Melancolia Alegre
O colégio militar de Ceres era um campo aberto de disciplina.
Não havia muros, apenas fileiras infindas de trigo e soja que balançavam ao vento, como uma tropa silenciosa em posição de sentido. O barulho das máquinas de irrigação e bombas d'água preenchia o ar. Ao longe, via-se a silhueta imponente da torre da Mãe Ceres.
Ali se moldavam os cidadãos de Ceres: crianças e adolescentes entre dez e vinte anos, dentro da doutrina horizontalista — igual para todos, sem heróis, sem mártires, apenas engrenagens na máquina da Mãe.
“Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e nos devora.”
Os corredores eram campos.
As salas de aula, hangares.
E os campos de treinamento ecoavam estalos secos de golpes de luta, rajadas dos fuzis de prática, e o som áspero do flagball, o “esporte de contato elegante” — embora muitos saíssem dele com o rosto marcado.
No pavilhão feminino, saltos ornamentais aconteciam sobre piscinas cristalinas, onde moças treinadas como soldados desciam como estátuas de mármore vivo, sem um respingo fora do lugar.
Para além dos campos, ao sul, os trilhos de ferro riscavam a terra. Quatro linhas perfeitas, imensas, sobre as quais deslizavam os trens blindados: carregando armas, comida, medicamentos, máquinas…
Ceres não parava.
Ceres não precisava parar.
Dark observava tudo aquilo como se fosse só um espetáculo distante — porque, para ele, era.
Era um cidadão de Ceres por obrigação e espectador do mundo por prazer.
A única pessoa que realmente lhe despertava simpatia era ele mesmo.
Andava sozinho pelos campos, mãos atrás das costas, olhar tranquilo demais para um garoto de dezessete anos. O vento fazia o trigo cantar, os vagões pesados começavam a se mover nos trilhos, e Dark caminhou até eles, sem pensar duas vezes.
Saltou na lateral de um vagão e se acomodou como se já fosse seu por direito.
Sentou-se sobre o ferro frio, os olhos fixos no horizonte.
Para oeste, as planícies caíam em um vale profundo. Mais além, montanhas cobertas de neve.
E lá no limite da visão, a Torre de Mãe Ceres erguia-se, sentinela e carcereira, sempre lá, sempre perto demais para ser ignorada, sempre longe demais para ser alcançada.
O sol se punha, tingindo o céu com uma miríade de cores, e a neve das montanhas parecia acender-se em chamas frias.
Dark apoiou o queixo na mão e sorriu sozinho.
O trem ganhava velocidade aos poucos, rangendo sob o peso da própria importância, mas ele não se importava. O som dos trilhos era quase hipnótico.
Cada segundo era como um filme acelerado — um timelapse onde tudo se movia rápido demais para ser sentido, mas ele sentia mesmo assim.
Porque Dark tinha essa peculiaridade:
A psicopatia fria que o impedia de amar os outros não o impedia de amar o espetáculo do mundo.
Para ele, cada instante era belo demais, cruel demais, rápido demais para não ser observado.
Outros só se encantavam com um timelapse quando aceleravam a filmagem para encontrar a poesia.
Dark não precisava acelerar nada.
Para ele, cada segundo já era um timelapse.
Cada segundo já era suficiente para ver toda a beleza — e toda a indiferença — da Mãe Ceres.
Enquanto o sol morria atrás das montanhas, ele sussurrou para si mesmo, num sorriso:
— Mãe Ceres, que nos alimenta… que nos educa… e que nos devora.
E deixou que o vento frio da planície lhe cortasse o rosto, como um beijo.
O trem avançava devagar pelos campos, rangendo, cuspindo vapor para a tarde que se apagava. Dark permanecia ali, sentado no vagão, com o queixo apoiado na mão e o olhar cravado no horizonte — tão quieto que se confundia com a própria paisagem.
Só quando sentiu o peso incômodo nas costas percebeu: a mochila ainda estava lá.
Passou a mão sobre o tecido áspero, puxou o zíper e encontrou a velha rede de flagball rasgada.
Sorriu sozinho ao lembrar do choque.
Era uma jogada rápida demais — mesmo para alguém como ele.
O contato foi duro, seco, brutal.
Ele e Theo rolaram juntos pelo campo, a rede arrebentou entre eles.
Theo se levantou primeiro, com o uniforme manchado de terra e sangue nos lábios.
Os olhos dele eram como pedras.
Ódio puro, disciplinado.
Dark só riu.
Não odiava Theo. Nem um pouco.
Theo era… divertido.
Era a exceção na massa previsível de cidadãos de Ceres.
Era um oponente digno.
Alguém que jamais abaixava a guarda, mesmo diante do caos.
Dark não precisava odiá-lo para apreciá-lo.
Havia algo fascinante em um inimigo que não fugia nem se quebrava.
Três anos.
Esse era o tempo que ainda tinham antes que a Mãe os devorasse por completo — a expressão era essa mesmo, “devorados pela Mãe”, como dizia o mantra:
Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa e nos devora.
Ao completarem vinte anos, todos seriam enviados para o coração da cidade, designados para suas funções.
Dark provavelmente seria soldado — disso todos já sabiam.
Mas ele não se preocupava com isso.
Três anos ainda eram muito tempo para ver o mundo acontecer, para assistir ao espetáculo do caos diário.
E, por enquanto, bastava que ele descesse do trem.
A cerca de três quilômetros adiante, em direção à torre de vigília da Mãe, erguia-se um antigo hangar de cereais.
Estava abandonado há anos, tomado por pó e silos vazios.
Era ali que Dark encontrara seu refúgio — um pedaço de silêncio só dele, onde ninguém o seguia, ninguém o importunava, ninguém ousava entrar.
O trem rangeu nos trilhos ao diminuir a velocidade para trocar de chave.
Dark saltou, sentindo o impacto seco nos tornozelos, e caminhou lentamente pela estrada de terra batida.
O vento soprava contra ele, trazendo o cheiro adocicado do trigo, o aroma metálico do trem e o frescor frio das montanhas distantes.
Chegou ao hangar quando o céu já se tingia de roxo.
Empurrou a porta pesada, que gemeu como se despertasse de um sono longo.
O espaço lá dentro era imenso e escuro, iluminado apenas pelas frestas da parede corroída.
E era só dele.
Dark largou a mochila num canto, subiu numa das plataformas de madeira e sentou-se com as pernas pendendo no vazio.
Tirou a rede de flagball da mochila, passou os dedos pelas fibras arrebentadas.
Lembrou da expressão de Theo ao se levantar depois do choque, e riu de novo — um riso seco, baixo, como quem ri sozinho de uma piada que só ele entende.
Depois fechou os olhos e deixou-se ficar ali.
Apenas escutando o som distante dos trens, o sussurro do vento entrando pelas frestas, o silêncio pesado da Mãe Ceres vigiando ao longe.
Ele era um espectador.
Era tudo o que queria ser.
Sussurrou, quase sem som, apenas para si mesmo:
— Ainda falta tanto para a Mãe me devorar. Melhor aproveitar cada mordida antes disso.
Ficou ali, imóvel, com um sorriso frio, sentindo o mundo correr por baixo dele, como um timelapse que nunca parava.
O hangar não era apenas um refúgio.
Era um horror.
Dark acendeu uma lâmpada portátil pendurada no pilar central, e a luz amarelada revelou a cena.
O cheiro metálico de sangue impregnava o ar frio do interior.
No chão, entre restos de grãos e ratos esmagados, corpos de animais estavam espalhados.
Alguns abertos do pescoço ao rabo, costelas escancaradas como páginas de um livro macabro.
Outros, empalados em estacas improvisadas, ainda debatendo as pernas num último reflexo.
Sangue escorria para as frestas do assoalho.
Dark caminhou entre eles com a calma de um cirurgião e a curiosidade de uma criança.
Ajoelhou-se diante de um cão empalado, cujos olhos ainda o fitavam com terror instintivo.
Pegou um estilete da mochila e, com gesto delicado, abriu mais uma vez o abdômen do animal.
O som era úmido, quente, vivo.
Para Dark, não havia diferença entre abrir um brinquedo para ver como funciona e abrir um ser vivo para descobrir o que há dentro.
Era apenas… mecânica.
Um mecanismo.
Engrenagens de carne.
E ele queria entender como todas elas se moviam.
Mas a história não começava aqui.
Nem mesmo dentro dele.
Dezessete anos atrás, muito longe dali, na fronteira com Arcádia, uma jovem mulher, com o ventre enorme e a respiração ofegante, tentava atravessar os campos à noite.
Levava nos olhos o desespero de quem não tinha nada — nada além daquela barriga carregada de futuro.
Dizia a si mesma, entre soluços:
Ceres é a cidade invejada. Ceres nunca deixa seus filhos morrerem de fome. Nem cães, nem gatos, nem crianças... todos comem, todos dormem, todos sobrevivem. Não há liberdade, mas liberdade não enche barriga. Não paga contas. Não salva ninguém. Melhor ser escrava da Mãe do que cadáver de Arcádia.
Ela rastejou por entre os arames farpados, rasgou a carne das mãos, manchou a neve com sangue.
Mas não parou.
Atrás dela, as luzes vermelhas das sentinelas de Arcádia ainda iluminavam a morte e o medo.
Na frente, para além da cerca, as luzes pálidas de Ceres prometiam um ventre frio e seguro.
Dark nunca conheceu aquela mulher — mas carregava o peso da decisão dela todos os dias.
Ela o trouxe para este mundo para ser um cidadão de Ceres.
Alguém que comia, que dormia, que trabalhava para a Mãe.
E que, um dia, inevitavelmente, seria devorado por ela.
Dark passou o estilete sobre a pele do animal empalado, ainda quente e trêmulo, e sorriu sozinho.
Pensava em como a Mãe Ceres era perfeita.
Implacável.
Como um predador sem coração, que ainda assim alimentava sua presa antes de matá-la.
Não havia nada mais lógico do que isso.
Era um sistema perfeito.
Ceres jorrava mel, e Arcádia jorrava sangue.
A mulher que fugira, sua mãe ou não, entendia isso.
Dark entendia ainda mais.
Porque, para ele, toda vida era só engrenagem.
E toda engrenagem um dia parava.
O que importava era ver como ela funcionava antes do fim.
No silêncio do hangar, ele se ergueu, limpou as mãos no uniforme manchado e murmurou para as sombras:
— Obrigado, Mãe. Por me alimentar… por me educar… e, quando chegar a hora, por me devorar.
E voltou ao trabalho.
Um sorriso frio e satisfeito estampava seu rosto enquanto a lâmina rasgava a próxima peça do seu laboratório de horrores.
Era noite na fronteira.
A neve suja de lama, os arames farpados engordurados de sangue antigo, as torres de vigia com holofotes girando como olhos cansados.
A mulher avançava em silêncio, com a respiração falhando no frio cortante.
Carregava no ventre um peso maior que a própria vida.
Cada passo era dor. Cada contração vinha como um aviso: corra ou morra.
E ela correu.
Os faróis de Arcádia ficaram para trás. O cheiro de pólvora e medo ficou para trás.
E então ela pulou.
O arame rasgou-lhe a pele, a neve queimou-lhe os pés, mas ela caiu do outro lado — o lado de Ceres.
O lado onde a fome não existia.
O lado onde ninguém morria por falta de pão.
O lado que era invejado por todos, odiado por muitos e temido por todos os deuses já enterrados.
Ela caiu de joelhos.
Um instante de alívio, um suspiro, um soluço.
Ela acreditava que sobreviveria.
E então… os soldados apareceram.
Pretos como sombras, marchando ao som da engrenagem invisível que regia a cidade.
Nem gritaram. Nem falaram.
Avançaram.
A mulher sequer teve tempo de se erguer.
O primeiro golpe abriu-lhe a perna, arrancou-lhe o fôlego.
O segundo rasgou-lhe o peito.
Os outros vieram em sequência — rápidos, calculados, precisos.
Seu corpo se desfez em pedaços.
Cabeça. Braços. Pernas.
A cada batida do coração, sangue espirrava da carne viva como uma mangueira entupida, cuspindo vermelhidão na neve.
Ela era apenas mais um pedaço de carne que ousara desafiar as regras da sobrevivência.
Um corpo útil, mas quebrado.
Inútil para a engrenagem.
Os soldados recuaram um passo, olhando para o que haviam feito.
Nenhuma culpa, nenhuma glória.
Era apenas mais um dia na fronteira.
Então… algo se mexeu.
No meio da lama quente, um vulto.
Pequeno.
Vivo.
Os soldados entreolharam-se.
Apontaram as baionetas para a coisa, esperando um rato, um cão, qualquer parasita da noite.
Mas não era.
Era um bebê.
Ensanguentado, sem choro, sem medo.
Os olhos já abertos, fixos nos homens diante dele.
Dark.
Os soldados se aproximaram devagar, silenciosos.
Um deles sussurrou, como se confessasse um segredo proibido:
— Filho da Mãe Ceres.
Porque, mesmo num regime que se dizia horizontal, sem religião, sem santos nem mitos…
Mesmo onde a Mãe Ceres matara todos os deuses e os enterrara em caixões metáforicos para mostrar ao povo que nenhum messias salvaria ninguém, que nenhum poeta ou fantoche divino acabaria com a fome — ainda assim, eles temeram.
Temeram aquele bebê sem lágrimas, sem lamento, deitado na lama como um feto de ferro.
Sabiam o que a Mãe diria:
"O mundo está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente. A sobrevivência está acima da liberdade."
A Mãe não abandona seus filhos.
Nem mesmo os defeituosos.
Porque todos são suas ferramentas.
Todos são dentes da engrenagem.
E aquele bebê era um dente a mais.
Frio, silencioso, necessário.
Dark foi erguido da lama pelos braços, envolto num cobertor militar.
Era mais um filho para ser alimentado, educado e, quando chegasse a hora, devorado pela Mãe Ceres.
E a engrenagem continuou a girar.
Dark se divertia com seus brinquedos de carne e osso.
Ria sozinho, girando uma lâmina entre os dedos, enquanto abria um dos corpos como quem desmonta um brinquedo.
As entranhas escorriam lentas, as patas ainda se debatiam — mas, para ele, aquilo era apenas mais um passatempo.
A cada estalo de cartilagem, seus olhos brilhavam — como se o som fosse música.
Até que parou.
Alguma coisa estava errada.
Uma das carcaças no canto do hangar não carregava sua marca.
Não era dele.
Alguém… ou algo… havia rasgado aquele corpo antes.
Dark sentiu um arrepio leve — quase um prazer.
Virou-se, devagar.
E então os viu.
Quatro olhos vermelhos, brilhando na escuridão do depósito.
Dois cães negros, enormes, cada um com quase quarenta quilos de músculo e raiva.
Vieram de Arcádia, trazidos na última partida em Ceres. Um experimento estrangeiro, talvez.
Não eram normais.
Babavam, rosnavam, avançavam um passo de cada vez — a saliva espumando, quente.
Olhos cravados nele. Como se soubessem que ele era… diferente.
Dark riu.
Baixo.
Um riso seco, frio.
Pegou a velha rede de flagball, dobrada num canto — sempre teve serventia.
Girou a corda entre os dedos.
Os cães saltaram.
Foi bonito.
Com movimentos aprendidos nos exercícios militares da escola, Dark prendeu o primeiro num laço rápido e o jogou contra a parede.
O segundo tentou mordê-lo no flanco — mas já estava emaranhado na rede, uivando, os dentes trincando no vazio.
Dark não parecia cansado. Nem ofegante.
Era isso que Ceres ensinava aos seus filhos: mesmo numa paz de oitenta anos, prepará-los para a guerra que nunca veio.
Crianças treinadas no tédio e no ódio — alimentando o regime como combustível.
Dark se ajoelhou ao lado de um dos cães, agora imobilizado, e sorriu para ele.
— Não é pessoal — murmurou, passando a mão na cabeça ensanguentada do animal. — É só… divertido.
E os olhos vermelhos se apagaram.
Dark olhou para suas novas presas, amarradas com perfeição.
Observava a anatomia estranha daqueles cães negros, estudava cada músculo, cada osso que se movia sob a pele tensa.
Nunca tinha visto nada igual — e isso o divertia.
Havia algo de belo naquilo: o inesperado, o defeituoso, o anormal.
Mas já era tarde.
O toque de recolher soaria às dez, e Dark conhecia os horários dos trens blindados como quem conhece o próprio pulso.
Precisava voltar.
Limpou as mãos, enrolou a rede de flagball nos ombros e saiu do hangar com a mesma nostalgia que sempre o tomava naquele caminho de volta — um caminho frio, cheio de vento, cheio de escuridão… uma escuridão que combinava perfeitamente com seu nome.
Amanhã ele voltaria para cuidar dos novos brinquedos.
Com mais tempo.
Com mais calma.
E talvez, finalmente, os abrisse como se fossem caixas de presente.
No refeitório do colégio, as mesas roncavam com conversas abafadas e o barulho das bandejas.
Dark se acomodou no seu canto de sempre, encostado na parede fria, os olhos fixos no prato à sua frente.
Cors olhou direto pra ele e, sem disfarçar a leitura labial:
— Vai tomar no seu cu, cuzão.
Dark sorriu um pouco por dentro. Nem precisava de resposta.
Olhou pro lado e viu Vanks coçando a testa, o dedo médio levantado num gesto automático, enquanto Kan, o novo atleta de flagball, se mantinha na sua, silencioso e concentrado.
Tudo normal.
Tycho, do outro lado, encarava o dilema diário antes do café da manhã — um misto de resignação e desafio.
Theo permanecia em silêncio, como sempre.
Daime, o cadeirante que não aceitava meias palavras, cortou o silêncio com seu tom ácido:
— Você é um babaca. Ceres, que tem o mesmo nome da cidade, também é babaca. Vocês dois só fazem babaquices.
Theo lançou um olhar entediado, como se já tivesse ouvido isso mil vezes.
Daime continuou, apontando pra Theo:
— Fiquei sabendo que você trombou com o idiota do Dark. Rasgou até a rede.
Theo apenas confirmou com um aceno.
Daime riu, malicioso:
— Sorte sua que ele joga bem. Mas não mais que você. Só tem um problema: o desgraçado é desequilibrado, mas tem fogo!
Theo respirou fundo e respondeu com calma:
— Também acho. Dark só quer o caos. Confesso que às vezes isso me diverte.
Daime olhou para os dois e concluiu:
— Vocês são iguais. Você é um animal político polido, ele é outro animal — só que selvagem.
Aposto que você faz muita coisa suja por baixo dessa pose.
Theo ficou em silêncio, deixando o comentário pairar no ar.
Foi quando um cheiro diferente cortou o ambiente — poucas garotas usavam perfume ali.
O aroma delicado invadiu o ar pesado do refeitório.
Dru entrou furiosa, sentou-se ao lado de Daime e Theo, os olhos cheios de perguntas e provocações:
— Manda o desgraçado fedelho do seu irmão sair da minha zona de venda!
Theo ergueu uma sobrancelha:
— Tycho? O que ele fez?
Dru cruzou os braços, sem diminuir o tom:
— Ele tá consertando toca-fitas quebrados e tá ganhando a freguesia toda.
Daime gargalhou alto:
— Você tá levando uma surra de um fedelho catarrento? O Tycho não faz mal a ninguém, aquele gordo maldito — desculpa, Theo — Dru, eu esperava mais de você!
Dru, furiosa mas firme, encarou Theo:
— Faça ele parar!
Theo sorriu com ironia:
— Espera aí… Você cria suas moedas de latão, com “MÃE CERES” gravado, cria latrocínios baseados no seu caderninho da maldade… Daí vem meu irmão, que eu sei que você enganou com uma lata de chocolate em pó, e ele sai por aí consertando coisas, usando sua moeda de confiança — um sistema que você mesma inventou.
Ele deu uma pausa, fixando os olhos nela:
— Você devia ter orgulho dele. Isso prova que seu sistema funciona. E mais: o tipo de capitalismo das suas coisas, que a gente considera válido aqui no colégio, seria proibido fora. Sorte que a Mãe Ceres não vê isso como incômodo, e tá tudo bem. Como diz nas nossas aulas de economia: capitalismo não é selvagem. As pessoas é que são selvagens.
Dru ficou sem resposta, mordendo o lábio.
Daime aproveitou o silêncio:
— Tá calada, né? Tá só pensando em como vai devolver essa, né?
Dru se levantou furiosa, saindo cheia de convicção.
Theo e Daime permaneceram na mesa quando Tycho chegou.
Daime o cumprimentou, rindo:
— Não me deixa no vácuo, moleque!
Tycho respondeu, meio sem entender.
Theo olhou para ele, orgulhoso:
— É isso aí.
Ceres observava de longe, percebendo a interação.
Um misto de ciúmes por Dru, um alívio por ela ter saído furiosa, mas também uma desconfiança latente.
Afinal, Theo era o líder dos garotos no colégio, e todos o olhavam com cautela desde que ele ganhou uma medalha por denunciar o amigo Gene, acusado de blasfêmia contra a Mãe Ceres.
A delação pairava como um fantasma.
Uma mistura de inveja pelo amor que ele demonstrava à Mãe e medo pelos segredos que ele carregava — inclusive os dela.
Ceres estava visivelmente assustada com o que se desenhava. Ela e Theo não se entendiam mais, mesmo com os beijos trocados na piscina.
Theo parecia no automático, carregando o eco da traição do amigo Gene.
Amava a Mãe, mas entregara alguém com quem conviveu por anos.
Todos o encaravam desconfiados, temendo e questionando sua liderança — a confiança estava por um fio.
Ainda na mesa, esperando a primeira aula de Sociologia, Theo e Daime mastigavam sem pressa o resto do café da manhã.
O refeitório começava a esvaziar, mas o clima ainda carregava os resquícios do embate verbal com Dru.
Daime quebrou o silêncio com seu humor ácido:
— Sabe de uma coisa? — disse, fitando o teto como quem elabora uma teoria genial. — Quando você e a Ceres finalmente estiverem… transando… dois babacas fazendo babaquices…
Theo desviou o olhar para ele, com um sorriso contido no canto da boca.
Daime completou, sem sequer olhar para Theo, como se fosse a coisa mais natural do mundo:
— Quando der filhotes… você podia me dar um?
Theo não conseguiu segurar e deixou escapar uma risada baixa, quase engasgada.
Daime sorriu satisfeito por ter arrancado aquela reação.
A sala de Sociologia estava mergulhada em um silêncio denso.
Todos sentavam-se retos, olhos fixos no professor à frente do quadro.
Ele não precisava levantar a voz — suas palavras faziam isso por si só.
— Vivemos no Ceresianismo. Nosso regime é simples: a sobrevivência acima da liberdade. Não há escassez, e por isso garantimos que todos existam.
Caminhava devagar entre as fileiras, mãos para trás.
— Não nos interessa a sexualidade de ninguém. Nos interessa que cada um reproduza, porque o sistema exige filhos. O resto? Cada um que cuide do próprio rabo.
Alguns alunos riram baixo, nervosos.
Theo permaneceu inexpressivo.
Ceres, do outro lado da sala, lançou um olhar frio a ele, mas não se deteve no professor.
— A eficiência está em tudo. Nossa taxa de natalidade está em 82%. Nossa taxa de mortalidade máxima, 90 anos. Jovens abundam em nossa pirâmide social, e isso… isso é mérito da Mãe Ceres. Ela que nos alimenta. Ela que nos educa. E, por fim, ela que nos devora.
Daime, ao lado de Theo, sussurrou:
— Parece poesia… só que podre.
Theo manteve o olhar à frente, como se não tivesse ouvido.
— E não se enganem — continuou o professor. — Sonhar é bonito. Fofo até. Mas sonhos não enchem barriga. Sabem por que os libertários são magros? Porque a liberdade se alimenta dos seus sonhos… e o corpo, sem comida, não sonha nada.
Risadas abafadas percorreram a sala.
Dru, ao fundo, mascava chiclete com raiva e lançava olhares venenosos para Theo.
— Em outros países, a maioria dos bem-sucedidos herdou fortunas, ou roubou, ou trapaceou. Uns poucos vencem pelo talento e pelo suor. O resto? Afunda no próprio sistema… e ainda tem a cara de culpar o sistema por isso.
O professor se voltou para o quadro, rabiscando uma linha horizontal, reta.
— Aqui… todos partem do mesmo horizonte. Ninguém passa fome. Ninguém adoece sem remédio. Todos têm qualidade de vida e conhecimento.
Fez uma pausa, voltando-se para a turma:
— Para isso, vendemos para fora. Para isso, a Mãe nos devora: para que sobrevivamos.
Então escreveu no quadro, em letras grandes:
O MUNDO ESTÁ CONSTANTEMENTE EM GUERRA.
A PAZ É APENAS UM ACIDENTE.
A SOBREVIVÊNCIA ACIMA DA LIBERDADE!
O silêncio na sala era denso.
O projetor zumbia enquanto trocava as imagens na tela. O professor apontava com a régua metálica para uma fotografia em preto e branco de homens engravatados.
— Aqui estão os líderes da direita. Na foto, parecem todos cheirosos, virtuosos… como se fossem exemplos de alguma moral superior.
Andava entre as fileiras, batendo a régua ritmadamente na palma da mão.
— O conceito básico da direita é simples: “eu primeiro, o resto que se vire”.
Ele parou ao lado de uma carteira.
— Eles pegam empréstimos de bancos, constroem indústrias, negócios, que só existem por conta do Estado… e ainda acham que tudo é posse privada, que não devem nada a ninguém. Confundem o que é do Estado com o que é deles.
Apontou de novo para a foto.
— Vejam bem: gordos. Nutridos. É difícil falar da fome da população com a barriga cheia, não é?
Daime deixou escapar uma risada seca no fundo da sala.
— São porcos e hipócritas. Dizem que o trabalhador não gosta de trabalhar… sendo que eles próprios odeiam trabalhar. Organizam cartéis para esmagar salários, matam os pequenos negócios para crescerem. E sempre se preocupam mais com a influência dos ricos, enquanto apontam o dedo para os pobres por aceitarem ajuda do Estado. É uma mistura de inveja, ciúme… e amor às suas religiões de fachada.
A imagem trocou. Jovens manifestantes, bandeiras vermelhas, cartazes.
— E aqui… a esquerda. Os libertários mortos de fome, os “esquerdopatas”, os “abortistas”, como os chamam por aí.
Um burburinho começou, mas cessou quando o professor ergueu a mão.
— Eles lutam pela classe trabalhadora. Sonham com liberdade, igualdade de gênero, comida, lar, cultura e lazer. Isso é digno.
Pausa. Ele olhou para cada canto da sala, buscando os olhos de quem quisesse desviar.
— A Mãe Ceres ama as quatro últimas: comida, lar, cultura e lazer. São a base da nossa lei. Aqui, todos têm o que comer — seis refeições por dia, banhos quentes, teto, remédios, tratamentos. Claro… tem um preço.
Voltou para a frente, bateu a régua com força na mesa:
— SOBREVIVÊNCIA ACIMA DA LIBERDADE. LIBERDADE NÃO ENCHE BARRIGA!
A sala mergulhou num silêncio tenso.
— Todos esses regimes lá fora falharam no óbvio.
A Mãe Ceres nos garante o que nenhum deles conseguiu garantir: sobrevivência.
Ele apontou para a última frase escrita no quadro:
Mãe Ceres: que nos alimenta, que nos educa, que nos devora.
Largou a régua sobre a mesa, recostou-se na cadeira, e concluiu:
— É por isso que funciona.
A régua ainda ecoava quando bateu na mesa.
O silêncio durou alguns segundos antes de ser quebrado por um aplauso breve, respeitoso, quase mecânico — um reflexo condicionado pela educação em Ceres.
Theo apoiou o cotovelo na carteira, olhos semicerrados, um leve sorriso no canto da boca.
— Funciona… — murmurou, repetindo as últimas palavras do professor como um mantra.
Ao lado, Daime cruzou os braços, balançando a cabeça como quem já ouvira aquilo tantas vezes que não via mais sentido em discordar.
— É isso aí… Mãe sabe o que faz — completou, em voz baixa, orgulhoso como um bom aluno.
Ceres, na fileira ao lado, mordeu a ponta da caneta. Sentia aquela mistura familiar de medo e alívio que sempre vinha ao ouvir sobre a Mãe Ceres. Fitou Theo por um instante e percebeu como seus olhos brilhavam quando o professor falava em “sobrevivência acima da liberdade”. Um desconforto subiu-lhe à garganta, mas, sem perceber, ela também balançou a cabeça, repetindo silenciosamente:
Mãe nos alimenta… nos educa… nos devora…
Dru, ao fundo, ainda ruminava a discussão da manhã com Theo. Mas, mesmo assim, não conteve o sorriso irônico. Assentiu de leve, sussurrando para si mesma:
— Liberdade não enche barriga… sempre disse isso.
E, no fundo, consolava-se com a ideia de que Tycho também não escaparia: no fim, todos seriam devorados pela Mãe Ceres.
Até Tycho, tímido, sentou-se mais ereto, os olhos fixos na projeção. Repetiu baixinho:
— Funciona… funciona…
O professor recolheu a régua com um sorriso frio, satisfeito ao ver o efeito nas fileiras de jovens.
Como sempre, todos reagiam como esperado: sem dúvidas, sem desvios.
Doutrinados.
Obedientes.
Na parede, acima do quadro, o lema gravado em bronze parecia observá-los com olhos de ferro:
O MUNDO ESTÁ CONSTANTEMENTE EM GUERRA; A PAZ É APENAS UM ACIDENTE — A SOBREVIVÊNCIA ACIMA DA LIBERDADE.
E ninguém ousava discordar.
Theo apoiou o queixo na mão enquanto o professor continuava com estatísticas e pirâmides etárias. Por fora, seu semblante era sereno, quase entediado — o líder disciplinado, admirado por uns, temido por outros.
Mas por dentro, uma outra voz, a sua própria, ecoava:
Funciona… funciona… mas a que custo? Quantos Gene mais teremos de entregar? Quantas Dru ainda terão que rastejar por moedas para não afundar? E quantas Ceres, como ela, vão continuar sorrindo com medo, fingindo que acreditam só para não sumirem?
Ergueu os olhos para o lema na parede.
Por uma fração de segundo, teve vontade de rir.
Um riso seco, amargo. Mas conteve-se.
Respirou fundo. Endireitou-se na cadeira.
Um bom soldado não pergunta. Só sobrevive.
E, como todos os outros, bateu palmas ao final da aula.
O fluxo de estudantes seguiu para o campo simulado.
Uniformes idênticos: casacos cinza de corte militar, camisas bege impecáveis, calças com vincos rígidos, botas negras que ecoavam no chão a cada passo.
Dentro daquela uniformidade, cada um tentava criar um traço próprio — mangas dobradas, botões abertos, um lenço discreto no bolso. Mas ninguém ousava mais que isso. Saltos, adornos chamativos? Seria um suicídio social.
Dru se destacava pela pressa.
Desviou do grupo, arrastando sua velha caixa metálica de quinquilharias em direção aos alojamentos ao norte.
Ao cruzar por Theo, lançou-lhe um olhar enviesado e disparou:
— Não me mete no teu teatrinho de casalzinho, Theo. Só quero cuidar do meu negócio.
Theo nem virou a cabeça. Seguiu caminhando ao lado de Daime, passos firmes.
— Essa aí vai morrer contando moeda… — comentou Daime, rindo abafado.
— Melhor que morrer devendo — Theo respondeu seco, encerrando o assunto.
Atrás deles, Ceres caminhava com a postura impecável. Gola fechada, cabelo preso, olhar duro. Observava Ana à frente, com seu séquito.
Ana era esculpida para liderar: gola do casaco meio aberta, mãos nos bolsos, botas batendo ritmadas como tamborins de guerra.
Ao notar o olhar de Ceres, girou a cabeça, meio sorriso nos lábios, e lançou a farpa:
— Não adianta vir atrás de mim, querida. Cadelas andam atrás. Rainhas lideram.
Risadinhas discretas estalaram pelo grupo.
Ceres não pestanejou. Respondeu com uma doçura venenosa:
— Não se preocupe, Ana. Eu não ando atrás de ninguém. Eu espero a hora certa. Rainhas caem.
Ana sorriu apenas com os lábios, mas os olhos endureceram.
Virou-se para frente. Suas botas marcavam o ritmo.
Mas a tensão entre as duas já era palpável.
Daime se inclinou para Theo, em voz baixa:
— Quando vocês dois… — gesticulou brevemente em direção a Ceres — vão parar com essa encenação e assumir logo?
Theo manteve o olhar à frente, como se não tivesse ouvido. Mas na boca insinuava-se um leve sorriso, duro e contido.
Atrás, Dru sumia entre os galpões, murmurando para si mesma:
Que eles se matem entre si… eu só quero vender minhas tralhas em paz.
O grupo seguiu. Todos iguais. Todos diferentes.
Em direção ao campo.
O campo de treino se abria como uma clareira asfaltada, cercada por galpões baixos e cercas elétricas.
O vento trazia o cheiro metálico de óleo, terra seca e pólvora.
Fileiras de cadeiras metálicas estavam dispostas no centro do pátio, e à frente delas um instrutor os esperava — um homem alto, grisalho, com um olhar de gelo.
Ao lado dele, deitado, um cão enorme de pelagem escura.
A coleira grossa prendia-o a uma estaca fincada no chão, mas nem era preciso tensão na guia: a força adormecida do animal era visível, latente.
Um verdadeiro cão de guerra, a língua pendendo num resfolegar lento, os olhos atentos a cada movimento em volta.
O instrutor esperou todos se sentarem, seus passos ecoando no concreto até parar ao centro.
Quando abriu a boca, sua voz cortou o ar como um chicote:
— Muito bem, turma. Tema de hoje: cães de guerra. Armas biológicas. Criadas e moldadas para obedecer sem hesitação. E destruir sem piedade.
Apontou para o animal ao lado, que sequer ergueu a cabeça.
— Este é o K-79. Sob minha tutela desde filhote. Ele não atacará vocês. Hoje, apenas teoria. — Deu uma pausa, deixando o silêncio pesar. — Mas vocês precisam saber o que fazer… quando não houver ninguém por perto para conter um deles.
Os olhos da turma iam de K-79 para o instrutor. Ninguém ousava cochichar.
— Em caso de ataque… esqueçam heroísmo. O cão morde, não larga. A prioridade é sobreviver. — Ele caminhava devagar entre as fileiras. — A maioria de vocês vai congelar ou gritar. Fracos morrem assim.
Parou. Chutou uma cadeira vazia, que tombou com estrondo.
— Querem sobreviver? Gravem isso: se ele saltar, caia junto. Envolva as patas traseiras com suas mãos… firme. Não largue. E jogue-o no chão como um boneco. Repito: como um boneco. Bata no chão até ele perder o ar.
Abaixou-se frente ao cão, simulando o movimento com gestos secos, como se derrubar cinquenta quilos de músculo fosse natural para ele.
— E só quando ele largar, só quando estiver ofegante… é que você corre. Até lá, você não larga primeiro.
Levantou-se. Ajustou a farda.
— Esta é a lição de hoje. Amanhã, verão na prática. Por ora… respeitem o cão. Respeitem o instinto dele.
K-79 ergueu a cabeça, soltando um rosnado leve, como se confirmasse a lição.
Os olhares se cruzaram entre as cadeiras. Fascínio e medo.
Theo fitava o cão fixamente, gravando cada detalhe.
Ceres olhava Theo, séria, os dedos entrelaçados no colo.
Ana recostava-se na cadeira, suspirando de tédio.
Dru, ao fundo, pensava em moedas e vendas, desde que ninguém a mordesse.
O vento assobiava no campo, arrastando o som das botas que, em breve, voltariam a marchar.
Depois da teoria, ninguém reclamava. Sabiam o que vinha a seguir.
O instrutor estalou os dedos.
Em menos de um minuto, duas mesas compridas foram trazidas ao centro.
Sobre elas, fileiras de fuzis cinzentos, alinhados como soldados. Ao lado, caixas abertas com munição de festim já nos carregadores.
— Em fila! — a voz ecoou pelo pátio. — Três rodadas. Desmontar, montar. Bala de festim. A guerra não chegou, mas chegará. E vocês estarão prontos… ou não estarão aqui para ver.
As botas arranharam o chão.
Os alunos formaram fileiras. O ritual era conhecido: duas vezes por mês, desmontavam e montavam armas como quem reza um rosário. Girar o pino, soltar o ferrolho, tirar o cano. Limpar, montar. Repetir. Sempre cronometrados.
Vank, Cors e Kan, veteranos, faziam quase sem olhar.
Mãos como máquinas: deslizando sobre peças, encaixando e travando em segundos.
Theo não ficava atrás. Seu rosto era neutro, mas seus dedos dançavam pelo mecanismo — sem hesitar, sem perder um movimento.
À esquerda da mesa, Ceres e Ana competiam em silêncio.
Curvadas sobre as armas, respiravam fundo, desmontando com mais pressa e mais precisão. Peças batiam na mesa com estalos secos.
Uma olhava de relance para a outra.
A outra já estava um passo à frente.
Obsessivas.
Determinadas.
— Três vezes! — bradou o instrutor. — Só para quem sabe repetir sem falhar. Os outros… olhem e aprendam.
E assim continuaram, o som metálico de armas sendo montadas e desmontadas misturando-se ao vento do entardecer, como um coral mecânico de devoção.
Cada aluno, no fundo, sentia a mesma pergunta não dita: para qual guerra estavam sendo preparados?
E a resposta era sempre a mesma: a guerra de todos contra todos, a guerra que Mãe Ceres dizia já estar acontecendo.
Corpos suados. Mãos feridas. Sangue escorrendo discretamente pelas ranhuras das palmas. Joelhos ralados. Respirações curtas e pesadas.
Era assim que terminavam os treinos de desmontar e montar armamentos — quase dois por mês, repetição sem fim para uma guerra que nunca vinha.
O instrutor os encarava de cima da plataforma, com a empáfia de um general aposentado.
— Se isso fosse uma guerra real, estariam todos mortos antes do primeiro tiro. Um bando de preguiçosos inúteis! — cuspiu no chão, os olhos varrendo o grupo. — Sintam o cheiro de vocês mesmos. Preguiça. Falta de motivação. Nojo.
Alguns baixaram os olhos. Outros sustentaram o olhar apenas por orgulho.
Theo estava entre os que permaneciam em silêncio, exausto, mas imóvel.
Ceres o observava de relance. Ele não era mais o mesmo desde a entrega de Gene. Fraco. Um líder que traiu um dos seus.
— Amanhã, simulado de guerrilha. E semana que vem, sexta-feira, nossa tradicional prova física corpo a corpo — anunciou o instrutor, com um sorriso cruel. — Vamos ver quem realmente merece ser líder. E antes que perguntem: sim, é homem contra homem, mulher contra mulher. Depois, misturado. Sem força extrema, claro… não queremos que os rostinhos das meninas fiquem irreconhecíveis. Homem contra mulher é só pra diversão.
Alguns riram. Outros permaneceram em silêncio.
Theo não reagiu.
— Agora, fora do meu campo, imundos! Vão para o vestiário. Depois, refeitório. E quem quiser, mais tarde, aulas complementares de mecânica e engenharia. Mas não me apareçam fedendo preguiça de novo!
O grupo se dispersou em silêncio, arrastando as botas pela terra batida.
A dor física era o de menos.
O que doía era a ausência de sentido.
Caminhavam em silêncio forçado. Botas arrastando no chão seco. Músculos doloridos. Mãos ardendo.
A fúria começava a borbulhar nas bocas, antes que alguém ordenasse silêncio.
— Theo, se eu fosse você, não dormia hoje — rosnou Vanks, cuspindo no chão. — Juro pela Mãe que vou te matar se virar as costas pra mim.
— Eu só quero ver a cara desse merda quando jogarem o traidor dele no fogo — Cors disparou, a voz áspera. — Melhor ainda: vou explodir tua cara, Theo. Devagar. Pra ver bem tua expressão de merda.
Theo não respondeu. Marchava com o maxilar travado.
Atrás, Ceres e Ana seguiam lado a lado, e cada palavra trocada era uma farpa disfarçada de veneno.
— Esse aí não aguenta nem a própria sombra — disse Ana, firme, olhando para Theo, mas falando para Ceres. — Líderzinho de porcelana.
— Líder fraco não dura em Ceres — rebateu Ceres, o olhar afiado. — Mas pelo menos ele não vive à sombra de salto alto.
Ana sorriu de canto. Ceres também.
Elas se odiavam, mas o jogo era outro: provocar até sangrar.
Kan observava em silêncio. Era novo ali. Não era hora de escolher lados. Ainda.
As ameaças, os insultos, os olhares cortantes… era uma rotina. Quase um ritual.
Mãe Ceres não via problema nisso. Ao contrário — ela precisava disso. Do ódio. Da inveja. Da disputa.
Mãe Ceres precisava de filhos fortes. De líderes.
E ninguém se tornava líder sem antes ser devorado.
O vestiário surgiu ao longe, depois dos alojamentos.
O ar pesado de suor e tensão os acompanhava até lá.
Ali, entre o barulho das botas, não havia espaço para fraqueza.
Só para sobrevivência.
Os passos seguiam. O sol incidia duro no chão. A poeira subia.
As provocações cessaram por um instante — mas só por fora.
Por dentro, todos ferviam.
Theo caminhava como se nada o afetasse. Mas ele sentia.
Cada palavra. Cada ameaça.
Cada olhar cortando pelas costas.
Ele não odiava o ódio. Pelo contrário.
O ódio não é veneno, pensava. É adubo.
Era no ódio que ele plantava sua estratégia.
Era na raiva que se alimentava da força dos outros.
O problema não era ser odiado.
O problema era não saber o que fazer com isso.
Theo sabia.
Eles o odiavam.
Queriam vê-lo cair. Queriam chutá-lo no chão, como fizeram com tantos antes.
Se pudessem, o matariam ali mesmo, com gosto.
Vanks. Cors. Até Kan, talvez.
Mas eles não podiam. A Mãe não queria.
A Mãe queria espetáculo.
Queria tensão.
Queria filhos fortes — e isso só se forja no fogo da humilhação, no calor da disputa, no ódio cravado nos ossos.
Dark merecia morrer. Theo sabia.
Estavam em campo aberto, sem câmeras, sem vigias.
Uma faca bem enfiada e um buraco raso. Ninguém saberia. Ninguém choraria.
Mas Theo não era bobo.
A Mãe vê até o que finge ignorar.
Somos brinquedos, pensou. Peças de um tabuleiro sagrado.
A Mãe não quer filhos mortos. Quer filhos vivos e sangrando. Quer que a gente se devore. Mas sem se matar.
Theo carregava o ódio como munição.
Ele não explodia — ele apontava.
E por enquanto, o dedo ainda não estava no gatilho.
Moldados com Chumbo — Pensamentos de Theo
Mãe Ceres molda seus filhos com chumbo.
É o que dizem nas paredes, nos alto-falantes, nos olhos dos professores.
Com orgulho.
Com fé.
Como se fosse um privilégio.
Aqui, sentir demais é defeito.
E a Mãe não tolera peças com falhas.
Ser moldado com chumbo não é só disciplina — é neutralizar o inútil:
medo, amor, dúvida, hesitação.
Porque quando o chumbo derrete, não pergunta.
Ele só entra.
Entra nas brechas da alma até tudo o que restar seja peso e obediência.
A dor?
Parte do processo.
Dor é o calor do molde.
Se não doer, é porque você ainda não vale nada.
Os horizontalistas dizem que é assim que se cria a igualdade.
Sem exceções.
Sem excessos.
Sem cima ou baixo.
Você não precisa subir pra vencer.
Só precisa aguentar o que todos aguentam:
A fome que não existe.
A liberdade que não falta.
A Mãe que ama todos — exatamente igual.
Eles não querem um novo sistema.
Querem aperfeiçoar este.
Não destruir a torre, mas polir seus tijolos até brilhar.
Theo já entendeu:
Aqui, sobreviver é liberdade.
Aqui, amor é um código militar.
E o ódio… ah, o ódio é só combustível reciclado.
Com ele se aquece a máquina.
Se molda os rivais.
Se erguem líderes.
Theo não odeia Ceres.
Ele só aprendeu a usá-la como ela os usa.
Não se engane:
O molde é duro.
O molde dói.
Mas Mãe Ceres diz que é assim que se faz um filho digno.
E todos agradecem.
Em silêncio.
Com os punhos calejados.
E os corações… de chumbo.
Mãe Ceres, que nos educa, que nos alimenta e nos devora!
Dark — Filho da Lama, Filho da Mãe
Enquanto todos estavam no simulador de campo, disparando festins e repetindo manobras para uma guerra que nunca vem, Dark estava no céu.
Um céu de trilhos, de aço e de fumaça.
O paraíso dos trens blindados.
O céu azul da tarde, limpo como um bisturi recém-afiado, combinava bem com as presas que ele deixou no hangar abandonado.
A locomotiva avançava por três quilômetros ao norte.
Do vagão, via-se ao longe a torre principal de Ceres — imóvel, rígida, rindo para ele.
Mas ninguém sabe o que se passa na cabeça de Dark.
Ao chegar, o silêncio era o mesmo de sempre. Mas havia algo errado.
Um dos cães — criaturas deformadas, olhos vermelhos, tremores compulsivos — havia roído a corda e fugido.
Restava apenas um, amarrado, se debatendo com fúria.
Dark suspirou. Quase desapontado. Mas ainda assim… satisfeito.
— Você ainda está aqui. Isso é sorte. Sorte pra mim. Azar seu.
Com cuidado, ergueu a criatura — garras, baba e dentes — e a colocou sobre a mesa de madeira lascada, marcada por pregos antigos e sangue seco.
— Vamos brincar?
O animal rosnou. Dark sorriu.
Cortou a primeira camada de carne como quem desenha um mapa.
A carne chiou. O sangue jorrou.
Dark mordeu os lábios, como quem saboreia um prazer secreto.
HAHA… HEEE… OOOOH…
Um urro abafado, contido.
Orgasmo de aço.
Ele queria ver como aquele animal sangrava.
Será que era diferente?
O céu da tarde estava limpo, azul quase branco.
Dark o observava pela escotilha do trem blindado, que avançava devagar pelos trilhos enferrujados rumo ao hangar.
Três quilômetros de paraíso particular.
Ninguém o perturbava.
Nenhuma voz além da sua própria.
E dos cães.
Ao longe, a torre de vigilância sorria para ele com dentes cinzentos.
Dark devolveu o sorriso. Um animal em festa.
Em Pietà, ele também sorria — sozinho.
Quando outra criança gritava ou se debatia, ele sorria com ternura genuína.
As mães tentavam entender. Psicólogas vinham. Enfermeiras escreviam relatórios com letras trêmulas.
“Humor mórbido”, disseram.
“Alta inteligência”, disseram.
“Mas falta empatia.”
Era como se fosse feito de outro barro. Um barro mais frio.
Chegando ao hangar, desceu do trem, arrastando os pés como quem não tem pressa alguma.
Lá dentro, o cheiro metálico o recebeu como um abraço velho.
Mas um dos cães fugiu.
A corda roída. Arranhões na parede.
Dark suspira, decepcionado.
— Tsc… ingrato.
Ainda restava um.
Amarrado.
Tenso.
Vibrando de ódio animal.
Ele se aproximou, com a calma de um escultor.
— Vamos brincar?
Puxou o cão para cima da mesa, ignorando as vísceras espalhadas de experimentos anteriores.
Um braço empalado se moveu — reflexo elétrico — e ele pisou sem pensar, esmagando o que restava.
A lâmina brilhou.
Dark começou o corte com um carinho quase amoroso.
Em Pietà, aos nove anos, Dark desmontava brinquedos só para ver como funcionavam por dentro.
Depois, passou a fazer o mesmo com passarinhos, gatos, ratos.
A beleza não estava na forma — estava no caos escondido sob a pele.
— HAHA… HEEE… OOOOH…
O cão sangrava devagar.
— Realmente… vocês sangram diferente. Como se o sangue de vocês tivesse vergonha de sair... —
Ele enfiou a mão, puxou uma costela rachada, escutou o som do osso trincando.
— Não comeram da comida da Mãe Ceres. Nunca comeram. Nunca sentiram.
E então sussurrou, tão baixo que só o cão e ele ouviram:
— A Mãe Ceres nos alimenta, nos educa… e nos devora.
O estalo do osso quebrando ecoou no galpão.
Um fio de baba escorreu do queixo de Dark.
Ainda em Pietà, havia uma sala branca onde colocavam os “casos difíceis”.
Lá, ele ouvia gritos todas as noites. Mas não se abalava.
Aprendeu a rir por dentro. A gozar o próprio silêncio.
Um dia, colocaram uma menina com ele. Ela falava demais.
Ele calou ela.
Com uma mordida no ombro.
Ela chorou.
Ele, não.
E mesmo assim… as mães o amavam.
Porque a Mãe Ceres o amava.
Dark era o filho que não pedia perdão.
O cão estremeceu uma última vez.
A pele aberta, os músculos expostos como mapas em carne viva.
Dark o observava com uma calma reverente.
Colocou a mão sobre o peito do animal ainda morno.
— Foi divertido, não foi? —
A cabeça inclinada, os olhos fixos, como se esperasse uma resposta.
Mas só o silêncio retribuiu. E ele gostava assim.
Em Pietà, quando completou dez anos, as outras crianças pararam de brincar quando ele entrava.
Algumas tinham pesadelos. Outras sentiam náuseas só de vê-lo.
Uma vez, um menino da ala vizinha gritou no meio da noite:
— Ele está no meu quarto!
Mas não estava.
Ele dormia como sempre: de olhos entreabertos, sem respirar fundo.
Médicos vieram.
Mediram batimentos. Fizeram exames.
— Ele é… frio.
— Literalmente. Frio.
Mas as mães… as mães diziam que era só uma fase.
A Mãe Ceres, ela mesma, desceu a colina uma vez para vê-lo.
Envolta em véus translúcidos, o rosto oculto por um escudo opaco.
As outras crianças choraram de emoção. Ou de medo.
Dark?
Dark tocou o escudo com as mãozinhas imundas… e sorriu.
Sorriu pela primeira vez.
Ela o abraçou.
Todos viram.
Na manhã seguinte, ele foi declarado “A Promessa de Pietà”.
— Um filho de chumbo — disseram.
De volta ao presente, Dark limpou a lâmina.
Voltou a pé, devagar, os dedos ainda sujos de sangue e os olhos tão serenos quanto um lago morto.
Chegou ao campo quando a aula prática terminava.
O cheiro de pólvora de festim ainda pairava no ar.
Os colegas estavam exaustos, suados, ralados.
Theo, Ceres, Kan, Ana — todos com as mãos marcadas de tanto desmontar e montar armas que nunca atirariam para matar.
Quando Dark surgiu no horizonte, os primeiros a vê-lo empalideceram.
Ele não caminhava — flutuava.
Não por leveza, mas por peso.
Como um sonho ruim que se aproxima sorrindo.
— Olha quem chegou… — murmurou Cors, baixo, como se não quisesse que Dark ouvisse.
Mas ele ouviu.
Desde pequeno, Dark aprendeu a sentir o medo como se fosse perfume.
Ele sabia quem tremia. Sabia quem odiava. Sabia quem queria vê-lo morto.
Mas ninguém se atrevia a dizer isso em voz alta.
Porque todos sabiam o que a Mãe Ceres dissera, uma vez, numa cerimônia secreta:
— Meus filhos de carne, eu os amo. Mas meus filhos de chumbo… esses eu mantenho perto do coração.
Dark parou ao lado de Theo.
Olhou para as mãos dele, feridas.
Inclinou a cabeça, como quem observa uma peça trincada.
— Você ainda sangra… isso é bom.
Theo não responde. Apenas abaixa os olhos.
Dark sorri.
Mas o sorriso não tem humor.
Não tem alma.
Em Pietà, diziam que o coração de Dark batia como o tambor de guerra da Mãe:
Rígido. Constante. Cruel.
Dark (pensamento):
Eu não empalo gente porque a Mãe não quer.
Mas se ela quiser… eu empalo.
Com gosto. Com arte.
Porque é isso que eu sou: um cão.
Mas não um cão qualquer.
Sou o Cão de Chumbo.
Não mordo sem ordem.
Não corro sem rumo.
Sou o cão que espera, que escuta, que aprende.
Um bom cão.
Me forjaram no sangue seco e na lama quente.
Me criaram no silêncio dos berçários de Pietà.
Nunca chorei. Nunca pedi. Nunca desobedeci.
E a Mãe me ama.
Ela me pegou no colo e me chamou de milagre.
Eu toquei seu rosto sem rosto… e sorri.
O mundo quer monstros livres.
A Mãe cria monstros leais.
Eles acham que sou louco…
Mas eu sou o único são.
Eu ouvi o chamado. Eu entendi a missão.
A Mãe não precisa de filhos que sonham.
Precisa de filhos que obedecem.
Ela me moldou com chumbo.
Me alimentou com silêncio.
Me ensinou que amor não tem rosto. Só comando.
E se um dia ela quiser que eu empale cada um deles…
Eu empalo com carinho.
Porque eu sou o perfeito Cão de Chumbo.
E cães… não perguntam.
Só obedecem.