Talvez fossem por isso que, em certos momentos, o silêncio lhe parecessem mais sincero do que qualquer conversa. Havia coisas que ela preferia compreender sozinha, sentimentos que não sabia explicar e pensamentos que precisavam de espaço para existir antes de se transformarem em palavras.
Eu gostava de observar. Não apenas as pessoas, mas aquilo que existia por trás delas: os comportamentos, as contradições, as pequenas atitudes que relevavam mais do que muitas palavras. Nunca me pareceu suficiente aceitar alguma coisa apenas porque todos acreditavam nela. Precisava questionar, enxergar além do óbvio, descobrir se as verdades que lhe apresentavam eram realmente suas ou apenas ideias que aprendera a repetir.
Por que uma mulher deveria diminuir os próprios sonhos para caber nas expectativas de outras pessoas? Por que precisaria justificar suas escolhas, esconder suas vontades ou pedir permissão para viver de acordo com aquilo em que acreditava?
Eu queria ter o direito de escolher, de mudar de ideia e até de errar. Queria experimentar a vida sem sentir que precisava seguir um caminho previamente determinado. Afinal, para mim, a liberdade também significava poder descobrir quem era sem precisar permanecer a mesma pessoa para sempre.
Havia, dentro de mim, uma atração difícil de explicar por tudo aquilo que era profundo, misterioso e desconhecido. Gostava das perguntas que não encontravam respostas imediatas, dos sonhos que permaneciam vivos na memória e das experiências que despertavam em mim a sensação de que existiam coisas além daquilo que os olhos podiam enxergar.
Às vezes, minhas próprias experiências interiores pareciam abrir portas para lugares que nunca havia visitado. Lugares feitos de lembranças, intuições, símbolos e perguntas que surgiam inesperadamente. Não sabia se tudo possuía um significado ou se algumas coisas simplesmente aconteciam sem precisar explicar nada. Ainda assim, sentia vontade de compreender.
Talvez porque conhecer o mundo nunca tivesse sido suficiente. Eu também queria conhecer os territórios que existiam dentro mim.
Por isso, eu procurava significado nas pequenas coisas, nas sensações que não conseguia nomear e nas perguntas que insistiam em me acompanhar. Nem sempre encontrava respostas. Algumas dúvidas permaneciam abertas, outras perdiam a importância com o tempo. E haviam aquelas que pareciam crescer justamente quando acreditava estar perto de compreendê-las.
Mas eu continuava perguntando.
Não porque acreditasse que precisava descobrir tudo, mas porque havia algo de profundamente meu naquela busca. Uma curiosidade de que não me deixava permanecer imóvel, uma vontade de enxergar além das aparências e de compreender a vida para além daquilo que lhe ensinaram.
Talvez nunca encontrasse todas as respostas. Talvez algumas coisas continuassem sendo mistérios, mesmo depois de anos tentando entendê-las.
E, pela primeira vez, começava a perceber que não precisava resolver todos eles.
Algumas perguntas não existiam para encontrar um fim, mas para acompanhá-la enquanto crescia, mudava e descobria novos caminhos.
Porque havia um mundo inteiro esperando por mim do lado de fora.
Mas também havia um universo silencioso, complexo e desconhecido dentro de mim.
E eu ainda tinha muito a descobrir nos dois…