate, mesmo pesado de chumbo.
E ele bate por você.

Se um dia eu voltar — se eu conseguir sair daqui inteiro — eu quero te encontrar.
E se você me olhar nos olhos e disser que me odeia, eu vou entender.
Mas mesmo que você me odeie, mesmo que cuspa na minha cara por ter te deixado, eu ainda vou ser seu pai.
E ainda vou amar você do mesmo jeito.

Perdoa teu pai, filho.
Ele só sabe obedecer à Mãe.
E isso não é desculpa… mas é tudo o que eu sei fazer.

Com amor — mesmo que eu não saiba demonstrar,
Tomas.


No vestiário, depois da carta

A lâmpada fria no teto joga sombras duras sobre o rosto cansado de Major Tomas. O som da água da ducha cai em cascata, abafado pelo azulejo. Ele se encara no espelho, olhos vermelhos, pupilas dilatadas — um soldado que passou da linha da resistência silenciosa.

Pega a carta amassada no bolso do uniforme e a segura contra o peito por um instante, sentindo o peso do papel como se fosse um pedaço do próprio coração.

— “Filho... eu não sei se posso ser seu pai...” — sussurra, como se pronunciar essas palavras fosse uma confissão proibida.

Suas mãos tremem levemente enquanto dobra a carta, com cuidado, quase reverência. Guarda no bolso da calça, escondida, um segredo que jamais será revelado.

A água da ducha para abruptamente. Ele se vira, encara o espelho mais uma vez, como quem desafia a si mesmo.

No reflexo, um homem endurecido pela rigidez da Mãe Ceres — um homem que aprendeu a esconder as emoções atrás de uma máscara quase inquebrável.
Mas ali, naquele instante, uma rachadura fina aparece.
— “Eu volto. Eu tenho que voltar.” — murmura para o próprio reflexo.

Ele pega a toalha e seca o rosto com movimentos bruscos, expulsando as lágrimas escondidas.
Sem mais hesitar, abre a porta do vestiário e retorna para o corredor iluminado, onde o frio e a ordem o esperam.
A rotina da engrenagem monstruosa de Ceres continuará, mas dentro dele, uma chama — tênue, mas real — ainda arde.


Diálogo na Sala de Simulação — Testes e Trocas

O zunido constante da centrífuga fazia o ar vibrar ao redor, enquanto Major Tomas e Capitão Masord estavam lado a lado, ajustando seus equipamentos, imersos na pressão do teste. Ambos sabiam que não havia vencedores ou vencidos — apenas a necessidade de estar à altura da missão que os aguardava.

Após o exercício, já fora da máquina, sentaram-se num banco frio de metal, respirando fundo. O silêncio era pontuado apenas pelo barulho distante das máquinas de simulação.

Tomas quebrou o silêncio:
— “Sua proposta para adaptar as sementes ao espaço, usando a radiação cósmica como agente mutagênico… interessante. Nunca considerei os riscos tão diretamente ligados à evolução acelerada.”

Masord sorriu com um leve sarcasmo:
— “Você acha que a Mãe Ceres permitiria algo que não pudesse controlar? O poder está no conhecimento, mas também na forma como ele é canalizado.”

— “E você, acha que o modelo da República de Garpan, com sua aparente liberdade, não esconde suas próprias prisões?” — Tomas rebateu, sério.

— “Somos todos prisioneiros, Tomas. Apenas temos grades diferentes. Mas é no diálogo que a gente encontra frestas. Fica difícil mudar o mundo sozinho, e muito menos impor o seu jeito a outro.”

Tomas assentiu:
— “Aprendi que nenhuma ideologia sobrevive sem se reinventar. As ideias novas nascem rejeitadas, sim, mas se forem úteis, se espalham. Não colonizar o pensamento alheio é um princípio que deveria guiar até mesmo a Mãe Ceres.”

Masord concordou e completou:
— “Duas mentes que divergem podem criar um caminho que uma só não veria. Se a troca é honesta, mesmo entre rivais, o mundo pode avançar. Mas o conhecimento é uma arma — e ambos sabemos que, em Ceres, ele é controle absoluto.”

Eles se levantaram. Dois homens com mundos diferentes, mas que reconheceram o valor do outro — um respeito duro, ainda que sem concessões fáceis.

O treinamento continuaria, as diferenças persistiriam, mas no meio da tensão, o entendimento começou a brotar.


No calor do ginásio, o clangor das máquinas de musculação preenchia o ar. Major Tomas puxava o peso com força, o suor escorrendo pelo rosto, a mente dividida entre o esforço físico e o pensamento crítico que sempre o acompanhava.

Ao seu lado, Capitão Masord completava suas séries, com o sorriso meio torto típico de quem carrega uma piada pronta. Entre um exercício e outro, ele quebrou o silêncio:

— “Tomas, sabe por que na minha república eles não deixam a gente brincar de esconde-esconde?”

O Major arqueou a sobrancelha, curioso apesar do cansaço.

— “Por quê?”

Masord sorriu e disparou:
— “Porque todo mundo ia acabar escondido na democracia!”

Tomas riu alto, surpreendido. Era raro, e a gargalhada escapou com uma sinceridade que incomodava a dureza de Ceres.

— “Essa foi boa, Masord. Você realmente tem talento para isso.”

O ambiente ficou mais leve, mas logo o papo voltou ao sério.

— “Sabe, Tomas — disse Masord, olhando para o suor que escorria no rosto do amigo —, mesmo com toda essa rigidez de Ceres, esse seu sistema que eu chamo de ‘totalitário e hipócrita’, a sua Mãe Ceres tem algo que a nossa república não tem: a certeza de que ninguém passa fome, que ninguém morre sem cuidado.”

Tomas assentiu.
— “Mas não é sem custo. Aqui a liberdade é uma moeda rara. O controle é total, e o preço, a alma.”

Eles continuaram trocando ideias, ponderando e aprendendo, como dois lados de uma mesma moeda. E mesmo na rigidez da rotina, encontravam no diálogo um espaço para respirar e crescer.

— Conhecimento é poder — concluiu Tomas —, e em Ceres, poder é controle. Mas, pelo menos aqui, temos uma chance de sobreviver. Não é perfeito, Masord, mas é o que temos.
Masord sorriu, concordando:
— Pois é. Quem disse que sobreviver seria fácil?

A conversa seguiu entre pesos, suor e ideias — e uma amizade nascida da adversidade.

A Fita Proibida

A sala era grande, fria e branca, com o leve zumbido das câmeras de vigilância sempre presentes, penduradas nos cantos. Cada um ocupava sua mesa: Major Tomas à esquerda, escrevendo um relatório seco, cheio de números, previsões e estatísticas agrícolas para as missões espaciais; Capitão Masord à direita, rodeado de folhas amareladas, rascunhos, cálculos meteorológicos e, curiosamente, pequenos bibelôs decorativos — um avião em miniatura, um soldadinho de chumbo, um globo com a tinta descascada.

Tomas nunca comentava sobre os bibelôs; apenas os olhava de vez em quando, como se aquilo fosse um detalhe menor diante de tudo que realmente importava. Eram os ossos do ofício — relatórios, ajustes, recomendações, protocolos. Um peso burocrático inevitável.

Quando o silêncio já pesava como chumbo, Masord se levantou, com a mesma confiança cínica de sempre, e caminhou até Tomas. Tirou discretamente uma pequena fita cassete do bolso e a deslizou por cima da mesa do Major.

— “Ouça isso depois, sozinho… não aqui. Vai entender.”

Tomas ergueu os olhos, sério, olhou a fita, leu a etiqueta escrita à mão: Imagine — John Lennon. Mesmo sem sorrir, respondeu apenas com um aceno e guardou a fita no bolso, consciente das câmeras.

Naquela noite, no alojamento, Tomas escutou. Em silêncio absoluto, fones ligados, fitas rodando. Dez vezes. Talvez mais. Cada palavra, cada verso ecoava diferente a cada repetição.
“Imagine all the people… living life in peace…”

No dia seguinte, encontraram-se na mesma sala. As mesas já cheias de papéis, mas os olhos diferentes. O mundo estava igual lá fora, mas dentro de ambos algo tinha mudado.

Masord se aproximou de novo. Tomas já tinha a fita à mão.

— “Então, Major…?” provocou Masord, com um meio sorriso.
— “Ouvi.” respondeu Tomas. “Dez vezes.”
— “E?”
— “Diga você primeiro. Quero ouvir a explicação de alguém que acredita num deus invisível.”

Masord se apoiou na mesa, eloquente, firme:
— “Essa canção é um manifesto, Tomas. É sobre imaginar um mundo sem fronteiras, sem bandeiras, sem países, sem guerras inventadas para proteger interesses falsos. Um mundo sem deuses e sem infernos, porque todas essas coisas só servem para separar as pessoas. Um mundo onde todos dividem tudo. Essa música… é sobre a única liberdade que vale a pena ter: viver sem medo e sem donos. Mesmo que nunca aconteça, é um sonho que vale a pena sonhar.”

Tomas o escutou em silêncio, olhando para baixo. Depois se ergueu, devolveu a fita para a mesa entre eles.

— “Eu ouvi outra coisa.” disse Tomas. “Eu ouvi… a Mãe Ceres.”

Masord franziu o cenho, curioso.

— “A música fala de liberdade, sim. Mas liberdade é cara, Capitão. Se todos fizerem o que desejam, nada restará. Todos os sonhos podem matar. Mãe Ceres não é perfeita, mas é segura. Ela nos alimenta, nos protege e, se necessário, nos devora para salvar a colheita. Eu… prefiro ver o rosto de Ceres todos os dias e não ver o rosto do meu filho… do que perder os dois. Porque sem Ceres… nada resta.”

O silêncio pairou. Tomas continuou, mais baixo:

— “Você tem um deus que nunca viu, mas pode ver seu filho sempre que quiser. Eu não tenho deus nenhum. Mas vejo Ceres sempre que abro os olhos. Aqui não precisamos de deuses. Só dela.”

Masord sorriu de leve, sem ironia, apenas reconhecimento.

— “É… eu posso ver meu filho. Mas meu filho vai herdar um mundo que eu mesmo destruí… talvez seja eu que precise de uma Mãe Ceres, no fim das contas.”

Ambos ficaram olhando para a fita, agora em cima da mesa, entre os dois. Os olhos de Tomas endureceram outra vez.

— “O mundo, Capitão, está sempre em guerra. A paz é apenas um acidente.”

E dessa vez Masord riu. Riu como só ele sabia rir: com um humor cortante e, ao mesmo tempo, leve.

— “Major… com essa frase você me venceu. Mas…”
Fez uma pausa, e completou, com uma piada que até Tomas não conteve o riso:
— “…só me diga que a Mãe Ceres não tem TPM, senão estamos todos perdidos.”

Tomas gargalhou. Sincero. Talvez pela primeira vez em anos.

E, por um instante, as câmeras não registraram nada além de dois homens rindo baixo, compartilhando uma fita proibida e duas ideologias inconciliáveis.

No fundo, ambos sabiam: conhecimento era poder.

E poder sempre seria controle absoluto.

Mas, naquele momento, havia apenas justiça — e um começo de reconciliação.




Anotações confidenciais — Observadores da Mãe Ceres
Data: 00—112—CE
Local: Sala de Estudos Avançados – Setor Astronáutico
Relatório nº: 947—C
Classificação: ULTRA—CONFIDENCIAL

Sumário do Observado:

  • A interação entre Major Tomas (Ceres) e Capitão Masord (Aliança) prossegue em clima respeitoso e intelectualmente produtivo.

  • Nenhum dos dois demonstra hostilidade explícita.

  • Nenhum cedeu suas convicções.

  • Nenhum buscou derrotar o outro.

A fita cassete com a música Imagine foi utilizada como catalisador para uma conversa filosófica sobre fronteiras, divindades, liberdade e responsabilidade social.
Major Tomas interpretou a canção como metáfora dos perigos da liberdade absoluta e da importância da segurança oferecida por Ceres.
Capitão Masord interpretou a mesma canção como manifesto de libertação dos grilhões ideológicos e institucionais.

Comportamento Notável:

  • Sorrisos genuínos foram registrados.

  • Major Tomas gargalhou pela primeira vez desde o início do programa.

  • Ambos usaram a ironia com moderação e se permitiram rir um do outro.

  • Nenhum vestígio de sabotagem, insultos ou desafio à integridade do outro foi identificado.

Conclusão Preliminar:
O teste não visa provar quem é “melhor” em suas convicções.
Não se trata de defender a Mãe Ceres como se ela fosse frágil, nem de atacá-la como inimiga.
Espera-se desses homens a compreensão mútua — porque nenhuma política, por mais perfeita, sobrevive sem diálogo.
O verdadeiro teste está em aprender a ouvir o inimigo sem se tornar inimigo, e encontrar justiça sem aniquilar o outro lado.

A Mãe Ceres já entendeu:

  • Os dois são úteis.

  • Os dois têm valor.

  • Ambos provaram que conhecimento não é só poder — é também ponte.

  • E, quando necessário, é escudo.

Encaminhar à Direção Central para arquivamento e eventual uso em instruções diplomáticas futuras.

Fim do Relatório.


Nota interna — Direção Central de Ceres
Ultra confidencial — leitura restrita a devorados nível Ómega ou superior
Data: 00—113—CE
Setor: Direção Central — Sala Frontal

Todos os presentes vestiam máscaras escuras integrais, com lentes opacas cobrindo todo o rosto.
Nenhum nome foi pronunciado em voz alta.
A única identidade relevante aqui é a de Mãe Ceres.

Assunto: Relatório 947—C (Interação entre Major Tomas & Capitão Masord)

Síntese apresentada:

  • Os dois candidatos demonstraram comportamento alinhado aos valores estratégicos da Cidade—Mãe.

  • Souberam trocar ideias sem tentar colonizar o pensamento do outro.

  • Compreenderam que a verdadeira diplomacia não nasce do esmagamento, mas do equilíbrio e da vigilância.

  • Permanecem devotados a suas causas, porém lúcidos para reconhecer méritos no outro.

Major Tomas reafirmou sua lealdade à Mãe Ceres, defendendo as fronteiras e a segurança coletivas acima dos devaneios individuais, vendo a liberdade como luxo perigoso.
Capitão Masord apresentou crítica racional e coerente, lembrando que liberdade e espiritualidade podem florescer mesmo em ambientes hostis.

Decisão da Direção Central:

  • Nenhum dos dois será afastado ou substituído neste momento.

  • Ambos seguirão nas funções designadas, servindo de modelo para futuras instruções diplomáticas.

  • A gravação da música (Imagine) será arquivada para uso didático em seminários sobre doutrinação.

  • O relatório 947—C será citado como exemplo de cooperação sem rendição ideológica.


Nota geral sobre o estado da Cidade—Mãe:

  • Todos os devorados continuam integrados à engrenagem, conforme esperado.

  • Ninguém conhece nomes.

  • Ninguém possui história própria.

  • Ninguém foge impune à sua função.

Nos alojamentos, a disciplina é rigorosamente mantida:

  • Horário de serviço das 08:00 às 17:30.

  • Domingo reservado para esportes, exercícios físicos e formas controladas de lazer.

  • Treinamentos militares permanecem como bônus comportamental e enriquecimento do currículo interno.

O sexo é tolerado, porém rigidamente controlado, pois Mãe Ceres precisa de filhos.
Métodos contraceptivos são ensinados às mulheres para reduzir riscos, mas falhas humanas ainda ocorrem.
Filhos nascidos são enviados a alojamentos específicos; as mães retornam após 10 anos, reintegradas ao sistema como devoradas.

Abortos clandestinos continuam sendo identificados e punidos com a perda do nome, conversão a número alfanumérico e subsequente queima pública nas praças da cidade, servindo de exemplo geral.

Mãe Ceres não abandona ninguém — mas exige sacrifício total.

Conclusão:
O mecanismo funciona.
Ambos os candidatos demonstraram que os devorados ainda são capazes de produzir novas engrenagens, pensamentos e armas para manter Ceres segura.
Toda luz de humanidade que resta neles será convertida em combustível para a Cidade—Mãe.

Assinado:
A Direção Central
(Sem nomes. Apenas máscaras. Apenas Ceres.)







O salão era vasto, frio, sem janelas.
O som metálico dos passos ecoava no mármore negro enquanto as figuras tomavam seus lugares em torno da mesa circular.
Todos vestiam máscaras escuras que cobriam integralmente o rosto, como grandes óculos escuros derretidos sobre a carne.
De cada máscara pendia um discreto tubo de respiração — parte estética, parte símbolo, parte punição.
Ninguém disse um nome.
Ninguém ousaria.

No centro da mesa, uma esfera de vidro girava lentamente.
Dentro dela, uma engrenagem se movia — feita de ossos humanos, marfim polido e tiras de músculos ainda pulsantes.
A máquina viva gemia baixinho a cada volta completa, como se sentisse a dor de servir.

Um deles — talvez o mais velho — acionou o terminal, e uma voz eletrônica preencheu o ar com neutralidade cirúrgica:
— Relatório 947—C. Candidatos: Major Tomas e Capitão Masord.
— Ambos continuam devorados. Ambos provaram utilidade para a engrenagem.
— Ambos foram testados. Ambos compreenderam: não se trata de vencer. Trata-se de servir.
— A engrenagem não se importa com quem pensa estar certo. A engrenagem só exige que continuem girando.

Alguns membros mascarados se inclinaram levemente em aprovação, como dentes de uma coroa dentada ajustando-se uns aos outros.
Outros ficaram imóveis, deixando claro que, ali, ninguém realmente escolhia nada.
Era Mãe Ceres quem girava.
Eles apenas rangiam.

A máquina viva no centro do salão deu mais uma volta.
Um estalo ósseo soou quando um fêmur rachou e se reencaixou à engrenagem.
Sangue fresco escorreu pelo mármore, sem que ninguém demonstrasse reação.

— Aprovação unânime — anunciou a voz eletrônica.
— Relatório arquivado. Candidatos mantidos. Máquina intacta.
— Os filhos continuam alimentando a Mãe.

Um silêncio ritualístico dominou o salão por alguns segundos.
Depois, um a um, os devorados mascarados se ergueram, giraram mecanicamente e caminharam para fora, suas botas rangendo em uníssono no piso frio.

A última a sair desligou a esfera giratória, sufocando os gemidos da engrenagem.
No escuro, o salão respirava sozinho, como um pulmão de aço e ossos, esperando a próxima reunião.

A noite caía sobre os alojamentos da Base de Astronautas.
O céu de Ceres, cinzento mesmo à noite, só deixava passar um punhado de estrelas pálidas, que mais pareciam olhos de sentinelas do que promessas de liberdade.

Tomas estava sentado em sua cama estreita, ainda vestido com o uniforme impecável.
No bolso da túnica, guardava a fita de Imagine, tão proibida quanto a ideia que ela carregava.
Mas naquela noite, ele não a ouvia. Não ainda.
Não ousava.

As palavras da voz eletrônica ecoavam na mente como pregos sendo martelados:
— Os filhos continuam alimentando a Mãe.
— A máquina intacta.

Ele fechou os olhos por um instante, tentando não pensar no som da engrenagem viva rangendo ossos e chorando sangue.
Era isso que eram?
Todos eles?
Dentes e vértebras de uma engrenagem faminta?

Abriu os olhos e, do outro lado do quarto coletivo, vislumbrou um pequeno detalhe que chamou sua atenção:
um devorado recém-chegado ajeitava suas coisas na cama vizinha. Também usava máscara, e seus movimentos eram suaves, quase servísseis.
Quando notou o olhar de Tomas, apenas se curvou levemente, num gesto mudo de cumprimento.
Depois voltou ao trabalho, como se nada houvesse.

Tomas recostou-se na cama, encarando o teto de concreto.
O som das botas lá fora marchando, sempre iguais.
O cronômetro na parede marcava as horas da próxima vigília.
No ar, um cheiro metálico — ferro, suor e talvez sangue.

E então pensou na música.
E na frase que Masord dissera no dia anterior, quase como piada:
— Aqui não existem deuses… apenas engrenagens. Mas é um consolo saber que, ao menos, somos necessários para a Mãe.

Na hora, Tomas rira.
Agora, sozinho, não sabia se aquela risada ainda fazia sentido.

Pegou a fita entre os dedos.
Olhou-a longamente.
Suspirou.

E murmurou para si mesmo:
— Que girar na máquina… seja menos doloroso do que ser cuspido para fora dela.

Depois, voltou a guardar a fita no bolso.
Fechou os olhos.
E, como uma engrenagem, adormeceu.

A sala era imensa, iluminada por lâmpadas brancas que chiavam, fria como um necrotério.
No centro, isolada por uma cúpula de vidro reforçado, girava a Máquina.
Rodas dentadas, cilindros de aço, correias que estalavam com precisão cruel.
A “Engrenagem—Mãe”, como os devorados a chamavam, alimentada pela energia humana, pelo trabalho de todos eles.

Tomas já estava lá, parado diante do vidro, quando Masord chegou com sua prancheta de anotações.
O capitão olhou para a estrutura com um suspiro leve, como quem vê um motor qualquer.
— É… impressionante, para um sistema tão antigo — comentou ele, casualmente. — Uma boa manutenção, eu diria. Ouvi dizer que funciona há mais de cem anos. Sem um único colapso.

Tomas não respondeu logo.
Seus olhos não piscavam, fixos na máquina que girava.
— Ela nos olha… — murmurou ele, como para si mesmo. — Nos olha por dentro… e sabe exatamente quem somos.

Masord franziu a testa e ergueu os olhos para Tomas. Depois voltou a encarar a máquina com mais atenção.
— Hm? Não vejo nada. Apenas engrenagens, Major. Apenas aço. Metal não olha ninguém.

Tomas finalmente desviou o olhar do vidro para ele.
— É porque você não nasceu aqui, Capitão. Nós, de Ceres… sentimos. Quando estamos diante dela… sentimos que a Mãe está ali dentro. Observando. Pesando cada pensamento nosso. Cada pecado.

Masord soltou uma risadinha seca e balançou a cabeça.
— Superstição. Folclore estatal, isso sim. Um truque psicológico bem ensaiado, implantado desde crianças. — Ele deu um leve tapinha no vidro. — É só isso aqui, Major: ferro, graxa e vidro. Não há nada além disso. Nenhum espírito. Nenhuma "mãe". Só… estalos.

O silêncio ficou mais pesado do que o ruído mecânico.
Tomas manteve os olhos em Masord, pensativo.
Não era raiva que sentia — era mais como inveja. Ou talvez pena.
A leveza com que Masord podia chamar aquilo de “nada” era inconcebível para alguém que crescera sob a sombra da Mãe Ceres.

— Talvez você esteja certo — disse Tomas, finalmente. — Talvez seja só ferro e estalos… para você. Mas para nós… ela é tudo. Ela está aqui. Está sempre aqui. E é melhor acreditar… do que descobrir o contrário.

Masord ergueu a prancheta, anotou algo sem pressa, e respondeu:
— É por isso que os de fora sempre têm vantagem. Porque não escutamos esses… estalos da consciência. Só os da engrenagem.
— Ele ergueu os olhos e sorriu com um canto de boca. — Mas isso não quer dizer que eu não respeite sua fé. Não vou fingir que entendo, mas… respeito. Afinal, até os deuses têm utilidade, quando ajudam a manter a ordem.

Tomas deixou escapar um suspiro, um riso nervoso, quase resignado.
— E no fim, é só isso que ela quer, não é? Ordem.

Os dois ficaram lado a lado, diante do vidro, escutando os estalos secos da máquina e o zumbido das lâmpadas.

Masord voltou a olhar para Tomas.
— Não precisa acreditar que a máquina está viva, Major. Mas não há problema nenhum em sentir… que ela faz parte de você.

E, pela primeira vez em muito tempo, Tomas sorriu um pouco mais sincero.
— Talvez seja isso… que nos faz devorados.

E ambos voltaram às suas pranchetas, o som da máquina preenchendo tudo ao redor, cada um com sua própria forma de compreender aquele coração metálico de Ceres.

Os dois ficaram lado a lado diante do vidro, o som dos estalos da máquina preenchendo a sala como um mantra cruel.

Masord ajeitou os óculos escuros, observou o mecanismo girando, indiferente ao que Tomas sentia.
— Para mim — disse Masord, calmo — é só uma máquina bem construída. Nada mais.
— Ele suspirou, e acrescentou, quase como uma provocação educada: — Por que vocês se deixam afetar tanto?

Tomas demorou a responder. Olhava fixamente a Engrenagem—Mãe, imóvel, com os olhos enevoados por uma emoção densa.
Respirou fundo, ergueu os olhos para Masord e disse, com tom sereno mas incontestável:
— Explicar a emoção de ser da Mãe Ceres… a um cidadão de Ceres… é totalmente desnecessário.
— E a quem não é da Mãe Ceres…
— …é simplesmente impossível.

A sala caiu num silêncio pesado depois disso.
Masord baixou os olhos para a prancheta e, pela primeira vez, não respondeu nada.
A máquina continuou a estalar, indiferente a eles dois.

Quando saiu da sala, Masord retirou lentamente os óculos escuros, sentindo o ar frio do corredor cortar-lhe a pele como navalha.
O estalar da máquina ainda ecoava em sua mente — aquele som seco, ritmado, como ossos quebrando e se recompondo.

Ele repetia mentalmente a frase do Major Tomas:
“Explicar a emoção de ser da Mãe Ceres… a um cidadão de Ceres… é totalmente desnecessário. E a quem não é da Mãe Ceres… é simplesmente impossível.”

Impossível.
E, no entanto… fascinante.

Ceres era perfeita, disso ele não podia mais duvidar.
Era uma perfeição mecânica, matemática, absoluta — mas havia nela algo danificado.
Como se sua própria perfeição a tivesse corroído por dentro, feito um espelho trincado que ainda assim refletia.
Um milagre… ou uma praga?
Ele não sabia dizer. Só sabia que o veneno de Ceres era contagiante. E, como todo veneno, perigoso.

“Um ninho de cobras,” pensou.
“Sem asas, mas com um corpo longo o bastante para abraçar tudo. E o veneno… ah, o veneno pode ser estudado. Pode-se até fazer um antídoto.”

Um regime fascista — disso não havia dúvida —, mas ele não conseguia arrancar dos olhos as imagens que vira nas ruas ao chegar.
Filas para o pão, crianças de uniforme limpo, ninguém mendigando nas esquinas.

E ele mesmo já sentira fome, fome de verdade, na guerra de seu próprio país.
Um homem que já sentiu fome não deseja isso para ninguém.

“Talvez seja só isso que mantém Ceres de pé,” concluiu em silêncio, enquanto caminhava pelo corredor branco e silencioso.
“Não morrer de fome. A Mãe cuida, educa… e devora. Para que outros não passem fome.”

Por um instante, parou junto a uma janela alta e olhou para a cidade lá fora, com suas luzes frias e ruas impecáveis.
Sorriu de canto de boca, quase com ironia — mas com um respeito que não queria admitir.

“Bonita, essa serpente.”

E seguiu.


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