Cerimônia das chamas (4)
Parado diante da imensidão de um campo aberto, o garoto Daemon observava sob aquela noite de silêncio, refletindo sobre a sua própria natureza.
‘A base do tao demoníaco é o desejo e o instinto. A essência do desejo se torna obsessão, que planta a semente cultivada em nossos corações. Esta é a semente, a base do tao dos Daemons, florescendo em sua totalidade o resultado final que almejamos: o demônio. Conheça o demônio, conheça a si mesmo, tornando-se o demônio; controle-o com o seu mais profundo desejo, domine-o e, então, poderá chegar à harmonia com o tao demoníaco!’
— Mas, no fim, esta se encontra no resultado inerente que me guia neste instante, minha maldição. Eu conheço o eu, e sei que não poderei continuar trilhando meu tao se não desfazer o nó que são vocês.
Escondendo seu sorriso cínico abaixo do saque do seu sabre, partiu o silêncio com o ecoar da lâmina sendo desembainhada sob a noite silenciosa.
Observando acima, pisando no vazio, Chernobog deixou nas mãos do jovem a execução da sentença, resumindo-se ao papel de restringir, não permitindo à alma viva escapar.
Avançando à frente da única casa em meio àquele campo, parando diante da porta da casa a qual lhe desperta memórias — fluindo limpa e transparente —, por aquele momento o menino travou, hesitando por um instante, mas logo as águas daquela correnteza limpa e transparente se mancharam, tornando-se sujas e escuras, lhe trazendo o sentimento que reacendeu sua determinação. Abrindo lentamente a porta de madeira, o rangido propagou-se pela casa, penetrando o ouvido da família agarrada, agonizando de horror diante de sua presença hostil.
Cruzando o limiar da porta, nem uma única palavra foi dita. A passos pesados, o rosto rígido e ausente de emoções exibia apenas um único sorriso cínico.
Agarrando a barra das calças de sua mãe, a pequena Daemon de aproximadamente cinco anos tentava se esconder, tremendo de medo e soluçando. Atrás da mãe da família, o homem da casa também se escondia.
Observando essa cena, o garoto pálido alargou ainda mais seu sorriso cínico, afundando ainda mais a hostilidade em seu olhar. A dez passos da família, ele encurtava a distância, trazendo uma sombra tenebrosa e uma angústia que agarrava o coração da família.
Os olhares direcionados ao invasor diferem, mas o medo é o sentimento presente em todos.
— Es-espe-espere! Nós ainda so…
Tomando a frente para tentar apaziguar, a mãe mal pôde terminar suas palavras antes de sentir o sangue da mulher lavar o assoalho da sala.
Em uma única noite, esta pequena criança testemunhou sua mãe ser cortada verticalmente. Sob uma respiração descompassada, Lúcia assistiu impotente; tomada pelo choque e encolhida, viu a cabeça do pai voar enquanto ele ainda tentava implorar, olhando horrorizada a cabeça do pai, com o temor marcado vividamente em sua face.
Parado, sob um olhar distante e indiferente, seus olhos rubros brilharam ao se encontrar com o olhar aterrorizado de Lúcia. Suspirando pesadamente, caminhou lentamente até ela; a lâmina em sua mão gotejava, deixando um rastro de sangue para trás. Guardando seu sabre, o rapaz se ajoelhou diante dela e, por um instante, o brilho frio em seu olhar se desfez, vacilando. Moveu os lábios, mas os fechou abruptamente, incapaz de pronunciar qualquer palavra, retirando-se para fora.
Caída entre o sangue de seus pais, Lúcia olhava os corpos frios em choque, incapaz de processar aquela cena horrenda, finalmente irrompendo em um grito preenchido de dor que esvaziou seus pulmões por completo. Tentando se erguer para avançar contra o monstro à sua frente, apenas pôde cair com o fraquejar de suas pernas devido ao colapso emocional.
Avançando para fora, o menino pálido pôde finalmente proferir palavras: — Por que tinha que estar acordado? Por quê?
Caminhando a passos de sangue, o garoto parou diante do antigo ancião, Chernobog, olhando para ele sob um semblante sombrio e distante.
— Você sente o alívio que a sua alma tanto clamou?
— … Não sinto alívio. Sinto que o nó que me prendia foi desfeito, uma estranha sensação de que… não importa, eu apenas decidi avançar.
— Mas, ainda assim, suas ações, considerou se eram boas ou ruins ao seu julgamento interno?
Parando em meio a seus próprios pensamentos, o garoto suspirou olhando para cima, observando aquela noite iluminada pela lua cheia, sorrindo ao encontro de sua resposta.
— Humph! De boas intenções, o inferno está cheio!