O centro histórico de Savannah era um labirinto de praças sombreadas por carvalhos centenários, dos quais pendia o musgo espanhol, conferindo à cidade um ar de mistério e opulência. Para os turistas que desembarcavam nos cais do rio ou caminhavam pela movimentada River Street, aquele lugar era um destino de sonho. Para Cecilia Miller, aos doze anos, era um território hostil, onde seus pés cansados imploravam por uma trégua sobre as pedras quentes do calçamento.
Mãe e filha instalavam-se cedo perto da Wright Square. Susana sentava-se em um banco para tricotar com uma rapidez milimétrica, enquanto Cecilia percorria as calçadas oferecendo pulseiras aos transeuntes. No início, a timidez lhe travava a garganta, mas a fome é uma mestra implacável que ensina a gritar.
— Levem pulseiras autênticas da Geórgia, feitas à mão — repetia a menina, com uma monotonia que ofuscava a doçura de sua voz.
O contraste entre a sua realidade e a dos outros não tardou a ser sentido profundamente. Frequentemente, Cecilia via passar grupos de crianças da sua idade, vestindo uniformes escolares impecáveis ou roupas de marca compradas nas lojas da Broughton Street. Via-as rir, segurando sorvetes de três sabores, conversando sobre brinquedos, viagens à Flórida ou tarefas de matemática que, para ela, já pareciam conceitos de outro planeta.
Numa sexta-feira à tarde, a chuva começou a cair de forma torrencial, obrigando Cecilia a refugiar-se sob o grande toldo de lona da "McQueen’s Toys & Curiosities", uma das lojas de brinquedos mais prestigiadas do centro. Ao virar-se para o grande balcão de vidro, seus olhos paralisaram. Atrás do vidro, iluminada por uma luz quente, repousava uma boneca de porcelana com um vestido de renda azul-celeste, cachos dourados e olhos de vidro tão límpidos que pareciam olhar diretamente para a alma de Cecilia. Custava quarenta e cinco dólares; uma fortuna inalcançável, o equivalente a três meses de comida e aluguel para ela e sua mãe.
Cecilia apoiou as mãos e a testa contra o vidro úmido, absorta em uma fantasia infantil que raramente se permitia. Por um segundo, esqueceu o frio em seus sapatos furados.
— Saia daí, menina! Você está sujando o balcão e espantando os clientes — gritou uma voz rouca lá de dentro. Era o senhor Vance, o dono da loja, que a observava com desprezo através da porta entreaberta. — Se não vai comprar nada, volte para a rua. Aqui não é lugar para vagabundos.
Cecilia retirou as mãos, como se o vidro estivesse queimando. Deu um passo para trás, engolindo as lágrimas, sentindo pela primeira vez uma pontada de raiva arder em seu peito. Olhou para o senhor Vance, depois para a boneca e, finalmente, para a cesta de pulseiras que pendia em seu braço. Compreendeu, com a maturidade forçada dos despossuídos, que o mundo estava dividido entre aqueles que observavam do lado quente do vidro e aqueles que tremiam sob a chuva.
A rua não lhe ensinou apenas o desprezo; também lhe mostrou as presas de seus piores perigos.
Aos quatorze anos, Cecilia já não era mais a menina indefesa de tranças; seus traços haviam se tornado mais afilados, e ela caminhava de olhos baixos para evitar o olhar dos homens que a observavam com intenções sombrias. À noite, Savannah mudava de semblante. As áreas turísticas esvaziavam-se, e os becos próximos aos cais enchiam-se de sombras e figuras de passos erráticos. Numa noite de outubro, Susana havia ficado para trás, numa esquina, tentando vender as últimas peças para um casal de retardatários. Cecilia adiantou-se duas ruas em direção a Factor's Walk, uma área de passagens de pedra e rampas escuras, buscando encurtar o caminho até o ponto de ônibus. O eco de passos pesados atrás dela a fez apressar o passo.
— Ei, garota... espere um pouco — disse uma voz áspera vinda da penumbra.
Ao se virar, Cecilia deparou-se com um homem robusto, de barba por fazer e jaqueta jeans suja. Seu hálito fedia a álcool barato. Era um criminoso conhecido na região portuária, apelidado pelos vagabundos de "O Caolho" Miller (embora não tivesse nenhum parentesco com ela).
— Me deixe em paz, estou com minha mãe — disse Cecilia, tentando soar firme, mas o tremor de suas mãos denunciou seu pânico.
— Sua mãe está longe, gracinha. Por que não me mostra o que mais você traz nessa cesta? Ou melhor ainda, o que você esconde debaixo desse vestido? — respondeu o homem, encurralando-a contra a parede de tijolos de um velho armazém de algodão.
Cecilia tentou gritar, mas a mão áspera e enorme do sujeito cobriu sua boca com violência, sufocando-a. A dor e o medo a paralisaram enquanto ela sentia o sujeito empurrá-la em direção ao chão úmido do beco, rasgando a barra de sua blusa. Naquele instante de terror absoluto, em que o mundo parecia se apagar para ela, uma luz potente rompeu a escuridão da noite.
— Polícia de Savannah! Solte a garota e coloque as mãos na parede, agora mesmo! — retumbou uma voz autoritária.
Era o oficial Thomas O'Connor, um policial veterano da cidade que patrulhava o setor dos cais. Com a lanterna em uma mão e o cassetete na outra, O'Connor lançou-se sobre o agressor. O bandido, ao ser surpreendido, soltou Cecilia e praguejou, tentando se desvencilhar, mas o policial O'Connor imobilizou-o contra o chão com uma destreza implacável, colocando-lhe as algemas metálicas, cujo clique soou como uma música de salvação no beco.
Cecilia caiu de joelhos, abraçando o próprio corpo, chorando de forma contida e histérica. O policial O'Connor, após imobilizar o criminoso, ajoelhou-se diante dela, mantendo uma distância respeitosa, e retirou o quepe do uniforme.
— Você já está a salvo, mocinha. Nada vai lhe acontecer — disse O'Connor, com preocupação genuína, cobrindo os ombros da adolescente com sua própria jaqueta da corporação. — Onde está sua família?
Susana chegou correndo um minuto depois, alertada pela confusão, gritando o nome da filha. Ao ver a cena, lançou-se sobre Cecilia, abraçando-a com uma força desesperada, enquanto ambas choravam sob a luz fria da lanterna do policial. O policial O'Connor acompanhou-as até a delegacia e certificou-se de que embarcassem em um transporte seguro para voltar para casa.
Aquele episódio deixou uma marca indelével em Cecilia. Ela havia sobrevivido, é verdade, mas a inocência que lhe restava morreu naquela noite em Factor's Walk. A rua já não era apenas o lugar onde ela trabalhava; agora era uma selva onde um único erro poderia custar a vida, e a doçura começou a ser substituída por uma couraça de gelo.