Sábado, 18 de maio de 2024
O soldado vai se aproximando lentamente, e meu corpo inteiro se arrepia com a energia densa que vem dele.
Era uma energia pesada.
Sombria.
Sufocante.
- Sebastião... - sussurro horrorizada. - Ele está aqui.
Sebastião não responde.
Olho rapidamente para ele... e percebo que está dormindo.
Viro o rosto para Evelyn e Ariel.
Os dois também estavam dormindo.
Meu coração dispara ainda mais quando percebo que todas as pessoas dentro da sala de cinema estavam adormecidas, imóveis em seus lugares, como se o tempo tivesse parado.
- Ninguém vai poder te ajudar agora, minha doce irmãzinha. - diz o soldado enquanto aproxima o rosto do meu.
- Irmã...? - pergunto, intrigada e assustada ao mesmo tempo.
- Você é a reencarnação do meu irmão. - diz o soldado com convicção. - Então, tecnicamente... você é minha irmã.
Sinto um arrepio violento percorrer minha espinha.
- Por que você quer me matar? - pergunto horrorizada. - O que foi que eu te fiz para merecer essa maldição?
O soldado abre um pequeno sorriso frio.
Então pega delicadamente a minha única mecha de cabelo preto entre os dedos.
- Engano seu, querida irmãzinha. - diz ele em voz baixa. - Não fui eu quem lançou essa maldição em você.
- Então me diga quem me amaldiçoou! - digo com a voz trêmula.
- Não há necessidade de você saber. - responde ele friamente. - Afinal... você vai morrer em breve.
- E, finalmente, a nossa dívida será paga. - acrescenta.
Não consigo dizer nada.
Apenas fico paralisada, horrorizada com aquelas palavras.
O soldado então dá um passo para trás.
- Agora acorde. - diz ele com um leve sorriso. - Vá aproveitar o tempo que ainda resta ao lado da sua família.
Ele faz uma pequena pausa antes de continuar:
- Até o dia do seu aniversário.
Então ergue lentamente a mão.
E estala os dedos.
Abro os olhos e percebo que estava adormecida com a cabeça encostada no ombro do Sebastião.
- Acordou, dorminhoca. - brinca Sebastião com um sorriso.
- Nem percebi que dormi. - digo ainda com a voz sonolenta.
Depois do filme, a gente foi para o fliperama jogar. Resolvi não contar nada sobre o sonho que tive. Era melhor não preocupar o Sebastião com aquilo hoje.
O lugar estava cheio de luzes coloridas, músicas animadas e o som constante das máquinas funcionando.
Nathan e Augusto estavam lá e logo vieram até nós. Eles claramente não ficaram muito felizes ao ver Sebastião com a gente.
- Trocou de grupo agora? - pergunta Nathan, indignado. - Já pode se tornar membro oficial dos GLS.
- A gente te chamou para sair hoje, e você disse que estaria ocupado. - diz Augusto, incrédulo.
- Mas eu estou. - responde Sebastião com convicção. - Estou em um encontro com a minha namorada.
- Você mudou muito, mano. - diz Nathan, encarando Sebastião. - Você não é mais o Sebastião de antes.
- Ainda bem, né? - rebate Evelyn, revirando os olhos. - Porque o Sebastião de antes era um idiota igual a vocês.
- E você, Ariel? - pergunta Nathan enquanto olha para ele. - Vai aceitar numa boa a sua amiga namorar o seu crush?
- Eu já superei o Sebastião. - responde Ariel firmemente. - E não me importo com ele namorando a Dani.
- Vocês dois, parem com isso. - diz Sebastião enquanto encara Nathan e Augusto. - Outro dia eu marco de sair com vocês.
- Acho melhor não. - responde Nathan com firmeza. - A gente não sente mais que você faz parte da Trindade de Ouro.
- Bora jogar em outro lugar. - diz Augusto, passando o braço pelos ombros de Nathan.
- Vamos. - concorda Nathan antes de ir embora.
Observo os dois se afastando enquanto Sebastião apenas suspira.
- Parece que fui oficialmente expulso da Trindade de Ouro. - diz ele com um leve sorriso.
- E faz muito bem em não sair mais com esses valentões. - comenta Evelyn, cruzando os braços. - Devia era se sentir aliviado.
- Agora o Sebastião é membro dos GLS. - digo enquanto passo os braços pelos ombros dele. - Você virou simpatizante, igual a mim.
- Prometo que serei um ótimo simpatizante. - responde Sebastião fazendo uma rápida reverência. - Vou apoiar a causa com orgulho.
Ariel e Evelyn começam a rir imediatamente.
Por alguns momentos, consegui esquecer o sonho que tive.
Consegui esquecer o soldado.
Mas, no fundo, aquela sensação estranha ainda continuava dentro de mim.
Depois de passarmos a tarde inteira jogando, Sebastião me levou para casa. Antes de eu entrar, ficamos alguns instantes parados em frente ao portão.
- Obrigada. - digo com um sorriso. - Eu me diverti muito hoje.
- Você merece, meu amor. - diz Sebastião com a voz doce. - Vou fazer até o impossível para tornar os seus dias cada vez mais felizes.
- Amor... - começo a dizer, pensativa. - Eu vi o soldado.
- O quê?! - diz Sebastião, chocado. - Onde?
- No cinema. Ele apareceu no meu sonho no instante em que eu dormi. - digo, ainda assustada. - Fiquei com medo, porque antes ele só aparecia no dia do meu aniversário.
- Dessa vez ele apareceu nitidamente. Foi a primeira vez que consegui ver o rosto dele perfeitamente. - acrescento.
- Eu andei pesquisando sobre pessoas que poderiam ajudar a acabar com a sua maldição. - diz Sebastião enquanto segura minhas mãos. - E a senhora Celeste Montenegro foi a recomendação mais forte que encontrei.
- Minha mãe também mandou eu procurar essa mulher. - digo ao me lembrar. - Nós estávamos indo vê-la... mas acabamos sofrendo aquele acidente no caminho.
- Eu marquei uma consulta com ela amanhã à tarde. - diz Sebastião, com esperança na voz. - Ela mora no interior, mas não é tão longe daqui.
- Amor... eu tenho medo de passar por aquela estrada de novo. - digo com a voz trêmula. - E se o acidente que matou minha mãe não tiver sido um acidente?
- Calma, amor. - diz Sebastião enquanto me abraça. - Vai dar tudo certo.
Depois de conversar bastante com o Sebastião, entrei em casa. Amanhã iremos visitar a senhora Celeste. Ainda me sinto receosa de passar por aquela estrada outra vez, mas preciso ser corajosa. Preciso encontrar um jeito de quebrar essa maldição.
Assim que entro, me deparo com as três na sala.
Mas havia algo estranho.
Eu não conseguia ver nem sentir a presença da Bárbara.
- Que estranho... - digo desconfiada enquanto caminho pela sala. - A energia da casa está leve.
- O espírito da Bárbara foi embora. - diz Beatrice, aliviada. - Ela parou de me atormentar.
- Acho melhor não comemorar antes da hora. - digo com convicção. - A Bárbara disse que iria perseguir você até confessar o que fez.
- A minha filha não fez nada de errado! - diz minha madrasta, já irritada. - Por favor, pare de falar besteira.
Fico em silêncio por alguns segundos.
Não.
Aquilo definitivamente não parecia o fim.
Bárbara provavelmente só resolveu dar um tempo.
Mas eu tinha certeza de uma coisa:
Ela voltaria.
E quando voltasse, seria ainda pior.
Porque a alma dela não descansaria até que Beatrice confessasse o que fez.
Domingo, 19 de maio de 2024
É de manhã, e acabei de acordar. O clima da casa está leve, sem nenhum sinal da energia pesada da Bárbara.
Depois de tomar banho e me arrumar, abro a porta do quarto para ir tomar café.
Mas, assim que abro a porta, dou de cara com Beatrice parada bem na minha frente.
- AAAAGH! - dou um grito assustada ao vê-la ali.
- Te assustei, princesa? - pergunta Beatrice em tom de deboche.
- O que você está fazendo aqui? - pergunto desconfiada.
- Só estava de passagem. - responde Beatrice com um olhar estranho. Um olhar... diferente do normal.
Franzo a testa.
- Você está estranha. - digo desconfiada.
- Engano seu. Eu estou perfeitamente bem. - diz ela com um sorriso sem mostrar os dentes. - Por que acha que estou diferente? Por acaso pareço outra pessoa?
Sinto um arrepio subir pela minha espinha.
- Pensei que você estivesse com remorso pelo que fez com a Bárbara. - digo incrédula. - Mas está agindo como se nada tivesse acontecido.
- E por que está me julgando? - questiona Beatrice enquanto me encara fixamente. - Assim como eu... você também já matou alguém.
- Do que você está falando? - pergunto confusa.
- Eu sei do seu segredinho sujo. - diz Beatrice friamente. - Você matou o seu pobre irmãozinho na sua vida passada.
Sinto meu corpo gelar completamente.
- Então não me julgue. - continua ela com um sorriso perturbador. - Porque você tem uma alma tão podre quanto a minha.
Fico horrorizada com aquelas palavras.
Mas uma pergunta começa a martelar na minha cabeça.
Como ela sabe disso?
Será que Beatrice também começou a sonhar com o soldado?
Passei a manhã inteira pensando no que a Beatrice me disse.
Agora já é de tarde, e estou no jardim esperando o Sebastião vir me buscar. Meu pai está flutuando sobre o muro quando, de repente, avista o carro se aproximando pela rua.
- Filha, o seu namorado está vindo. - diz meu pai sem tirar os olhos da estrada.
Respiro fundo.
- Me desejem sorte. - digo, tentando parecer confiante.
- Filha, faça uma boa viagem. - diz minha mãe com um sorriso carinhoso.
- Tomara que você consiga encontrar uma solução para quebrar essa maldição. - diz meu pai com esperança na voz.
- Papai, mamãe... muito obrigada pelas energias positivas. - digo com um sorriso emocionado.
- Boa sorte, minha senhora. - diz Benedito enquanto acena para mim.
- Obrigada. - respondo, também acenando.
Abro o portão, e Sebastião já estava me esperando em frente à casa.
- Está preparada, meu amor? - pergunta ele enquanto estende a mão na minha direção.
Respiro fundo mais uma vez.
- Sim. - respondo antes de segurar sua mão com firmeza.
Entramos no carro e logo seguimos viagem.
Não demora muito para chegarmos à mesma estrada onde sofri o acidente quando era criança.
Meu coração aperta imediatamente.
As árvores altas dos dois lados da pista fazem o lugar parecer ainda mais sombrio.
- Vai dar certo. - diz Sebastião enquanto toca delicadamente minha mão. - Estamos quase chegando.
O carro então dobra em uma entrada estreita e começa a percorrer uma estrada de barro.
O caminho é irregular, fazendo o veículo balançar bastante.
- Senhor... eu não falei antes porque ainda não tinha certeza. - diz o motorista sem tirar os olhos da estrada. - Mas tem um carro nos seguindo desde a casa da senhorita Daniella.
Eu e Sebastião viramos rapidamente para trás.
Assim que vejo o veículo, reconheço imediatamente.
- Mas aquele carro... - murmura Sebastião enquanto estreita os olhos.
- É o carro da Evelyn. - digo, chocada.
- Não acredito que ela seguiu a gente. - diz Sebastião, incrédulo.
Alguns segundos depois, o carro finalmente para em frente a uma chácara enorme cercada por árvores.
O lugar parecia isolado do resto do mundo.
A gente sai do carro, e o carro da Evelyn estaciona logo atrás do nosso. Evelyn desce rapidamente junto com Ariel.
- O que vocês estão fazendo aqui? - pergunto surpresa enquanto me aproximo deles.
- O que você está fazendo em um lugar desses? - questiona Evelyn, olhando ao redor com curiosidade.
- A gente foi te visitar, mas vimos você entrando no carro do Sebastião. - diz Ariel, um pouco sem jeito. - Então resolvemos seguir vocês.
- Agora me digam logo o que vieram fazer aqui. - diz Evelyn, já sem paciência. - Por que tanto segredo?
- É que... - começo a dizer.
- Boa tarde, pessoal. - escuto a voz de uma mulher atrás de nós. - Eu sou Celeste, a sensitiva.
- Boa tarde, senhora. - diz Sebastião de maneira educada.
Me viro lentamente e finalmente vejo dona Celeste.
Ela aparentava ter cerca de cinquenta anos. Seus cabelos longos e grisalhos desciam pelos ombros em ondas. Usava um vestido escuro cheio de bordados dourados, além de vários colares de pedras e símbolos antigos pendurados no pescoço.
- É um prazer finalmente conhecê-la, Daniella. - diz Celeste enquanto estende a mão.
- Digo o mesmo, senhora. - respondo enquanto seguro sua mão.
No instante em que nossas mãos se tocam, sinto um arrepio percorrer meu corpo inteiro.
- Vejo que vocês quatro possuem uma ligação muito forte. - comenta Celeste enquanto encara cada um de nós atentamente.
- Então você veio aqui descobrir o futuro? - brinca Evelyn. - É isso mesmo, Dani?
- Vamos entrar. - diz Celeste antes de caminhar em direção à casa.
A gente logo entra.
O interior da casa parecia saído de outro mundo. O ambiente era iluminado por velas aromáticas espalhadas pelos móveis. O cheiro de incenso tomava conta do lugar, misturado ao perfume suave de ervas secas penduradas no teto.
As paredes estavam cobertas por quadros antigos, símbolos espirituais e prateleiras cheias de cristais coloridos, livros envelhecidos e cartas de tarô. No centro da sala havia uma mesa redonda de madeira escura, coberta por uma toalha roxa bordada com luas e estrelas douradas.
O lugar inteiro transmitia uma energia estranha.
Misteriosa.
A gente entra, e a senhora Celeste nos pede para sentarmos à mesa. Então todos nós nos sentamos ao redor dela.
- Senhora, sinto muito, mas meus amigos acabaram vindo escondidos atrás da gente. - digo meio sem graça.
- A gente pode ir embora, se você quiser. - diz Evelyn sem jeito enquanto se levantava. - Vamos, Ariel.
Mas, no momento em que Ariel ia se levantar, a senhora Celeste intervém.
- Fiquem aqui, por favor. - diz ela, erguendo a mão. - Vocês todos estarem aqui não é mera coincidência.
- Senhora, expliquei para a senhora por mensagem a minha situação. - Sebastião começa a dizer.
- Sim, eu sei. - diz Celeste com convicção. - Você é um fantasma no corpo de um humano.
- A senhora pode explicar o motivo de o meu namorado ter ficado preso nesse corpo? - pergunto, já intrigada.
- É raro, mas acontece. Quando um fantasma encontra um humano com o rosto e a idade parecidos com os seus, ele pode entrar nesse corpo, caso ele não esteja habitado. - explica Celeste sem tirar os olhos de Sebastião. - Como o Sebastião estava em coma, e sua alma já não estava mais ao lado do corpo, o corpo vazio acabou puxando o espírito dele para dentro.
- Nossa... a senhora tirou uma grande dúvida minha agora. - digo aliviada.
- Mas tem um porém. - diz Celeste, agora me olhando.
Sinto meu coração acelerar.
- Você pode viver uma vida normal nesse corpo. - diz Celeste olhando para Sebastião.
- Mas, se o Sebastião voltar, ele pode expulsar o espírito do seu namorado. - acrescenta.
- Agora vamos falar sobre você. - diz Celeste com a voz firme. - Precisamos descobrir por que você foi amaldiçoada.
- Amaldiçoada?! - dizem Evelyn e Ariel ao mesmo tempo, chocados.
- Que história é essa? - questiona Ariel, apreensivo.
- Então seus amigos não sabem? - pergunta Celeste, surpresa.
- Eu ia contar... - digo de cabeça baixa. - Mas nunca tive coragem.
- Me explica isso direitinho. - diz Ariel, tocando no meu ombro.
- Bem, vou começar do começo... - começo a dizer.
- Não temos tempo para isso agora. - interrompe Celeste enquanto colocava uma pequena caixinha de som sobre a mesa. - Depois da sessão vocês conversam.
- O que a senhora vai fazer? - questiona Sebastião.
- Uma regressão. - responde Celeste com convicção. - Precisamos descobrir sobre a vida passada da Daniella. Talvez assim descubramos como essa maldição surgiu.
Sinto meu estômago gelar.
- Vida passada... - murmuro após engolir em seco.
- Como vocês dois também estão aqui... - diz Celeste olhando para Evelyn e Ariel. - Vou fazer a sessão com todos.
- De acordo? - acrescenta.
- Sim. - respondem Evelyn e Ariel, um pouco tensos.
- Não vai doer nadinha. - diz Celeste enquanto liga a caixinha.
Uma música calma e baixa começa a tocar pela sala. O som parecia distante, quase hipnotizante. O aroma suave de incenso preenchia o ambiente, deixando tudo estranhamente silencioso e pesado ao mesmo tempo.
Celeste então fecha os olhos por alguns segundos antes de voltar a nos encarar.
- Todos fechem os olhos. - diz ela calmamente.
Fecho os olhos lentamente.
A música suave ecoa pela sala, enquanto minha respiração começa a ficar pesada. Aos poucos, sinto meu corpo relaxar contra a cadeira.
- Respirem fundo. - diz Celeste com a voz calma e distante. - Deixem as memórias guiarem vocês.
Obedeço.
Mas, no instante em que fecho os olhos completamente, uma imagem surge na minha mente.