Alice continuava carregando os doces.
Depois de alguns minutos andando pelos corredores da casa, comecei a perceber que ela parecia saber exatamente para onde estava indo.
— Você vai comer tudo isso?
Alice olhou para os doces empilhados em seus braços.
— Não.
— Então por que pegou tantos?
— Porque são bons.
— Isso não explica nada.
— Explica sim.
Ela continuou andando.
Eu suspirei.
— Para onde estamos indo?
— Vou levar para a Noir.
— Noir?
Alice assentiu.
— Ela gosta de doces.
— Ela também mora aqui?
— Sim.
Mais uma informação que eu não sabia.
Pelo jeito, conhecer aquela casa seria uma tarefa mais complicada do que eu imaginava.
Continuamos pelo corredor até chegarmos diante de uma porta.
Alice bateu duas vezes.
Esperou.
Nada.
Bateu novamente.
— Noir?
Nenhuma resposta.
Alice segurou a maçaneta.
— Vou entrar.
Ela abriu a porta.
Eu a acompanhei.
O quarto estava silencioso.
As cortinas estavam parcialmente fechadas, deixando apenas uma pequena quantidade de luz entrar. O ambiente era organizado, mas havia uma sensação curiosa de que alguém havia acabado de acordar.
Na cama, estava uma menina.
Parei na entrada.
Ela parecia ter aproximadamente sete anos.
Seu cabelo preto, cortado em um estilo bob, estava um pouco bagunçado pelo sono. Uma franja levemente desalinhada caía sobre sua testa e emoldurava um rosto extremamente pálido e delicado.
Ela ainda vestia um pijama escuro.
Estava deitada de lado, parcialmente coberta pelo cobertor.
Seus olhos estavam fechados.
Alice colocou os doces sobre uma pequena mesa.
— Noir.
A menina abriu os olhos.
Devagar.
Seus olhos eram de um roxo profundo.
Grandes.
Bonitos.
Mas havia algo estranho neles.
No começo, pensei que fosse apenas sono.
Depois percebi.
Ela não demonstrava praticamente nenhuma emoção.
Noir olhou para Alice.
Depois para mim.
E simplesmente ficou olhando.
— Bom dia — falei.
Ela não respondeu.
Alice apontou para mim.
— Essa é a Eriel.
Noir continuou me observando.
— Eu sei.
Sua voz era baixa.
Sem entusiasmo.
Sem curiosidade.
— Você sabe?
Noir piscou.
— Sim.
— Como?
— Ouvi vocês ontem.
Aquilo fazia sentido.
Ainda assim, sua maneira de falar era estranha.
Alice pegou um dos doces.
— Trouxe para você.
Noir olhou para os doces.
Não demonstrou nenhuma reação.
— Obrigada.
Alice abriu uma embalagem e colocou o doce nas mãos dela.
Noir segurou.
Ficou olhando para ele.
Não comeu.
— Você não gosta? — perguntei.
Ela levantou os olhos.
— Gosto.
— Então por que não come?
Noir deu de ombros.
— Ainda não quero.
Alice começou a rir.
— Ela é assim.
— Assim como?
— Assim.
Não consegui entender.
Noir continuava sentada na cama, segurando o doce.
Havia algo naquela menina que me deixava desconfortável.
Não era medo.
Era a sensação de estar diante de alguém que não reagia às coisas da mesma maneira que as outras pessoas.
Meu olhar percorreu o quarto.
Havia uma estante pequena, alguns livros, brinquedos organizados cuidadosamente e alguns objetos decorativos.
Então vi uma fotografia.
Estava sobre uma mesa ao lado da cama.
Aproximei-me.
Era uma fotografia antiga.
Nela estavam Azrael e Noir.
Azrael parecia muito diferente.
Ele estava sorrindo.
Não aquele sorriso discreto que eu havia visto desde que cheguei.
Era um sorriso genuíno.
Aberto.
Feliz.
Noir estava ao lado dele.
Sua aparência parecia praticamente a mesma.
Olhei novamente para a fotografia.
Havia algo errado.
Uma parte dela havia sido arrancada.
Não estava rasgada pelo tempo.
Parecia ter sido arrancada deliberadamente.
Do lado de Noir havia espaço suficiente para uma terceira pessoa.
Conseguia ver apenas uma pequena parte da roupa e um pedaço do corpo.
O resto simplesmente não existia mais.
— Quem estava aqui?
Noir ficou imóvel.
Alice parou de mexer na embalagem do doce.
Olhei para as duas.
Noir desviou os olhos.
— Não sei.
Sua resposta foi rápida demais.
— Você não sabe?
— Não.
— Mas está na fotografia.
— Eu sei.
— Então...
— Não sei.
Ela repetiu a resposta.
Dessa vez, não havia nenhuma alteração em sua expressão.
Alice observava a cena em silêncio.
Olhei para ela.
— Você sabe?
Alice colocou o doce na boca.
Mastigou tranquilamente.
— Talvez.
— Alice.
Ela sorriu.
— O quê?
— Quem é a pessoa?
— Não sei.
— Você acabou de dizer que talvez saiba.
— Talvez eu saiba.
— E vai me contar?
Alice balançou a cabeça.
— Não.
Fiquei encarando-a.
— Por quê?
Ela deu de ombros.
— Porque não é uma história minha para contar.
A resposta foi tão séria que fiquei sem reação.
Por alguns segundos, Alice parecia muito mais velha do que sua aparência.
Então ela voltou a sorrir e pegou outro doce.
Aquilo me deixou ainda mais confusa.
Voltei a olhar para Noir.
Ela estava olhando para a fotografia.
Seu rosto continuava sem expressão.
— Você lembra desse dia?
Noir demorou alguns segundos para responder.
— Sim.
— Então você sabe quem estava na foto.
Silêncio.
Ela apertou levemente o doce que segurava.
— Talvez.
Olhei para Alice.
Ela estava sorrindo.
— Vocês duas estão fazendo isso de propósito?
Alice riu.
Noir não respondeu.
Foi então que ouvi uma pergunta.
— Onde está Azrael?
Noir havia levantado os olhos.
Foi a primeira mudança real em seu comportamento desde que entrei.
Seus olhos ficaram mais atentos.
Alice respondeu naturalmente:
— Provavelmente lendo no jardim.
Noir imediatamente tirou o cobertor das pernas.
— Ele está no jardim?
— Provavelmente.
Noir desceu da cama.
Seus pés tocaram o chão.
Ela ainda parecia sonolenta.
— Vou procurar ele.
Alice olhou para ela.
— Você acabou de acordar.
Noir não respondeu.
Caminhou até a porta.
Parou.
Olhou para mim.
Seus olhos roxos estavam fixos nos meus.
— Você gosta do Azrael?
Fiquei surpresa.
— O quê?
— Você gosta dele?
— Eu conheci ele ontem.
Noir permaneceu me olhando.
— Então ainda não.
— Ainda?
Ela piscou.
Por um instante, pareceu perceber o que havia dito.
— Nada.
Saiu do quarto.
Fiquei olhando para a porta.
— Ela é sempre assim?
Alice terminou o doce.
— Sim.
— Ela quase não demonstra emoção.
Alice pensou por alguns segundos.
— Ela demonstra.
— Quando?
Alice olhou para a porta por onde Noir havia saído.
— Quando o Azrael está por perto.
Fiquei em silêncio.
Olhei novamente para a fotografia.
Azrael sorria.
Noir estava ao lado dele.
E havia uma terceira pessoa que alguém havia feito questão de apagar.
Não sabia quem era.
Não sabia por que a fotografia havia sido destruída.
E não sabia exatamente o que Noir era para Azrael.
Mas havia uma coisa que começava a ficar evidente.
Aquela garota podia parecer apenas uma criança sonolenta.
Porém, quando o assunto era Azrael...
Ela não parecia uma criança.
E, pela primeira vez, comecei a suspeitar que talvez houvesse muito mais naquela casa do que meu irmão havia me contado.