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Capítulo 5: Futuras Mudanças - parte 4 final

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O Bobo da Côrte

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O Bobo da Côrte

No meio do café da manhã, Cors voltou a cutucar Gene com um sorriso afiado:
— Gene, como é que você vai criar seu filho num lugar onde tem liberdade, mas não tem um prato de comida nem um lugar pra dormir? Vai viver de vento?

Vank não perdeu tempo e completou, com aquela voz firme:
— Não vai comer reboco das paredes, não. Os cães daqui comem melhor que muitos libertários por aí.

Daime, com aquele tom debochado, entrou na brincadeira:
— O libertário é tão magro que dá pra espiar com os dois olhos o buraco da fechadura!

Nesse instante, até Ceres, sempre séria e fria, não resistiu — engoliu um pedaço do cereal, engasgou e soltou uma risada seca.

A sala explodiu em gargalhadas, e Gene, visivelmente irritado, levantou-se e saiu nervoso, enquanto o burburinho continuava no refeitório.

Daime: levanta a mão devagar, Gene, espera aí, espera!
Gene para, curioso.
Daime fica em silêncio, sorri de um jeito maroto, fica imóvel como se fosse mandar a frase mais importante da vida dele, aí solta, bem seco:
— Nada não, pode ir!

A sala explode em risadas, mais altas até que o riso da própria Ceres, que mal consegue segurar o sorriso. Theo olha pra ela, trocam um olhar cúmplice e os dois acabam rindo juntos, como se fosse um segredo compartilhado.

O sinal ecoou pelos corredores. O refeitório se esvaziava aos poucos, bandejas rangendo, vozes sumindo, passos apressados.

Tycho continuou ali, alheio a tudo, fones enfiados nos ouvidos, mastigando devagar o que ainda restava no prato. Só quando viu, pelo canto do olho, vultos passando apressados com caixas pesadas nas mãos, ergueu a cabeça. Homens do estoque atravessavam o salão, carregando suprimentos: sacos de cereais, caixas de enlatados, hortaliças frescas ainda cheirando à terra.

Um deles tropeçou — a caixa em seus braços cedeu, e uma lata rolou pelo chão, girando, girando, até parar bem nos pés de Tycho.

Ele olhou para os lados. Ninguém parecia ter notado. Nem um olhar.

Baixou-se devagar, pegou a lata fria com a ponta dos dedos e leu o rótulo: CHOCOLATE EM PÓ.

Sentiu o coração bater mais rápido.

Chocolate. Em pó.

Aquilo era como encontrar um pedaço de lenda enterrada no concreto.

Disfarçando, enfiou a lata no fundo da mochila e saiu dali sem olhar para trás.


Lá fora, no canto de sempre do pátio, estava Dru.

Encostada no muro, um pé apoiado, enrolando um cigarro, cercada por sua pequena clientela. Em cima da toalha estendida, quinquilharias disputavam espaço: batons caseiros, vidrinhos de esmalte, fitas cassete, bijuterias, perfumes ralos, estojos de sombra, bibelôs baratos. Ela sorria para um, caçoava de outro, trocava palavras rápidas, comandando o caos com naturalidade.

Quando viu Tycho se aproximar, ergueu uma sobrancelha.
— Olha só quem apareceu... — disse, num tom preguiçoso. — Vai querer o quê?

Tycho engoliu em seco.
— Umas fitas. Pra meu irmão...

Ela assentiu, começando a mexer numa caixa de fitas.
— E o que você trouxe? Só tenho o que você me der em troca, garoto.

Ele remexeu na mochila, tirou primeiro uns utensílios inúteis — canivetes sem ponta, uma escova quebrada, um espelho trincado. Dru só olhou e bufou.
— Sério? É isso?

Então ele retirou a lata.
O brilho metálico sob a luz acinzentada fez os olhos dela crescerem. O cigarro caiu dos dedos sem ela perceber.
— ...onde você conseguiu isso? — perguntou, num tom baixo, quase sussurrando.

— Caiu. No refeitório. Do estoque. Ninguém viu... eram muitas caixas...

Dru não tirava os olhos da lata.
— Mais raro que ouro... — murmurou. E em seguida sorriu. — Você não faz ideia do que trouxe pra mim, moleque.

Tycho recuou meio passo.
— Eu... quero dez créditos.

Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás.
— Dez? Eu te dou três.

— Oito — insistiu ele, nervoso.

— Quatro. E estou sendo generosa. O número do seu irmão não vai funcionar comigo, querido.

— Cinco.

Ela fechou a mão sobre a lata e, por um instante, seu sorriso se apagou. Fitou Tycho com seriedade e disse, bem devagar:
— Fechado. Mas só tem um jeito de você ter certeza de que eu não vou te passar pra trás.

Tycho arqueou as sobrancelhas.
— E qual é?

Dru puxou a gola da própria camisa e mostrou o bordado em vermelho: MÃE CERES. As letras pareciam pulsar sob a luz fraca, costuradas com linhas grossas, firmes, inescapáveis.
— Você confia na Mãe Ceres — disse, fria — e confia em mim.

Houve um silêncio. Tycho sentiu um arrepio percorrer a espinha — medo ou respeito, não saberia dizer.

Por fim, assentiu.
— Tá... fechado.

Dru sorriu outra vez, agora com um ar vitorioso, e guardou a lata atrás da mochila e da toalha improvisada.

Tycho saiu do canto de Dru com as fitas escondidas no bolso interno da jaqueta.

O pátio já estava quase vazio. Um vento frio levantava poeira e folhas secas, açoitando os muros cinzentos de Ceres. Ele andava rápido, sem olhar para ninguém, mas sentia, atrás de si, a presença dela ainda cravada nas costas.
A voz de Dru ecoava em sua cabeça:
Você confia na Mãe Ceres. E confia em mim.

Ele apertou os punhos dentro dos bolsos.
Era só uma lata. Só um punhado de pó marrom num mundo que não permitia cor.
E, ainda assim, aquilo parecia ter aberto uma porta que ele não sabia se queria atravessar.

Chegou ao dormitório. Os corredores estavam desertos; o sinal já havia tocado há minutos. Empurrou a porta devagar, tentando não chamar atenção, e se enfiou na cama de baixo do beliche.

Só quando se sentou ali, no silêncio pesado do dormitório, teve coragem de tirar as fitas do bolso.

Eram três: uma com rótulo borrado escrito Love Songs, outra com o nome de uma banda que ele nunca tinha ouvido falar — The Clash — e a última, só um adesivo amarelo escrito Mixtape — lado A.

Ele olhou para as fitas por um longo tempo. Podia jurar que sentia o cheiro do chocolate ainda grudado nas mãos, doce, quase proibido.

De repente, uma pontada atravessou o peito.
Não era medo. Não era culpa. Era outra coisa, mais difícil de nomear.

— Quanto isso vai me custar?

A pergunta ficou no ar, sem resposta, como um eco abafado.

Do lado de fora, o som dos alto-falantes invadiu o dormitório, frio e impessoal:
“Lembrem-se: a sobrevivência acima da liberdade. Confiem em Mãe Ceres.”

Tycho fechou os olhos e se deitou, as fitas sobre o peito, sentindo-se, pela primeira vez, parte de algo que ainda não entendia.

E, na sombra do quarto, um leve sorriso escapou pelo canto de sua boca.


Mais tarde, já no apagar das luzes, Tycho esperou o ronco pesado dos colegas encher o dormitório. Com o coração disparado, tirou o velho walkman do esconderijo na gaveta da mochila, junto com um par de fones remendados com fita isolante.

Escolheu a fita Mixtape — lado A.

Encaixou, girou a rodinha de volume bem baixo e apertou play.

Por um instante nada aconteceu. Só o chiado fraco da fita correndo nas cabeças magnéticas.

Então, aos poucos, a música nasceu — suave, em acordes simples, e uma voz feminina cantando em inglês algo que ele não entendia, mas sentia.

Era doce.
Era livre.

Era como se alguém lá fora, em outro mundo, dissesse:
“Eu também senti o que você sente agora.”

Fechou os olhos e deixou as notas preencherem os espaços escuros da mente.

Imagens vieram: campos verdes, um céu aberto sem grades, mãos segurando as dele numa dança estranha.

Por longos minutos, Tycho se esqueceu de onde estava.
E por longos minutos, acreditou que a liberdade podia ter som.

Quando a música acabou e o chiado voltou a dominar, ele respirou fundo, ainda de olhos fechados.

Só então lembrou do negócio com Dru.
Puxou a lata de chocolate da mochila e a girou nas mãos. Havia um número pequeno impresso na lateral, junto do selo de estocagem: 30 créditos.
Trinta.
E ela levou por… cinco.

Por um momento, Tycho ficou olhando fixo para os números, sentindo um gosto amargo na boca.
Tinha sido tapeado. Humilhado.
O que para ele era quase tudo… para ela tinha sido só mais um golpe.

Guardou a lata de volta na mochila com um suspiro pesado.
O walkman ainda chiava baixinho ao lado da cama.
Ele fechou os olhos e se obrigou a sorrir, um sorriso triste.
Pelo menos agora eu sei o preço de um sonho em Ceres, pensou.
Trinta créditos. E contando.

Adormeceu com a música ainda ecoando na memória, já nem sabendo se valia a pena ou não.

Tycho caminhava devagar pelos corredores, com a lata dentro da mochila pesando como um tijolo. Parou num canto, abriu o zíper, olhou para o rótulo marrom e dourado escrito Chocolate em pó e quase conseguiu sentir o cheiro doce.

Mas a alegria já tinha virado um gosto amargo. 30 créditos.
Ele ouviu a voz de outro aluno, rindo pelas costas:
“Quando um burro encontra um esperto…”

Fechou a mochila devagar. E pensou:
“Então é isso. É assim que o jogo é jogado aqui. Tudo bem, Dru… hoje eu perdi. Mas um dia eu vou aprender. Um dia eu vou ser o esperto. E você que se cuide.”

Ao longe, já saindo pelo pátio, Dru olhou por cima do ombro. Os olhos dela brilharam com aquele riso cínico que só ela tinha, e seus lábios se mexeram, sem som:
“Bem-vindo a Ceres, Tycho.”

Tycho ficou no pátio um tempo, só observando. Dru já não estava lá, mas ele olhava para cada aluno que se aproximava dela, para cada mão que entregava algo e cada mão que saía com alguma bugiganga escondida no bolso.

Começou a entender. Não eram as coisas em si que tinham valor — eram as oportunidades. As pessoas queriam sentir que tinham ganhado, mesmo pagando caro. Queriam a sensação de levar vantagem.

Sentiu o estômago embrulhar quando viu um garoto receber dela um vidro quase vazio de esmalte azul por 15 créditos.
“15… por isso?!” pensou.

Era isso. Quem sabia contar uma história sobre o objeto, quem criava a ilusão de escassez, quem media a ganância do outro… ganhava.

Ele pensou na próxima vez que trombasse com um carregador distraído do refeitório.
“Na próxima… eu não só pego. Eu já sei pra quem vender. E por quanto.”

Enquanto voltava para a sala, um meio sorriso apareceu em seu rosto pela primeira vez desde o escárnio no café da manhã.
“Quando um burro encontra um esperto… fazem negócio. Mas ninguém continua burro para sempre.”

E no fim do corredor, Dru o avistou por um segundo. Sem que ele visse, ela inclinou a cabeça, quase satisfeita.
“Muito bem, Tycho… muito bem.”


O primeiro troco

Tycho já sabia que tinha sido passado para trás pela Dru. No dia seguinte, ele a viu no mesmo canto do pátio, vendendo a mesma lata de chocolate para outro garoto… por 28 créditos. Ele sentiu um aperto no estômago e, pela primeira vez, não foi só fome. Era raiva, disfarçada de riso.

Então, ele sorriu.

No intervalo, passou por Dru, que organizava as quinquilharias numa toalha improvisada. Ela o cumprimentou com o mesmo ar de superioridade.
— Bom negócio ontem, garoto — disse ela, sem sequer olhar para ele.

Tycho apenas ergueu as sobrancelhas. Jogou em cima da toalha dela um pequeno espelhinho quebrado que pegara na aula de manutenção.
— Quanto você me dá por isso? — perguntou ele, em voz alta, para todos ouvirem.

Dru olhou, olhou para ele, depois para o espelho, e riu.
— Isso aí não vale nem o peso da minha unha.

Ele então disse:
— Pois é. Ontem eu também pensava isso do chocolate.

A turma por perto riu, e Dru ficou momentaneamente sem palavras, encarando o menino com um misto de surpresa e respeito. Ela pegou o espelho, girou nas mãos, como se fosse ouro, e respondeu, mantendo a pose:

— Tá aprendendo, hein? Que a Mãe te abençoe.
Tycho não respondeu. Apenas deu as costas e foi embora, deixando Dru com um sorriso torto no rosto.

No caminho, pensou sozinho:
“Em Ceres, até aprender custa caro. Mas vale cada crédito.”
E, dessa vez, ele riu para si mesmo. Riu de verdade.


Confissões

Theo estava num canto do pátio, sentado no banco mais afastado, curvado sobre a mesa. Os fones pendiam do pescoço, mas não tocavam nada. Ele rabiscava com vigor em um caderno, tão concentrado na resenha da aula de sociologia que nem notava o frio que subia do chão ou os grupos ruidosos passando ao longe.

Quando percebeu, já havia alguém em pé ao lado dele. Apenas uma sombra no campo de visão.
— Tão dedicado… pra quem diz que só pensa em flagball.

Theo ergueu os olhos, impaciente, pronto para despachar qualquer um — até ver quem era. Ceres.
— ...Ah. É você. — murmurou, seco.
— Esperava quem? — respondeu ela, com aquele tom levemente zombeteiro.

Ele coçou a nuca, como se tivesse percebido o erro no tom. Respirou fundo, se recompôs.
— ...Senta aí. — puxou a mochila para liberar espaço ao lado dele.

Ceres se acomodou no banco com a elegância que já lhe era natural. Ele ofereceu uma das bolinhas de cereal que levava num saquinho, mas ela ergueu a mão e recusou.
— Dá pro seu irmão. — disse, neutra. — Ele precisa mais.

Por um instante, ficaram em silêncio, só as canetas e as vozes distantes enchendo o ar. Até que Ceres rompeu o vazio:
— Gene... ele sempre foi assim? Fazendo essas perguntas?

Theo suspirou, apoiando o cotovelo na mesa.
— É. Ele é idiota. Mas vai ficar tudo bem.

— Libertários... — disse Ceres, quase com nojo do som da palavra. — Libertários são idiotas mortos de fome com falsas promessas. Mais esperanças que promessas.

Theo arqueou as sobrancelhas, intrigado.
— Até parece que você conhece algum pessoalmente...

Ela congelou por um segundo. Depois baixou os olhos para a mesa, quase imperceptivelmente.
— ...Conheço. — escapou, numa fração de segundo.

Theo percebeu. E naquele instante, aquela máscara fria dela pareceu rachar bem diante dele.

Ele inclinou a cabeça, num tom mais suave, como se encorajasse:
— Tá tudo bem. Pode me contar. Não conto pra ninguém. Eu prometo.

Ceres respirou fundo, os dedos se apertando em punho sobre o banco. A voz dela tremeu pela primeira vez:
— Eu... conheci um deles. Antes. Antes de... eu ser Ceres.

Ele franziu a testa, confuso.
— Como assim, “antes”?

Ela mordeu o lábio, desviando o olhar.
— Antes de vestir isso. — tocou o bordado vermelho no peito: “MÃE CERES”. — Eu desafiei ela. Achei que podia escapar.

Theo ficou em silêncio, sentindo um arrepio percorrer a espinha.

Ceres enfim ergueu os olhos, crua, sem blindagem:
— Fui com eles. Achei que havia algo além daqui. Só encontrei fome. Covas rasas. Crianças disputando ossos com cães selvagens. Todos eles... morreram. Só eu voltei. E... ela me devorou por dentro quando voltei. Eu nunca mais fui a mesma.

Os olhos dela se tornaram frios outra vez, mas agora Theo via a dor por trás.
— Por isso defendo ela. Porque a alternativa... é nada.

Ela se levantou, ajeitou a camisa, recobrou a postura. Antes de dar o primeiro passo, murmurou:
— Cuida do seu amigo, Theo. Ou Mãe Ceres vai cuidar por você.

Deu um último olhar para ele, duro, mas com algo de frágil ainda lá no fundo:
— Você não vai querer ver o que ela faz com quem não aprende.

E se afastou, deixando Theo sozinho com aquela nova consciência pesando como chumbo.


Mais tarde, Theo a viu na piscina.
Ceres subiu à plataforma dos 10 metros, e por um instante todos os olhares se voltaram para ela. O salto foi perfeito: como uma flecha líquida, abriu a água sem respingar, emergindo como se a gravidade não a tocasse.

Theo respirou fundo, apoiado na beirada, enquanto ela se aproximava.
— A gente... precisa conversar. — murmurou.

Ceres não respondeu. Sentou-se na borda ao lado dele, as pernas ainda pingando na água, os olhos fixos na superfície. Ele não ousou tocá-la. Ficaram apenas se olhando, num silêncio espesso. Até que, sem aviso, Ceres começou a falar.

A voz dela era baixa, mas carregava um peso que dobrava cada palavra:
— Meu nome... ou o que era meu nome... não importa mais. Aqui, eles me chamam de Ceres. Porque nasci do ventre da terra e voltei para ela... mesmo que cuspida.

Ela fechou os olhos, como se mergulhasse de novo nas próprias memórias.
— Eu sou filha de Assum. Você já deve ter ouvido esse nome. A Cantora. — Theo ergueu as sobrancelhas, mas permaneceu calado.
— Ela era uma das maiores vozes que essa cidade já teve. E uma das maiores cientistas também, no campo da biologia. Era bela demais... livre demais... para o gosto do Chanceler Áquila.

Os lábios de Ceres se contraíram.
— Ele a tomou pra si como quem faz um acordo. Para que ela cantasse só para ele... à noite... depois de experimentos e sevícias. Como se sua dor melhorasse a música. Como se sua voz fosse feita para redimir os pecados dele.

Por um instante, a água pareceu tremer sob a luz do teto.
— Um dia, ele a cegou. Para que ela não visse mais ninguém enquanto cantava. Para que sua voz pertencesse só a ele, no escuro. E eu... eu sou fruto disso. Do estupro. Da submissão.

Theo desviou o olhar, incapaz de encarar.
— Ele não me matou quando nasci. Ninguém sabe por quê. Dizem que nem ele mesmo sabia. Eu deveria ter sido queimada com o resto. Mas ele apenas... me repatriou. Jogou-me de volta para essa cidade. Com um aviso: “viva... e nunca volte.”

As mãos dela tremiam agora.
— Alguns dizem que foi pena. Eu não acredito nisso. Acredito que ele quis me deixar viva para que eu soubesse que nada do que eu fizer vai mudar quem eu sou. — a voz dela rachou. — Eu sou filha da Mãe Ceres. Porque ela me devorou. E aqui é meu lugar. Não há para onde fugir.

Ela ergueu o olhar para Theo, pela primeira vez em muito tempo mostrando um rasgo de fragilidade:
— E é por isso que eu defendo isso aqui. Porque o que existe lá fora... é pior.

A piscina continuava calma, mas o ar parecia pesado demais para se respirar. Theo sentia as palavras reverberarem nele como um cântico esquecido — quase tão insondável quanto a própria cidade.

Poucos ouviram a voz de Assum, e todos diziam a mesma coisa: era como ouvir a alma de Deus. Homens choravam ao escutá-la, devorando seus pecados para alcançar a redenção. Quem ouviu nunca esqueceu. Quem não ouviu... jamais ouvirá.

E Theo finalmente entendeu por que os segredos de Ceres... eram tão impossíveis quanto os segredos da cidade que os abrigava.

Ceres respirou fundo, como se não soubesse direito por que ainda falava.
— Ele tinha uma obsessão por ela — disse, por fim. — Não era só desejo. Era outra coisa... uma raiva de nunca conseguir quebrá-la. Ele a cobria de sangue e de ouro como num quadro... como naquele quadro velho, O Abraço, de Klimt. Como se ela fosse dele, mas ainda assim não fosse. E isso o enlouquecia.

Theo a fitou em silêncio, incapaz de imaginar aquilo — mas também incapaz de não imaginar.

Ceres continuou, com um sorriso torto, cruel, cansado:
— E você sabe qual a parte mais bonita? — disse. — Todos nós já ouvimos a voz dela. Eu, você, Gene... todos. Mas a maioria... nunca percebeu que era ela.

Theo franziu o cenho, confuso.
— Todos os dias — explicou Ceres, encarando a água negra da piscina — às sete da noite... no rádio... antes do toque de recolher... ouvimos as notícias da Mãe Ceres. E aquela música suave ao fundo, aquela melodia triste, que parece acalmar e assustar ao mesmo tempo... é a voz da minha mãe. Gravada, estilhaçada em notas.

Ela fechou os olhos, deixando a lembrança do som invadir sua mente.
Concerto pour une voix, de Danielle Licari, parecia ecoar pelo ginásio, invisível mas presente.
— E ninguém ouve de verdade. — murmurou. — Mas está lá. Está sempre lá.

Foi então que um estalo metálico soou pelo ginásio.
Os alto-falantes chiavam, a luz vermelha do relógio marcava exatamente 19:00.

E uma voz feminina, impecável, delicada e fria, inundou o espaço com as notícias do dia:
— Cidadãos de Ceres, boa noite. Informamos que...

E por baixo da locução, suave, como um véu de seda sobre uma lâmina, a melodia se insinuava: uma mulher cantando sem palavras, uma voz de cristal e dor, arrebatadora, divina.
A Voz de Mãe Ceres.

Theo, imóvel, a ouviu dessa vez. Ouviu de verdade.
E, pela primeira vez, sentiu um nó na garganta.

Ao seu lado, Ceres apenas fechou os olhos e disse, quase para si mesma:
— É isso. Agora você entende.

E, por um instante, Theo entendeu.
A melodia ainda ecoava nos alto-falantes, como um lamento divino, e, ao fundo, a locutora fria continuava enumerando números, ordens, estatísticas — indiferente à dor que aquela voz enterrada despertava.

Ceres tremia. O som a despedaçava por dentro, a cada nota parecia arrancar-lhe uma lasca da alma.
E, finalmente, ela chorou.

As lágrimas escorreram livres pelo rosto pálido, salgadas e quentes contra o silêncio perplexo de Theo. Ela cobriu o rosto por um instante e depois falou, entre soluços, deixando tudo sair:
— Foi... foi isso que me matou por dentro, Theo... — a voz dela era um fio, frágil, rachado — quando voltei pra ela. Não foi a primeira vez que me sequestraram... foi a segunda. Eles me levaram... para ela.

Ceres respirou fundo, os ombros sacudindo. Theo não ousou interrompê-la.
— Ela estava lá. Minha mãe... Assum. E o monstro do meu pai também. O Chanceler Áquila. Fiquei com minha mãe por duas semanas. Duas únicas semanas. Pensei que fosse ter paz, que finalmente... mas não. Ele me torturou. Tentou me dobrar como tentou dobrá-la.

A música nos alto-falantes parecia mais alta, mais cruel.
— Ele não conseguiu. Nem nela, nem em mim. Então tentou me matar, Theo. Com as próprias mãos. Mas não conseguiu. — a risada dela soou amarga, entre um soluço e outro — Disse que eu era um milagre. O único milagre que ele já fez... ter uma filha bastarda. E me olhava como se eu fosse um erro que ele nunca conseguia apagar.

Os olhos dela brilhavam de dor e orgulho ao mesmo tempo.
— Jogaram-me nas fronteiras de Ceres, na lama, nua, com frio e fome. Eu andei quilômetros, sem rumo. Até ver o colégio no centro. Era idêntico ao da minha infância.

Theo sentia o estômago embrulhar, vendo cada palavra dela se enterrar como uma faca nela mesma.
— Eu estava zonza, caí no pátio, perto dos arbustos. Vi vocês. Você, Daime, Tycho. Eu não via os rostos ainda... o que me chamou a atenção foi como você olhava para eles. Como cuidava deles. Daime te insultava, você ria. Você dava um bolinho numa embalagem marrom para o seu irmão, quando ninguém estava vendo. Você queria que todos fossem felizes, mesmo passando por cima da sua própria felicidade.

Ela finalmente ergueu o olhar para Theo, e, pela primeira vez, ele viu aqueles olhos azuis — feridos, mas sinceros, e doces, como se o mundo todo já tivesse acabado dentro deles e ainda assim sobrasse amor.
— Foi ali que corri para os seus braços... porque eu soube. Soube que você era bom. Que podia confiar em você.

E depois, num fio de voz, com um sorriso trêmulo:
— Hoje eu vejo... que é a pessoa mais bela que já vi. Mesmo sem precisar olhar nos seus olhos.

O som da Voz de Mãe Ceres ainda preenchia a noite, com aquela melodia triste e redentora — e Theo, pela primeira vez, não teve resposta. Só ficou ali, olhando para ela.
E prometeu, em silêncio, que jamais a deixaria sozinha de novo.

A melodia da Voz de Mãe Ceres continuava, pairando como uma névoa sobre eles, impossível de ignorar.
Ceres chorava agora sem tentar esconder, sem forças para conter. As lágrimas desciam quentes, o peito arfava, os soluços ecoavam baixinho.

Theo não pensou duas vezes.
Com um movimento calmo, aproximou-se dela e a puxou para si. Envolveu-a num abraço firme, sereno, mas cheio de ternura.

Ela cedeu, deixando o peso inteiro de seu corpo desabar contra ele.
Theo apoiou a cabeça dela em seu ombro, sentindo os cabelos úmidos de lágrimas roçarem sua pele. Passou a mão de leve por suas costas, num gesto quase imperceptível, como quem diz: Eu estou aqui. Pode chorar. Está tudo bem.

E assim ficaram.
Em silêncio.
Ceres encolhida, acolhida.
Segura, finalmente, como se depois de todo aquele caminho pela lama, pela dor, pelos horrores da Mãe Ceres, tivesse encontrado um porto.

Os olhos de Theo permaneceram fixos num ponto distante, ouvindo apenas a respiração trêmula dela, sentindo cada soluço estremecer seu peito.
E ele prometeu a si mesmo — sem palavras, apenas com aquele abraço — que nunca a deixaria sentir-se sozinha de novo.

Porque naquele instante, era ele quem a amparava.
Mas no fundo, ele sabia: era ela que, por dentro, sempre sustentaria todos eles.

Enquanto Theo e Ceres permaneciam juntos à beira da piscina, a melodia suave e quase divina da Voz de Mãe Ceres se espalhava por toda a cidade como uma prece inevitável.
Os alto-falantes chiavam e, por todos os cantos, a mesma música ecoava — no refeitório vazio, nos corredores desertos, nas casas silenciosas.

Longe dali, em um dos alojamentos mais afastados, Gene estava sozinho.
Sentado sobre a própria cama, as mãos fechadas em punhos, encarava o rádio que transmitia a Voz.

Aquela música.
Aquela voz.
Aquela mentira.

Seus olhos se estreitaram num misto de raiva e desdém.
E, num sussurro baixo, quase cuspido, deixou escapar:
— Vadia.

Nem mais, nem menos.
Só isso.

E o som da Voz de Mãe Ceres continuou, como se nem mesmo ela tivesse notado a afronta.

Gene ficou ali, imóvel por alguns instantes depois de dizer aquilo, encarando o rádio como se estivesse diante de um inimigo íntimo e invisível.
Seu peito subia e descia rápido, a respiração curta e quente, mas não de cansaço — de ódio.
Sentia os dentes rangerem e as mãos formigarem de tão fechadas.

A melodia prosseguia, suave, redentora para uns... um insulto para ele.

E no fundo, lá no fundo, ele se perguntava por que odiava tanto aquilo.
Porque talvez fosse verdade.
Porque talvez, em algum momento, ele também tivesse acreditado.
Porque talvez aquela voz — aquela maldita voz — lembrasse tudo o que ele nunca teve: colo, aceitação, confiança.

E agora, só o som já era suficiente para fazê-lo sentir-se um nada diante de todos os outros, que pareciam se curvar gratos à Mãe Ceres, cegos e satisfeitos.

Mas ele não.
Ele não ia se ajoelhar.
Nunca.

— Vadia... — repetiu de novo, mais baixo, a voz embargada, o olhar endurecido.
— Pode enganar todos eles... mas não a mim.

Então se deitou de costas na cama, encarou o teto e deixou a música continuar, como um veneno suave do qual não podia escapar.
Por dentro, prometeu a si mesmo: ainda provaria que estavam todos errados.
Ele não precisava dela.
Ele não precisava de ninguém.


No dia seguinte

Mais uma pichação nova no pátio: "Mãe Ceres, imunda!"
Os Silenciadores estavam lá, imóveis, vigiando.
Os alunos fingiam não ver nada, como sempre.

Theo olhava a parede com atenção, mas sem se comprometer.
Ceres passou por ele e fingiu que nem havia ninguém ali, a cabeça baixa, envergonhada ainda pela confissão da noite anterior — e pelo abraço inesperado.

Ficaram assim, estranhos um ao outro.
O silêncio entre eles era tão pesado que Daime não aguentou e abriu a boca:
— Tá tudo igual, cara. Tudo dentro da normalidade... até as pichações. Menos essa tua cara e a indiferença dela. — cutucou, rindo sozinho.

Tycho, enfiado na própria bandeja, abocanhava a refeição como um cão esfomeado, sem prestar atenção em nada.

Dark passou perto de Theo, esbarrou de propósito no ombro dele e disparou um insulto baixo só pra irritar. Theo nada respondeu.

Daime deu mais uma risada amarga.
— Sabia... cê fez alguma besteira ontem, né? Típico dela estragar tudo depois que alguém estende a mão. — disse, encarando Theo com aquele humor corrosivo que só ele tinha. — Vai, olha pra mim. Quero ver essa tua cara de mártir enquanto eu te humilho.

Theo ergueu os olhos devagar, sem dizer nada, mas por dentro fervia.
Daime sorriu de canto, satisfeito com o estrago que fazia só com palavras.

Tycho saiu do refeitório sem se importar com o que acontecia atrás dele.

Theo e Daime discutiam num canto, tentando entender por que Ceres andava tão isolada. Theo só balançava a cabeça: não sabia.

No pátio, Dru já estendia seu tapete perto do arbusto, espalhando quinquilharias para troca com os alunos — perfumes baratos, esmaltes, rímel, fitas cassete, toca-fitas velhos.

Tycho se encostou por ali, apenas observando, os fones no ouvido.

De repente, o toca-fitas chiou e parou de funcionar. Ele ficou indignado, esmurrando o aparelho como se fosse um inimigo.

Dru percebeu o drama e sorriu.
— Tenho um pra você, se quiser trocar — disse, sem levantar os olhos.

Furioso, Tycho não respondeu. Saiu dali direto para a aula de engenharia.

O professor falava sobre motores e correias, apontando para uma bancada cheia de peças. No final da aula, o professor varreu as ligas de borracha para a lata de lixo.

Tycho esperou que ele saísse, depois se abaixou e pegou as ligas, examinando-as com um brilho nos olhos.

Na saída, um aluno jogava um toca-fitas no lixo, xingando: não funcionava.

Tycho se aproximou da lixeira devagar, como um caçador. Parou diante dela, tirou os fones do pescoço, ergueu a cabeça e disse, para ninguém em especial:
— Achei o ouro.

Naquela noite, já sob o toque de recolher, Tycho se esgueirou pelos corredores escuros com uma vela escondida sob a blusa.

Enfiou-se no armário dos dormitórios, onde ficavam os materiais de limpeza. Ali dentro havia uma mesinha manchada de graxa, uma lâmpada queimada presa na parede.

Ele acendeu a vela e a colocou no canto, iluminando a poeira no ar.

Sentou-se, tirou do bolso os dois toca-fitas e espalhou sobre a mesa as ligas de borracha que resgatara na aula de engenharia. Pegou arames grossos do balde de vassouras, lixou as pontas na própria parede, improvisando pequenas chaves para abrir as tampas dos aparelhos.
Um a um, desmontou-os. Ambos tinham o mesmo problema: correias arrebentadas. Sorriu sozinho. Com calma, recortou as ligas de borracha em tiras menores e as moldou como novas correias. Testou os mecanismos, girou as rodas, e ouviu o clique suave do motor voltar à vida. Funcionavam.

Tycho ficou feliz como uma criança. Passou horas ali, ajustando detalhes, rebobinando fitas, ouvindo um pedacinho de música baixinho só para provar que estava certo. Nem percebeu o tempo passar.

Até que… um barulho.
Ele se enrijeceu, soprou a vela e ficou imóvel. Do outro lado da porta, uma silhueta atravessava o corredor com uma lanterna fraca. Curioso e cauteloso, Tycho abriu a porta só o suficiente para espiar.

A figura se ajoelhou diante de uma parede já marcada por pichação. Tirou do bolso tubos de tinta preta — claramente roubados da sala de carpintaria — e começou a traçar novas palavras sobre as antigas.

Quando a luz da lanterna bateu no rosto dele, Tycho sentiu o estômago revirar: era Gene.
O mesmo Gene que todos temiam, indiferente e brutal, riscando a parede sem pressa, como quem escreve um testamento.

Tycho ficou horrorizado, mas incapaz de desviar os olhos.

No dia seguinte, o refeitório fervilhava como sempre. Daime fazia piadas altas demais para aquela hora, arrancando risadas dos mais próximos, como se nada no mundo pudesse quebrar seu humor. Mas Theo não conseguia rir. Estava inquieto, os olhos presos à mesa ao lado — vazia.

No azulejo branco e frio atrás dela, a pichação ainda chamava atenção, rabiscada às pressas durante a madrugada: Mãe Ceres Cadela no Cio. As letras pretas, tortas, sujas, pareciam sangrar contra o tom asséptico da parede. Era o segundo dia seguido que aparecia algo assim. E, como ontem, lá estavam eles: dois silenciadores, parados junto à porta, observando tudo em silêncio absoluto, mãos cruzadas nas costas e rostos sem expressão.

Ninguém comentava em voz alta. Ninguém ousava. Só o burburinho comum, as bandejas rangendo no metal das mesas e a risada alta de Daime enchiam o espaço, como se todos preferissem fingir que nada de errado acontecia. Mas Theo sentia: a ausência naquela mesa, as palavras na parede, a presença dos silenciadores — tudo isso pesava no ar, como uma promessa maldita que ninguém queria nomear.

— Cadê o Tycho? — perguntou, franzindo a testa.
— Sumido — respondeu Daime, com um sorrisinho malicioso. — Vai ver dormiu com a vassoura. Ou com a Dru.

Theo ignorou o comentário, ainda mais preocupado. De canto de olho, percebeu Ceres do outro lado do salão, sentada sozinha. Ela espiava a mesa deles, mas quando Theo cruzou o olhar com o dela, virou o rosto depressa. Ainda estava mexida pela conversa da noite anterior, ele podia sentir. Theo não forçou. Deixou que ela tivesse o próprio silêncio.

Levantou-se no meio do barulho, deixando o bolo embrulhado na mão. Foi até os dormitórios.

Encontrou Tycho enrolado no lençol, dormindo ainda. As cortinas mal abertas deixavam entrar um filete de luz. Theo sentou na beirada da cama e o sacudiu de leve.

— Ei. Bora. Tá atrasado pras aulas.

Tycho abriu os olhos devagar, cabisbaixo, a expressão apagada.

— Já vou… — murmurou, sem ânimo.

— Tá com febre? — Theo perguntou, ainda segurando o bolo. — Cê sumiu do refeitório. Até trouxe um pedaço pra você.

Tycho ergueu os olhos por um instante para o bolo, mas balançou a cabeça.

— Não quero.

Theo ficou parado por um instante, surpreso.

— Não quer? — repetiu, baixinho.

Tycho não respondeu. Apenas se levantou lentamente e começou a se vestir, ainda sem encarar o amigo.

Theo respirou fundo, se levantou e foi embora, mas não sem lançar um último olhar pensativo para Tycho. Enquanto caminhava pelo corredor, mastigava um pensamento: algo aconteceu. Ele nunca recusa bolo.

Theo caminhava pelos corredores do colégio, sozinho, as mãos nos bolsos e a testa franzida. Mil pensamentos lhe atravessavam a cabeça. O que diabos tinha acontecido com Tycho? A maneira como ele tinha acordado cabisbaixo, recusando o bolo, nem ao menos olhando para ele... aquilo não era normal.

E a primeira suspeita latejava na mente dele como um prego cravado: Dark.
Se tivesse sido o Dark, se ele tivesse encostado um dedo sequer em Tycho... Theo respirou fundo, tentando não afogar o próprio peito. Jurava: se fosse o Dark, dessa vez as coisas iam ser piores.

Entrou na sala com o semblante duro. Daime já estava lá, sentado no mesmo canto de sempre, espalhando comentários venenosos para quem quisesse ouvir.
— Ih, e o Tycho? Sumiu mesmo? Deve ter virado sombra… ou penico de alguém! — zombou, rindo sozinho.

Theo sentou-se, cruzando os braços e fuzilando Daime com o olhar.
Um silêncio incômodo pairou por segundos, até Daime perceber o ódio no rosto do amigo.
— Eita… — murmurou, levantando as mãos. — Calma aí, eu não tenho culpa se o teu irmão é um idiota, beleza?

Theo não respondeu. Não conseguia. Sentiu o sangue ferver nas veias e, antes mesmo de a aula começar, empurrou a cadeira para trás, levantou-se e saiu da sala sem dizer nada.

Ceres, que estava sentada duas fileiras atrás, acompanhava cada gesto dele em silêncio, os olhos seguindo a porta que se fechava.
— Pra onde ele foi? — perguntou alguém.
Daime esticou os braços, dando de ombros com um meio sorriso debochado:
— Ah, sei lá. Deve estar apertado. Foi cagar.

Theo não pensou duas vezes. Saiu do prédio e atravessou o pátio com passos longos, como um animal no encalço de sua presa. Se fosse o Dark, jurava que aquele seria o último dia dele no colégio.

Mas, antes de alcançar a área dos fundos, Theo parou ao avistar Tycho, encolhido perto de Dru, que estava agachada organizando suas quinquilharias sobre o tapete. Tycho segurava um dos toca-fitas consertados, olhando para ela com um ar vazio.

Theo assoviou, curto e agudo.
Tycho ergueu a cabeça imediatamente, como um cão chamuscado, atendendo sem questionar.

Theo se aproximou com passos pesados, tomou Tycho pelo braço com força, sem se importar com o olhar surpreso de Dru.
— Ô! — protestou ela, franzindo a testa. — Irmão?!

Theo não respondeu. Arrastou Tycho para um canto mais reservado, entre dois blocos, onde ninguém os veria. Soltou-o ali, de frente para ele, ambos na mesma altura. Tycho tremia, quase chorando.

— O que o Dark fez? — Theo disparou, a voz baixa, mas cortante. — Fala! O que ele te fez?

Tycho gaguejou:
— Eu… eu não… não foi nada…

Theo segurou-o pelo colarinho, colando a testa na dele, o olhar faiscando.
— Não mente pra mim, Tycho — disse num tom ameaçador, que fez o mais novo encolher-se. — Diga!

Tycho fechou os olhos, lágrimas pesadas caindo pelas bochechas. Finalmente, murmurou:
— … não foi o Dark.

Theo afrouxou a mão, incrédulo.
— Como é que é?

Tycho respirou fundo, tentando recompor a voz.
— Não foi o Dark… — repetiu, engolindo em seco. — Foi… Gene.

Um silêncio pesado desceu entre eles. Theo recuou um passo, os olhos arregalados.
— Gene? — perguntou, num tom de quem não queria acreditar. — Como assim?

Tycho fungou, a voz embargada.
— Eu… eu tava no armário de limpeza do dormitório… consertando os toca-fitas. O tempo passou, já era noite. Aí ouvi barulhos no corredor. Fui ver. Ele… tava lá. No refeitório. Com tinta preta. Fazendo… a pichação.

Theo ficou imóvel, as mãos cerradas. O coração batia no peito como um martelo.

Gene. Gene.

Aquilo não era só uma afronta. Para Theo, era uma traição ao que havia de mais sagrado: trair Mãe Ceres.

Ele fechou os olhos e inspirou fundo, tentando conter a raiva que queimava seu sangue. Quando os abriu, o olhar era frio como gelo.

Sem dizer nada, apenas largou Tycho ali, atônito, e se virou, já decidido sobre o que faria a seguir.

No instante em que Tycho terminou a confissão, Theo ficou imóvel, olhando para ele como se não o reconhecesse mais. Gene.

O nome ecoava em sua mente, trazendo memórias confusas — das tardes em que ouviam músicas juntos no dormitório, dos conselhos improvisados que Gene lhe dava sobre Kat, das jogadas ensaiadas na quadra, do jeito como irritava todos com seus questionamentos nas aulas, e mesmo assim conseguia tirar dos professores respostas que ninguém mais teria coragem de pedir.

No fundo, fazia sentido que fosse Gene o pichador. Ele sempre foi ousado. Sempre teve uma língua afiada demais para Ceres.

Theo respirou fundo e se agachou diante do irmão, a mão pesada pousada em seu ombro.
— Escuta bem, Tycho… — disse num tom baixo, frio. — Não fala disso pra ninguém. Entendeu?

Tycho assentiu, com as lágrimas ainda nos olhos.
— Volta pra sala de engenharia. Agora.

— Mas… mas eu já… já terminei os deveres… — murmurou Tycho, com a voz embargada.
— FAÇA DE NOVO! ENTENDEU?! — rugiu Theo, com um estalo que ecoou pelo corredor.

Tycho encolheu-se ainda mais, soluçando, e saiu correndo em direção à sala de engenharia. Quando passou por Dru, ela viu Theo parado ali, com uma aura quase demoníaca, os olhos faiscando como brasas. Ela estremeceu e nada disse.

Theo ficou sozinho por um momento, encarando o chão. Um pensamento martelava sua mente:
"Meu irmão não vai ser cúmplice de um traidor. Não vou permitir isso."

Então respirou fundo, fechou os punhos e voltou para a sala de aula de onde havia saído.

O professor já havia começado e o encarou assim que ele entrou.
— Sr. Theo… — disse o homem, a voz áspera — … já falei que não tolero atrasos.
— Desculpe, senhor. — Theo respondeu, num tom frio.

Foi quando Daime, do fundo da sala, soltou uma gargalhada e disse alto:
— Foi cagar, né? Voltou pra pegar papel!

Alguns riram. Theo apenas lançou um olhar fulminante para ele antes de ir sentar-se. Nem tinha mais energia para se importar com Daime naquele momento.

Gene estava lá, sentado, como se nada tivesse acontecido. Theo o encarou de relance. O peito queimava. Ele não podia acreditar.

Ceres, sentada a poucas fileiras dali, percebeu a aura sombria que envolvia Theo. Um peso tomou conta da sala, como se um demônio estivesse espreitando entre eles.

Era manhã ainda. O professor virou-se para o quadro e começou a explicar o tema do dia:
"Os traidores que perdem seu nome em Ceres."

Theo manteve o olhar fixo em Gene. Cada palavra do professor soava como um prenúncio:
"Os que traem, perdem tudo… inclusive o direito ao próprio nome."

Theo apertou os punhos embaixo da carteira. A decisão já se formava, feroz, dentro dele.

O professor endireitou a postura assim que Theo entrou e se sentou, atrasado e sem olhar para ninguém. O homem arqueou uma sobrancelha ao notar a mão trêmula e a cadeira ligeiramente rachada sob o peso da raiva.

— Muito bem, jovens… — disse com um tom morno, sem pressa. Seus olhos se demoraram em Theo por um instante, com um pequeno sorriso enviesado. — Ah… você é irmão do Major Tomas. O astronauta. Que fantástico! Um verdadeiro filho exemplar da Mãe Ceres… que orgulho para todos nós, não é?

O professor deu meia-volta para o quadro negro, apagando a lição antiga com brusquidão seca. O giz rangeu quando ele escreveu, sem olhar para os alunos:
"RECORRÊNCIA DAS PINTURAS DE BLASFÊMIA NO COLÉGIO MODELO"

Ele largou o giz com um estalo e encarou a turma. O tom da voz ficou mais baixo e gelado.
— Este colégio é um dos melhores de Ceres. É um orgulho para toda a nossa Mãe.

Pigarreou.
— E em dois dias… duas pichações. Dois insultos, cuspidos na face daquela que nos acolhe. — Sua mão bateu contra a madeira da mesa, fazendo alguns se sobressaltarem. — É… preocupante.

O silêncio dominava a sala, os olhos dos alunos fixos nele.

Então ele deu um passo à frente, devagar.
— E não custa repetir… para que fique bem gravado. — Seus olhos varreram a turma, frios como pedra. — Aqueles que quebram as regras, aqueles que blasfemam contra a Mãe… perdem o nome.

Alguns alunos engoliram seco.
— É isso mesmo. Vocês não entenderam errado. — Os olhos brilharam num ódio contido. — Perdem o nome. Perdem quem são. Passam a ser apenas um código alfanumérico, irrelevante diante de Ceres. Como lixo. Como pó. Uma alma sem rosto, sem história, sem passado. Uma sombra esquecida no sistema.

A cada palavra, Theo sentia a respiração mais pesada. Seu punho já estava branco.

O professor deu meia-volta, caminhando até a janela com as mãos para trás. Ficou um momento em silêncio, observando o pátio. Então comentou, num tom mais suave, quase desdenhoso:
— E há também… uma mocinha suspeita aqui… não é? Uma incômoda. — Sem virar-se, seus olhos encontraram os de Dru, que arregalou os próprios. — Troca quinquilharias frívolas… fitas proibidas… maquiagens femininas… coisas que não servem à Mãe.

O homem deixou escapar um riso curto.
— Mas… ah… Mãe Ceres não se importa com isso. Moscas não levam a carne, não é? Moscas só rodeiam… esperando.

A sala toda gelou.
— Porém… há moscas que se tornam irritantes. E nós sabemos muito bem… o que fazemos com moscas assim.

Nesse instante, a cadeira de Theo estalou. Um barulho seco ecoou quando ele apertou a madeira com tanta força que quebrou um braço da cadeira. Alguns colegas olharam para ele, assustados.

O professor se virou lentamente, frio.
— Recomponha-se, Theo. — Sua voz era baixa, mas cortante. — Este assunto é sério demais para criancices.

Theo respirou fundo, tentando conter o fogo dentro do peito. O professor então lançou o golpe final:
— E saibam todos vocês… — disse, andando de volta para a frente da sala — qualquer um que esteja… acobertando… seja quem for, não importa quão amigo, irmão, colega seja…

Uma pausa. Um olhar sombrio para cada rosto.
— … irá junto com o pichador.

Um sorriso fino, cruel.
— Serão queimados. Em praça D. Para que todos vejam.

O silêncio se instalou como uma sentença.

Theo abaixou a cabeça, escondendo a raiva nos olhos. Kat tremia em sua carteira, e Gene… Gene apenas encarava o quadro, impassível.

Ceres fechou os olhos, como se a própria sala pesasse sobre seus ombros.

O professor ajeitou o paletó com calma, como se nada tivesse dito. Passeou os olhos pela sala, encontrando olhares cabisbaixos, dedos trêmulos, respirações presas. Então, sorriu. Um sorriso pálido, que não tinha calor nenhum — apenas cálculo e crueldade.

— Muito bem… — disse, com aquele tom meloso que mais lembrava veneno — Vou passar em sala em sala hoje, levando este recado. Não pensem que esta é só a realidade desta turma. É a realidade de todos aqui.

Fez uma pausa dramática, observando as carteiras como um carcereiro observa sua cela. Depois continuou:
— E para aqueles… que se sentirem tocados pelo dever de proteger nossa querida Mãe Ceres… — sua voz desceu a um sussurro sinistro, mas perfeitamente audível — … não tenham medo. Aqueles que denunciarem… aqueles que colaborarem conosco entregando o culpado… serão lembrados.

Endireitou-se, abriu bem os braços, como um padre diante de seu altar.
— Sim, jovens. Entregar traidores à Mãe Ceres… será honrado. Respeitado. E recompensado.

Fechou os punhos atrás das costas, inclinou a cabeça para trás, e completou com um fervor quase religioso:
— Porque Mãe Ceres… — a voz ficou grave, como um cântico ameaçador — … nos alimenta… nos educa… e… nos devora.

Por um instante, ninguém ousou sequer respirar.

O professor recolheu suas anotações com calma, apagou o quadro negro com movimentos lentos, e saiu da sala sem olhar para trás, assobiando baixinho um hino que todos conheciam bem — o hino das Praças de Punição.

O som do giz sendo guardado ecoou como um epitáfio.

Na sala, a tensão era quase física. Theo não conseguia parar de encarar o tampo da carteira, a raiva pulsando nos dedos. Dru mordia a ponta da unha, o olhar perdido. Gene, impassível, mexia na caneta com um sorrisinho que ninguém ousava interpretar.

E, de alguma forma, cada um sentiu que, a partir dali, algo na escola tinha mudado para sempre.

O intervalo soou no sino com um eco metálico e sem alma.

Theo não disse nada. Não se virou para ninguém. Apenas se levantou da cadeira, sentindo as juntas estalarem de tensão, e saiu da sala como um espectro.

Caminhou pelos corredores sem ouvir as conversas ao redor, sem ver os olhares curiosos e temerosos que o seguiam. Um nó apertava sua garganta. Na mente, um pensamento único — seco, cruel, inegociável: matar Gene.

Ele precisava. Gene era uma doença dentro do corpo de Ceres. Um tumor que ameaçava não só a própria cidade, mas tudo o que Theo ainda tentava proteger.

Mas, conforme caminhava, uma imagem brotou em sua consciência — inesperada, incômoda.

Dru.

Dru, com sua mochila cheia de quinquilharias bobas, perfumes, fitas proibidas, sua teimosia frágil que todos ignoravam.

Dru… que não fazia mal a ninguém… e ainda assim…

Ainda assim, poderia cair junto.

Theo parou no meio do corredor, apoiando-se na parede gelada.

O mundo inteiro pareceu pesar em seus ombros. As correntes frias do inferno gelado dos traidores se enrolaram em seu peito, sufocando sua respiração. Ele quase podia ouvir a gargalhada da Mãe Ceres ecoando nos azulejos, nos tubos metálicos, nas janelas sujas:

"Entregue-me. Entregue-me o traidor do meu berço… eu o devorarei, eu o honrarei, eu rirei com ele em minhas entranhas."

Theo apertou os olhos, tentando apagar aquela visão. Mas, em sua mente, só havia Gene rindo e pichando… Tycho chorando e humilhado… e Dru, inocente, arrastada para a Praça D, torturada, confessando crimes que nunca cometeu.

A mão invisível da Mãe Ceres se fechava cada vez mais sobre sua garganta.

Ele não sentia apenas raiva agora — mas também culpa. Medo.

Seguiu pelo corredor, solitário, os passos pesados como chumbo, como se arrastasse grilhões invisíveis, e, por um instante, se sentiu tão pequeno quanto um número alfanumérico sem nome, um traidor no limiar da devoração.

E a cada passo, a risada da Mãe Ceres soava mais e mais alta.

Theo entrou na coordenação como quem mastiga vidro.
Cada palavra que saiu de sua boca feriu-lhe a língua, mas ele as disse mesmo assim:
— Foi Gene. Eu vi.

O silêncio que se seguiu doeu mais do que a própria denúncia.
O peso que o esmagava por dentro finalmente se soltou — mas não se dissipou. Apenas mudou de forma. Agora era um bigode frio de desgraça cravado em sua língua.

Mãe Ceres sorriu para ele.
Implacável.
Mãe Ceres sempre sorri quando alguém sangra por Ela.

Sem perder tempo, a coordenação acionou os Silenciadores.
Os homens vestidos de preto não trocaram palavras. Apenas marcharam pelos corredores em direção ao dormitório dos garotos.
Theo, com as mãos ainda suadas, foi atrás.

Quando a porta do quarto rangeu, eles já estavam lá.
Gene, sentado em sua cama, apenas ergueu os olhos.

Sobre a colcha limpa, repousava uma lata de tinta preta da carpintaria.
Debaixo do travesseiro, cadernos rabiscados — um diário de afronta, páginas e mais páginas que riam na cara de Mãe Ceres, denunciando cada blasfêmia: comendo sua comida, dormindo em sua cama, tomando seus remédios, triunfando nos jogos e, ainda assim, cuspindo em seu rosto.

Os Silenciadores não precisaram dizer nada.
Cada página escrita era uma sentença.
Cada linha, um chicote.
Cada palavra, um crime.

Mãe Ceres, por trás de seus muros gelados, gargalhava.
Implacável.
Mãe Ceres devora os traidores com dentes de ferro.

Então veio a notícia.
Kat já havia sido capturada também.
A primeira a ser levada para Pietà — a Casa das Mães.

Ninguém ali precisava de exames ou provas para saber a verdade:
Kat carregava no ventre o filho de Gene.
O bastardo de um traidor.
Um câncer germinando bem no seio da Cidade.

Todos sabiam.
Traidores não apenas mereciam ser esmagados.
Eles eram a própria doença que Mãe Ceres precisava extirpar.

E Theo… Theo assistia em silêncio, sentindo os olhos dela cravados em sua nuca, orgulhosos e cruéis.
Ele havia feito o que devia.
Afinal, em Ceres, não há nada pior do que a traição.
Nada.

A justiça de Mãe Ceres é implacável e fria.
Oh, Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa… e nos devora!
Que faz Sua justiça sobre aquele que ousa profanar Seu útero sagrado.

Entre Seus rins, Gene germinou como um filho maldito — um verme alimentado pelo leite de Sua graça, mas ingrato.
Um filho que, em vez de se curvar ao Seu ventre, a rasgou por dentro.
Que contaminou o sangue da cidade com seu veneno.
Que viralizou como uma peste, espalhando dúvidas e podridão como um câncer.

Que outros deuses — se é que existem — tenham pena.
Pois Mãe Ceres não.
Ela não perdoa.
Ela não hesita.
Ela não esquece.

Em Sua placenta de ferro não há lugar para impuros.
Em Sua mesa não há pão para os que negam Seu seio.
Em Suas veias não há remédio para a doença da ingratidão.

E assim Gene será esmagado por Suas mãos frias,
devorado por Seus dentes de ferro,
queimado em praça pública para que todos saibam:
em Ceres, os filhos que traem a Mãe são devolvidos à terra como esterco.

Oh, Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa e nos devora…
Que o sofrimento deles sirva de pão para Teu rebanho.
Que as cinzas deles adubem Teus jardins.
Que a dor deles sacie Tua fome.
E que nós, Teus fiéis, jamais esqueçamos:
não há nada mais frio que Teu amor.
E nada mais certo que Tua justiça.

No refeitório, Gene ainda ousava sorrir.
Sentado à mesa, com ares de desdém, como se o mundo inteiro não passasse de uma piada mal contada.

E então vieram os Silenciadores — três homens de preto, frios, calados, sem pressa nem misericórdia.
Puseram as mãos nos ombros dele, como quem segura um animal condenado ao abate.

E Gene não resistiu. Apenas ergueu o queixo e sustentou aquele sorriso insolente… até o fim.

Theo estava lá.
Sentado.
Parado.
Mas em sua face havia a pura expressão do ódio.

Um ódio tão afiado, tão absoluto, que fazia as mãos dos colegas tremerem.
Ninguém, naquele salão, jamais tinha visto olhos tão mortais.

E todos ali entenderam: não era hora para piadas, nem para desculpas, nem para lamentos.
Daime, que sempre tivera a língua mais afiada da escola, engoliu em seco.
Ficou em silêncio.
Até ele soube que não era momento de zombar.

Naquela manhã, todos caíram em desgraça juntos.
O traidor estivera diante de seus olhos por tanto tempo…
fazendo perguntas que ninguém quis responder,
tecendo comentários que ninguém ousou denunciar,
rindo às custas da Mãe — e ninguém teve coragem de fazer o que precisava ser feito.

E agora, vendo Gene levado pela mão implacável da Justiça,
cada um deles sentia o peso do próprio fracasso.
Um nó na garganta.
Uma vergonha silenciosa.
A sensação de terem falhado com a Mãe.
De não terem sido dignos de Sua vigilância.
De terem permitido que a profanação crescesse dentro da Casa sem que ninguém erguesse a voz.

No fundo, muitos desejaram ter sido eles a avisar a Coordenação.
Sentiam quase inveja de Theo, por ter feito o que todos sabiam que precisava ser feito.

Mas Mãe Ceres, sempre misericordiosa com Seus filhos fiéis, não os recriminava por isso.
Ela não odeia os que hesitam — apenas devora os que traem.

E cada coração ali, silenciosamente, prometeu a si mesmo:
nunca mais hesitar diante do óbvio.
Nunca mais deixar que um inimigo, um traidor, cresça entre nós.

Gene foi levado.
E todos sentiram como se tivessem recuperado a pureza de sua Casa.
A Mãe sorria para eles novamente.
E eles, por fim, voltaram a respirar.


Pátio do Colégio de Mãe Ceres


Mais de cinco mil alunos enfileirados, todos com o uniforme simples do dia a dia — não os cerimoniais —, em frente à bandeira cinza-escuro com as chaves cruzadas de Ceres, içada no alto do palanque.

No centro, o mesmo professor que percorrera sala por sala anunciando a caçada aos pichadores segurava, entre os dedos frios, uma medalha reluzente: Medalha de Honra por Fidelidade e Lealdade à Mãe Ceres.

Ele se aproximou de Theo, que aguardava imóvel sob os olhares de todos. Antes de falar ao microfone, inclinou-se e murmurou em seu ouvido, com um sorriso seco:
— Eu sinto o cheiro dos que escondem coisas de mim…

Theo engoliu em seco.
— Eu entendo você, rapaz. Também tive a felicidade de ter um irmão estudando neste colégio.
— A única diferença é que fui eu quem o entregou às chamas…

O professor bateu levemente no ombro de Theo, quase como um pai orgulhoso.
— Não sinta vergonha. Você lutou por Mãe Ceres.
Que nos alimenta… que nos educa… e que nos devora.

A espinha de Theo gelou.
O peso da medalha parecia já queimá-lo antes mesmo de ser pendurada em seu pescoço.
Ele havia entregue o amigo.

O professor, enfim, ergueu-se diante do microfone, encarando a massa silenciosa de alunos.
Sua voz ecoou clara pelo pátio:
— Alunos do Colégio de Mãe Ceres… hoje, mais uma vez, Mãe Ceres venceu.
Ela nos trouxe a trégua.

Ele caminhou lentamente pelo tablado.
— Porque a paz… a paz, meus caros, não é nada além de um acidente!

Fez-se silêncio.
— Estamos sempre atentos àqueles que confundem liberdade com caos… que desejam liberdade apenas por tê-la, sem objetivo, sem função, sem liderança.

O professor cuspiu para o lado, quase teatral:
— Há apenas três quilômetros daqui, a tríplice fronteira entre Ceres… Arcádia… — cuspiu novamente — e Silencium.

Voltou o olhar para Theo e ergueu a medalha, reluzente sob o sol pálido:
— Temos aqui, diante de todos vocês, um filho de Mãe Ceres.
Um filho tão leal quanto o Major Tomas!

Um burburinho de devoção percorreu as fileiras ao ouvir o nome do astronauta.
— Por coincidência… irmão deste menino.

As fileiras estremeceram com as palavras seguintes:
— Este jovem denunciou o traidor… o chamado “libertador”… — gargalhadas secas se ergueram da multidão — um fantoche, um messias da podridão.
Um morto de fome que ousou se alimentar de sonhos que não lhe pertenciam.

O professor ergueu a mão em direção a Theo, solenemente:
— Este filho de Mãe Ceres pensou em vocês.
Salvou vocês.
Salvou seus irmãos.

Ali, entre a multidão, Ceres — a garota — baixou o olhar, envergonhada diante da honra que Theo recebera.
Murmurou para si mesma:
Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa e nos devora.

Um coro seco e uníssono se ergueu logo em seguida.
Todos: Daime, Ana, Dru, Cors, Vanks… até os mais insensíveis.
Apenas Dark permaneceu indiferente.

O professor então pendurou a medalha no pescoço de Theo e o ergueu pelo braço, como um troféu humano, para que todos vissem.
— Que sirva de exemplo.

Todos os alunos, enfileirados, estenderam o braço lateralmente, mais alto que a cabeça, a palma da mão aberta e reta, os dedos juntos — o gesto solene de neutralidade.
Então, em uníssono, o mantra ecoou pelo pátio:
— Mãe Ceres, que nos alimenta, nos educa e nos devora.

Seguiu-se um minuto de silêncio.
Um silêncio que não era vazio, mas preenchido pela rotina indiferente:
passos ao longe, o vento contra as bandeiras, uma folha arrastada pelo chão.

E no peito de Theo, a medalha ardia como se fosse feita de vidro e culpa.

O minuto de silêncio foi rompido pelo som seco de botas no concreto.
Dois Silenciadores surgiram pela lateral do pátio, seus longos sobretudos e capacetes negros absorvendo a luz.
Entre eles, um terceiro homem: Gene.

As mãos presas por algemas de fibra, uniforme desalinhado, um corte aberto no supercílio.
Ainda assim… sorria.
Um sorriso torto, que gotejava veneno.

O professor retomou o microfone, com a solenidade de um sacerdote:
— O traidor foi capturado. Será conduzido ao Presídio Central, onde aguardará julgamento e sentença em duas semanas.
Até lá… enfrentará o peso de suas próprias palavras contra Mãe Ceres.

As correntes dele arranharam o silêncio.
Gene caminhava com a cabeça erguida, os olhos varrendo os colegas, como quem tatuava na mente cada rosto que não ousou defendê-lo.

Quando passou por Theo, parou.
O sorriso cresceu, zombeteiro, como se dissesse: “eu sei.”
Theo desviou o olhar para o chão.
A medalha de lealdade pesava em seu peito como uma âncora.

Os Silenciadores o empurraram adiante, rumo ao portão dos fundos.
Um veículo blindado os aguardava, motor roncando baixo, pintura fosca e sem emblemas.
O som das portas fechando foi seco, brutal — um estalo de ossos.

Kat não estava ali.
Ela já havia sido levada horas antes, para Pietà — a cidade sagrada das Mães, onde mandavam as mulheres e adolescentes grávidas.
Lá, ela daria à luz e cumpriria o destino que Mãe Ceres exigia.
Ela sequer sabia, ainda, que carregava no ventre o filho de Gene.

Agora Gene ia para o frio do presídio.
Dois mundos separados, duas condenações distintas, para um mesmo pecado.

O professor voltou-se à multidão, sua voz reverberando com a força de um decreto:
— Alunos do Colégio de Mãe Ceres: vigiai!
Não haverá piedade para aqueles que profanarem o útero de nossa Mãe.
Nem para seus cúmplices.
A paz é um acidente. A vigilância, um dever.

No pátio, ninguém ousava respirar mais fundo.

O professor finalizou:
— Voltem às suas salas.
Lembrem-se: Mãe Ceres nos alimenta, nos educa… e nos devora.

Os alunos se dispersaram como um cardume, cada qual afogado em pensamentos.
A medalha de Theo cintilava em seu peito.
Mas, por dentro, ele sentia o peso gelado do que tinha feito.
E o som das correntes de Gene continuava ecoando em sua cabeça.

Calma, tem mais!


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