Os dois errados que haviam se apaixonado começaram, pouco a pouco, a ignorar o sigilo que antes os protegia. Todos os dias encontravam-se para beber juntos e conversar sobre arte, evolução, sociedade e tantos outros assuntos. Eram intelectualmente inquietos, daqueles que podiam passar horas discutindo uma ideia sem perceber o tempo passar. Ela, graduanda em Biologia; ele, em Física. Dois futuros professores ainda em formação, unidos também pela curiosidade e pelo prazer de pensar.
Ninguém podia saber daquele romance. Afinal, ela ainda era casada.
A inteligência dele a fascinava. O modo como pensava, argumentava e enxergava o mundo despertava nela uma atração que ia muito além da aparência. Até que, certo dia, no mesmo estacionamento onde tudo havia começado, os dois finalmente deixaram de resistir ao desejo. Os vidros do carro embaçaram enquanto, lá fora, o mundo continuava indiferente. Não havia pressa, apenas a intensidade de duas pessoas que já haviam ultrapassado, há muito, o limite daquilo que pretendiam sentir.
Ele decidiu apresentá-la a um casal de amigos. Na casa deles, longe dos olhares conhecidos, os dois podiam finalmente agir como um casal: trocar carícias, andar de mãos dadas e desfrutar, ainda que escondidos, da sensação de pertencer um ao outro.
Foi ali que ela se abriu sobre o casamento.
Ela não era feliz.
Havia, porém, um filho. E essa existência tornava tudo mais complexo. Por isso, em determinado momento, ela pediu que ele se afastasse. Tentou colocar um fim àquela história antes que ela crescesse ainda mais.
Foi uma tentativa frustrada.
A saudade falou mais alto, e os dois acabaram voltando um para o outro.
Aquele rapaz havia devolvido a ela uma felicidade que parecia esquecida. E, talvez por isso, ela finalmente encontrou coragem para contar à mãe:
" Mãe, eu vou me separar."
Não houve objeções.
Quando contou ao marido, porém, ele não acreditou. Na verdade, sequer pareceu dar importância às palavras dela. O casamento já carregava uma longa história de violência, frieza, mesquinharia e infidelidade.
A partir daquele momento, os dois errados deixaram de esconder completamente o que sentiam. Começaram a sair juntos, trocar carícias em público, beijos no rosto, gestos de afeto e pequenas demonstrações que, para quem observasse com atenção, diziam muito mais do que qualquer declaração.
Até fotografias dos dois começaram a aparecer.
Todos os dias, ele a levava para casa em sua Fiorino simples. Não era um carro luxuoso, mas representava algo que ela valorizava: companhia. Era melhor do que enfrentar sozinha longas caminhadas, especialmente porque o marido não contribuía com as despesas relacionadas à sua graduação.
E era naquela Fiorino, entre conversas, risadas e o cansaço dos dias, que ela encontrava alguns de seus melhores sorrisos.
Ele também.
Talvez porque, apesar de toda a complicação daquela história, quando estavam juntos, por alguns instantes, os dois simplesmente esqueciam que eram considerados errados.