Capítulo 1 — O acaso escolheu a estrada
Contado por Clara
Mais um dia querendo fugir da minha rotina caótica.
Aos 32 anos, eu havia aprendido a administrar uma empresa, tomar decisões importantes, resolver problemas que pareciam não ter solução e manter a calma mesmo quando tudo ao meu redor ameaçava desmoronar.
Mas havia dias em que até eu, tão decidida, tão acostumada a dar conta de tudo, sentia vontade de largar o celular em cima da mesa e simplesmente desaparecer por alguns dias.
Aquele era um desses dias.
— Clara, você viu os documentos da nova filial? — Helena perguntou, entrando na sala com uma pasta nas mãos.
Minha irmã tinha aquele jeito tranquilo de quem parecia conseguir organizar o mundo sem precisar levantar a voz. Talvez por isso nós funcionássemos tão bem juntas.
Enquanto ela cuidava da produção, dos fornecedores e de tudo o que fazia nossa rede de confeitaria continuar crescendo, eu ficava responsável pela parte burocrática. Contratos, funcionários, documentos, decisões, planilhas e uma infinidade de papéis que pareciam se multiplicar justamente quando eu mais precisava de descanso.
E naquele dia, estávamos inaugurando mais uma filial.
Mais uma conquista.
Mais uma comemoração.
Mais uma razão para eu sorrir diante das pessoas enquanto, por dentro, só conseguia pensar em uma cama, silêncio e quinze dias sem ouvir a palavra urgente.
— Vi sim. Está tudo certo — respondi, sem tirar os olhos do computador.
Helena me observou por alguns segundos.
— Você está com uma cara péssima.
Levantei os olhos.
— Nossa, obrigada. É exatamente o tipo de incentivo que uma mulher precisa ouvir depois de uma semana dessas.
Ela riu.
— Você sabe o que eu quis dizer.
Eu sabia.
Helena conhecia minhas expressões, meus silêncios e até o jeito como eu mexia os dedos quando estava nervosa. Era difícil esconder alguma coisa dela.
— Eu preciso de férias — anunciei, fechando a pasta que estava sobre a mesa. — Férias de verdade. Não aquelas em que eu viajo e continuo resolvendo problemas pelo telefone.
— Finalmente você admitiu.
— Estou falando sério, Helena. Mais uns dias assim e eu vou começar a atender fornecedor no meio da madrugada.
— Você já atende.
— Então vou começar a discutir com eles.
Ela soltou uma gargalhada.
E, pela primeira vez naquele dia, eu ri de verdade.
A inauguração terminou com aplausos, fotografias, abraços e aquele cheiro maravilhoso de confeitaria que parecia acompanhar cada uma das nossas conquistas.
Eu deveria estar feliz.
E estava.
Afinal, aquela empresa era fruto de muito trabalho. Minha e de Helena. Cada loja representava noites mal dormidas, decisões difíceis e uma quantidade absurda de café.
Mas, quando finalmente entrei no carro, tudo o que consegui pensar foi:
Eu preciso ir embora.
Não fugir da minha vida.
Apenas me afastar dela por alguns dias.
Quando cheguei em casa, Helena ainda estava acordada.
— Então? — perguntou, enquanto eu deixava a bolsa sobre o sofá.
— Vou para Jaguariaíva.
Ela sorriu como se já esperasse por aquilo.
— Para a casa de campo?
— Quinze dias. Talvez mais, se eu conseguir esquecer que tenho um celular.
— Você consegue.
— Helena, eu sou sócia de uma empresa. Não uma pessoa normal.
— Por isso mesmo. Vá descansar.
Sentei ao lado dela.
— Se precisar de alguma coisa, me liga.
— Clara...
— O quê?
— Você precisa parar de achar que tudo depende de você.
Fiquei em silêncio.
Ela tinha razão. E talvez fosse justamente isso que mais me incomodava.
Eu sabia administrar uma empresa. Sabia resolver problemas. Sabia tomar decisões.
Mas ainda estava aprendendo a cuidar de mim.
— Eu vou tentar — respondi.
Helena sorriu.
— Não tenta. Vai.
Arrumei uma pequena mala, coloquei algumas roupas confortáveis, meu nécessaire e o carregador do celular.
Olhei para o relógio.
23h03.
Qualquer pessoa sensata teria esperado até a manhã seguinte.
Eu, aparentemente, tinha decidido que o descanso começaria naquela noite.
Peguei a chave do carro.
Antes de sair, olhei uma última vez para a sala organizada, para a bolsa jogada no sofá e para o celular que insistia em vibrar sobre a mesa.
Uma mensagem.
Depois outra.
Suspirei.
— Hoje não.
Desliguei o aparelho.
E saí.
A estrada estava tranquila.
As luzes da cidade ficaram para trás aos poucos, e o movimento foi diminuindo até que restaram apenas o asfalto, a escuridão e o som baixo do rádio.
Eu gostava daquela sensação.
A de estar indo para algum lugar sem precisar responder a ninguém.
Sem reuniões.
Sem planilhas.
Sem decisões.
Apenas eu e Deus.
Enquanto dirigia, comecei a pensar na minha vida.
Financeiramente, estávamos vivendo nossa melhor fase. A empresa crescia, Helena estava feliz com a produção, eu havia acabado de me formar em Administração de Empresas e, olhando de fora, parecia que tudo estava exatamente onde deveria estar.
Eu tinha conquistado coisas que um dia pareciam distantes.
Tinha liberdade.
Tinha conforto.
Tinha uma família que amava.
Tinha sonhos.
Mas, naquela noite, percebi que existia uma parte de mim que eu vinha deixando para depois.
A minha vida sentimental.
Sorri sozinha.
— É claro que tinha que ser isso...
Sempre fui decidida em quase tudo.
Quando queria alguma coisa, eu ia atrás.
Quando precisava tomar uma decisão, tomava.
Mas, quando o assunto era amor, parecia que toda aquela segurança desaparecia.
Talvez eu escolhesse demais.
Talvez esperasse demais.
Talvez estivesse procurando alguém que estivesse à minha altura, alguém com a mesma ambição, a mesma estabilidade, os mesmos planos.
E, no fim, acabava decepcionada.
Não porque faltassem pessoas interessantes.
Mas porque, de alguma maneira, ninguém conseguia permanecer.
Ou talvez eu não soubesse deixar ninguém chegar perto o suficiente.
Pensei em casamento.
Em uma casa com barulho de crianças.
Em viagens a dois.
Em alguém que perguntasse como havia sido meu dia e realmente quisesse ouvir a resposta.
Alguém com quem eu pudesse dividir as coisas simples.
Um café.
Um domingo.
Uma conversa sem pressa.
Não precisava ser perfeito.
Só precisava ser verdadeiro.
— Será que é pedir demais? — murmurei.
A música continuava tocando.
A estrada seguia silenciosa.
E eu, pela primeira vez em muito tempo, me permiti imaginar como seria ter alguém esperando por mim.
Foi quando tudo aconteceu.
Um instante.
Um descuido.
Um pensamento que se perdeu no meio de tantos outros.
O carro da minha frente reduziu a velocidade.
Eu pisei no freio.
Mas não foi suficiente.
O impacto veio de repente.
Um barulho seco.
Meu coração disparou.
— Meu Deus!
Segurei o volante com força e encostei o carro assim que consegui.
Por alguns segundos, fiquei imóvel.
O silêncio que veio depois parecia ainda maior do que o da estrada.
Respirei fundo.
Olhei para as minhas mãos.
Estavam tremendo.
— Calma, Clara. Calma.
Saí do carro.
O outro veículo estava parado alguns metros à frente. As luzes traseiras ainda estavam acesas, iluminando parte do asfalto.
Meu primeiro pensamento foi verificar se alguém havia se machucado.
Aproximei-me.
— Moço? Está tudo bem?
A porta do motorista se abriu.
E então ele saiu.
Primeiro, vi a silhueta.
Depois, o rosto.
E o mundo pareceu parar.
Não sei explicar o que aconteceu comigo naquele instante.
Foi como se todos os anos que haviam passado tivessem desaparecido de repente.
Como se a estrada tivesse deixado de existir.
Como se eu tivesse voltado para um tempo que eu acreditava estar enterrado em alguma parte da minha memória.
Ele me olhou.
Eu o olhei.
E, por alguns segundos, nenhum de nós conseguiu dizer nada.
Não.
Não podia ser.
Eu conhecia aquele rosto.
Aquele olhar.
Aquela maneira de ficar parado, como se também estivesse tentando entender o que estava acontecendo.
Meu coração começou a bater tão forte que eu mal conseguia ouvir o barulho dos carros ao longe.
— Pedro?
O nome saiu da minha boca quase sem voz.
Ele piscou.
E então eu vi.
O reconhecimento.
A surpresa.
E algo mais que não consegui identificar.
— Clara?
Aquela voz.
Meu Deus.
Aquela voz.
Por um instante, tive a sensação de que estava novamente diante do garoto por quem havia sido apaixonada tantos anos atrás.
Mas não.
O homem à minha frente não era mais aquele menino.
Ele estava diferente.
Mais velho.
Mais sério.
Mais... homem.
E, ainda assim, havia alguma coisa nele que eu reconheceria em qualquer lugar.
Uma coisa que o tempo não tinha conseguido apagar.
— É você mesmo? — perguntei, quase sorrindo de nervoso.
Ele passou a mão pelos cabelos e olhou para o meu carro.
Depois voltou a me encarar.
— Eu não acredito nisso.
Eu também não.
Durante tanto tempo, imaginei como seria reencontrá-lo.
Em algum lugar inesperado.
Em uma cidade qualquer.
Talvez em uma viagem.
Talvez por acaso.
Mas nunca imaginei que seria assim.
No meio da estrada.
Às onze e poucos da noite.
Depois de uma batida de carro.
E muito menos quando eu estava tentando fugir da minha própria rotina.
— Você está bem? — ele perguntou.
Assenti.
— Estou. E você?
— Também.
Ficamos em silêncio outra vez.
Eu queria perguntar tantas coisas.
Onde ele morava.
O que havia feito da vida.
Se estava feliz.
Se havia se casado.
Se tinha filhos.
Se alguma vez havia pensado em mim.
Mas nenhuma pergunta saiu.
Porque, naquele momento, eu ainda estava tentando compreender como alguém que havia sido tão importante no meu passado podia estar ali, tão perto, depois de tantos anos.
Pedro se aproximou um pouco.
— Clara... quanto tempo.
Sorri, sem saber o que fazer com as mãos.
— Muito tempo.
Ele olhou para mim de um jeito diferente.
Como se também estivesse procurando, no meu rosto, a menina que conheceu um dia.
E eu me perguntei se ele ainda conseguia enxergar alguma coisa daquela Clara.
Ou se, para ele, eu era apenas uma lembrança distante.
Uma história que havia ficado para trás.
Depois de verificarmos os carros e conversarmos sobre o acidente, descobrimos que ninguém havia se machucado.
O problema era apenas o estrago nos veículos.
Mas, para mim, alguma coisa muito maior havia acabado de acontecer.
Eu reencontrara Pedro.
O garoto que um dia ocupou tantos pensamentos meus.
O garoto que eu amei em silêncio.
O garoto que, por muito tempo, imaginei que poderia fazer parte da minha vida.
E agora ele estava ali.
Diante de mim.
Um homem de 33 anos.
Com uma história que eu desconhecia.
Com uma vida que eu não fazia ideia de como havia sido construída.
— Você está indo para Jaguariaíva? — ele perguntou, olhando para a direção da estrada.
Assenti.
— Para a casa de campo. Vou passar uns dias lá.
Ele sorriu de leve.
— Ainda gosta de fugir para o interior?
Ri.
— Ainda.
— Algumas coisas não mudam.
A frase me atingiu de um jeito estranho.
Porque eu sabia que muitas coisas haviam mudado.
Eu havia mudado.
Ele também.
E, apesar de tudo, ali estávamos nós.
Como se a vida tivesse decidido nos colocar frente a frente para descobrir o que ainda existia daquela história.
Pedro olhou para o relógio.
Depois para a estrada.
— Você vai sozinha?
— Vou.
Ele hesitou.
— Quer que eu te acompanhe até a cidade?
Olhei para ele.
Meu coração deu um salto que eu tentei esconder.
— Não precisa. Eu estou bem.
— Eu sei. Mas está tarde.
Havia alguma coisa na maneira como ele falou aquilo.
Um cuidado.
Uma gentileza.
Ou talvez eu estivesse enxergando demais.
Depois de tantos anos, eu já não sabia distinguir o que estava acontecendo de verdade daquilo que minha memória insistia em trazer de volta.
— Tudo bem — respondi.
Ele sorriu.
E foi nesse momento que percebi que talvez aquela noite não terminasse na estrada.
Talvez aquele encontro não fosse apenas uma coincidência.
Talvez a vida tivesse guardado alguma coisa para nós.
Ou talvez eu estivesse prestes a descobrir que certas histórias nunca terminam completamente.
Apenas esperam o momento certo para voltar.
Quando finalmente entrei novamente no meu carro, minhas mãos já não tremiam.
Mas meu coração continuava acelerado.
Olhei pelo retrovisor.
Pedro estava parado ao lado do próprio veículo, observando enquanto eu me preparava para seguir viagem.
Por um instante, nossos olhos se encontraram através do espelho.
E eu senti aquela antiga sensação.
Aquela que eu pensei ter esquecido.
Aquela que, durante tantos anos, eu havia tentado deixar no passado.
Sorri sem perceber.
Então liguei o carro.
A estrada continuava à minha frente.
A casa de campo me esperava.
Mas agora havia algo diferente.
Uma pergunta que não parava de ecoar dentro de mim:
Por que, depois de tantos anos, justo hoje?
E, enquanto eu seguia pela estrada escura, sem saber o que aquela noite ainda me reservava, uma coisa eu tinha certeza:
Pedro havia voltado para a minha vida.
Eu só não sabia ainda o que ele pretendia fazer com o meu coração.