No começo da reaproximação, ele foi claro: não queria um relacionamento sério. Havia desejo, havia saudade, havia aquela familiaridade estranha de quem um dia se amou e agora tentava descobrir o que ainda restava daquele amor. Mas compromisso, não. Ele não queria promessas.
Ela continuou vendo-o.
Por dentro, porém, sentia-se usada. Havia noites em que se perguntava o que estava fazendo ali, aceitando tão pouco de alguém por quem sentia tanto. Até que, cansada de lutar contra aquilo que desejava, fez uma espécie de pacto consigo mesma:
— Vou deixar ele me usar. Talvez, assim, eu o tenha. Nem que seja por algumas horas.
Era uma frase amarga, mas escondia uma esperança que ela não confessava nem para si.
Só que o tempo, às vezes, modifica aquilo que as pessoas juraram que jamais mudaria.
Aos poucos, o que era encontro tornou-se presença. A presença virou vínculo. E o vínculo ganhou nome. Ele finalmente a assumiu.
Ela acreditou.
Um dia, ele disse que, se ela voltasse a estudar, tudo poderia ser como antes. Eles se veriam todos os dias. Haveria novamente aquela proximidade cotidiana, aquela sensação de que a vida dos dois caminhava lado a lado.
Então ela fez uma pergunta aparentemente simples, mas que para ela carregava o peso de uma promessa:
— E você andaria de mãos dadas comigo?
Ele respondeu que sim.
E talvez tenha sido naquele instante que ela tenha começado a acreditar de verdade.
Algumas semanas passaram.
Então ela teve uma crise. Foi intensa, desordenada, difícil de explicar até para quem a viveu. Ela nunca soube se aquilo o assustou. Nunca soube exatamente o que ele sentiu ao vê-la daquela maneira. Depois daquele episódio, alguma coisa mudou.
O cotidiano começou a desaparecer.
A comunicação diária foi se desfazendo, até que ela mesma quebrou o celular e perdeu ainda mais os poucos fios que os mantinham ligados. Mesmo assim, tentou.
Marcava encontros. Procurava aproximação. Tentava reconstruir a normalidade.
Certa vez, numa conversa exaltada pela intimidade que ainda existia entre os dois, ela falou sobre o prazer que sentia quando estavam juntos. Disse, com a franqueza de quem já não sabia esconder o que sentia, que com ele havia experimentado muito prazer.
Ele respondeu que se sentia limitado.
Ela guardou aquelas palavras.
Chegou o dia de um encontro marcado. Ele disse que iria.
Não foi.
Remarcou para outro dia.
Novamente não foi.
Remarcou outra vez.
E, quando finalmente chegou o dia pelo qual ela havia esperado, ela se produziu para ele. Escolheu a roupa, ajeitou os cabelos, preparou-se com aquela expectativa silenciosa de quem ainda acredita que, desta vez, a pessoa amada aparecerá.
Ele não apareceu.
Também não atendeu.
Não explicou.
Não deu satisfação.
Simplesmente desapareceu.
E foi justamente isso que mais doeu: não era apenas a ausência. Era o silêncio depois da promessa.
Ela já conhecia aquele comportamento. Já havia provado daquele abandono antes. Mas, entre eles, havia sido estabelecido que aquilo não aconteceria novamente.
Ela acreditara nessa palavra.
Então veio a raiva.
E por trás da raiva estava a mágoa, e por trás da mágoa estava uma mulher que ainda esperava ser escolhida.
Ela escreveu. Disse tudo o que tinha engasgado. Falou com raiva, com dor, com orgulho ferido. E, no fim, acabou com tudo.
Ele não respondeu.
Dias depois, voltaram a conversar.
E ele agiu como se nada tivesse acontecido.
Foi isso que a incendiou.
Para ele, talvez fosse apenas uma conversa que havia passado. Para ela, havia sido uma ferida aberta, uma noite inteira de espera, uma promessa quebrada, uma humilhação que ainda ardia.
Ela se enfureceu. Disse coisas duras. Chegou a ameaçar se vingar.
Ele não gostou.
E rompeu o pouco que ainda restava daquela proximidade.
Então veio o período mais escuro.
Foram necessários muitos remédios, terapia, noites de bebedeira, amigos que permaneceram por perto e uma quantidade de tempo que ela jamais conseguiu medir. Vieram o choro, a falta de apetite, os pesadelos. Vieram manhãs em que levantar da cama parecia uma tarefa absurda.
Ela não estava apenas com saudade.
Estava tentando sobreviver à ausência.
Até que, letárgica e ainda apaixonada, procurou-o.
Pediu perdão.
Ele perdoou.
Voltaram a conversar.
Até se encontraram novamente.
Mas havia uma diferença que ela percebeu imediatamente.
Ele estava ali, mas já não era o mesmo.
Ou talvez fosse ela quem finalmente estivesse enxergando aquilo que antes o amor escondia.
Um mês depois, desesperada para impedir que ele desaparecesse outra vez, ela implorou para que ficasse.
Ele negou.
Mais uma vez parecia afastar-se sem explicação, como se houvesse entre os dois uma porta que somente ele pudesse abrir e fechar.
Dessa vez, porém, ele falou.
— Você quer algo sério. E eu não posso me dedicar. Muito menos me comprometer com você.
Ela ficou diante daquela frase como quem contempla as ruínas de uma casa que imaginava ter finalmente reconstruído.
Não conseguia entender.
Como podia ser o mesmo homem que, semanas antes, dissera que andaria de mãos dadas com ela?
Como aquele homem havia desaparecido?
Onde estava o homem que prometera vê-la todos os dias?
Talvez ele não tivesse desaparecido.
Talvez aquela promessa simplesmente tivesse encontrado um limite que ele ainda não conseguia ultrapassar.
Ela sofreu.
Mas, depois de tanto perder a si mesma tentando não perder alguém, começou lentamente a fazer o caminho contrário.
Investiu em si.
Voltou os olhos para a própria vida.
Estudou. Procurou reconstruir aquilo que havia sido quebrado dentro dela. Aprendeu a suportar a ausência sem transformar cada silêncio numa sentença. Chorou muitas vezes, caiu algumas outras, mas continuou.
E venceu, pouco a pouco, a dependência que antes parecia maior do que sua própria vontade.
Hoje, ela ainda sente saudade.
Conheceu outros homens. Conversou, saiu, permitiu-se experimentar outras presenças. Descobriu que poderia ser desejada por outras pessoas e que o mundo não terminava quando aquele homem se afastava.
Mas ele não saiu completamente de sua cabeça.
Muito menos do coração.
Eles ainda se comunicam.
Só que agora existe uma distância que ela conhece bem. Ele é frio. Econômico. Às vezes parece um estranho que conhece todas as suas cicatrizes.
Ela se acostumou.
Já não sofre como antes.
Já não perde o chão a cada silêncio.
Aprendeu a continuar vivendo mesmo quando ele não está.
Mas existem noites em que ele bebe.
E, talvez porque o álcool derrube as muralhas que ele construiu sóbrio, alguma coisa escapa.
— Eu te amo.
São apenas três palavras.
Três palavras que, ditas por qualquer outra pessoa, talvez fossem apenas uma declaração.
Para ela, são uma espécie de fantasma.
Porque depois de tudo, depois da distância, depois dos desencontros, depois de todas as vezes em que ele pareceu partir sem olhar para trás, ouvir aquele “eu te amo” basta para reacender uma pequena luz que nunca morreu completamente.
Ela não espera por ele por desespero.
Nem porque lhe faltem opções.
Espera porque o ama.
E porque acredita que existem batalhas que ele ainda precisa enfrentar sozinho; coisas dentro dele que precisam ser compreendidas, feridas que precisam ser desmontadas, medos que precisam perder a força, antes que ele consiga oferecer aquilo que ela sempre quis: presença, dedicação e compromisso.
Ela já não espera como quem abandona a própria vida diante de uma porta fechada.
Espera vivendo.
Espera estudando.
Espera reconstruindo-se.
Espera sem deixar de existir.
E talvez essa seja a maior diferença entre a mulher que dizia “vou deixá-lo me usar, só para tê-lo por algumas horas” e a mulher que existe agora.
A primeira aceitava migalhas para não perdê-lo.
A segunda sabe que merece uma mesa inteira.
Ainda assim, quando ele diz “eu te amo”, alguma coisa dentro dela responde.
Não com desespero.
Com memória.
Porque treze anos podem apagar muitas coisas, mas não conseguem apagar aquilo que, apesar de tudo, ainda encontra lugar no coração.
E assim termina essa parte da história.
Não com uma porta batendo.
Não com ódio.
Não com esquecimento.
Mas com dois caminhos que continuam separados, enquanto, em algum lugar entre a saudade e a esperança, permanece uma história que nunca conseguiu terminar completamente.