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Meu namorado fantasma capítulo 18

hyan_amorim

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1805 - Brasil Colônia

Meu irmão Tomás acabara de chegar.

Estava elegantemente trajado com sua farda de cadete, trazendo inclusive o chapéu sob o braço. A cada dia parecia mais orgulhoso da carreira militar que escolhera para si.

- Tio! - exclamou Helena, correndo ao seu encontro.

- Ora, minha pequena princesa! - respondeu Tomás com um sorriso, tomando-a nos braços.

- Então, pequeno general, como tendes passado? - perguntei, divertindo-me.

Tomás soltou uma risada.

- Irmã, se Deus permitir, no próximo ano receberei minha primeira patente. O capitão já disse que estou progredindo muito em meus estudos militares.

- Isso é uma excelente notícia. - Sorri com orgulho. - Tenho certeza de que vos tornareis um grande soldado.

Tomás pareceu ainda mais satisfeito com minhas palavras.

- Há outra novidade, irmã. - Seu semblante mudou imediatamente. - Estou apaixonado.

Não pude evitar uma breve risada ao vê-lo tão encabulado.

- E quem é a felizarda que roubou vosso coração?

Tomás baixou os olhos por um instante antes de responder:

- Chama-se Leonor.

Ao pronunciar o nome da jovem, um sorriso tolo surgiu em seus lábios.

- Vi-a ontem durante a missa. Jamais contemplei dama tão encantadora.

- E quem é essa senhorita Leonor? - perguntei, curiosa.

- Ela estava acompanhada de Dona Constança, a pretendente de Miguel. - respondeu Tomás. - Parecem ser grandes amigas.

Franzi levemente o cenho.

- Será então que Miguel finalmente pretende casar-se?

Tomás deu de ombros.

- Talvez. Afinal, ele e Dona Constança encontram-se com frequência na igreja.

- Isso realmente me surpreende. - Balancei a cabeça. - Por vezes cheguei a acreditar que nenhuma moça desta cidade seria capaz de despertar o interesse de Miguel.

- Pois desta vez parece diferente. - respondeu Tomás. - E, para dizer a verdade, creio que Dona Constança é uma dama muito distinta.

Enquanto ele falava, não pude deixar de notar o entusiasmo em sua voz ao mencionar Leonor.

Era curioso vê-lo tão apaixonado.

Afinal, para mim, Tomás ainda parecia o mesmo menino que corria pelos campos de nossa fazenda empunhando gravetos como se fossem espadas.

Já era noite quando minha mãe chegou à nossa casa.

Bastou vê-la atravessar a porta para perceber que algo não estava bem. Seu semblante encontrava-se tomado pela aflição.

Tomás ainda não havia regressado.

- Certamente deve estar em algum lugar da vila e perdeu a noção das horas. - procurei tranquilizá-la. - Não há motivo para tamanho receio.

Minha mãe, porém, balançou a cabeça.

- Conheço muito bem vosso irmão, minha filha. - Sua voz tremia de preocupação. - Tomás sempre foi um rapaz responsável. Jamais desapareceria desta maneira sem dar notícias.

Ela suspirou profundamente e levou uma das mãos ao peito.

- Tenho certeza de que algo aconteceu.

- Mamãe...

- Há uma inquietação em meu coração que não consigo explicar. Uma mãe sente essas coisas. Sinto que meu filho está em perigo.

Suas palavras fizeram nascer em mim um estranho pressentimento.

Um aperto silencioso tomou conta de meu peito.

Naquela noite, quase ninguém conseguiu repousar.

Ao amanhecer, meu pai mobilizou todos os homens de suas propriedades para as buscas.

Criados, trabalhadores e agregados partiram em diferentes direções, percorrendo estradas, trilhas e matas na esperança de encontrar algum vestígio de Tomás.

Em poucas horas, toda a cidade já comentava o desaparecimento.

A preocupação espalhou-se por toda a região.

Meu marido e Miguel, que em breve deveriam partir em viagem de negócios, decidiram adiar seus planos.

Ambos uniram-se às buscas e passaram o dia inteiro percorrendo os arredores da cidade.

Contudo, à medida que as horas passavam sem qualquer notícia, o temor crescia em todos os corações.

Com o auxílio de um chá de ervas preparado por minha mãe, consegui finalmente encontrar algum repouso.

Não tardou para que o sono me envolvesse.

Sonhei que caminhava sozinha por uma floresta coberta por uma espessa névoa.

Foi então que o vi.

- Tomás! - exclamei, correndo em sua direção e envolvendo-o em meus braços. - Meu irmão, onde estais? Todos vos procuram! Mamãe está desesperada!

Tomás nada respondeu de imediato. Apenas me fitou com um olhar tão triste que meu coração apertou-se.

- Já não pertenço a este mundo, minha irmã - disse ele em voz baixa.

Afastei-me alguns passos, tomada pelo espanto.

- Que estais a dizer?

- Fui traído - respondeu ele com semblante grave. - Traído por nosso próprio irmão.

Senti o sangue fugir de meu rosto.

- Miguel? - perguntei, incrédula.

- Sim. Miguel tirou-me a vida sem qualquer piedade.

Levei ambas as mãos à boca.

- Não... isso não pode ser verdade.

- É a verdade, Ariadne, e precisais escutar-me.

- Mas por quê? Por qual motivo ele faria semelhante coisa?

Tomás segurou minhas mãos com firmeza.

- Porque Miguel cometeu um pecado gravíssimo.

- Não compreendo...

- Miguel e Álvaro têm-vos enganado durante todos estes anos - declarou ele. - Ambos mantêm um romance pecaminoso às vossas costas.

Senti minhas pernas fraquejarem.

- Não! Isso não pode ser verdade!

- Eu os vi com meus próprios olhos. Foi por descobrir esse segredo que fui silenciado.

Balancei a cabeça repetidas vezes enquanto as lágrimas começavam a escorrer por meu rosto.

- Não... deve haver algum engano. Algum terrível engano.

- Não há engano algum, minha irmã.

- Álvaro é meu esposo! Miguel é meu irmão! Jamais fariam uma coisa dessas comigo!

- Eu também desejava acreditar nisso - respondeu Tomás com tristeza. - Porém a verdade não deixa de existir apenas porque nos causa sofrimento.

Senti um aperto insuportável no peito.

- Não... não pode ser... não pode...

- Pode, Ariadne. E se não acreditais em mim, descobri a verdade por vós mesma.

- Por que estais a dizer-me isso? Por quê?

- Porque mereceis conhecer a verdade. E porque mereço justiça.

A névoa ao redor começou a tornar-se cada vez mais densa.

- Tomás! - gritei, tentando segurá-lo. - Não me deixeis!

- Encontrai-me, Ariadne - disse ele enquanto sua figura começava a desaparecer. - E fazei justiça por mim.

- Tomás! Tomás!

Mas já era tarde.

A névoa engoliu sua imagem por completo.

E eu despertei tomada pelo mais profundo horror.

Esforcei-me para não acreditar no que havia sonhado.

Repeti a mim mesma inúmeras vezes que não passara de um pesadelo, fruto de minha aflição pelo desaparecimento de Tomás.

Contudo, na manhã seguinte, a notícia chegou.

O corpo de meu irmão fora encontrado na mata.

Assassinado.

Segundo os homens que o localizaram, sua morte fora brutal. Encontraram-no com o crânio esmagado por sucessivas pedradas.

A cidade inteira pareceu mergulhar em luto.

Meu pai ficou completamente arrasado.

Minha mãe mal conseguia permanecer de pé.

E eu...

Eu não conseguia afastar de minha mente as palavras que ouvira em sonho.

Por mais que tentasse, não conseguia olhar para Miguel e para meu esposo sem sentir um terrível aperto no peito.

O velório realizou-se em nossa própria residência, conforme era costume.

O corpo de Tomás foi cuidadosamente lavado e vestido com sua farda. Ao redor do caixão, dezenas de velas permaneciam acesas dia e noite.

Familiares, vizinhos e amigos chegavam sem cessar.

O rosário era rezado repetidamente.

Algumas mulheres choravam em voz alta.

Outras permaneciam ajoelhadas, murmurando orações pela alma de meu irmão.

Meu pai não saiu de junto do caixão por um único instante.

Parecia ter envelhecido muitos anos em apenas um dia.

Minha mãe chorava sem consolo.

Jamais a vi sofrer tanto.

Foi durante uma das orações que algo me fez erguer os olhos.

E então o vi.

Tomás.

Estava parado ao lado do próprio caixão.

Trajava a mesma farda com a qual fora encontrado.

O tecido encontrava-se sujo de terra e sangue.

A terrível ferida em sua cabeça permanecia visível.

- Tomás... - murmurei, sentindo meu corpo inteiro estremecer.

Ninguém pareceu notar minha reação.

Todos continuavam rezando.

Tomás voltou os olhos para o próprio corpo.

Por um instante, permaneceu imóvel.

Então caiu de joelhos.

- Não... - gritou ele, tomado pelo desespero. - Não! Isto não pode estar acontecendo!

Levei as mãos à boca para impedir que um grito escapasse de meus lábios.

- Eu não estava preparado para morrer! - continuou ele. - Eu ainda tinha toda uma vida diante de mim!

As lágrimas corriam por seu rosto.

Então sua expressão mudou.

O desespero deu lugar à fúria.

Lentamente, ele ergueu o olhar para Miguel.

- Maldito! - gritou. - Não tínheis o direito!

Tomás avançou em sua direção.

- Eu vos odeio!

Tentou golpeá-lo repetidas vezes.

Contudo, seus punhos atravessavam o corpo de Miguel como se ele fosse feito de névoa.

Aquela visão era aterradora.

Permaneci imóvel, incapaz de desviar os olhos.

Dias depois, durante o enterro, acompanhei o cortejo até a igreja.

Os sinos dobravam lentamente.

O sacerdote conduzia as orações enquanto os homens carregavam o caixão.

Ao redor, via-se apenas tristeza.

Mas eu já não prestava atenção às preces.

Observava apenas Miguel e Álvaro.

Durante toda a cerimônia, percebi que ambos trocavam olhares discretos.

Breves.

Silenciosos.

Mas suficientes para fazer meu coração afundar ainda mais.

Pois, naquele momento, pela primeira vez comecei verdadeiramente a acreditar que o sonho talvez não tivesse sido apenas um sonho.

E essa possibilidade era mais assustadora do que qualquer pesadelo.

- Precisais expor aqueles dois, irmã. - disse Tomás, com os olhos tomados pela ira enquanto observava Álvaro e Miguel ao longe.

Nada respondi.

Apenas baixei o olhar para o chão.

Meu coração encontrava-se dividido entre o horror daquilo que eu havia descoberto e o medo das consequências que a verdade poderia trazer.

Os dias passaram-se lentamente.

Tomás permaneceu ao meu lado durante todo esse tempo.

Apenas eu podia vê-lo.

Apenas eu podia ouvi-lo.

Por vezes, eu me perguntava se não estaria realmente enlouquecendo.

Talvez todos aqueles acontecimentos tivessem abalado minha razão.

Talvez o sofrimento estivesse criando ilusões diante de meus olhos.

Contudo, cada vez que Tomás me revelava algo que ninguém mais poderia saber, minhas dúvidas desapareciam.

Certa manhã, tomada pela angústia, procurei a igreja para confessar-me.

Passei longo tempo conversando com o sacerdote.

Não revelei nomes nem mencionei os segredos que guardava, mas procurei orientação para o tormento que consumia minha alma.

Ao deixar o confessionário, suas palavras permaneciam ecoando em meus pensamentos.

O padre ensinara que a vingança jamais deveria guiar o coração de um cristão.

Dissera também que a verdade sempre pertence a Deus e que nenhum crime permanece oculto para sempre diante dos olhos do Altíssimo.

Entretanto, também advertira que o sofrimento excessivo pode perturbar a mente humana, levando-a a enxergar coisas que talvez não existam.

Durante todo o caminho de volta para casa, aquelas palavras atormentaram-me.

Cheguei à residência ainda atormentada por meus pensamentos quando Tomás surgiu mais uma vez diante de mim.

Contudo, havia algo diferente nele naquela ocasião.

Sua presença causava-me um frio estranho, como se a própria atmosfera ao redor tivesse se tornado mais pesada.

- Esta é vossa oportunidade de testemunhar a verdade com os próprios olhos, irmã. - disse ele com uma voz sombria.

Assustei-me tanto que me levantei bruscamente da cadeira.

- Nosso irmão encontra-se neste momento em companhia de vosso esposo, exatamente no lugar onde fui morto. - continuou ele, fitando-me com intensidade. - Se partirdes agora, vereis tudo por vós mesma.

Senti o coração disparar.

- Tenho medo, Tomás. - confessei com a voz trêmula.

- Ide. - respondeu ele com firmeza. - Mas tende cautela. Não permitais que vos descubram.

Após muita insistência, acabei cedendo.

Tomás guiou-me pela mata, seguindo por trilhas estreitas que eu mal conhecia.

A cada passo, meu receio aumentava.

Quando nos aproximamos do local indicado, passei a caminhar com extrema cautela para não produzir qualquer ruído.

Então Tomás ergueu a mão e apontou adiante.

- Olhai.

Segui a direção de seu gesto.

No mesmo instante, senti as lágrimas encherem meus olhos.

Ali estavam Álvaro e Miguel.

A proximidade entre ambos não deixava margem para dúvidas.

Já não havia explicações.

Já não havia mal-entendidos.

Já não havia esperança de que tudo fosse fruto de minha imaginação.

A verdade encontrava-se diante de mim.

Levei a mão à boca para conter um soluço.

- Não... - murmurei, incapaz de acreditar.

Mantive-me escondida atrás de uma árvore, observando à distância.

Minhas pernas começaram a fraquejar.

Todo o meu corpo tremia.

Por fim, caí de joelhos sobre o chão da floresta.

Não conseguia compreender como aquilo era possível.

Meu marido.

Meu próprio irmão.

As duas pessoas em quem mais confiara durante toda a minha vida.

As lembranças de anos de convivência passaram diante de meus olhos.

As promessas feitas por Álvaro no altar.

Os momentos compartilhados em família.

Tudo parecia uma mentira.

Senti o coração despedaçar-se dentro do peito.

Mais do que a traição, o que me consumia era perceber que Tomás havia dito a verdade.

E, se ele dissera a verdade sobre aquilo...

Talvez também tivesse dito a verdade sobre sua própria morte.

#romancesobrenatural

Thoughts

  • Tiao

    A mãe sentiu o filho em perigo antes de qualquer notícia, e o padre ainda mandou a Ariadne desconfiar da própria cabeça. Nessa família quem sabe das coisas é quem ninguém escuta.

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