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Capítulo 3 — A Pequena Alice

Monarca

Conteúdo da publicação

Na manhã seguinte, acordei com o som de alguma coisa batendo no corredor.

Abri os olhos lentamente.

Por alguns segundos, não consegui lembrar onde estava.

O teto desconhecido me fez lembrar.

A casa de Azrael.

Sentei-me na cama e fiquei alguns instantes olhando pela janela.

O céu estava claro.

Pelo menos isso era uma coisa normal.

Depois de me arrumar, saí do quarto.

A casa continuava silenciosa.

Desci as escadas esperando encontrar Azrael, mas não havia ninguém na sala.

— Ele realmente não gosta de receber visitas...

Caminhei até a cozinha.

Foi quando ouvi uma voz.

— Você é a Eriel?

Parei.

A voz havia vindo de trás de mim.

Virei-me.

Uma garota estava parada na entrada da cozinha.

Ela parecia ter aproximadamente quatorze anos.

Era pequena, delicada e tinha cabelos longos e rosados que caíam pelos ombros. Seus olhos eram de um vermelho intenso, mas havia neles uma expressão curiosamente inocente.

Ela vestia uma roupa elegante demais para alguém daquela idade.

Um vestido escuro, cuidadosamente arrumado, com pequenos detalhes que pareciam pertencer a uma família muito rica.

Ela segurava uma pequena boneca contra o peito.

Fiquei olhando para ela.

— Sou eu.

A garota sorriu.

— Então você é a Eriel.

— Sim.

Ela se aproximou alguns passos.

— Eu sou Alice.

— Alice?

Ela assentiu.

— Alice.

Fiquei esperando.

Ela não disse mais nada.

— E... quem é você?

Alice piscou.

— Eu já falei.

— Não. Quero dizer... quem você é?

Ela pareceu pensar na pergunta.

Então respondeu naturalmente:

— Sou irmã do Azrael.

Fiquei em silêncio.

— Irmã?

— A mais nova.

Ela sorriu orgulhosa.

Olhei para ela.

Depois olhei para o corredor.

— Azrael tem uma irmã?

— Tem.

— Ele nunca mencionou você.

Alice inclinou a cabeça.

— Ele não fala muito.

— Percebi.

Ela riu baixinho.

— Você também acha?

— Acho.

Alice se aproximou da mesa e sentou-se em uma cadeira.

Colocou a boneca sobre o colo e começou a ajeitar seus cabelos.

— Você dormiu bem?

— Dormi.

— Não teve sonhos estranhos?

A pergunta me pegou de surpresa.

— Não.

Alice continuou mexendo na boneca.

— Que bom.

— Por que perguntou?

Ela ergueu os olhos.

— Curiosidade.

— Só isso?

— Só.

Fiquei observando-a.

Havia algo nela que era difícil de explicar.

Alice parecia uma criança.

Realmente parecia.

O jeito de mexer na boneca.

A forma como balançava as pernas enquanto estava sentada.

O sorriso.

A curiosidade.

Mas, ao mesmo tempo...

Ela parecia estar me observando.

Não como uma criança observa alguém novo.

Era diferente.

Como se estivesse tentando descobrir alguma coisa sobre mim.

— Você conhece meu irmão? — perguntei.

— Conheço.

— Há quanto tempo?

Alice sorriu.

— Muito tempo.

— Quanto?

— Bastante.

— Isso não é uma resposta.

— Eu sei.

Ela voltou a brincar com a boneca.

Fiquei alguns segundos olhando para ela.

— Você gosta daqui?

— Gosto.

— Não é solitário?

— Às vezes.

— E não sente falta de outras crianças?

Alice parou de mexer na boneca.

Por um instante, sua expressão mudou.

Foi algo extremamente rápido.

— Não preciso de muitas pessoas.

Depois voltou a sorrir.

— Além disso, Azrael está aqui.

— Vocês são próximos?

— Muito.

— Ele parece meio distante.

Alice riu.

— Ele faz isso.

— Isso o quê?

— Finge que não se importa.

Fiquei em silêncio.

Ela disse aquilo de uma maneira tão natural que parecia conhecer Azrael muito bem.

— Ele sempre foi assim?

Alice olhou para mim.

Dessa vez, não respondeu imediatamente.

— Não.

A palavra saiu baixa.

— Como ele era antes?

Ela sorriu.

— Diferente.

— Diferente como?

Alice ficou alguns segundos olhando para a boneca.

Então levantou os olhos novamente.

— Mais triste.

Meu peito apertou levemente.

Não sei por quê.

— E agora?

Ela deu de ombros.

— Agora ele está tentando.

— Tentando o quê?

Alice sorriu.

— Ser feliz.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ouvi passos vindos do corredor.

Alice imediatamente mudou de expressão.

Seu sorriso ficou maior.

Ela pegou a boneca e a apertou contra o peito.

Azrael apareceu na entrada da cozinha.

Os cabelos brancos estavam um pouco bagunçados.

Ele ainda parecia ter acabado de acordar.

Vestia uma camisa branca simples e calças escuras.

Quando viu nós duas, ficou parado.

— Já se conheceram?

Alice levantou a mão.

— Eriel chegou ontem.

— Eu sei.

— Então por que perguntou?

Azrael olhou para ela.

— Porque achei que seria educado perguntar.

Alice estreitou os olhos.

— Você está mentindo.

Azrael sorriu.

— Talvez.

Ela riu.

Eu olhei de um para o outro.

— Vocês realmente são irmãos?

Alice imediatamente respondeu:

— Sim.

Azrael apenas sorriu.

— Somos.

Não havia hesitação na resposta.

Aquilo deveria ter encerrado minha dúvida.

Mas não encerrou.

Alice parecia jovem demais.

Azrael também parecia jovem demais.

E ainda assim havia algo naquela relação que não conseguia entender.

Azrael pegou uma xícara e começou a preparar café.

Alice observava tudo.

— Eriel vai ficar conosco?

— Por enquanto.

— Por quanto tempo?

Azrael olhou para mim.

— Ainda não sabemos.

Alice sorriu.

— Então ela vai ficar bastante.

— Como sabe?

Ela deu de ombros.

— Eu sei.

Azrael parou por um instante.

Olhou para ela.

Alice percebeu.

— O quê?

— Nada.

Ele voltou ao café.

Fiquei olhando para Alice.

Ela continuava sorrindo.

Mas, por algum motivo, aquela resposta não saiu da minha cabeça.


Passei boa parte da manhã conhecendo a casa.

Alice me acompanhou durante quase todo o tempo.

Ela parecia conhecer cada corredor, cada sala e até os pequenos detalhes da decoração.

Sabia onde ficavam os livros.

Sabia quais portas não deveriam ser abertas.

Sabia quais plantas da estufa eram venenosas.

E sabia coisas sobre Azrael que nem ele parecia disposto a contar.

Mas sempre que eu perguntava como ela sabia de alguma coisa, a resposta era a mesma.

— Azrael me contou.

Ou:

— Eu descobri.

Ou simplesmente:

— Não sei.

Era quase irritante.

Em determinado momento, paramos diante de uma pintura antiga.

Havia um homem retratado nela.

A pintura parecia ter décadas.

Talvez mais.

Olhei para o rosto da pessoa.

— Quem é ele?

Alice ficou ao meu lado.

— Ninguém importante.

— Você conhece?

— Conheço.

Olhei para ela.

— Como?

Ela percebeu o que havia dito.

Por um segundo, seus olhos ficaram sérios.

Então apontou para a pintura.

— Está escrito atrás.

Olhei novamente.

Não havia nada escrito.

Quando voltei o rosto para ela, Alice estava sorrindo.

— Você é estranha.

Ela abriu um sorriso enorme.

— Obrigada!

Não consegui evitar uma risada.

Talvez eu estivesse imaginando coisas.

Talvez Alice fosse apenas uma garota extremamente inteligente.

Talvez.


No final da tarde, resolvi voltar para a sala.

Foi quando ouvi pequenos passos correndo pelo corredor.

Olhei para trás.

Alice apareceu carregando uma quantidade absurda de doces.

Havia chocolates, balas, biscoitos e pequenos pacotes coloridos empilhados em seus braços.

Ela mal conseguia enxergar por cima deles.

— Alice...

Ela continuou andando.

— Não olha!

— Você vai derrubar tudo.

— Não vou.

— Vai sim.

— Não vou.

Nesse exato momento, um dos doces caiu.

Alice parou.

Olhou para o chão.

Depois olhou para os doces em seus braços.

Claramente estava tendo dificuldade para carregar tudo.

Aproximei-me.

— Quer ajuda?

Ela imediatamente apertou os braços ao redor dos doces.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ela tentou pegar o doce caído sem deixar os outros caírem.

Não conseguiu.

O pacote escorregou um pouco.

Ela fez uma careta.

— Eu consigo.

— Alice.

— Eu consigo.

Esperei.

Ela tentou novamente.

Dessa vez, quase derrubou metade dos doces.

Suspirou.

Seu rosto ficou levemente emburrado.

— ...Talvez.

Sorri.

— Talvez o quê?

Alice olhou para mim.

Por alguns segundos, pareceu desconfiada.

Então estendeu cuidadosamente alguns dos doces em minha direção.

— Pode carregar esses.

Peguei.

— Assim?

Ela assentiu.

— Mas não come.

— Eu não ia comer.

— Eu não confio em você ainda.

— Você acabou de me conhecer.

— Exatamente.

Ela começou a andar novamente.

Dessa vez, com muito mais facilidade.

Caminhei ao lado dela.

Por alguns segundos, nenhuma de nós disse nada.

Então Alice olhou para mim.

— Eriel?

— Sim?

Ela sorriu.

— Acho que vou gostar de você.

Eu ri.

— Acho que ainda não decidi se gosto de você.

Alice fez uma expressão ofendida.

— Que cruel.

— Você acabou de dizer que não confiava em mim.

— É diferente.

— Como?

Ela pensou.

— Porque eu posso não confiar em você e ainda gostar de você.

Olhei para ela.

— Isso não faz sentido.

Alice sorriu.

— Para mim faz.

E continuou caminhando pelo corredor, carregando seus doces.

Eu a acompanhei.

Sem perceber que, naquele momento, acabava de conhecer uma das pessoas mais estranhas que passariam pela minha vida.


Thoughts

  • luluca

    Primeiro o Azrael com aquela idade confortável, agora a Alice que conhece o irmão há muito tempo. Tô achando que nessa casa ninguém tem a idade que aparenta. Ela sabe até quais portas não se abrem, e meu palpite é que o homem da pintura antiga ela conheceu em pessoa.

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