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Capítulo 2 - Flores para Arya

Alisso

Conteúdo da publicação

Laura

As excentricidades de Laura eram vistas pelos moradores do vilarejo como prova de uma antiga maldição. Para eles, aquela menina jamais poderia ter sido uma criança comum.

A origem de sua história era envolta de uma grande tragédia. A pequena era filha de uma meretriz chamada Kalissa, que engravidara de um aventureiro de passagem. Era um elfo, algo raro naquelas terras, onde sua presença passou cheia de alarme, cujo nome ninguém conheceu e que permaneceu na região por menos de uma semana antes de desaparecer pelas estradas e nunca mais aparecer, deixando apenas um pequeno rastro de paixão no coração da dama e uma semente de vida.

Laura, porém, não veio ao mundo sozinha, dividira o ventre da mãe com um irmão gêmeo, que nasceu primeiro, mas não resistiu ao parto, saiu desbotado e triste. Minutos depois, foi a vez de Laura abrir os olhos para o mundo, veio saudável, cheia de cor, muito chorosa e também acompanhada de grandes orelhas pontiagudas do pai. Sua mãe, porém, via o brilho da própria vida se apagar pouco a pouco. Resistiu durante todo o parto, sustentando a última centelha de força que lhe restava, até que seus olhos se fecharam lentamente e disse em suas palavras finais, “minha pequena Laura”, e então as pálpebras jamais voltaram a se abrir.

Naquela humilde casa das parteiras do vilarejo, onde velhas mulheres conduziam os nascimentos havia gerações, três vidas chegaram ao mundo naquela madrugada. Antes que o sol terminasse de nascer, duas delas já haviam partido.

A tragédia alimentou as superstições do vilarejo. Os rumores espalharam-se de porta em porta, crescendo como espinhos ao redor de uma flor. Alguns diziam que a menina trazia a morte consigo, houve até quem a chamasse de um erro que jamais deveria ter vindo ao mundo, já outras justificam suas esquisitices por causa de seu nascimento e por ser uma mestiça que surgiu da impureza.

Naquela época, o vilarejo era pobre demais para manter um orfanato, e ninguém se dispôs a acolher a recém-nascida. Foi então que o velho Orfeu interveio. Era o monge e guardião do pequeno templo erguido na floresta, a poucos minutos de caminhada do vilarejo. Mesmo naquela época, já trazia os cabelos quase inteiramente brancos e o rosto marcado por rugas profundas, que pareciam carregar a sabedoria de uma longa existência. Era um homem de baixa estatura, porém robusto, negro e brilhante como o céu noturno, e suas mãos eram calejadas tanto pelo trabalho quanto pelos anos dedicados ao cuidado dos outros.

Sem dizer uma única palavra, aproximou-se, tomou a criança nos braços e a envolveu cuidadosamente em seu manto. Então voltou-se para os moradores e declarou, com uma serenidade que silenciou até os mais supersticiosos:

— A partir de hoje, o templo também será um orfanato.

Ninguém contestou. E foi assim que Laura encontrou um lar antes mesmo de aprender a falar. A recém nascida seria a primeira moradora do orfanato e, pela ironia das deusas que Orfeu servia, também sua única.

Os anos passaram sem que outra criança órfã precisasse de abrigo. O pequeno orfanato jamais recebeu um segundo acolhido. Para a sorte de Orfeu, que encontrou na menina uma filha e para o azar de Laura, que cresceu sem conhecer outra infância além da sua própria. Foi com o velho monge que Laura aprendeu a ler, a escrever e a rezar para Huyana, a Deusa da Prosperidade, assim como para suas divinas irmãs. Mas, acima de tudo, foi com Orfeu que aprendeu a enxergar bondade em um mundo que, desde o primeiro dia de sua vida, insistia em vê-la como uma maldição.

Laura vivia em um mundo muito seu. Passava a maior parte do tempo afastada das outras crianças do vilarejo. Sempre que tentava se aproximar delas, acabava voltando para o templo em lágrimas, onde encontrava o consolo paciente de Orfeu.

Ainda pequena, tinha o hábito de perguntar o que poderia fazer para ajudá-lo. Assim que terminava suas tarefas — de varrer o templo, alimentar os animais e a grande égua amarela, cuidar dos doentes ou auxiliar o velho monge a atender os miseráveis que buscavam bênçãos — fazia sempre a mesma pergunta.

— E agora?

Orfeu sorria, afagava-lhe os cabelos e respondia:

— Vá ler os livros e os escritos, Laurinha. Neles você encontrará verdadeiros amigos e conhecerá um mundo muito maior do que aquele das pessoas que zombam de você — Laura seguia esse conselho com certo ar de decepção. Mas ela via zelo na figura de Orfeu, gostava da ideia de ser sabia tanto quanto ele.

Aos doze anos, já havia lido os sessenta livros existentes no vilarejo — duas vezes cada um. A maioria tratava de assuntos pouco empolgantes: caça, cartografia, plantas silvestres, relatos de viagens, criação de gado, história de Arya, relatos sobre a antiga Escola Arcana, línguas de povos comuns e bestiários que descreviam criaturas provavelmente extintas. Seus favoritos, porém, eram os poucos romances de cavalaria e as histórias dos aventureiros da antiga era. Sempre que terminava um livro, corria para contar a Orfeu tudo o que havia aprendido, como se cada nova descoberta fosse um pequeno tesouro. Em raras ocasiões, conforme os livros iam se repetindo, o velho pedia aos caixeiros que trouxessem mais das grandes cidades ou da capital ao norte.

Quando se aproximavam dos treze anos, sua curiosidade deixou de caber entre as paredes do templo e nas folhas amareladas dos livros. Laura começou a explorar as margens do vilarejo e, pouco a pouco, se aventurou pela floresta.

Seu lugar preferido era um riacho de águas claras que serpenteava entre as árvores antes de atravessar a vila. Ali, longe dos olhares desconfiados dos moradores, Laura finalmente sentia que pertencia a algum lugar, ali podia inventar suas histórias com a limitação de seus conhecimentos e experiências acerca do mundo, e alimentava o desejo de se tornar uma escritora e fundar uma biblioteca com seus livros.

O vilarejo era antigo. Chamava-se Marakis, nome de um fruto abundante na região, de casca dourada e polpa adocicada, que crescia nas bordas da floresta.

Foi fundado há setenta e cinco anos por famílias de caçadores e mineradores que abandonaram as capitais para escapar da violência e dos terrores impostos pela nova ordem de Elowen, a bruxa vermelha. Desde então, permaneceu pequeno, simples e quase esquecido pelo restante de Arya.

Marakis abrigava pouco mais de cento e cinquenta moradores. Suas largas casas de madeira escura eram espalhadas ao redor de uma praça de terra batida. Havia apenas uma taverna, um pequeno templo e uma torre comunitária onde eram armazenados os principais suprimentos do vilarejo para os tempos de escassez.

A sobrevivência dependia da própria terra. A floresta fornecia caça, os rios de água doce ofereciam peixes em abundância, e o solo fértil produzia legumes, raízes e grãos suficientes para alimentar toda a comunidade. Apesar de supersticiosos e desconfiados do desconhecido, os habitantes de Marakis eram unidos. Viviam da autossuficiência e da troca de recursos com os povoados vizinhos, preservando um modo de vida simples que pouco mudou ao longo das décadas.

Laura pouco perambulava pelas ruas de Marakis. Sempre que podia, refugiava-se na floresta, onde conhecia trilhas, riachos e árvores com a intimidade de quem crescera entre elas. Durante anos, aquele bosque fora seu mundo. Até que deixou de ser suficiente. Depois de explorar boa parte da mata, até mesmo aquele lugar começou a parecer pequeno.

Laura passou a sonhar com o que existia além das colinas que cercavam o vilarejo. Imaginava os mares descritos nos livros, as muralhas das grandes cidades, os mercados repletos de mercadores vindos de terras distantes e as montanhas onde antigos aventureiros haviam travado batalhas que pareciam impossíveis.

Sentia que existia um mundo inteiro à sua espera.

E, pela primeira vez, Marakis lhe pareceu menos um lar e mais uma gaiola de madeira cercada por árvores. Esse desejo de descobrir o desconhecido cresce silenciosamente dentro dela, dia após dia. Tornou-se uma inquietação constante, uma fome que nenhum livro era capaz de saciar. Laura precisava ver o mundo com os próprios olhos, escrever suas próprias histórias e ver as belezas e feiuras das pessoas que viviam naquele continente gigantesco.

E foi justamente nessa época que o destino cruzou o caminho de Laura, dando-lhe um improvável fardo e concedendo o seu pedido de mudança.

Era primavera e as flores desabrochavam em profusão, espalhando cores vivas pela floresta, enquanto seus perfumes dançavam ao sabor do vento. Naquela manhã de calor, Laura caminhava entre os arbustos com um pequeno caderno nas mãos, recolhendo flores para completar as anotações de seu livro autoral, As Flores de Maraki.

Preso ao cinto, levava também um mapa desenhado por ela mesma. Diferente dos mapas do vilarejo, que terminavam nas trilhas mais conhecidas, o seu crescia a cada nova expedição. Laura registrava riachos, colinas, árvores centenárias e qualquer detalhe que julgasse importante, ampliando, pouco a pouco, os limites do mundo que conhecia.

Naquele dia, decidiu ir além. Seguiu sem rumo definido, guiada apenas pela curiosidade, determinada a alcançar lugares que ninguém do vilarejo parecia ter ousado explorar.

Enquanto caminhava, Laura conversava consigo mesma, como fazia desde criança. Comentava sobre as flores que encontrava, reclamava dos galhos que insistiam em prender sua saia e imaginava os nomes das aves escondidas entre as copas. Depois de caminhar por um bom tempo, parou para descansar. Sentou-se sobre a grossa raiz de uma árvore, cujas raízes retorcidas rompiam a terra como serpentes adormecidas.

Retirou da bolsa de pano uma pena vermelha de arara, um pequeno frasco de tinta preta e o caderno onde registrava suas expedições que depôs passava a limpo em seu mapa oficial. Apoiou o caderno sobre os joelhos e, com traços pacientes, desenhou o caminho percorrido naquela manhã. Acrescentou o curso de um riacho, a posição de um rochedo coberto de musgo e algumas árvores que poderiam servir de referência caso resolvesse voltar ou como aquela que daria um ótimo acento.

Sorriu, satisfeita. O mapa crescia um pouco mais. Guardou os materiais com cuidado, encostou a cabeça no tronco e soltou um longo suspiro. Fechou os olhos por um instante, permitindo que o murmúrio dos grilos, o canto distante dos pássaros e o balançar das folhas a envolvessem como uma canção.

Foi então que algo diferente rompeu a harmonia da floresta — um pequeno brilho tremulava entre a vegetação, alguns metros à frente. Ela cravou os olhos na luz, cerrou eles e depois os limpou com as mãos para ver se não era alucinação. Estranhou, mas logo se levantou e não conteve a curiosidade, se aproximou sem pudor.

Seus olhos seguiram o brilho até um arbusto de folhas largas e espessas, de um verde profundo. Cada folha era marcada por nervuras douradas que, vistas de longe, lembravam um pequeno sol irradiando seus raios. Laura alegrou-se. Jamais havia encontrado uma planta como aquela. Abaixou-se para observá-la melhor, encantada com o desenho incomum das folhas. Ainda assim, era o brilho que continuava a seduzir seu olhar. Com delicadeza, afastou a folhagem estranha.

E, escondida entre as folhas, repousava uma flor que ela jamais vira. Suas pétalas eram de um vermelho intenso, quase escarlate, e, em seu centro, pulsava uma pequena luz branca suave.

A luminosidade parecia respirar, ela crescia e diminuía lentamente, como se acompanhasse os batimentos de um coração invisível, iluminando o rosto da menina com um brilho sereno.

— Você... não está no meu livro…

A vontade de tocar aquela flor foi irresistível. Laura hesitou por apenas um segundo antes de aproximar a mão. A ponta de seu dedo acariciou delicadamente a pequena luz que pulsava no centro da flor.

Por um instante, nada aconteceu. Então a luminosidade estremeceu. As pétalas se fecharam lentamente, envolvendo o brilho como se protegessem algo precioso. Um leve zumbido preencheu o ar, e, diante dos olhos incrédulos da menina, a flor começou a se transformar: do botão surgiu uma pequena cabeça alva, lisa e sem qualquer traço de rosto. Logo depois, as pétalas desprenderam-se e se abriram como delicadas asas, sustentando a diminuta criatura no ar.

Laura permaneceu imóvel.

Jamais viu um ser como aquele.

A pequena criatura aproximou-se sem demonstrar medo. Flutuou diante do rosto da menina por alguns instantes e, com extrema delicadeza, tocou a ponta de seu nariz. Um brilho suave espalhou-se por seus olhos. Era como se incontáveis partículas de luz tivessem sido sopradas sobre eles. Laura piscou repetidas vezes, surpresa, mas não sentiu dor. Apenas uma estranha sensação de leveza, como se tivesse sido libertada de correntes.

A criatura girou ao seu redor uma única vez e alçou voo entre as árvores. Enquanto se afastava, uma melodia começou a ecoar pela floresta. Não era o canto de um pássaro e nem o som de um instrumento, era uma mistura dos dois, uma canção delicada e hipnotizante que parecia convidá-la a segui-la.

E foi exatamente isso que Laura fez.

A garota disparou floresta adentro, esforçando-se para acompanhar a velocidade da pequena criatura, que serpenteava entre os troncos com uma leveza possível apenas aos pássaros, deixando para trás um delicado rastro de luz que desaparecia poucos instantes depois. A menina mal conseguia acreditar no que via.

Aquela flor, ou o que quer que fosse, fez cair na memória de Laura, uma lembrança de texto sobre fadas descritas em um antigo bestiário que lera no templo. Eram criaturas diminutas, vestidas pela própria natureza, envoltas em magia e cercadas por incontáveis lendas. Diziam que eram travessas, que raramente apareciam aos humanos e que suas verdadeiras intenções jamais podiam ser compreendidas.

Por diversas vezes, Laura perdeu a pequena criatura de vista. Mas sempre que isso acontecia, a melodia voltava a ecoar entre as árvores. Guiada por aquele canto estranho, ela erguia os olhos e a encontrava alguns metros adiante, pairando no ar, como se esperasse pacientemente que a menina a alcançasse. Assim que Laura se aproximava, a criatura voltava a fugir.

A brincadeira repetiu-se por longos minutos, conduzindo a garota cada vez mais para o meio da floresta, por um caminho que ela jamais havia percorrido. Até que, enfim, a pequena luz interrompeu a fuga e ficou pairando no ar. Laura parou. E diante dela erguia-se uma árvore colossal. Era uma das maiores que já havia visto em toda a floresta. Seu tronco era tão largo que seriam necessários vários homens de mãos dadas para abraçá-lo, era coberto por uma casca espessa e resistente, marcada por sulcos profundos que pareciam cicatrizes deixadas pelo passar de centenas de anos. As raízes eram ainda mais impressionantes, elas rompiam a terra e se espalhavam ao redor do tronco em curvas enormes, algumas formando passagens naturais que lembravam pequenos túneis. Eram tão grandes que Laura poderia se esconder atrás de uma delas sem que ninguém a encontrasse.

Ela ergueu os olhos e a copa era imensa, formando quase um teto sobre aquele trecho da floresta. As folhas, de um vermelho escuro e profundo, pareciam carregar consigo o último suspiro do outono, embora ainda fosse primavera. Juntas, criavam um enorme véu avermelhado que filtrava a luz do sol e mergulhava o chão em uma penumbra rubra. Laura jamais havia visto uma árvore assim. Por algum motivo, sentiu que ela não pertencia àquela floresta. A pequena criatura voltou-se para ela e emitiu um som delicado, quase como se tentasse falar. Laura inclinou a cabeça, tentando compreender, mas as palavras — se é que eram palavras — permaneciam além de seu entendimento. A fadinha ergueu lentamente os pequenos braços e apontou para o centro do tronco. Laura deu um passo à frente. Por um breve instante, teve a impressão de que estava sendo convidada a olhar com mais atenção. Então, sem qualquer esforço, a diminuta fada atravessou a madeira como se ela fosse feita de água e desapareceu.

A floresta voltou a mergulhar em silêncio. Apenas o vento fazia um som presente e as folhas vermelhas balançavam sobre a cabeça de Laura. Ela permaneceu imóvel diante daquela árvore ancestral, com o coração acelerado, tentando compreender o que acabara de presenciar.

Aquilo era magia.

Magia de verdade.

Nem Laura, nem provavelmente qualquer outro morador daquele pequeno pedaço de mundo, jamais havia presenciado algo semelhante. Para ela, a magia era apenas um vestígio do passado, uma lembrança distante dos tempos antigos. Era isso que Orfeu lhe contava desde pequena. Quando o velho monge era criança, ainda se ouviam histórias sobre magos e feiticeiros; agora, restavam apenas ruínas, lendas e medo.

Por um breve instante, Laura sentiu-se especial. Era como se tivesse sido escolhida para testemunhar algo que os olhos de mais ninguém poderiam ver. Mas a mesma emoção que acelerava seu coração logo deu lugar ao remorso.

Magia era perigosa.

Ela conhecia apenas fragmentos da história da Escola Arcana. Sabia que, em seus últimos dias, magos e feiticeiros haviam travado guerras terríveis entre si. Sabia também que, em meio ao caos, surgiu Elowen, a Bruxa Vermelha, cuja ascensão mergulhava Arya em uma era de medo e perseguição. Desde então, qualquer vestígio de magia era visto como uma ameaça. Orfeu jamais lhe proibiu de estudar aqueles acontecimentos, mas sempre repetia a mesma advertência:

— A magia não é má, Laurinha... mas o coração de quem a empunha pode ser, e hoje, quem a usa, é perseguido e morto por cavaleiros negros — aquilo sempre soou como balela para ela, histórias para fazer boi grande dormir. Como poderia trancafiar magia desse jeito?

Por fim, Laura voltou a olhar para a árvore. Se aquilo realmente era magia…Por que havia aparecido justamente para ela? O que aquela pequena criatura desejava? Por que a guiara até aquele lugar? As perguntas multiplicavam-se em sua mente como galhos de uma árvore, sem que encontrasse resposta para nenhuma delas. Então um pensamento atravessou sua imaginação, tão absurdo que a fez sorrir de nervoso:

"E se eu fosse uma das escolhidas das velhas histórias? Já li sobre elfos capazes de dominar a magia desde o nascimento. Meu pai era um elfo. Será que... por mais impossível que pareça... eu herdei alguma coisa dele?"

A ideia foi suficiente para fazer seu coração disparar, em euforia, Laura não se conteve. Aproximou-se do tronco e estendeu as mãos exatamente para o lugar onde vira a fada desaparecer. Seus dedos tocaram a madeira, e nada aconteceu, o toque era duro como qualquer tronco deveria ser. Ela bateu uma vez, depois outra, e o som ecoou pela floresta como se estivesse batendo em uma porta. Parecia oca, mas firme. Pegou uma faca que carregava em suas andanças, e tentou riscar a árvore ou tirar-lhe um pedaço, parecia rocha, a única diferença era que nem riscava.

— Fadinha? — sussurrou, colocando as mãos em concha contra a madeira, como se compartilhassem um segredo. — Está aí? Posso entrar?

Esperou a resposta e não houve nada, nem um som. Laura franziu a testa, frustrada e tentou novamente, nada. Deu a volta na árvore, procurou uma abertura entre as raízes, examinou o tronco de cima a baixo e até tentou se esgueirar por baixo de uma das enormes raízes. Empurrou, puxou, bateu e procurou alguma passagem escondida. Tentou bater a cabeça, o bumbum, esfregar o rosto, lamber e até mesmo chutar. Em determinado momento, numa tentativa particularmente desajeitada, acabou se desequilibrando e caiu sobre o próprio ombro.

— Ai! — levantou-se esfregando o local, onde já começava a surgir uma marca avermelhada.

Olhou para a árvore e depois para o próprio ombro — Será que estou doida? — sentou-se no chão e por alguns minutos, permaneceu ali, encarando o tronco em completo silêncio. Talvez tivesse imaginado tudo ou aquela flor fosse alucinógena, poderia ter passado tempo demais lendo histórias de magia e agora estivesse começando a enxergar coisas que não existiam.

Laura suspirou, mas a curiosidade não deixou ser vencida. Levantou-se e decidiu investigar a árvore uma última vez. Dessa vez, começou pelas raízes, examinando cuidadosamente os espaços onde a terra e a madeira se encontravam.

Foi então que percebeu algo diferente, logo ali na base da árvore, havia um amontoado de folhas secas e musgo escondido entre duas raízes. Laura afastou a vegetação com as mãos e até que suas mãos encontraram algo firme. Ela limpou um pouco mais e viu que era uma pedra, não, uma placa. Estava cravada na terra, parcialmente escondida pelas raízes. Laura retirou o musgo que cobria sua superfície e revelou uma série de palavras gravadas na pedra.

Ela se aproximou, viu que era em um idioma estranho, mas logo as formas começaram a se mover, mudando as formas e os desenhos, até que reconheceu imediatamente a escrita que era Kiroko, dialeto da língua comum dos humanos. Laura ficou anestesiada de felicidade, passou os dedos sobre as letras, limpando os últimos restos de musgo e as letras por um breve segundo iluminaram-se em um azul radiante e claro.

Então leu:

“Corre sem rio, pulsa sem cessar,

dá vida e pode escapar.

Mora sob a casca, longe do olhar,

mas uma quantidade pequena sua basta para o caminho revelar.”

Ela analisou e sentiu que aquilo era um enigma para abrir uma entrada secreta ou poder nadar na árvore como a fada. Depois de um tempo, começou a olhar aquele enigma como se estivesse encarando um um grande clássico de mil páginas, difícil. Leu novamente. E uma terceira vez, seu olhar desceu lentamente para as próprias mãos e depois, para a placa.

— Algo meu... que corre sem rio? Sem parar?

Pela primeira vez, Laura teve a impressão de que talvez soubesse exatamente o que aquela mensagem queria dizer. A resposta, porém, parecia escapar-lhe por entre os pensamentos, escondendo-se como numa brincadeira de pique-esconde, daquelas que as crianças da vila adoravam brincar. Ela sabia que conhecia a resposta. Só não conseguia encontrá-la.

Dessa vez, porém, deitou-se sobre a grama e ficou olhando para o alto, entre as folhas avermelhadas da enorme árvore. A resposta continuava rondando sua cabeça. Ela já a conhecia. Ficou um tempo ali, tinha lido, estudado e pensado tantas vezes sobre aquelas palavras que parecia impossível que ainda não conseguisse encontrá-la.

Repetiu o enigma em pensamento.

“Corre sem rio... dá vida e pode escapar... mora... longe do olhar.”

Laura emburreceu o rosto e então, de repente, a resposta surgiu. Ela se levantou num salto e por um instante, ficou parada, quase desejando estar errada. Se estivesse certa, talvez aquilo não fosse uma coisa boa. Aproximou-se novamente da placa e passou os dedos pelas letras gravadas na pedra. Leu a mensagem uma última vez, procurando algum significado diferente, alguma palavra que tivesse deixado passar. Não havia. Então respirou fundo.

— Sangue! — A palavra ecoou pela floresta. E então ouviu um som estrondoso vindo da árvore como pancadas de um gigante e Laura recuou sem pensar duas vezes.

No início, foi apenas um pequeno tremor. Logo, porém, as enormes raízes se contorceram sobre a terra, como se tivessem despertado de um sono profundo. O tronco estremeceu e a copa começou a balançar, embora nenhum vento soprasse naquele momento. As folhas vermelhas começaram a cair.

Uma.

Duas.

Depois dezenas.

Aos poucos, uma chuva rubra cobriu o chão ao redor de Laura. Foi então que as letras gravadas na placa começaram a brilhar um azul intenso que percorreu cada palavra, iluminando os sulcos da pedra até que toda a inscrição parecesse ter sido escrita com luz.

Laura começou a ficar apavorada. As raízes diante dela começaram a se entrelaçar, uma sobre a outra, moviam-se lentamente, formando uma pequena estrutura circular, como um altar. O emaranhado de madeira se ergueu do chão e, no centro, uma pequena tigela surgiu entre as raízes, como se tivesse crescido junto delas.

O altar continuou a subir. primeiro alcançou uma altura que dava nos seus joelhos, logo depois sua cintura. Até finalmente parar na altura de seus quadris. Laura aproximou-se devagar. No centro do altar estava uma pequena tigela de madeira. Vazia, como se esperasse ser preenchida. Laura ficou encarando a pequena tigela, com receio, e por alguns segundos, não conseguiu se mover. Logo compreendeu que aquilo não era uma coincidência, a árvore havia respondido à sua palavra “Sangue.” O pensamento atravessou sua cabeça e um arrepio percorreu todo o seu corpo.

— Não... não, não…

Deu um passo para trás, olhou novamente para o altar, para as raízes que ainda se moviam lentamente e para as letras azuis brilhando na pedra. Aquilo era magia, magia de verdade e aquela coisa queria o seu sangue. Laura não esperou para descobrir o que aconteceria depois. Virou-se e saiu correndo. Os galhos batiam contra seu rosto, os pés afundavam na terra úmida e as folhas vermelhas se prendiam aos seus cabelos e à sua roupa. Ela tropeçou em uma raiz, caiu, mas levantou-se imediatamente e continuou. Não olhou para trás, pensou na criatura que havia desaparecido, na árvore que havia despertado e agora havia um altar esperando por ela. Tudo aquilo era macabro demais, de onde já se vira uma flor vermelha brilhante, uma fada levar ela para longe e ainda mais para uma árvore com sede de sangue... Laura correu pela floresta como nunca havia corrido antes, seguindo as trilhas que conhecia de memória. O coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito. Só havia uma pessoa que poderia explicar aquilo, o velho Orfeu.

Quando finalmente avistou as primeiras casas de Marakis, já estava sem fôlego. Atravessou o vilarejo sem responder aos olhares curiosos dos moradores e seguiu diretamente para o templo. Empurrou a porta com tanta força que ela bateu contra a parede.

— Orfeu! — Sua voz preencheu todo o pequeno templo. O velho monge, que organizava alguns livros sobre uma mesa na biblioteca, levantou os olhos, assustado, e Laura correu até ele.

— Orfeu... eu encontrei uma coisa na floresta.

Ele percebeu imediatamente o estado da menina.

— Laura, o que aconteceu?

Ela tentou recuperar o fôlego, mas por alguns segundos não conseguiu falar. Olhou ao redor, percorreu rapidamente o templo com os olhos e depois espiou para fora. Então fechou as portas e as janelas.

— Laura... Laurinha, o que está acontecendo? Foram as crianças novamente?

Ele se levantou e foi até ela. Segurou-a pelos braços e a envolveu naquele velho abraço de conforto que tantas vezes havia lhe oferecido. Laura molhou as vestes marrons do monge com suas lágrimas e o apertou com força.

— Eu acho que fiz algo terrível.

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Thoughts

  • Ovid

    A placa do enigma acendendo em azul e a Laura fugindo bem quando a resposta funciona deixa a árvore lá, com a tigela vazia esperando. Meu palpite é que o Orfeu sabe dessa árvore mais do que já contou, porque o aviso dele sobre os cavaleiros negros tem cara de quem viu de perto.

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