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Capitulo 8 - Perto dela eu perdia o Juízo

AllyneMaia

Conteúdo da publicação

— Perto dela, eu perdia o juízo

Eu sempre achei que sabia lidar com as coisas.

Com problemas de carro, eu sabia.

Com motor que não pegava, pneu furado, peça quebrada, cliente apressado… eu sabia.

Com a vida também.

Ou pelo menos gostava de acreditar que sabia.

Mas Clara...

Clara era outra história.

Desde que ela tinha aparecido novamente na minha frente, parecia que alguém tinha pegado toda a lógica que eu conhecia e simplesmente jogado fora.

Primeiro, o acidente.

Depois, a oficina.

Depois, a cachoeira.

E agora, aquela estrada.

Quando vi o carro dela parado no acostamento, não consegui evitar o sorriso.

— Não é possível... — murmurei.

Meu irmão e meus primos começaram a rir.

— O que foi?

Apontei para o carro.

— A Clara.

Eles olharam e imediatamente começaram com as brincadeiras.

— Ah, então é por isso que você está sorrindo desse jeito?

— Cala a boca.

— O destino está trabalhando, hein?

Revirei os olhos, mas não consegui esconder o sorriso.

Porque talvez eles estivessem certos.

Talvez o destino realmente estivesse fazendo alguma coisa.

Quando parei o carro e desci, encontrei Clara ajoelhada perto do pneu, tentando terminar de trocá-lo.

E foi aí que eu percebi o problema.

Ela não era mais a menina que eu tinha conhecido.

Era uma mulher.

Uma mulher forte, independente, dona da própria vida.

Mas havia alguma coisa naquele jeito dela de se concentrar, prender o cabelo e tentar resolver tudo sozinha que me fazia lembrar da garota que corria comigo pela cidade anos atrás.

— Você tem alguma coisa contra carros funcionando direito? — perguntei.

Ela levantou o rosto.

E sorriu.

Pronto.

Meu juízo foi embora.

De novo.

— Pedro...

Só ouvir meu nome na voz dela já era suficiente para bagunçar tudo dentro de mim.

Aproximei-me para ajudá-la.

— Deixa isso comigo.

— Eu consigo.

— Eu sei que consegue.

Olhei para ela.

— Mas deixa eu ajudar mesmo assim.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de entregar a ferramenta.

E naquele pequeno gesto havia alguma coisa que mexeu comigo.

Talvez porque eu tivesse passado anos imaginando como seria estar novamente perto dela.

E agora eu estava.

Tão perto que conseguia sentir o perfume dela.

Tão perto que precisava fazer um esforço enorme para fingir que meu coração não estava disparado.

Quando meus parentes perceberam que tinham uma oportunidade perfeita para nos deixar sozinhos, inventaram alguma desculpa e foram embora.

Eu conhecia aquela turma.

Sabia exatamente o que estavam fazendo.

— Eles estão aprontando — Clara disse.

— Com certeza.

Ela riu.

E eu pensei que poderia passar horas ouvindo aquela risada.

Depois, ela ofereceu carona.

Ela me olhou daquele jeito que fazia eu esquecer o que estava prestes a dizer.

— Brinquei se não fosse ela teria ficado a pé se dependesse dos meus primos

Agradeci

— Não precisa agradecer.

Porque eu faria muito mais por ela.

E essa era justamente a parte que começava a me assustar.


Quando chegamos à casa dela, Clara me convidou para entrar.

Eu deveria ter recusado.

Era o mais sensato.

Mas desde quando eu conseguia ser sensato perto dela?

— Você quer comer alguma coisa? — ela perguntou.

— Eu posso fazer alguma coisa.

— Você sabe cozinhar?

— Algumas coisas.

— Então vou descobrir.

Ela sorriu.

E eu fui para a cozinha.

Enquanto preparava o café, pão de queijo, bolo, pão e ovos mexidos, percebi que estava nervoso.

Eu.

Nervoso.

Por causa de uma mulher que eu conhecia desde a adolescência.

Era quase engraçado.

Mas não era.

Porque eu queria impressioná-la.

Queria que ela gostasse daquele momento.

Queria que ela olhasse para mim e enxergasse mais do que o garoto que um dia não teve coragem de dizer tudo o que sentia.

Quando ela apareceu novamente depois do banho, usando um vestido leve, eu simplesmente parei por alguns segundos.

Ela percebeu.

— O que foi?

Balancei a cabeça.

— Nada.

Mentira.

Era tudo.

Ela estava linda.

Mas não era apenas isso.

Era o jeito como ela estava ali.

Na minha frente.

Naquela casa.

Naquela cidade.

Depois de tantos anos.

Eu tinha passado tanto tempo imaginando como seria reencontrá-la que nunca imaginei que o reencontro pudesse ser tão difícil de suportar.

Porque eu queria me aproximar.

Queria conversar.

Queria descobrir tudo sobre a mulher que ela havia se tornado.

Mas, ao mesmo tempo...

Eu queria beijá-la.

E aquilo estava começando a ocupar espaço demais dentro de mim.


Depois do jantar, fomos lavar a louça.

Ela ficou de um lado da pia e eu do outro.

Era uma situação completamente normal.

Até que nossas mãos se tocaram ao mesmo tempo em um prato.

Nós dois paramos.

Ela olhou para mim.

Eu olhei para ela.

E naquele instante, todos aqueles anos pareceram desaparecer.

Não existia mais a distância.

Não existia mais o tempo.

Só existia Clara.

E eu.

— Você sabe que me deixa sem juízo, não sabe? — falei.

Ela soltou uma risada baixa.

— Eu?

— Você.

— Eu não estou fazendo nada.

— Esse é o problema.

Ela me encarou, curiosa.

Respirei fundo.

Eu poderia brincar.

Mudar de assunto.

Fingir que não estava acontecendo nada.

Mas eu já tinha passado anos demais escondendo o que sentia.

— Desde que eu te vi naquele carro... eu não consigo parar de pensar em você.

Ela ficou quieta.

Continuei.

— Eu penso no que aconteceu. No que poderia ter acontecido. No que pode acontecer agora.

Baixei os olhos por um instante.

— E, principalmente, eu penso em te beijar.

O silêncio que veio depois quase me matou.

Não porque fosse ruim.

Mas porque eu não sabia o que ela estava pensando.

Então fiz questão de dizer:

— Mas eu não quero te pressionar.

Olhei novamente para ela.

— Eu quero que, se acontecer, seja porque você também quer.

Clara se aproximou um pouco.

Meu coração acelerou.

— E se eu também estiver pensando nisso?

A pergunta dela fez meu peito apertar.

Eu sorri, quase sem acreditar.

— Então você não imagina o esforço que eu estou fazendo para continuar parado aqui.

Ela sorriu.

E naquele momento eu tive certeza de uma coisa:

Eu queria aquele beijo mais do que deveria.

Não por pressa.

Não apenas pelo desejo.

Mas porque aquele beijo significaria que, depois de tantos anos, nós finalmente estávamos dando uma chance para aquilo que um dia ficou pelo caminho.

Eu queria saber como seria tocar os lábios dela depois de tudo.

Queria descobrir se o coração dela também aceleraria.

Queria saber se aquele sentimento antigo ainda existia ou se estávamos apenas tentando reencontrar duas pessoas que já não existiam mais.

Mas, acima de tudo, eu queria que fosse escolha dos dois.

Clara me olhou nos olhos.

E então disse, quase num sussurro:

— O que você está esperando?

Por um segundo, eu esqueci completamente como respirar.

Aproximei-me devagar.

Sem pressa.

Deixando que ela tivesse todo o espaço para recuar se quisesse.

Mas ela não recuou.

Pelo contrário.

Ficou ali.

Perto.

Muito perto.

E eu percebi que talvez aquele fosse o momento que eu tinha esperado durante anos sem sequer saber que ainda esperava.

O beijo estava a poucos centímetros de acontecer.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu não queria controlar o que viria depois.

Eu só queria viver aquele instante.

Porque Clara tinha voltado para a minha vida.

E, perto dela...

Eu já não sabia mais onde terminava a razão e começava o desejo de finalmente viver aquilo que um dia eu não tive coragem de viver.

Thoughts

  • malaExtraviada

    Bah, a mesma pergunta da Clara que fechou o capítulo 7 fecha o 8, só que agora pelo lado do Pedro. Duas vezes o beijo a dois dedos e nada, tchê.

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Eu sempre achei que sabia lidar com as coisas.

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