livro (Querida, Sorria!)
Fábio entrou no elevador no exato momento em que Maraíra o fez. Seus olhos se encontraram imediatamente. Ela estava vestida de forma modesta, a antítese da mulher rural que ele deu carona, mas algo em seu olhar ardia como fogo. Ela o encarou por alguns segundos, parecendo tomar coragem para quebrar o silêncio, até que finalmente se aproximou e falou em tom baixo:
— Por favor, por mais absurdo e contraditório que pareça, finja que não me conhece. Tenho assuntos a tratar e nada está fora do meu controle.
Ela sorriu maliciosamente. As portas do elevador se abriram na cobertura e ela saiu, caminhando com a leveza de quem não o conhecia.
Fábio ficou ali parado por um instante, dividido entre sair do elevador ou descer, meio atordoado com o que acabara de acontecer. Ele já tinha ensaiado mentalmente uma desculpa perfeita para encontrá-la ali, planejava dizer que poderia ajudar, que estava ali para ela e por ela. Mas, quando a viu e ouviu o tom de sua voz, as palavras simplesmente sumiram. Em poucas palavras, e de forma intrincada, ela o avisara de que havia orquestrado tudo e não queria interferências.
Ele respirou fundo, aceitando o comando silencioso, e caminhou para sentar-se discretamente no bar do restaurante, um ponto estratégico de onde tinha uma visão clara de Maraíra e do marido.
Fábio observou a postura corporal dela, a dinâmica da mesa e reparou nos detalhes ao redor: os clientes que, na verdade, pareciam repórteres disfarçados, e os seguranças estrategicamente posicionados. Realmente, ela havia planejado um show impecável. Quando Pedro perdeu o controle, pulou sobre a mesa e a pegou pelo pescoço, Fábio trincou o maxilar e teve que se segurar firmemente ao balcão para não avançar e protegê-la com as próprias mãos. Mas, provando que o controle era absoluto dela, logo os seguranças intervieram e retiraram o agressor brutalmente do salão.
Maraíra foi acolhida pelos gerentes do restaurante e por pessoas desconhecidas chocadas com a cena. A polícia apareceu rapidamente. Em questão de minutos, a internet bombou com a notícia. As manchetes gritavam: "Um dos homens mais ricos de São Paulo tenta matar esposa em restaurante". As cenas chocantes de Pedro pulando sobre a mesa e esganando a esposa em público viralizaram. As redes sociais transbordavam de comentários enojados: "Se ele faz isso em público, imagina dentro de quatro paredes!", "Marido não aceita o divórcio e tenta matar esposa em restaurante de luxo".
A noite foi curta para a enxurrada de manchetes e publicações em sites de fofoca. Maraíra já havia feito o boletim de ocorrência e o exame de corpo de delito para comprovar a agressão. Agora, tinha uma medida protetiva e um exército de desconhecidos na internet condenando o ex-marido.
Na manhã seguinte, em seu escritório, Fábio sorria enquanto lia as atualizações em seu tablet.
Apertou o botão do interfone e chamou Arthur. O funcionário entrou rapidamente na sala, mantendo a postura de prontidão.
— Todas as empresas que ainda estão apenas no nome de Pedro... pulverize as ações. Sufoque os fornecedores, corte o crédito e deixe-o sem caixa. Até o final do mês, quero que ele não tenha mais um centavo de capital operando — ordenou Fábio, a voz gélida e impiedosa. — Avise os nossos advogados. Quero que encontrem brechas e criem o máximo de problemas jurídicos para ele.
— Senhor... — hesitou Arthur, engolindo a seco. — Essa mulher, a ruiva... ela é perigosa.
Fábio ergueu os olhos do tablet e o encarou com uma frieza cortante.
— Não te perguntei o que você pensa sobre Maraíra, porque a sua opinião não me interessa. Faça o que mandei. — Ele fez uma pausa, mudando o foco para o próximo passo. — E verifique com os seguranças que a estão protegendo onde ela está agora e a que horas voltará para o bangalô. Faça com que ela precise aceitar uma carona do seu "vizinho".