— YRIA! — Oden gritou, já agarrando a noiva pela cintura, tentando afastá-la de Aras.
Yria resistiu.
As unhas continuavam estendidas na direção da garota mascarada.
— Me solta!
Oden a puxou mais alguns passos para trás.
— O que você está fazendo?!
Ela respirava de forma irregular. Seus olhos permaneciam presos em Aras.
— Eu vi!
— Viu o quê?
— O jeito que vocês estavam olhando um para o outro!
Aras, ainda caída na grama, levou lentamente a mão ao próprio pescoço. Pequenos fios de sangue escorriam pelos arranhões deixados pelas unhas de Yria.
Ela observava a cena sem entender.
— Yria...
— Não! — ela o interrompeu, a voz tremendo. — Você nunca olha para ninguém daquele jeito!
As pequenas fadas, que antes iluminavam os arbustos, afastaram-se lentamente.
Yria voltou a encarar Aras.
— Quem é ela?
Aras permaneceu calada.
Não podia responder.
Oden respirou fundo.
— Ela é uma convidada.
— Uma convidada? — Yria riu, incrédula. — Desde quando você abandona um baile inteiro para passear sozinho com uma convidada?— Ela deu mais um passo à frente, com Oden ainda agarrado em sua cintura e entre as duas. — Você sorriu para ela.—
Ele piscou, confuso. — Você... contou histórias da sua infância.
Oden percebeu que aquela discussão não tinha relação com política.
Nem com segurança.
Era apenas ciúme.
Yria apertou os punhos.
— Faz séculos que eu tento fazer você rir daquele jeito... e bastaram alguns minutos com essa desconhecida.
Sua voz falhou na última frase.
Pela primeira vez, a raiva parecia esconder algo frágil.
Medo.
— Yria... — Oden falou com calma. — Você está tirando conclusões precipitadas.
Ela balançou a cabeça.
— Não estou! — Apontou para Aras. — Eu vi como você olhou para ela!
Aras abaixou os olhos.
Sentia que não deveria estar ali.
Não porque tivesse feito algo errado, mas era extremamente desconfortável ver um casal brigando.
Yria voltou a falar, agora diretamente para a garota mascarada.
— O que você fez?
Aras ergueu lentamente o rosto.
— Nada.
A resposta sincera pareceu irritar Yria ainda mais.
— Não minta!
— Eu realmente não fiz nada. Nós só estávamos conversando.
— Conversando? — Yria repetiu com amargura.
Oden fechou os olhos por um instante.
Ele soltou lentamente a cintura dela, mas permaneceu entre as duas.
— Você acabou de atacar uma pessoa que não conhece.
Yria respirava com dificuldade.
As lágrimas já começavam a se formar, embora ela se recusasse a deixá-las cair.
— Eu... eu... nós éramos amigos, éramos próximos...— A voz de Yria falhou completamente. Ela levou uma das mãos ao próprio peito, tentando controlar a respiração. — Antes da guerra... você me contava tudo. Você ria comigo... caminhava comigo... eu conhecia cada expressão sua.— Ela sorriu sem humor. — E hoje... eu precisei descobrir que você ainda consegue sorrir... olhando para outra pessoa.
Oden baixou o olhar por um instante.
— Yria...
— Não! —Ela enxugou uma lágrima rapidamente, quase irritada consigo mesma por demonstrar fraqueza.— Eu passei séculos tentando acreditar que era só uma fase. Que a guerra tinha endurecido você. Que um dia tudo voltaria ao normal.
Seu olhar encontrou o dele.
Yria respirou fundo antes de continuar.
— Como eu poderia saber que ia acabar assim? Ia acabar desse jeito. Eu vejo você caminhando sozinho com uma desconhecida...— Ela olhou rapidamente para Aras. — ...contando histórias que nem para mim você conta mais.— A voz voltou a falhar.— Como você queria que eu reagisse?
Oden fechou lentamente a distância entre eles.
Não para abraçá-la.
Apenas para que ela não precisasse gritar.
— Eu entendo por que você está machucada.— Yria ergueu os olhos, esperançosos por um breve instante. — Mas isso não justifica o que você fez.
Ela mordeu o lábio.
— Eu sempre te defendi. Me diz, como você pôde fazer isso comigo?
O vento atravessava o jardim, fazendo as flores luminosas balançarem suavemente. As fadas, antes curiosas, agora observavam de longe, escondidas entre os galhos.
Oden respirou fundo.
— Eu não fiz isso com você.
Yria o encarou como se aquelas palavras a ferissem ainda mais.
— Não?
— Não.— Sua voz era baixa, mas firme.
— Eu não escolhi sentir falta de quem eu era antes da guerra.— Ela piscou.— Nem escolhi deixar de rir. Eu tentei continuar vivendo, Yria.
Ela balançou a cabeça.
— Mas comigo não.
— Com ninguém.
A resposta veio imediata.
Yria abriu a boca para retrucar, mas nenhuma palavra saiu.
Oden abaixou os olhos.
— Você perdeu sua família.
— Eu perdi pessoas que amava!
— Nosso povo perdeu quase tudo também yria!— Ele voltou a fitá-la. — Nós sobrevivemos... nenhum de nós continua inteiro.
As lágrimas finalmente escorreram pelo rosto de Yria.
— Então por que com ela?— Ela apontou para Aras outra vez. — Por que em poucos minutos ela conseguiu aquilo que eu não consegui em séculos?
Aras sentiu o peito apertar.
Queria desaparecer dali.
— Yria... — disse baixinho. — Eu realmente não queria...
— Eu não estou falando com você!
A resposta veio tão rápida quanto o ataque anterior.
Aras imediatamente se calou.
— Chega.— Pela primeira vez, havia autoridade na sua voz de Oden. Yria congelou. — Você está descontando sua dor em alguém completamente inocente.
Ela respirava com dificuldade.
— Você é tão sem coração. Você me atingiu quando eu estava vulnerável
E a parte mais difícil é que eu deixei você me decepcionar. O nosso noivado, está encerrado Oden.
— ...O quê?
Yria respirava de forma descompassada. As lágrimas continuavam caindo, mas ela já não tentava escondê-las.
— Você ouviu.
Ela levou lentamente a mão até o anel de noivado.Durante alguns segundos, apenas o segurou.
Como se ainda esperasse que ele dissesse alguma coisa capaz de fazê-la desistir.
Yria soltou uma pequena risada amarga, quando Oden não esboçou nada é sequer balbuciou.
— Engraçado...— Ela retirou o anel do dedo.— Achei que esse momento seria muito diferente.— O brilho do metal refletiu a luz das pequenas flores do jardim.Ela estendeu a mão. — Tome.
Oden não se moveu.
— Yria...
— Pegue.
Depois de alguns segundos, ele estendeu lentamente a mão.
O anel caiu sobre sua palma.
Pesado.
Yria fechou os olhos.
— Passei tanto tempo tentando salvar o que nós éramos... que esqueci de perguntar se ainda existia alguma coisa para salvar.
Oden apertou os dedos ao redor do anel.
— Ainda existe.
Ela sorriu com tristeza.
— nunca existiu.
Ele ergueu os olhos imediatamente.
— Não diga isso.
Ela respirou fundo.
— Hoje eu vi uma parte sua que achei que tinha morrido há séculos.— Ela olhou rapidamente para Aras.— E não foi comigo.
Aras abaixou imediatamente o rosto.
Sentia-se culpada por algo que nunca desejou provocar. A princesa levantou os olhos devagar.
— Eu sinto muito.—A resposta veio quase num sussurro. — Eu nunca quis machucar ninguém.
Yria permaneceu olhando para Aras.
Seu peito subia e descia rapidamente enquanto tentava controlar a própria respiração.
Então deu um passo à frente.
Oden estendeu o braço.
— Yria...
Mas ela apenas afastou a mão dele.
Chegou diante da garota mascarada.
Os olhos vermelhos pelo choro encontraram os de Aras.
— Você realmente acredita que isso muda alguma coisa?
— Não.
— Então pare de pedir desculpas.
A princesa baixou a cabeça.
— Eu...
Antes que pudesse terminar a frase, Yria ergueu a mão.
Num único movimento brusco...
Segurou a máscara branca que cobria o rosto de Aras.
— Yria, não! — Oden deu um passo à frente.
Tarde demais.
A máscara desprendeu-se com um estalo seco. O tecido caiu lentamente sobre a grama.
O rosto de Aras ficou exposto à luz suave das flores e das fadas.
Yria congelou.
Por um instante, seu olhar demonstrou surpresa.
Não porque conhecesse aquela garota.
Mas porque jamais imaginara encontrar um rosto tão sereno.
Aras, completamente sem reação, levou a mão ao próprio rosto.
Era tarde.
Seu disfarce havia desaparecido.
Yria apertou os dentes.
— Era isso...— Sua voz saiu amarga.— Nem sequer consegue fingir o arrependimento.—Ela deu alguns passos para trás. Olhou uma última vez para Oden. A decepção em seus olhos parecia muito maior do que a raiva. — Espero que ela valha tudo o que você acabou de perder.
Sem esperar resposta, virou-se violentamente.A capa girou atrás dela enquanto atravessava o jardim.
As flores se curvaram com a passagem da eteriana.
Poucos segundos depois, ela desapareceu entre as árvores.
Oden guardou o anel no bolso da roupa e caminhou rapidamente até Aras.
Ajoelhou-se diante dela.
— Senhorita A...— Sua voz era gentil.— Você está ferida?
Aras ainda mantinha a mão sobre o pescoço.Os arranhões não eram profundos, mas ardiam.
Ela tentou sorrir.
— Estou bem...
Mas sua voz saiu trêmula.
Oden percebeu.
— Espere.—Ele retirou cuidadosamente um pequeno lenço branco do bolso.Molhou-o com água de um pequeno recipiente preso ao cinturão.— Pode doer um pouco.
Aras assentiu.
Ele aproximou lentamente o tecido do pescoço dela.
O toque era extremamente cuidadoso.
— Desculpe...
— Pelo quê? — perguntou Aras.
— Eu a convidei para caminhar comigo.— Ele abaixou os olhos. — E isso aconteceu.
Aras balançou a cabeça.
— A culpa não foi sua.
Oden ergueu novamente o rosto.
— Mesmo assim...
No exato instante em que terminava a frase...Um ruído quase imperceptível ecoou atrás dele.
Um passo.
Leve.
Oden franziu discretamente a testa.
Seu instinto reagiu um segundo tarde.
Uma sombra surgiu entre as árvores.
Antes que pudesse sequer se virar...
THUMP!
Algo pesado atingiu a parte de trás de sua cabeça.
Sua visão escureceu instantaneamente.
O lenço escapou de sua mão.
O corpo perdeu toda a força.
Aras arregalou os olhos.
— Oden!
O líder eteriano caiu de lado sobre a grama, completamente inconsciente.
Atrás dele, um homem manteve a respiração contida por um instante, ainda segurando a arma improvisada com que o havia golpeado.
Os olhos dele encontraram imediatamente os de Aras.
Havia alívio.
Desespero.
E uma determinação que atravessara um continente inteiro.
— ...Aras.
Ela permaneceu completamente imóvel.Reconheceria ele em qualquer lugar.
— ...Yal?