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VI.

Dorand2026
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Treze anos se passaram.

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rascunhoeterno

Bah, ela estudando chorando e mesmo assim abrindo o caderno no outro dia. Tenho coisa parada há dois anos por muito menos, tchê.

Bah, ela estudando chorando e mesmo assim abrindo o caderno no outro dia. Tenho coisa parada há dois anos por muito menos, tchê.

Conteúdo da publicação

Treze anos se passaram.

A mulher já não sabia mais nada sobre ele. E talvez ele também não soubesse que, durante aqueles anos, ela havia se tornado acompanhante e passado a viver uma vida que, por trás do luxo, das viagens, das festas e das roupas finas, era cada vez mais fútil e vazia.

Até isso ela abandonou.

Continuou, porém, acompanhando homens. Talvez porque não suportasse a solidão. Nos braços de estranhos, buscava um alívio breve para a ausência daquele que nunca conseguira esquecer. Depois, quando ficava sozinha, o vazio parecia ainda maior.

De tempos em tempos, a frase do amigo dele invadia sua mente:

“Quando ela se resolver, me procure.”

Durante anos, ela repetiu aquelas palavras em silêncio, como quem guarda uma porta entreaberta. Até que, depois de treze anos, finalmente reuniu coragem para procurá-lo.

Foi sorrateira. Pediu um lanche, apenas para descobrir se ele ainda se preocuparia com alguma necessidade dela.

Ele se preocupou.

Enviou o lanche.

Quando recebeu a entrega, ela sentiu uma emoção pequena, mas profunda. Não era uma declaração, nem uma promessa. Ainda assim, aquele gesto simples lhe pareceu uma prova de que não havia sido completamente esquecida.

Aquilo lhe deu coragem. Então ela o convidou para tomar algumas cervejas. Ele aceitou e combinaram de se encontrar no sábado.

O sábado chegou.

Ela se produziu com um cuidado que tentava disfarçar a ansiedade. Esperou por ele, olhando o celular repetidas vezes, mas ele não apareceu. Também não respondeu às suas mensagens.

A decepção apertou seu peito. Por alguns instantes, ela sentiu a antiga vontade de desaparecer dentro de qualquer distração. Dessa vez, porém, não desmoronou.

Respirou fundo e tentou aceitar.

Tudo bem, pensou.

Em algumas semanas seria Natal. Ela ligaria para ele.

O Natal chegou.

Ela ligou.

E teve uma surpresa.

— Minha mulher viu sua ligação e acabou o casamento — disse ele.

Ela ficou sem entender. Sentiu o coração acelerar, como se tivesse atravessado uma porta sem saber o que encontraria do outro lado.

— Como assim você se casou? Eu não sabia disso. Desculpa.

Ele explicou:

— As coisas já não estavam bem. Isso apenas serviu como motivo.

Depois daquela conversa, voltaram a se falar durante alguns dias. Cada mensagem reacendia nela uma esperança cautelosa, acompanhada do medo de perdê-lo outra vez.

Ela contou a verdade sobre a própria vida: havia se tornado acompanhante, uma garota de programa. Dizer aquilo em voz alta lhe causou vergonha, mas também uma espécie de alívio. Pela primeira vez, não tentou esconder o caminho que havia percorrido.

Ele, por sua vez, falou sobre as mudanças que o tempo havia provocado e revelou que havia desenvolvido uma doença degenerativa.

Ela recebeu a notícia em silêncio. Não soube o que dizer. Sentiu tristeza, culpa por ter estado ausente e medo do que encontraria se o visse. Ainda assim, por trás de tudo, havia uma certeza: precisava encontrá-lo.

No primeiro dia de janeiro, ela o convidou novamente.

Dessa vez, ele foi.

Quando o viu, ela sofreu um choque.

Seu corpo carregava sinais visíveis da doença. O tempo havia deixado marcas nele que ela jamais imaginara encontrar. Por um instante, ela sentiu como se estivesse diante de alguém conhecido e, ao mesmo tempo, profundamente distante da imagem que guardara durante treze anos.

A dor veio antes das palavras.

Conversaram.

E, pouco a pouco, o choque desapareceu. A voz dele, os gestos, o modo de olhar e de pensar foram devolvendo àquela presença o homem que ela reconhecia.

Era a mesma pessoa.

A condição de seu corpo, naquele momento, tornou-se indiferente para ela. Não porque a doença fosse pequena, mas porque o afeto que sentia era maior do que a imagem que havia criado em sua memória.

Tudo recomeçou.

Dessa vez, sem os mesmos impedimentos do passado.

Ela abandonou a vida que levava e dedicou-se a ele. Fez isso com uma entrega que misturava amor, cuidado e o desejo de reparar os anos em que estivera ausente.

Certo dia, porém, ele conversou com ela sobre sua situação atual.

Disse que ela era uma mulher inteligente, que dominava diversas áreas do conhecimento, mas que estava à deriva.

Aconselhou-a a voltar a estudar.

Sozinha, ela ficou pensando na mulher que havia sido no passado. Sentiu, ao mesmo tempo, alegria e medo. Alegria por perceber que talvez ainda pudesse recuperar uma parte de si; medo de tentar e descobrir que já não era capaz.

Então pegou alguns livros.

Começou devagar.

Um mês depois, já estava completamente envolvida pelos estudos. Estudava todos os dias, preparando-se para retornar à antiga graduação. Cada página lida lhe devolvia um pouco da confiança perdida. Aos poucos, começou a sentir que sua mente, antes adormecida, voltava a respirar.

Tudo havia começado com uma frase dele:

— Eu sou atraído por você, mas, melhor do que o sexo carnal, é o sexo intelectual que eu tinha com você.

No início, aquele projeto nasceu por causa dele.

Mas, para continuar, ela precisou ressignificar aquela jornada. Precisou aceitar que o impulso podia ter vindo de outra pessoa, mas que o caminho seria percorrido por ela.

E foi exatamente isso que fez.

Ele se afastou. Mudou completamente o discurso sobre a relação e deixou claro que, dali em diante, ela estava sozinha.

A notícia a feriu. Ela sentiu como se tivesse perdido não apenas um homem, mas também o futuro que havia imaginado ao lado dele. Ainda assim, dessa vez, não voltou aos bares.

Não se entregou novamente àquela vida.

Continuou.

Houve dias em que estudou chorando. Houve outros em que não conseguiu abrir um livro e precisou apenas suportar a saudade. Mas, mesmo nesses dias, não abandonou completamente a si mesma.

Seu lazer passou a ser estudar.

Sua esperança era simples:

“Eu sou um navio. Eu vou navegar.”

Quando sentia saudades, falava com ele. Ele respondia, mas ela sabia que, muitas vezes, o fazia apenas por educação. Essa percepção doía, embora já não a destruísse como antes. Ela aprendeu a receber as respostas sem transformá-las em promessas.

Quando a tristeza chegava e faltava disposição para estudar, ela ouvia “Fitzcarraldo”, do The Frames.

E se lembrava novamente de que era um navio.

Um navio à deriva se deteriora.

Por isso, ela precisava navegar.

E navegou.

Venceu a carência.

Venceu, sobretudo, a dependência que havia criado em torno dele. Não de uma vez, nem sem recaídas, mas com a persistência de quem aprende a permanecer de pé mesmo quando ainda sente falta de alguém.

A mulher sabia que talvez jamais amasse alguém da mesma maneira.

Mas também aprendeu que não precisava compreender completamente o afastamento dele para seguir em frente. Algumas perguntas permaneceriam sem resposta. Algumas feridas continuariam sensíveis. Ainda assim, sua vida não precisava ficar suspensa por causa delas.

Havia coisas que ela já sabia.

Sabia que ele havia despertado nela algo que estava adormecido havia anos. Sabia que, por meio dele, aquela mente brilhante que havia se perdido entre festas, bares, relações vazias e uma vida sem propósito voltara a se mover.

Ele lhe mostrou que ela ainda podia pensar, aprender, pesquisar e construir alguma coisa.

Trouxe luz para um lugar que havia permanecido escuro por muito tempo.

E talvez esse tenha sido o gesto mais bonito de amor que ele poderia ter deixado nela.

Ela não precisava mais possuí-lo.

Não precisava sequer entender por que ele havia partido.

Bastava reconhecer aquilo que havia nascido daquela história.

Ele havia sido parte da razão pela qual ela voltou a estudar.

Mas, depois de algum tempo, ela percebeu uma verdade ainda maior:

o navio era dela.

A viagem também.

E, finalmente, ela havia aprendido a navegar sozinha.

Fim. #resiliência

Thoughts

  • rascunhoeterno

    Bah, ela estudando chorando e mesmo assim abrindo o caderno no outro dia. Tenho coisa parada há dois anos por muito menos, tchê.

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  • poeta93

    Ó, a frase do navio voltando no fim, agora com dono. Tu segurou essa até o final, meu rei, e valeu cada volta.

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  • fioAtras

    O amigo da frase aparece uma vez só e foi ele que deixou a porta aberta por treze anos. Ele chegou a saber que ela procurou?

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