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O preço de uma segunda chance Parte 9 - Graça

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​“Prontinho. Aqui, você está todo suado.”

Mari entregou um pano para Christopher se enxugar.

​Já havia se passado o tempo de fraqueza dele, e agora os dois acabavam de enterrar o corpo da irmã no quintal da casa dela. O espaço era grande e praticamente isolado, quase não recebendo luz solar direta, parecendo sempre coberto por uma sombra perpétua. Embora amplo, não havia outros acessos visíveis além da porta dos fundos da residência de Mari, sendo cercado por muros altos que não foram erguidos por ela, mas sim pelos vizinhos.

​“Por que você pediu para enterrar o corpo dela aqui?”, perguntou Christopher.

​“Hm? Eu já não disse?… Eu a trouxe porque achei que você podia fazer alguma coisa, mas, já que não pode, é melhor que ninguém saiba que arrastei um corpo para dentro de casa”, respondeu Mari.

​“Mas isso é um quintal! Como acha que ninguém vai ver?”, insistiu Christopher, olhando ao redor.

​“Não precisa se preocupar com gente xeretando. Eu morei aqui minha vida toda com a vovó Graça, e ninguém nunca vem incomodar. Antigamente, este lugar era muito bonito; o sol iluminava bem e dava até para ver a grande cidade por cima do telhado do vizinho dos fundos. Mas tanto ele quanto os outros ergueram esses muros. Se não fosse pela porta de casa, isso aqui pareceria muito com uma prisão”, lembrou-se ela, nostálgica, observando o quintal deprimente.

​“Por que eles levantaram muros tão altos?” Christopher não achava errado erguer barreiras para garantir segurança e privacidade, mas a altura exagerada parecia totalmente desnecessária.

​“Eu não sei… Acho que foi minha culpa.”

​“Sua?”

​“Mesmo depois de todo esse tempo, eu ainda não consigo entender por que as outras famílias me evitavam tanto. Elas não deixavam as crianças brincarem perto de mim nem conversarem comigo. No fundo, acho que era porque me achavam esquisita, mas não sei o quê…” Mari fitava as paredes do quintal, onde antes havia apenas cercas baixas, recordando-se da época em que via outras crianças se divertindo. “Eles ergueram esses muros altos porque eu jogava meus brinquedos para os outros quintais.”

​“Eu tinha bastante brinquedo, sabia? Mas, sempre que tentava chamar alguém para brincar comigo, os pais vinham correndo e levavam os filhos para longe. No fim, eu sempre ficava sozinha, então passei a arremessar meus brinquedos por cima do muro para que as crianças pudessem se divertir.”

​“A vovó Graça dizia para eu não me preocupar com isso, que aqueles adultos não entendiam o quão especial eu era. Sinceramente, aquilo era bem chato.”

​Mari começou a tirar as luvas sujas de terra, ajeitou as ferramentas em um canto da parede, soltou o cabelo e caminhou em direção ao único acesso do quintal, que dava direto em sua pequena cozinha.

​“É uma pena que você não tivesse com quem brincar, mas pelo menos essa vovó Graça parece ter sido uma boa senhora”, comentou Christopher.

​“A vovó Graça era quem brincava comigo, no fim das contas! Uma vez, eu fiz um bolo de lama lá no quintal — hahaha! — e acredita que a vovó ainda comeu um pouco e disse que era o melhor bolo do mundo? Ela era muito legal”, disse Mari, sorridente.

​Logo os dois chegaram à sala, e Mari se jogou na poltrona, espreguiçando-se:

“Ai, que delícia! Minhas costas estavam me matando.”

​Observando a cena, Christopher achou tudo aquilo muito cômico. Mari parecia ter um parafuso a menos, mas com certeza era uma figura marcante.

​Seu olhar vagou pela sala, tornando-se mais aconchegante. Ao examinar alguns quadros na parede, ele conseguiu ter uma ideia melhor da infância da garota.

​“São seus pais aqui?” Christopher pegou uma moldura específica, onde aparecia uma menininha muito parecida com Mari ao lado de um homem e uma mulher.

​“É sim. Eles morreram quando eu era criança. A vovó Graça me ajudou a enterrá-los no quintal”, respondeu Mari, sem o menor pudor.

​“Lá no quintal?…” Christopher engoliu em seco. Que tipo de gente maluca é essa? Ela enterrava todo mundo no próprio quintal?!

​“Sim.”

​Procurando mudar de assunto, quis saber se havia alguma foto da tal avó:

“Você não tem fotos dessa sua avó?”

​“Não. A vovó não gostava de tirar fotos; dizia que a deixavam feia”, explicou ela, relaxando ainda mais na poltrona.

​“Me fala, super-Christopher: agora que você melhorou, o que vai fazer? Como pretende me pagar?” A feição de Mari mudou num piscar de olhos, assumindo um ar afiado.

​“Pagar? Espera, como assim?” Christopher levou um susto.

​“Eu te salvei de ser lobotomizado e cuidei de você. O mínimo que pode fazer é dar uma compensação”, retrucou ela.

​“Eu não tenho dinheiro agora.” Christopher revistou os bolsos vazios. “Mas assim que eu conseguir, te pago, certo?”

​“Tá, né… Não tenho escolha mesmo”, aceitou Mari, fazendo um biquinho. “Mas o que você vai fazer agora?”

​Como ele já estava recuperado, ela não achava que ele continuaria ali por muito tempo.

​“Bom, vou achar uma certa pessoa e acertar as contas.” Christopher começou a estalar os nós dos dedos.

​Ele já havia lidado com os agressores da irmã; agora era hora de acertar com os mandantes. Pietra o passara para trás, e ele não deixaria aquilo barato.

​“Vai atrás do cara que atirou em você?”

​“Você viu isso também?” Christopher impressionou-se. Quanto tempo essa garota passou me espiando?

​“Vi. Eu não tinha muita coisa para fazer em casa naquele dia, mas ver aquilo me tirou do tédio. Foi muito legal assistir você morrer e, poucos minutos depois, voltar à vida como se nada tivesse acontecido. Foi por isso que achei que você podia ressuscitar sua irmã também”, disse Mari, com os olhos brilhando de fascinação. Afinal, não era todo dia que alguém testemunhava um milagre daquelas proporções.

​“Entendi… A resposta é sim. Vou atrás dele e de mais algumas pessoas”, afirmou Christopher.

​“Tem alguma ideia de onde eles estão?”

​“Eu sei onde uma delas está.”

​Christopher ainda não sabia por onde começar a caçar o homem de preto e seus comparsas, mas sabia exatamente onde encontrar Pietra.

......

​Em uma sala escura, um homem bigodudo, alto e forte estava sentado em frente a uma mesa de ferro, segurando um envelope branco. O único foco de iluminação no ambiente era a luminária pendente sobre a mesa, revelando o homem de expressão severa e uma mulher de busto avantajado sentada à sua frente, completamente assustada.

​“Eu… Eu não sei o que aconteceu! A missão foi bem-sucedida, eu fiz conforme o senhor solicitou: eliminei o garoto antes que Tyrone conseguisse qualquer informação com ele”, gaguejou a mulher, trêmula, com o corpo visivelmente tenso.

​Tratava-se de Pietra, agora interrogada sobre os desdobramentos daquela noite fatídica.

​O homem retirou algumas fotografias de dentro do envelope e as jogou na mesa.

​“Você chama isso de bem-sucedido? Sorte a sua que eu consegui convencer as autoridades de que aquilo não passou de uma guerra de gangues. Mas agora me diga: que tipo de quadrilha faz algo desse porte? Vou ter que inventar a ‘gangue da bola de demolição’ agora?”

​As imagens mostravam a cena do crime: um cenário completamente devastado, com um muro destruído e o chão banhado em sangue e entulhos. Parecia que um caminhão desgovernado havia atravessado o local.

​“Não só isso: o corpo do moleque sumiu, e o da irmã dele também não foi encontrado. Você tem certeza absoluta de que o garoto morreu? Tem noção do que pode acontecer se descobrirem a verdade?”, inquiriu o chefe.

​“Sim, chefe! O Roger confirmou tudo: ele baleou o menino à queima-roupa e garantiu que o serviço estava feito. Era para o Tyrone ter encontrado o cadáver na viela e nunca saberia que o pacote já havia sido recuperado; ele provavelmente culparia algum rival”, defendeu-se Pietra.

​O pacote em questão era o mesmo que Christopher entregara. A encomenda deveria ter sido repassada por Tyrone a um dos altos escalões do crime, e o fracasso na entrega resultaria em uma punição severa que poderia custar o posto do traficante — o que, por sua vez, beneficiava diretamente o chefe de Pietra.

​Enquanto olhava as fotos, a mulher tentava em vão imaginar o que teria causado tanta destruição, bem como o paradeiro do corpo do garoto e da irmã. Ela não fazia ideia do que havia acontecido com Katrina.

​“Descubra o que aconteceu, entendeu? Preciso garantir que ninguém descubra a verdade”, ordenou o homem, levantando-se para ir embora.

​“Sim, sim, senhor!”, Pietra respondeu prontamente, sem ousar contestar.

​Assim que ele se retirou, Pietra voltou a respirar. Seu corpo estava encharcado de suor devido ao nervosismo; afinal, seu superior jamais foi conhecido pela paciência. Sem saber por onde começar a buscar pistas, restou-lhe apenas acatar a ordem e lidar com as consequências.

​Rua Plaster Raven, loja da Apex Primecred.

​Pietra encarava sua mesa, analisando as fotos da viela destruída na tentativa de encontrar qualquer vestígio que a levasse a Christopher. Parecia o equivalente a procurar uma agulha num palheiro.

​“Ei, ei, ei! O que você pensa que está fazendo? Qual é o seu problema, moleque? Me solta! AAAAAHHH!”

​De repente, gritos vindos da entrada romperam o silêncio da loja, seguidos por um estrondo ensurdecedor.

​Zuummm… TUM!!!!!

​“O que foi isso? O que bateu na parede?”

​Antes que pudesse raciocinar após o impacto, Pietra viu um vulto atravessar a parede do estabelecimento. Correu até o local para inspecionar os estragos e deparou-se com seu funcionário — aquele antipático da recepção — completamente arrebentado. Como aquilo era possível? O homem voara e atravessara a alvenaria como se tivesse sido atingido por uma carreta desgovernada.

​Não demorou para que suas dúvidas fossem respondidas.

​“Olá! Pode me ajudar? Estou procurando uma trapaceira peituda que trabalha aqui… Você a viu por acaso?”

Thoughts

  • Severina

    Oxente. A menina enterra a irmã do rapaz e meia hora depois já quer saber como ele vai pagar. Sem pai, sem mãe, sem avó, aquela casa é toda dela, e é ela quem decide quem entra e quem sai.

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  • Ovid

    A Mari contando do enterro dos pais no quintal com a mesma cara de quem conta do bolo de lama foi o que mais me deixou inquieto. Fiquei achando que ela sabe bem mais da vovó Graça do que conta pro Christopher.

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