Pular para o conteúdo
Carregando…

Minha décima oitava chacina

hyan_amorim

Conteúdo da publicação

Quinta-feira, 01/02/2024

Estou deitado na minha cama, observando o giz em minhas mãos.

Mas... para que isso serve?

Lanço um olhar para a fechadura da porta.

De repente, me levanto de um salto e vou até lá. Tranco a porta e tiro a chave.

- Será que é assim? - digo, confuso, tentando enfiar o giz no buraco da fechadura.

Forço um pouco mais... até que o giz quebra. Um pedaço cai no chão e deixa um pequeno risco na porta.

Franzo a testa.

Tem algo errado.

Uma rachadura começa a se formar exatamente onde o giz riscou.

- Ah... agora entendi.

Seguro o giz com mais firmeza e começo a desenhar diretamente na porta. Faço um pequeno quadrado.

Assim que termino...

Uma rachadura se espalha por todo o contorno do desenho.

Dou um leve empurrão.

E o pedaço da porta... simplesmente cai para o outro lado.

- Uai! - digo, chocado.

Agora eu entendi.

Se eu ficar em um beco sem saída... basta desenhar uma saída.

- Preciso fazer mais poções... - murmuro, voltando a me sentar na cama.

Pego o livro de feitiços e o coloco sobre as pernas.

Mas, de repente, algo me vem à mente.

Do-hyun disse que o Victor... sumiu da mente dele.

Meu coração aperta.

- Livro... a personalidade do Victor Uchiha, do meu marido, desapareceu. Existe alguma forma de trazê-lo de volta? - pergunto.

As páginas não se movem.

Nada acontece.

Engulo seco.

- Eu sei que já unifiquei os dois... mas agora eu quero que eles se tornem apenas um. Não dois em um... não dividindo o mesmo corpo... eu quero que sejam um só.

Silêncio.

As páginas continuam imóveis.

- Droga...

- Meu Deus! O que houve com a porta?! - grita a empregada, assustada.

Me levanto rapidamente e abro a porta.

- Senhor... o que aconteceu com a sua porta? - pergunta ela, chocada, apontando para o buraco.

- Eu estava testando uma coisa. - digo, tentando soar natural.

- Ah, sim... - responde a empregada, me olhando com certo julgamento. - Senhor, sua mãe e sua irmã estão lá embaixo.

Minha mãe... e Ana.

Sinto um frio na barriga.

Imediatamente, lembro das suspeitas: Ana pode ser o Devorador de Íris.

O medo cresce dentro de mim.

- Está bem... - respondo, com a voz levemente trêmula.

Desço as escadas com as pernas instáveis. De longe, avisto as duas sentadas no sofá.

Aperto discretamente a bolsa onde guardo a poção de dano.

Se eu perceber qualquer sinal de magia vindo delas... eu uso.

Sem hesitar.

Me aproximo.

- Oi, filho. - diz minha mãe, levantando-se.

Ela vem até mim e me abraça.

Sinto o corpo dela mais fraco... mais pesado.

Quando me afasto, noto suas olheiras profundas. Ela está destruída com tudo o que aconteceu com a Ariana.

Meu olhar desliza até Ana.

Ela está diferente.

Ou talvez... sempre tenha sido assim.

Fria. Distante. Sem expressão.

Sem empatia.

Um arrepio percorre minha espinha.

E se ela for a reencarnação de Seo-jin?

- Nós fomos visitar seu marido no hospital, mas não te vimos lá. - diz Ana, friamente, levantando-se.

Assinto, tentando manter a calma.

- Fiquei tão feliz quando vi que ele está se recuperando... - diz minha mãe, emocionada.

- Eu só vim dar uma passada rápida aqui em casa. - digo, tentando esconder o desconforto na voz. - Mas já estou voltando para o hospital.

- Fiquei sabendo que você foi visitar sua gêmea psicopata. - diz Ana, em tom de deboche.

Sinto meu sangue ferver.

- Não acredito que, nem em uma situação dessas, você consegue parar com isso. - digo, irritado.

- Ana, minha filha, por favor, pare com isso... - diz minha mãe, segurando o choro. - Você sabe o quanto é doloroso para mim falar sobre a sua irmã.

- Desculpa, mamãe... - diz Ana, de cabeça baixa.

Respiro fundo, tentando me controlar.

- Eu estou indo para o hospital. - digo, olhando para um dos seguranças.

- Sim, senhor. - responde ele.

Saio de casa acompanhado pelos seguranças. Durante o caminho, meu coração ainda está acelerado.

Quando chego ao hospital, vejo Carlos no quarto com Victor.

- Amor, você voltou. - diz Victor, com um sorriso.

- Que bom vê-lo, senhor. - diz Carlos, também sorrindo.

Observo melhor.

Ele está diferente.

Muito melhor.

Seu rosto não está mais abatido... parece até mais leve.

Será que ele finalmente superou a Clara?

- Você está com uma aparência ótima. - comento, surpreso.

- É que a Clara está voltando para o Brasil. - explica Carlos, levantando-se. - Depois de tudo o que aconteceu, ela viajou para o exterior.

Ele dá um pequeno sorriso.

- Agora que o Devorador de Íris foi pego... ela decidiu voltar.

Cruzo os braços, sério.

- Acho melhor ela tomar cuidado. - digo, firme. - Eu não acredito que o Devorador de Íris seja minha irmã.

Carlos suspira.

- As provas dizem o contrário. - rebate ele. - Mas, com licença... preciso ir buscar a Clara no aeroporto.

Ele se despede rapidamente e sai do quarto.

Fico olhando para a porta, ainda processando tudo.

- Nossa... - murmuro, chocado.

Victor dá um leve sorriso.

- Deixa ele. Ele só quer ficar perto da namorada.

Viro-me para ele, surpreso.

- Namorada?

- Sim. Eles voltaram. - responde Victor, com naturalidade.

Fico em silêncio por alguns segundos.

Ainda não acredito.

- Sério isso...? - digo, incrédulo, me sentando. - Depois de tudo... o Carlos voltou com a Clara...

- Amor... eu me concentrei bastante... e acho que senti o Victor. - diz Victor, animado.

- Sério? - respondo, sorrindo, enquanto seguro sua mão.

- Acho que ele está fraco... provavelmente por causa do ataque. - diz Victor, pensativo.

Assinto, preocupado.

- Eu já tentei encontrar um jeito de unir vocês... mas o livro não colabora. - digo, frustrado.

Victor aperta minha mão com carinho.

- Vamos encontrar um jeito, amor.

Suspiro.

- Eu tentei fazer a Poção da Nostalgia... mas a página do livro ainda não se regenerou.

- É assim mesmo. - responde Victor. - Precisa de um tempo para aparecer de novo.

De repente, meu estômago ronca alto.

Victor arregala os olhos, surpreso.

- Nossa...

Sinto meu rosto esquentar.

- Eu vou comprar alguma coisa para comer. - digo, sem graça, levantando-me. - Já volto.

Saio do quarto, ainda meio envergonhado. Mas, quando olho para frente, vejo Carlos e Clara vindo de mãos dadas pelo corredor do hospital.

Nossa... nem vendo eu acredito.

- Oi. - diz Clara, com um sorriso, aproximando-se.

- Vocês dois voltaram? - pergunto, incrédulo.

- Eu sei que errei... - diz Clara, com uma expressão meio sonsa. - Mas, nesse tempo em que fiquei longe do Carlos, percebi o quanto eu o amo.

- Vamos dar uma segunda chance para o nosso amor. - completa Carlos, todo bobo.

- Que bom para vocês. - digo, passando por eles. - Agora, com licença... eu preciso comprar algo para comer.

- Amor, eu estou com fome... - diz Clara, cheia de manha.

Reviro os olhos, discretamente.

- O senhor pode levar a Clara com você? - pede Carlos, receoso.

Paro na hora.

- O quê? - digo, incrédulo.

- O senhor está com seguranças... assim ela vai se sentir mais segura. - explica Carlos, com um sorriso sem graça. - Eu vou ficar com o senhor Victor no quarto.

Clara me olha com expectativa.

- Por favor, Ariel... faz tempo que eu não saio em público. - diz ela, em tom suave. - Você me entende, né? Sabe tudo o que eu passei...

Solto um suspiro pesado.

- Está bem... mas vamos logo. - digo, já voltando a caminhar pelo corredor do hospital.

Vou até a lanchonete com Clara, mas, antes de entrarmos, os seguranças entram primeiro para verificar se está tudo seguro.

Logo depois, entramos, fazemos o pedido e nos sentamos para comer.

Dois seguranças permanecem dentro da lanchonete, um em cada canto, atentos a tudo. Os outros ficam do lado de fora, vigiando a entrada.

- Eu sei que você não gosta de mim... - diz Clara, de repente, antes de levar o garfo à boca. - Mas eu te entendo. Eu errei feio com o Carlos.

- O Carlos é um homem bom. - respondo, com certo rancor. - Você não o merece.

Clara abaixa o olhar por um instante.

- O Vicente... aquele homem que estava comigo no zoológico... sumiu. - diz ela, pensativa. - Até agora não encontraram nada. Ninguém sabe se ele foi morto naquele dia... ou se é cúmplice do Devorador de Íris.

De repente...

Sinto algo.

Magia.

Meu corpo trava.

- Ai, não... - murmuro, com medo.

Aperto a bolsa com as mãos trêmulas.

- O que foi, Ariel? Você ficou pálido de repente. - diz Clara, confusa.

Me levanto bruscamente.

- Estamos em perigo. - digo, sério. - Precisamos sair daqui agora.

Mas, antes que eu consiga terminar a frase...

BANG!

As portas e janelas da lanchonete se fecham de uma vez.

O barulho é tão alto que eu e Clara levamos as mãos aos ouvidos.

O silêncio que vem depois...

É ainda pior.

Todos que estavam na lanchonete se levantam, assustados. Os seguranças que estavam dentro do local correm imediatamente até mim.

- O que está acontecendo aqui?! - grita Clara, horrorizada.

O cheiro de magia se intensifica.

Então eu vejo.

Uma mosca.

Meu corpo gela.

A magia... está vindo dela.

De repente, ela começa a voar na minha direção.

E, no meio do ar...

Ela se transforma.

O corpo se distorce, cresce... e assume a forma do Devorador de Íris.

Ele cai no chão com força e, em um único movimento, atinge o pescoço de um dos seguranças.

Ele puxa a faca rapidamente.

O sangue jorra... como uma torneira aberta.

- AAAAAH! - grita Clara, em desespero.

O segurança cai no chão, sem vida.

O outro segurança saca a arma, mas não tem tempo.

Em um movimento ágil, o assassino arremessa a faca - que acerta em cheio a cabeça dele.

Silêncio.

Por um segundo... tudo para.

Abro minha bolsa com as mãos trêmulas.

Preciso pegar a poção de dano.

O Devorador de Íris caminha calmamente até o corpo do segurança e arranca a faca de volta, como se aquilo fosse... normal.

Os clientes entram em pânico.

Gritos ecoam pela lanchonete.

Clara corre em direção à cozinha, tentando se esconder.

E então...

Começa a chacina.

O Devorador de Íris avança sobre as pessoas, matando uma por uma.

Sem hesitação.

Sem emoção.

Seus golpes são rápidos... precisos... letais.

Fico paralisado.

Só consigo assistir.

Assistir enquanto ele esfaqueia, enquanto o sangue se espalha, enquanto os gritos vão diminuindo...

Até virarem silêncio.

Seguro firme a poção de dano.

Mas minhas mãos tremem tanto...

Que mal consigo me mover.

#terror

Thoughts

  • chuvaEterna

    O giz abrindo um quadrado na porta do quarto, e no fim a lanchonete inteira trancada. Depois do buraco que a poção fez no jardim, ele tem tudo na bolsa pra sair dali, só falta a mão parar de tremer.

    Permalink

Publicações relacionadas

Pública 1 conversa 2 pensamentos 11 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Quinta-feira, 01/02/2024

Em séries

Temas

Em grupos