A viagem havia sido mais longa do que eu esperava.
Fiquei boa parte do caminho olhando pela janela, observando a paisagem mudar aos poucos. As construções da cidade foram desaparecendo, dando lugar a estradas cercadas por árvores, pequenos sítios e extensos campos verdes.
Meu irmão havia insistido para que eu fosse.
Não explicou muita coisa.
Na verdade, quanto mais eu perguntava, menos ele dizia.
"Você vai ficar bem."
"Ele é uma pessoa confiável."
"Só faça o que ele pedir."
Era praticamente tudo o que eu sabia sobre Azrael.
Eu sequer sabia como ele era.
Meu irmão não tinha me mostrado uma fotografia, não havia falado sobre sua idade e, quando perguntei por que eu precisava ficar justamente na casa dele, simplesmente mudou de assunto.
Aquilo me incomodava.
Muito.
Ainda assim, eu havia aceitado.
Depois de algumas horas, o carro finalmente deixou a estrada principal e entrou por um caminho estreito cercado por árvores.
Olhei pela janela.
— É aqui?
O motorista apenas confirmou com a cabeça.
Poucos minutos depois, avistei a propriedade.
Era uma casa grande.
Muito maior do que eu imaginava.
Não parecia exatamente uma mansão daquelas que aparecem em filmes. Havia algo mais discreto nela. A arquitetura era elegante, mas não exagerada, e o jardim ao redor parecia cuidadosamente mantido.
O portão se abriu lentamente quando o carro se aproximou.
Passei a observar tudo com atenção.
Não havia ninguém esperando.
Nenhum funcionário.
Nenhum segurança.
Nenhuma pessoa para me receber.
— Estranho...
O carro parou diante da entrada principal.
Peguei minha bolsa e desci.
O motorista retirou minha mala do porta-malas e a deixou ao meu lado.
— Tem certeza de que é aqui?
Ele olhou para o endereço no celular antes de responder.
— Sim.
Olhei novamente para a casa.
— E ninguém vai me receber?
— Não sei, senhorita.
Aquilo não ajudou muito.
Agradeci e fiquei observando o carro partir.
O som do motor desapareceu lentamente pela estrada.
E então fiquei sozinha.
Diante de uma casa que eu nunca havia visto.
Na casa de um homem que eu nunca havia conhecido.
Respirei fundo.
— Ótimo.
Peguei minha mala.
A porta principal estava destrancada.
Parei por alguns segundos diante dela.
Talvez fosse melhor esperar.
Talvez alguém aparecesse.
Esperei.
Um minuto.
Depois dois.
Nada.
Bati.
— Olá?
Silêncio.
Bati novamente.
— Tem alguém aí?
Nada.
Comecei a me sentir um pouco idiota.
Se aquela realmente era a casa de Azrael, talvez ele soubesse que eu estava chegando e simplesmente estivesse ocupado.
Ou talvez tivesse esquecido.
Empurrei a porta devagar.
Ela abriu sem resistência.
Entrei.
O interior era ainda mais bonito do que eu esperava.
O primeiro cômodo dava acesso a um corredor amplo, com uma escada de madeira levando aos andares superiores. Havia alguns quadros nas paredes, estantes cheias de livros e móveis que pareciam antigos, mas muito bem conservados.
O silêncio, porém, continuava.
Fechei a porta atrás de mim.
— Azrael?
Minha voz ecoou pelo corredor.
Nenhuma resposta.
Coloquei a mala ao lado da parede e comecei a caminhar.
Não queria simplesmente sair abrindo portas, mas também não sabia o que fazer.
O lugar parecia grande demais para uma única pessoa.
Passei por uma sala de estar.
Depois por uma biblioteca.
Parei diante das estantes.
Livros de história, filosofia, literatura, ciências...
Havia de tudo.
Alguns pareciam extremamente antigos.
Peguei um deles.
A capa estava desgastada, mas não havia poeira.
Abri algumas páginas.
A escrita era estranha.
Não consegui entender quase nada.
Fechei o livro.
— Que tipo de pessoa lê isso?
Coloquei-o de volta.
Continuei andando.
A casa tinha uma atmosfera curiosa.
Não era assustadora.
Era apenas... silenciosa.
Silenciosa demais.
Depois de alguns minutos, encontrei uma porta de vidro nos fundos.
Atrás dela havia um jardim.
E, um pouco mais distante, uma construção inteiramente cercada por vidro.
Uma estufa.
Parei diante da porta.
Por algum motivo, aquele lugar chamou minha atenção.
Abri a porta e saí.
O ar do jardim era agradável.
Caminhei pela pequena trilha de pedras até a estufa.
Quanto mais me aproximava, mais conseguia sentir o cheiro das plantas.
Quando abri a porta, o ambiente estava quente e úmido.
Havia plantas de vários tipos espalhadas pelo lugar.
Algumas eu reconhecia.
Outras, não.
Caminhei lentamente entre os vasos.
Então ouvi o som de uma página sendo virada.
Parei.
Olhei para frente.
Havia alguém ali.
Um rapaz estava sentado próximo à janela, com um livro aberto nas mãos.
Seus cabelos eram brancos.
Brancos de verdade.
Não grisalhos.
Não prateados.
Brancos.
Ele parecia jovem.
Muito jovem, na verdade.
Por alguns segundos, apenas o observei.
Ele não parecia ter percebido minha presença.
Ou talvez tivesse.
Não sabia dizer.
Aproximei-me um pouco.
— Você é o Azrael?
Ele continuou olhando para o livro.
Mais uma página.
Só então respondeu:
— Depende.
Franzi a testa.
— Depende de quê?
Ele finalmente levantou os olhos.
Seus olhos vermelhos encontraram os meus.
Foi uma sensação estranha.
Não assustadora.
Mas estranha.
Como se eu tivesse acabado de interromper alguém que estava esperando por mim havia muito tempo.
Ele me observou por alguns segundos.
Então fechou o livro.
— Você deve ser Eriel.
Fiquei em silêncio.
— Como sabe meu nome?
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Seu irmão me avisou que você viria.
— Então você sabia que eu estava chegando?
— Sim.
Olhei para a porta da estufa.
Depois para ele.
— E não veio me receber?
Azrael inclinou levemente a cabeça.
— Você chegou sozinha.
— Isso não responde à pergunta.
Ele sorriu.
Não parecia incomodado.
Na verdade, parecia achar graça.
— Você esperava uma recepção?
— Eu esperava pelo menos alguém na porta.
— Entendo.
Ele voltou a abrir o livro.
Fiquei olhando para ele, incrédula.
— Só isso?
— Só isso o quê?
— Eu chego aqui sem conhecer ninguém, entro em uma casa que parece estar vazia e encontro o dono escondido em uma estufa lendo um livro.
Azrael ergueu os olhos novamente.
— Tecnicamente, eu não estava escondido.
— Estava sim.
— Então você me encontrou.
— Porque a estufa era o único lugar onde alguém parecia estar.
Ele pensou por um instante.
— Justo.
Não consegui evitar um pequeno sorriso.
Aquele homem era estranho.
Muito estranho.
Mas não parecia perigoso.
Pelo menos, não naquele momento.
Olhei ao redor.
— Meu irmão não me contou muita coisa sobre você.
— Imagino.
— Ele disse apenas que eu poderia ficar aqui.
— Pode.
— Por quanto tempo?
Azrael fechou o livro mais uma vez.
Dessa vez, sua expressão ficou um pouco mais séria.
— O tempo necessário.
Não gostei daquela resposta.
— Necessário para quê?
Ele ficou em silêncio.
Por alguns segundos, apenas o vento batendo contra os vidros da estufa podia ser ouvido.
Então Azrael desviou o olhar para as plantas.
— Você vai entender.
— Quando?
Ele voltou a me olhar.
— Quando estiver pronta.
Não sei por quê, mas aquelas palavras ficaram na minha cabeça.
Eu ainda não sabia quem era aquele homem.
Não sabia por que meu irmão confiava nele.
Não sabia por que havia escolhido aquela casa.
E, principalmente, não sabia por que tinha a sensação de que aquela não era a primeira vez que Azrael olhava para mim.
Mas havia uma coisa que eu sabia.
Aquela casa escondia alguma coisa.
E, de alguma maneira, eu acabara de entrar no meio dela.