Quinta-feira, 01/02/2024
Depois de matar todos os clientes da lanchonete, o Devorador de Íris se vira lentamente na minha direção.
Ele aponta a faca para mim.
— Pode vir, seu desgraçado. — digo, antes de lançar o saquinho na direção dele.
Ele reage no mesmo instante.
Corre.
Mas, antes que o saquinho o atinja, seu corpo se transforma.
Um besouro.
Pequeno, rápido… e ágil.
Ele voa diretamente na minha direção.
No mesmo segundo, o saquinho atinge uma mesa.
BOOM!
A explosão ecoa pela lanchonete. Mesas e cadeiras são arremessadas pelos ares.
O impacto me faz recuar.
O besouro continua vindo.
Desesperado, pego uma cadeira e a lanço contra ele.
No ar, ele se transforma novamente.
Agora em forma humana.
Com um único soco, destrói a cadeira em pedaços.
Ele é forte.
Muito forte.
Rapidamente, pego outro saquinho com a poção de dano. Me preparo para lançar…
Mas ele é mais rápido.
Segura meu pulso com força.
A dor é imediata.
Com a outra mão, acerto um soco direto em seu rosto.
A máscara cai no chão.
Por um segundo…
Tudo para.
Ele segura meus dois pulsos.
Me empurra contra a parede.
Meu corpo se choca com força.
Fico preso.
Imóvel.
Meu sangue gela.
Porque agora eu vejo.
O rosto dele…
É o meu.
Ele me encara com frieza… e um sorriso macabro se forma em seus lábios.
Seu nariz sangra por causa do meu golpe.
— O que você vai fazer agora? — digo, tentando manter a voz firme. — Vai me culpar pelos assassinatos… como fez com a Ariana?
Sustento o olhar.
Finjo coragem.
Mas, por dentro…
Estou apavorado.
— Quem sabe… — diz ele friamente, enquanto limpa o sangue da faca na minha camisa.
Até a voz é idêntica à minha… mas carregada de frieza e crueldade.
— Seria interessante, não acha? — debocha. — Os gêmeos psicopatas do mal.
Esse jeito de falar…
Não tenho a menor dúvida.
— Eu sei que é você, Ana. — digo, firme.
— Ah, é mesmo? — responde ele, fingindo surpresa.
— Tá esperando o quê? Me mata! — grito.
Ele me encara por alguns segundos.
— Eu não vou te matar, Ariel… — diz, com um olhar frio. — Não agora.
Sinto um arrepio percorrer meu corpo.
— Você é muito importante para mim.
Meu coração aperta.
— No momento, preciso terminar um serviço. — continua ele, abrindo um sorriso que faz meu corpo inteiro tremer. — Por culpa sua e do Victor, eu não pude concluir minha missão.
Ele desvia o olhar.
Segue em direção à porta da cozinha.
É onde Clara está… escondida com os funcionários da lanchonete.
Em um movimento brusco, ele agarra meu pescoço e me arremessa para o meio do salão.
Caio com força…
Sobre os corpos.
O cheiro de sangue é sufocante.
Ele caminha até a porta da cozinha.
E começa a chutar.
Uma vez.
Outra.
Até que…
CRASH!
A porta se abre.
Gritos ecoam.
Desesperados.
Agudos.
E então…
O pior som de todos.
A lâmina cortando carne.
Fecho os olhos por um segundo.
Mas não adianta.
Eu ainda consigo ouvir.
Preciso buscar ajuda. Rápido.
Me levanto imediatamente.
Olho para o saquinho ainda na minha mão.
Se eu jogar lá dentro… posso ferir pessoas inocentes.
Não posso fazer isso.
Guardo o saquinho e pego o giz na bolsa.
Me viro para a porta.
Ouço chutes do outro lado.
Devem ser os meus seguranças.
Sem perder tempo, começo a riscar a porta com o giz, várias vezes. As marcas se espalham… e, logo, a madeira começa a rachar.
Do outro lado, os chutes continuam.
Até que — CRASH!
A porta se quebra.
— Senhor! — diz um dos seguranças, ao me ver.
— Ele foi para a cozinha! — grito, desesperado.
Os seguranças, armados, correm imediatamente naquela direção.
Ouço o som de uma viatura chegando.
A polícia.
Corro atrás deles.
Quando entro na cozinha…
Meu corpo paralisa.
Sangue.
Por toda parte.
— Para onde ele foi? — pergunta um dos seguranças, apontando a arma em todas as direções.
Meus olhos percorrem o chão.
Uma garçonete está caída.
O pescoço… degolado.
O sangue ainda jorra.
Ela ainda está viva.
Com dificuldade, levanta a mão… tremendo… e aponta para o banheiro.
— Lá… — sussurra, quase sem voz.
Os seguranças correm imediatamente.
— Droga… ele fugiu! — grita um deles, logo depois.
Meu olhar continua vagando pelo cenário.
Então…
Eu vejo.
Clara.
— Meu Deus… — sussurro, horrorizado.
O corpo dela está imóvel.
Os olhos…
Arrancados.
Minhas pernas falham.
Caio no chão.
Sem forças.
Desvio o olhar… voltando para a garçonete.
Mas agora…
Ela não se move mais.
Em questão de segundos, a lanchonete está tomada pela polícia.
A máscara do Devorador de Íris é encontrada caída no chão, manchada de sangue.
Eu estou em choque.
Sou o único sobrevivente daquele massacre.
Fui levado para a delegacia para prestar depoimento. Durante o interrogatório, percebi que estavam suspeitando de mim. Provavelmente, agora pensam que eu e a Ariana somos cúmplices… uma dupla de psicopatas.
Mas não há nenhuma prova contra mim.
Já é de madrugada, e eu ainda estou na delegacia.
De repente, vejo Ana se aproximando.
— O que você faz aqui? — pergunto, confuso, ao vê-la se aproximar.
— Viemos te buscar. — responde ela, fria.
Logo em seguida, minha mãe aparece.
— Ariel! — diz ela, aflita, correndo até mim.
Ela me abraça com força.
— Até quando vamos viver esse pesadelo? — pergunta, chorando.
— Sua vida era perfeita quando você só ficava chorando pelos cantos por causa do seu amor não correspondido. — diz Ana, friamente.
— Ana, eu vou ficar zangada com você. — repreende minha mãe.
— Mas é verdade, mamãe. — insiste Ana, com frieza. — Foi só o Victor corresponder ao amor do Ariel que essas desgraças começaram a acontecer.
Ela faz uma pausa, com um sorriso cruel nos lábios.
— Parece que o destino não quer que ele seja feliz… e sempre encontra um novo jeito de fazê-lo sofrer.
— Já chega! — diz minha mãe, irritada, antes de dar um tapa no rosto dela.
— Mamãe?! — digo, chocado. É a primeira vez que vejo ela bater na Ana.
Ana leva a mão ao rosto, incrédula.
— A senhora me bateu?
— Não seja cruel com o seu irmão! — responde minha mãe, furiosa. — Ele já sofreu demais!
Ana, tomada pela raiva, se vira e vai embora.
— Ei, volta aqui! — chama minha mãe.
Mas Ana não recua. Continua andando, sem olhar para trás.
Aproximo-me e toco no ombro da minha mãe.
— Deixa ela, mamãe… — digo, com calma. — Vamos pegar um táxi.
Sexta-feira, 02/02/2024
O jeito como a Ana me olhou… as palavras que ela disse…
Agora eu finalmente me dei conta: a Ariana tem razão.
A Ana nos odeia.
Aquele olhar cheio de ódio de ontem… agora eu tenho certeza.
Ela é o Devorador de Íris.
Eu tenho a esfera da verdade. Posso confirmar minha suspeita… mas estou com medo.
O que ela faria comigo se eu descobrisse a verdade?
Eu não tenho forças para enfrentar o Devorador de Íris.
A página da Poção da Nostalgia ainda não se regenerou… e eu não sei o que fazer.
Fui proibido de ver a Ariana, já que agora sou suspeito de ser cúmplice dela.
A mídia está em caos.
Estão criando todo tipo de teoria… sobre mim e sobre a Ariana.
Também estou preocupado com a minha mãe. Tudo isso está afetando muito ela.
Chego ao hospital… e sinto que o pai do Victor está desconfiado.
Ele não diz diretamente que acha que eu sou o Devorador de Íris… mas eu sinto isso.
Victor está desesperado.
— Nós temos que nos preparar para ir embora o mais rápido possível. — diz ele, aflito. — Vou organizar tudo.
— Você não pode tirar o Ariel do país. — diz o pai de Victor, firmemente. — Ele é suspeito.
Respiro fundo, tentando manter a calma.
— Sei que o senhor não vai acreditar em mim… mas eu não sou o Devorador de Íris. — digo, sério. — Ontem eu percebi uma coisa… o Devorador de Íris é a Ana.
O pai de Victor me encara, incrédulo.
— Então são um trio? — pergunta, desconfiado.
— Por favor, não suspeite do Ariel, papai. — diz Victor, firme.
— Victor, eu não aguento mais isso… — digo, chorando. — Você tem razão… a gente precisa ir para bem longe daqui.
Levo as mãos ao rosto, tentando conter o choro.
— Eu só me sinto um covarde por deixar minha irmã para trás…
Não consigo me controlar. As lágrimas caem sem parar.
— Por favor, não chore, meu amor. — diz Victor, enxugando minhas lágrimas com carinho.
— Vai dar tudo certo, Ariel. — diz o pai de Victor, tentando me consolar. — Uma hora, a verdade vai vir à tona. Se você for inocente… ela vai aparecer.
De repente, ouço batidas na porta.
— Sou eu, o Carlos. — diz ele, com a voz abatida, enquanto bate de leve. — Posso entrar?
— Pode entrar! — responde Victor.
Quando Carlos entra, olho para seu rosto.
Ele está abatido…
Mas algo chama minha atenção.
Seu nariz está machucado.
Um arrepio percorre meu corpo.
Foi exatamente ali que eu acertei o Devorador de Íris.
— O seu nariz… — digo, assustado.
— Tive um pequeno acidente. — responde Carlos, tentando se conter. Seus olhos estão cheios de lágrimas. — Senhor… eu vim aqui dizer que vou tirar alguns dias de folga.
— Tudo bem. Tire o tempo que precisar. — diz Victor, preocupado. — Eu sinto muito pela sua perda.
— Obrigado, senhor… — diz Carlos, enxugando as lágrimas. — Eu me sinto culpado… eu devia ter ido com ela.
Ele está destruído.
Como ele poderia ser o Devorador de Íris?
Isso está virando paranoia na minha cabeça.
— Carlos… eu sinto muito pela sua perda. — digo, com a voz baixa.
Carlos me encara.
Seus olhos estão vermelhos.
— Eu sei que você é suspeito. — diz ele. — Mas eu não acredito nisso. Eu confio na sua inocência.
Sinto meu peito apertar.
— Obrigado, Carlos… — respondo, limpando as lágrimas.
Ele faz um leve aceno.
— Com licença… quero ficar ao lado da Clara até o último momento. — diz, abrindo a porta.
Ele sai.
O silêncio toma conta do quarto.
— Não é fácil perder alguém que se ama… — comenta o pai de Victor, pensativo.
De repente, meu celular começa a tocar.
É a minha mãe.
— Oi, mãe… — digo, ao atender.
— Você pode vir me visitar? — diz ela, com a voz trêmula. — Estou me sentindo tão sozinha…
Sinto um aperto no peito.
— Estou indo, mamãe. — respondo, antes de desligar.
Guardo o celular e me levanto.
— Eu preciso ir ver minha mãe… — digo. — Ela não está bem.
Victor resistiu um pouco em me deixar ir. Ele está muito preocupado com a minha segurança, mas acabou cedendo. Afinal, vamos embora em breve… e talvez eu nunca mais veja a minha mãe.
Vou até a casa dela acompanhado pelos seguranças. Quando chego, encontro minha mãe visivelmente abatida.
Ela está sozinha.
Ana não está lá.
Aperto discretamente a bolsa onde guardo a poção de dano.
— Eu estou tão infeliz… — diz minha mãe, pensativa.
— Sinto muito que a senhora esteja passando por isso… — respondo, de cabeça baixa.
— Não é culpa sua, filho. — diz ela, segurando minhas mãos. — Você está sofrendo tanto quanto eu.
De repente…
Ana surge.
— Ainda está com essa cara? — diz ela, friamente, olhando para nossa mãe.
— Não fale assim com a nossa mãe. — digo, firme, levantando-me.
Ela caminha lentamente na minha direção.
— Ou o quê? — pergunta, com um sorriso frio. — Vai me assassinar?
Ela para na minha frente e me encara.
Um arrepio percorre meu corpo.
Aquele olhar…
Cheio de ódio.
Ela é o assassino.
Preciso sair daqui. Agora.
— Mamãe… eu estou indo embora. — digo, tentando manter a calma.
Mas, de repente…
Sinto.
Magia.
— Eu já estou cansada dessa sua cara de sonso. — diz Ana, friamente.
No mesmo instante, meu corpo paralisa.
Tento me mexer…
Mas não consigo.
— Por favor, não faça isso! — implora minha mãe, desesperada.
— Você… — digo, horrorizado.
Sinto meu corpo se mover sozinho.
Contra a minha vontade.
Me aproximo dela.
— Eu o quê? — diz Ana, apertando minhas bochechas com força.
A magia… está vindo dela.
— Você… — tento falar, mas minha voz falha.
— Filha, por favor, pare com isso! — implora minha mãe, chorando.
— Cala a boca! — grita Ana, lançando um olhar furioso para ela.
Meu coração dispara.
— Você é o Devorador de Íris… não é? — consigo dizer, com dificuldade.
Por um instante…
Silêncio.
Então, Ana ri.
Uma risada fria e vazia.
— Devorador de Íris? Eu? — diz ela, zombando. — Depois de hoje… você vai preferir ter se encontrado com ele… e não comigo.
Ela estende a mão.
Meu corpo se eleva no ar.
Meus olhos se arregalam.
Espera…
Esse poder…
Levitar objetos…
Não pode ser…
Um frio intenso percorre minha espinha.
— Não… — sussurro, horrorizado.
Agora eu entendo.
A Ana…
Não é o Devorador de Íris.
Ela é algo pior.
— A reencarnação da Hae-in… — murmuro, em choque.