OS GUERREIROS DA LUZ
Capítulo — O Despertar de Vishnu e o Deus Acima dos Deuses.
O oceano primordial tremia.
No horizonte infinito de Karanodaaka, as estrelas pareciam despertar de um sono de milhões de anos. Galáxias inteiras giravam ao redor de uma luz dourada, enquanto a serpente cósmica Shesha erguia suas inúmeras cabeças.
Então, Vishnu abriu os olhos.
Seus olhos azuis contemplaram a criação, e um sorriso sereno surgiu em seus lábios. O tempo voltou a correr com intensidade renovada. A flor de lótus brotou de seu umbigo, e nela Brahma se preparou para tecer uma nova era.
Mas algo estava errado.
Vishnu sentiu uma presença desconhecida atravessando os limites do cosmos. Uma força que não pertencia aos ciclos de criação, preservação e destruição que ele conhecia.
Ele se levantou sobre Shesha. Em suas quatro mãos, a concha, o disco, a clava e o lótus irradiaram luz.
— Quem ousa alterar o equilíbrio da minha criação? — perguntou.
A resposta não veio em palavras.
Veio como um trovão que atravessou dimensões.
2. O aviso de Zeus
No Monte Olimpo, Zeus observava o horizonte com preocupação. Seus raios, normalmente intensos, pareciam pequenos diante da energia que emanava do despertar de Vishnu.
Superion aproximou-se, acompanhado pela Ceifadora de Atena e por Petrus, o Centurião do Trovão.
— Meu senhor — disse Superion —, sentimos o despertar de uma força colossal. Se esse deus ameaçar a Terra, nós o deteremos.
Zeus bateu o cajado contra o chão.
O estrondo fez as nuvens se abrirem.
— Não! Vocês ainda não compreenderam.
A Ceifadora apertou o cabo de sua arma.
— Ele representa uma ameaça?
Zeus demorou a responder.
— Vishnu não é maligno. Ele acredita estar cumprindo seu propósito. Durante eras, preservou mundos, enfrentou forças destruidoras e manteve o equilíbrio segundo as leis que conhece. Mas ele não conhece toda a verdade.
Petrus ergueu o rosto sob seu elmo romano.
— Então, por que devemos enfrentá-lo?
Zeus olhou para os três guerreiros.
— Porque ele poderá confundir o Criador com mais uma divindade que disputa poder. E, se tentar impor sua ordem sobre tudo o que existe, poderá provocar uma guerra entre os céus.
Superion cruzou os braços.
— Quer que lutemos contra ele?
— Quero que façam algo muito mais difícil do que lutar — respondeu Zeus. — Quero que o convençam de que existe um Deus superior a todos nós. Um Deus que não nasceu, não foi criado e não precisa de um universo para provar sua existência.
O silêncio tomou conta do salão.
— E se Vishnu não aceitar? — perguntou a Ceifadora.
Zeus voltou os olhos para as estrelas.
— Então vocês terão de resistir ao poder de um deus que jamais imaginou precisar se curvar diante de alguém.
3. A chegada dos três guerreiros
Na Terra, a noite cobria uma antiga região montanhosa. O vento soprava entre as rochas quando uma coluna de luz dourada rasgou o céu.
Vishnu desceu diante de um lago cristalino.
A água não se moveu sob seus pés.
As árvores se inclinaram, e criaturas escondidas na floresta fugiram. Não por sentirem maldade, mas porque uma presença imensa havia chegado ao mundo.
Uma voz ecoou atrás dele.
— Vishnu!
O deus se virou.
Superion pousou sobre uma formação rochosa, com sua armadura azul, branca e verde refletindo a luz das estrelas. À sua direita, a Ceifadora de Atena surgiu envolvida por energia celestial. À esquerda, Petrus avançou com raios percorrendo sua armadura e seu elmo romano.
Vishnu observou os três.
— Guerreiros de outra ordem divina. Por que vieram ao meu encontro?
Superion deu um passo à frente.
— Não viemos para tomar seu poder. Nem para destruir aquilo que você representa.
— Então vieram prestar homenagem? — perguntou Vishnu.
— Não — respondeu Petrus. — Viemos falar sobre Aquele que está acima de todos nós.
Pela primeira vez, o sorriso de Vishnu desapareceu.
O disco Sudarshana começou a girar em uma de suas mãos.
— Acima de todos nós?
A temperatura ao redor do lago mudou. As estrelas pareceram se aproximar, e uma pressão invisível obrigou as pedras a estremecerem.
— Eu conheço os ciclos da existência — declarou Vishnu. — Conheço a criação, a preservação e a dissolução. Que ser poderia estar acima daquele que preserva os mundos?
A Ceifadora de Atena ergueu sua arma, mas Superion estendeu o braço para impedi-la de avançar.
— Não transforme esta conversa em batalha — pediu ele.
Vishnu fitou o herói.
— Você me dá ordens?
— Não. Estou lhe oferecendo a oportunidade de ouvir antes de julgar.
4. O poder diante do poder
Vishnu ergueu a mão.
Uma onda de energia azul atravessou o vale.
Superion foi lançado contra uma montanha, abrindo uma enorme fissura na rocha. Petrus fincou sua arma no chão, invocando um trovão que iluminou toda a região. A Ceifadora girou sua arma, criando um escudo de energia que protegeu os três de uma segunda onda.
— Não. Estou lhe oferecendo a oportunidade de ouvir antes de julgar.
4. O poder diante do poder
Vishnu ergueu a mão.
Uma onda de energia azul atravessou o vale.
Superion foi lançado contra uma montanha, abrindo uma enorme fissura na rocha. Petrus fincou sua arma no chão, invocando um trovão que iluminou toda a região. A Ceifadora girou sua arma, criando um escudo de energia que protegeu os três de uma segunda onda.
Superion se levantou, com a armadura danificada.
— Você é poderoso, Vishnu. Ninguém aqui está negando isso.
— Então reconheçam minha autoridade!
— Poder não é o mesmo que supremacia — respondeu Superion. — E preservar a criação não significa ser o autor de tudo o que existe.
Aquelas palavras atingiram Vishnu de uma maneira que nenhuma arma conseguiria.
Ele permaneceu imóvel.
Petrus avançou alguns passos.
— Eu era um centurião romano. Vi homens morrerem em nome de deuses, reis e impérios. Também vi a escuridão cobrir o céu quando Jesus foi crucificado. Naquele momento, compreendi que havia mistérios diante dos quais a força dos homens e dos deuses não significava nada.
Vishnu voltou o olhar para ele.
— Você fala de um homem crucificado?
— Falo daquele que revelou um reino que não depende dos tronos deste mundo — respondeu Petrus. — Aquele diante de quem a morte não teve a palavra final.
O deus azul apertou o disco em sua mão.
— Se esse ser é superior a mim, que venha e demonstre sua autoridade!
O céu escureceu.
A Ceifadora de Atena percebeu que a situação estava prestes a sair do controle.
— Superion, ele não vai nos ouvir!
— Ainda não — respondeu o herói. — Mas não podemos confundir sua incompreensão com maldade.
5. A presença que não precisava descer
Então aconteceu algo que nenhum deles esperava.
Os raios de Petrus cessaram.
A energia da Ceifadora silenciou.
O brilho da armadura de Superion diminuiu, não porque seus poderes tivessem sido roubados, mas porque toda a natureza ao redor pareceu entrar em reverência.
Vishnu olhou para cima.
As estrelas não desapareceram. Elas continuaram onde estavam, mas pareciam pequenas diante de uma presença que não ocupava espaço e, ainda assim, estava além de toda a vastidão.
Uma voz ressoou no coração de cada ser presente.
VISHNU sentiu uma presença muito superior a sua, mas bem cheia de amor, de Paz.
🙏— Antes que houvesse ciclos, Eu Sou. Antes que houvesse mundos, Eu Sou. Nenhum trono Me concedeu autoridade, e nenhuma criação Me deu existência.
Vishnu recuou um passo.
Pela primeira vez desde seu despertar, não encontrou uma resposta imediata.
— Quem fala? — perguntou, e sua voz já não carregava a mesma certeza.
A resposta veio como uma paz impossível de explicar.
🙏— Eu não vim disputar teu trono, Vishnu. Não sou teu rival. O poder que possuis não Me ameaça, e tua grandeza não Me diminui. Tu conheces os ciclos que te foram confiados, mas não confundas tua missão com a totalidade da Minha existência.
Vishnu baixou lentamente a mão que segurava o disco.
Ele não estava sendo atacado.
Não havia uma arma apontada para seu coração.
Não havia uma divindade exigindo submissão por inveja ou ambição.
Havia algo muito maior do que uma disputa pelo poder.
E isso o assustava mais do que qualquer batalha.
6. A escolha de Vishnu.
Superion se aproximou, ainda ferido.
— Agora você compreende por que viemos?
Vishnu olhou para o herói.
— Compreendo que existe algo que desconheço. Mas não compreendo por que os mundos precisariam abandonar tudo aquilo que conheceram durante eras.
A Ceifadora respondeu com serenidade:
— Ninguém lhe pediu que fingisse não ter existido. A verdade não precisa ser defendida por uma guerra. Você pode ouvir, aprender e reconhecer que sua compreensão talvez não seja completa.
Petrus ajoelhou-se diante da presença invisível.
— Não somos nós que devemos vencer esta batalha, Senhor. É a verdade que precisa ser reconhecida.
Vishnu contemplou o oceano distante, as estrelas e a flor de lótus que carregava em uma de suas mãos.
Depois, pela primeira vez, inclinou a cabeça.
— Se existe um Criador acima de todos os deuses, desejo compreender Sua vontade. Não por medo de perder meu poder, mas porque não quero que a preservação dos mundos se transforme em oposição à verdade.
A presença respondeu:
🙏— Então começa tua jornada, Vishnu. Não como conquistador, nem como rival, mas como aquele que aceita aprender. O verdadeiro conhecimento não teme a luz.
A luz dourada envolveu o vale.
E o silêncio retornou.
Vishnu permaneceu contemplando o céu, enquanto Superion, a Ceifadora de Atena e Petrus se entreolharam.
Eles haviam evitado uma guerra cósmica.
Mas Zeus conhecia os perigos daquele despertar. Se Vishnu começasse a questionar as leis que sustentavam sua existência, outras forças antigas também sentiriam a mudança.
Nas profundezas do universo, algo se moveu.
Uma sombra abriu os olhos.
E uma voz, carregada de ódio, sussurrou:
— Se até Vishnu começou a duvidar... chegou a minha hora.
OS GUERREIROS DA LUZ
Epílogo — O Nascimento de Charshnu
O vale ainda brilhava com os últimos vestígios da presença divina.
Superion, a Ceifadora de Atena e Petrus, o Centurião do Trovão, preparavam-se para partir. Vishnu permanecia em silêncio, contemplando as estrelas. Pela primeira vez, compreendia que sua sabedoria, por mais antiga que fosse, não abrangia todos os mistérios da existência.
Mas, quando Superion se virou, a voz do deus azul ecoou pelo vale.
— Esperem!
Os três guerreiros pararam.
Vishnu levantou-se, e suas vestes douradas foram envolvidas por uma aura verde-esmeralda.
— Não confundam minha disposição para aprender com a intenção de permanecer à margem dos acontecimentos. Não serei um mero espectador enquanto o equilíbrio dos mundos estiver ameaçado.
Superion voltou-se para ele.
— O que pretende fazer?
Vishnu abriu as seis mãos que se manifestaram em sua forma cósmica. Entre elas, pequenos cristais luminosos surgiram, girando como estrelas ao redor de um sol. No centro de seu peito, uma flor de lótus começou a irradiar uma luz extraordinária.
— Se existe uma guerra que ameaça todas as criações, então também devo assumir minha responsabilidade. Não como rival do Criador, nem como aquele que deseja tomar o lugar de outro, mas como guardião daquilo que ainda pode ser preservado.
Ele estendeu uma das mãos.
A energia verde-esmeralda desceu sobre o solo, fazendo as pedras flutuarem. Os cristais se multiplicaram, formando um círculo de luz ao redor dos guerreiros. Do centro daquele círculo ergueu-se uma armadura viva, como se tivesse sido cultivada a partir da própria essência do universo.
As placas verdes se encaixaram umas nas outras, revestidas por detalhes dourados. Seis braços poderosos surgiram, cada um envolvido por uma corrente de energia divina. No peito, uma magnífica flor de lótus pulsava como um coração. Cristais de diferentes tamanhos flutuavam ao redor do corpo, formando uma coroa protetora que acompanhava cada movimento.
A armadura não era feita de metal comum.
Ela respirava.
As placas se moviam como escamas vivas, e a luz dentro delas respondia à presença de Vishnu.
O deus aproximou-se da criação e pousou a mão sobre o peito da armadura.
— Concedo a ti uma fração do meu poder. Não a totalidade da minha essência, pois deverás trilhar teu próprio caminho. Receberás a força necessária para enfrentar as trevas, mas tua maior prova será compreender quando lutar e quando preservar.
Os cristais brilharam intensamente.
A armadura abriu os olhos, revelando duas chamas verdes.
Vishnu pronunciou o nome que havia escolhido:
— Charshnu!
O nome ecoou entre as montanhas.
Charshnu ergueu seus seis braços, e uma onda de energia esmeralda percorreu o vale. Por um instante, os cristais ao seu redor revelaram imagens de mundos distantes, civilizações esquecidas e forças antigas que começavam a despertar.
A Ceifadora de Atena observou a figura com espanto.
— Ele é um guerreiro ou uma extensão do próprio Vishnu?
— Será aquilo que escolher se tornar — respondeu o deus. — Dei-lhe poder, mas não determinei seu destino.
Petrus apoiou a mão no cabo de sua arma.
— Então, se nossos caminhos voltarem a se cruzar, lutaremos lado a lado?
Charshnu inclinou a cabeça.
— Enquanto houver inocentes ameaçados e mundos em perigo, estarei presente.
Superion estendeu o braço em sinal de respeito
— Bem-vindo à batalha, Charshnu.
As mãos dos dois guerreiros se encontraram.
Naquele instante, a luz azul de Superion e o brilho verde de Charshnu formaram um feixe que atravessou o céu.
Mas, muito além daquele mundo, outros poderes também se movimentavam.
Enquanto isso... o Conselho dos Deuses Antigos.
Em um lugar além do alcance das estrelas conhecidas, existia um santuário que não pertencia a nenhuma era.
Colunas de pedra negra sustentavam um teto coberto por símbolos de civilizações desaparecidas. Raízes gigantescas atravessavam o chão, enquanto rios de luz corriam pelas paredes. No centro, um trono vazio aguardava aquele que ousasse reivindicar a liderança dos antigos poderes.
Uma luz dourada atravessou o salão.
Ra, o deus solar do Egito, apareceu envolto em chamas. Seu disco solar irradiava uma luminosidade tão intensa que as sombras se esconderam sob as colunas.
Logo atrás dele, Anúbis surgiu em silêncio, com sua cabeça de chacal e sua armadura negra ornamentada em ouro.
— O despertar de Vishnu alterou o equilíbrio — declarou Ra. — E agora até mesmo ele reconhece a existência de uma autoridade que ultrapassa os antigos domínios.
Anúbis observou as sombras no chão.
— Os mortos estão inquietos. Almas antigas falam de uma luz que não pertence a nenhum dos panteões conhecidos. Se essa força alcançar todos os reinos, nenhuma fronteira espiritual permanecerá como antes.
Um ruído profundo atravessou o salão.
Do meio de uma floresta que crescia dentro do próprio santuário, surgiu Cernunnos, o antigo deus celta dos animais, das florestas e da fertilidade. Seus chifres se erguiam como galhos de uma árvore ancestral, e folhas verdes brotavam a cada passo.
— A floresta sente aquilo que os céus ainda não compreendem — disse ele. — As raízes mais profundas estão tremendo. Alguma coisa está mudando o destino de todas as criaturas.
Uma figura feminina apareceu entre véus de luz dourada.
Era Aserá, a antiga deusa associada à maternidade e à fertilidade nas tradições cananeias. Seu olhar era sereno, mas sua expressão revelava uma preocupação profunda.
— Não devemos confundir a existência de um poder superior com o fim de nossa responsabilidade. Mesmo que os antigos ciclos estejam terminando, ainda existem mundos que dependem de nós.
Então, um vento colossal percorreu o salão.
Penas verde-esmeralda e turquesa dançaram no ar. Uma serpente emplumada desceu do alto, envolvida por relâmpagos e nuvens.
Quetzalcóatl havia chegado
— Os povos ainda contam nossas histórias — declarou ele. — Nossos nomes permanecem gravados na memória das civilizações. Mas uma nova força está se aproximando, e não sabemos se ela trará renovação ou o encerramento de nossa era.
Ra ergueu o disco solar.
— Então precisamos descobrir a verdade antes que seja tarde.
Anúbis voltou-se para o trono vazio.
— E se a nova ordem exigir que todos nós desapareçamos?
Cernunnos fincou seu cajado no chão. Raízes se espalharam pelo salão, enquanto uma energia ancestral despertava sob a pedra.
— A natureza não teme a mudança. Mas nenhuma criatura aceita ser apagada sem compreender por quê.
Aserá olhou para os demais.
— Não viemos necessariamente para lutar contra o Criador. Viemos porque precisamos saber qual será nosso lugar diante dessa nova realidade.
Quetzalcóatl abriu suas asas de penas cintilantes.
— Então que o conselho seja formado. Se os Guerreiros da Luz acreditam que podem atravessar todos os reinos sem encontrar resistência, descobrirão que os antigos poderes ainda têm voz.
Ra assentiu.
— Que assim seja. A partir desta noite, nenhum de nós agirá sozinho.
Um a um, os cinco deuses se posicionaram ao redor do trono.
Acima deles, um símbolo ancestral começou a brilhar, reunindo o sol egípcio, os chifres da floresta celta, os símbolos de Aserá e as penas da serpente emplumada.
O conselho estava formado.
Mas, nas profundezas daquele santuário, uma sexta sombra se moveu por um breve instante, escondida de todos os presentes.
Alguém — ou alguma coisa — também estava ouvindo.
E aguardava o momento certo para revelar sua verdadeira face.
FIM POR ENQUANTO
Os Guerreiros da Luz voltarão.
Charshnu nasceu. Os antigos deuses se reuniram. E uma nova era está prestes a começar.
Continua em uma próxima aventura...