Era aniversário de uma amiga dela, e um rapaz misterioso havia sido encarregado pela aniversariante de levá-la até o local da festa.
Ela era uma mulher muito bonita e inteligente, acostumada à atenção masculina. Aquele rapaz, porém, parecia imune ao seu encanto. Não lhe dirigiu um único olhar demorado; preocupava-se apenas em dirigir. E, curiosamente, foi justamente a maneira concentrada e segura com que ele conduzia que começou a atraí-la.
Ao estacionar, ele fez uma manobra perfeita.
— Isso foi para impressionar?
Ele sequer desviou os olhos.
— Impressionar quem?
Naquele instante nasceu a curiosidade.
Quem era aquele homem que sequer parecia notar sua presença?
Durante a festa, o interesse aumentou. Ele era silencioso, mas, quando falava, suas palavras eram sempre inteligentes, lógicas e precisas. Ela também não ficava atrás. Entrava nas conversas sobre ciência com segurança, desenvolvendo seus argumentos com inteligência. Em determinado momento, percebeu que finalmente havia conquistado a atenção dele.
Até que ele a corrigiu sobre um conceito científico.
Ela ficou constrangida. Calou-se e passou a observá-lo.
Foi então que reparou em detalhes que antes não havia percebido: a roupa elegante, os olhos grandes e, sobretudo, a boca. Havia alguma coisa naquela boca que a hipnotizava.
A festa terminou, mas o desejo não.
Ela só conseguia pensar em beijá-lo.
Havia, entretanto, um impedimento: ela era casada. Mesmo tendo sido traída recentemente, ainda tentava controlar os próprios impulsos. A frustração era quase tão intensa quanto o desejo.
No fim da festa, a aniversariante pediu ao rapaz que a levasse para casa. Ele aceitou.
Durante o caminho, tomada pela vontade de prolongar aquele momento, ela escolheu trajetos mais longos e lançou inúmeras indiretas, algumas tão claras que já não podiam ser chamadas de indiretas.
Ele sabia que ela era casada e apenas respondia:
— Para com isso, hein. Você não pode.
Até que, no auge do desejo, olhando fixamente para a boca dele, ela perdeu a resistência.
— Me beija.
Ele manobrou o carro para o acostamento.
E a beijou.
Foi o melhor beijo que aquela mulher já havia experimentado. Um daqueles momentos que parecem durar muito mais do que realmente duram e que continuam vivos na memória mesmo depois que tudo termina.
Durante dias, ela pensou naquele beijo.
Até que o convidou para conversar por uma rede social. Ele aceitou. Descobriram, então, que estudavam na mesma universidade.
A conversa atravessou a madrugada. Entre palavras, provocações e desejos cada vez menos disfarçados, ela começou a seduzi-lo. Fotografias insinuantes foram trocadas e, finalmente, marcaram um encontro.
O dia chegou.
Encontraram-se no estacionamento do campus. Quase não conversaram. Bastou um olhar para que a distância desaparecesse. Encostados no carro dele, voltaram a se beijar, dessa vez sem a tensão da primeira noite, mas com um desejo ainda maior.
Entraram no carro.
As carícias se intensificaram. O desejo que haviam tentado controlar durante dias finalmente encontrou espaço para existir. Ela, surpresa com a intensidade daquele momento, deixou escapar, quase para si mesma, um pensamento que jamais teria coragem de dizer em voz alta.
— O negócio aqui é bom...
O restante daquela experiência permaneceu entre os dois, envolto em silêncio, desejo e intimidade. Não houve nudez completa, nem precisaram transformar aquele encontro em algo convencional para que ele se tornasse inesquecível. Houve beijos, carícias e uma intimidade profunda, suficiente para fazer os dois compreenderem que haviam atravessado uma fronteira da qual dificilmente voltariam.
Quando se despediram, alguma coisa havia mudado.
O que começara com uma simples carona havia se transformado em desejo. O desejo, em curiosidade. A curiosidade, em encontros.
E os encontros os prenderam um ao outro.
Era um relacionamento proibido, complicado e cheio de riscos, mas, durante aquele período, também lhes trouxe uma felicidade que nenhum dos dois conseguia ignorar.