Conto:
Carbono Zero
I Ato.
Ah… um jato de água cai sobre meu rosto, entra por minhas narinas e boca, por puro instinto, esbofeteio o ar em resposta. É como desentocar de um sono escuro engasgando, engasgando, droga, engasgado.
Ergo o tronco. Dor? Dor excruciante! Quero gritar, mas os pulmões perdem o jeito de trabalhar, um vento polar explode em meus ossos, os lábios formigam com uma ardência fria, a percepção estica, quase rompe o fio da consciência, e gira. Estou dentro de uma privada em plena descarga.
Tenho algo solto dentro da barriga! Como se, em vez de órgãos, fosse um picadinho de carne com molho de tomate. Fodi com a porra do baço! O que mais poderia estar tão destruído sem me matar de vez?
Apoio os braços, com cuidado, tento colocar a cabeça no chão sem forçar os músculos do abdômen. No meio do caminho, sinto-me atravessado por um som agudo.
Que arrepio do cacete!
Talvez seja melhor descansar com os cotovelos, mantendo a cabeça erguida.
Afinal, a fonte do som se aproxima, ganha nitidez à medida que fica mais alto. Lembra o tilintar de correntes enferrujadas… É nada! A desgraça é uma voz inumana. E fala comigo:
― Ei, escritor… ei! Calma aí… senão, vai acabar cagando sangue até morrer.
Deus, de onde veio isso? Que coisa é essa que fala metálico e assobiando, tal qual uma criança carioca em um telejornal policial em que a voz precisa ser disfarçada.
Começa a gargalhar alto. Muito alto. Quero que ele pare… preciso que pare. Mas o som continua em ondas absurdas, reverbera, vindo de todo canto, sem pausas e por tempo suficiente para ser uma forma de tortura.
É um desgraçado que não respira. Um maldito sádico comedor de gente.
Preciso de alternativas. Deus, como preciso delas! Por ora, serve aquele pequeno brilho alaranjado em meio à absoluta escuridão. Pode ser uma boia, ou, pelo tom desse filho da puta, pode ser o sorriso do palhaço! E o que me resta?
Tento mover o pescoço em direção à luminosidade. Não dá! A atmosfera tornou-se um grande bloco sólido, é como se não tivesse autorização para tanto.
Uma tensão me percorre, a dor dilata. E acho que sou observado, analisado. Só o tempo passa. Alguém atrás daquela luz resolveu brincar comigo.
― Olá. ― Um gemido me escapou, o menor esforço já fez um inferno dentro de mim, mas tenho de continuar. ― Olá… alguém por aí?
― Sim?
― Quem é você?
A maldita risada novamente, e agora é pior. Tenho certeza de que o filho da puta tá tirando com a minha cara. Ninguém bem intencionado faria uma coisa dessas. Não diante de um homem ferido.
― Por favor, preciso de um médico.
― Já estou cuidando de você, meu filho.
Então, por que não estou num hospital?
O pensamento não escapa. É melhor não provocar, ouvir o conselho da dor. Ela deixou de ser inebriante, tornou-se constante, atingindo um estado quase meditativo. Expulsou o orgulho, o diploma, as contas, sentou na sala de estar, ligou o televisor, pediu uma cerveja e disse: “Olha aqui, vou te incomodar pra caralho, em troca, vou arrumar essa bagunça que se tornou sua cabeça. Mas se vira aí. Dá um jeito da gente não se acabar. Existe algo que resolveu te punir. Sabe-se lá o porquê. Não mostre fraqueza, mas veja lá se não irrita o Coisa.”
― Obrigado.
― Ei escritor, sofreu um acidente feio. Não deveria andar tão rápido assim… meu filho. ― Falou com sua voz estranha, embora tenha soado angelical. Se restar algo de mim depois disso, vou criar uma personagem mamãe robô, que vai passar o sermão no filhinho, desse mesmo jeitinho, quando o protótipo esquecer a bateria reserva.
― Por favor… ― tosse, tosse… acompanhada de uma secreção agridoce e oleosa que só podia ser sangue.
Creio ter demonstrado alguma dignidade ao implorar por um hospital, não lembro direito. A falta de ar alterou a minha noção de ser sujeito. Perdi o tempo, ele passava diante de mim sem rótulos de passado, presente ou futuro.
Não apaguei propriamente, entrei, sim, em um estado de torpor em que murmurava coisas ininteligíveis e entre elas a palavra hospital e, com menor frequência, apelações à misericórdia divina.
E, sobrepondo a cena, enquanto eu ia e vinha, a maldita risada e sua perversidade compressiva.
O som que ruge desse ser me atinge como carros em compactação. Um engavetamento monumental. Minha psique jura que é real, embora identifique inúmeras lacunas. Faltam os freios, buzinas e o odor de borracha queimada. Mas os gritos dos acidentados, esses estão lá. Nítidos, cutucando meus pensamentos, violando minha existência, deixando máculas. Quero vomitar. Não posso, o esforço vai me matar. Graças a Deus não tenho ouvido absoluto, caso contrário, morreria acompanhado pela melodia dos ossos partindo.
― O que quer de mim? Por favor, posso te arrumar dinheiro.
Silêncio… obrigado… ele parou!? É humano, quer grana como qualquer um, e, no fim das contas, essa merda toda não passa de um sequestro. Estou num cativeiro e a voz metalizada é um tipo de efeito. E por que esse filho da puta não falou logo de dinheiro? Demorou tanto, provavelmente é tarde demais para uma proposta comercial, fodido como estou, a ideia não é melhor que a alternativa do sobrenatural ou do serial killer.
― Quero sua amizade, escritor… eu mereço. Salvei sua vida.
Merda de resposta, mil vezes ouvi-lo falar de cifras.
― Amigo, por favor, me leve para o hospital ou… ― puta que fisgada da porra! ― Me deixe em algum lugar. Não vou valer coisa alguma morto.
― Que isso… ainda tem muita vida em seus olhos. Rá, rá, rá…
A luz laranja se aproxima com passadas dançantes, no ritmo de uma antiga canção: “Deixe-me Ir de Cartola”, que o tipo assobia numa afinação e timbre absolutamente orgânicos, solventes e nostálgicos. Algo esperado dos mais doces pássaros residentes de uma gloriosa floresta.
A luz cresce diante de mim, uma figura humana aparece debaixo dela. O cabelo é a luz? Porra, mano! A desgraça tá queimado! Ou é brilho? Ou eu estou perdendo tanto sangue que já comecei a alucinar?
A Coisa senta ao meu lado. O trecho que assobia é o que fala do sol nascer, das águas dos rios a correr.
― Você não vai me deixar partir? Não é mesmo?
Seus olhos verde-lodo, arregalados e inquietos, me encaram com nervosismo. Ele para de assobiar e sorri. O silêncio me aperta os ouvidos… os dentes são dos diabos, amarelos e… bem amolados. E, droga, o maldito saliva feito um cão raivoso e um trem brilhoso escorre de seus lábios.
― Vai sim, escritor. Mas antes precisamos um do outro. Beba!
― O que é isso?
― Se for veneno, acaba logo com isso. Se for água, mal não vai fazer. Se for remédio, ao menos melhora alguma coisa. É melhor que nada.
Enfia os dedos no meu queixo, aperta a mandíbula e abre minha boca. O chá morno e docinho desce pela garganta me enchendo de raiva. A última coisa que eu preciso é da merda de um placebo ministrado com tanta objetividade.
Chorei, fechei os olhos e chorei.
― Por que fez isso?
― Tinha que tomar o remédio.
― Por que isso está acontecendo?
― Você é um menino mau. Pensa que é bom, mas só faz o mal. Vou te ensinar uma lição! Oh… sim, vai saber o quanto o bem é maravilhoso. Vai poder escrever isso nos seus livros.
Não ri da própria piada, o sujeito não é tão óbvio. Em vez disso, me sonda com obsessiva curiosidade: uma paixão científica pré-dessecação. Cheira minha boca. Em um movimento alucinado, enfia a mão em meus cabelos, mexe os dedos como se verificasse a textura. Tira a mão e cutuca meu ouvido. Tem um pouco de cera no dedo, prova com a ponta da língua. Não sinto nojo, mas sim uma secura latente na boca. O que eu não daria por um pouco de água. Busco apoio naqueles olhos lodosos, eles são estranhamente animalescos, imprevisíveis. O mais provável é que morda meu nariz, ou me engula de uma vez só e fique seis meses hibernando enquanto faz a digestão.
Não faz nada disso, envolve o braço em meu pescoço e me ajuda a deitar. Ergue minha camisa, encara meu tórax por muito tempo. Quero rir diante da possibilidade de que o sujeito tenha olhos de raio-x. Mas isso deve doer, melhor se conter.
― Não sou escritor.
Não responde, levanta uma faca fina, de despelar peixe, quase encosta a ponta da lâmina no próprio olho direito e depois usa-a para abrir minha camisa, penso o quanto aquela faca é afiada. Melhor.
Um clique metálico. Uma luz ardida cai sobre mim, a claridade repentina apaga meus pensamentos. Fecho os olhos. Porra, terei de abri-los novamente, são as cortinas de um teatro mambembe e vou retornar ao palco após um primeiro ato catastrófico.
Ao menos consigo ver minhas pernas. Minha nossa! A direita pende para a esquerda num ângulo impossível, merda: quebrada. O estado da minha barriga continua misterioso. Não encontrei sangramentos, o que não significa nada. Deve ser hemorragia interna. A dor é quase um ser vivo rolando dentro de mim, buscando por pontos onde consumir minha energia vital. E Deus, não quero morrer!
A Coisa ergue-se sobre os joelhos, segura a faca com a prontidão e frieza de um cirurgião renomado. Embora esteja completamente nu, em pelo… ruivos. Seria até estranho se não fosse assim. Aquele dorso nunca concebeu a necessidade de uma camiseta. Porém o que mais me perturba é a vontade, a ansiedade transborda no seu respirar.
― Vai operar meu baço?
― Nunca curei nenhum bicho humano. Vou ver o que dá para fazer, escritor.
― E não vai nem ao menos limpar esse negócio?
Ele bafora os dois lados da lâmina, em seguida, passa-a sobre a pele do braço esquerdo. O cheiro podre de seu hálito é pesado e mofado como o ar que empesteia o lugar.
Agora com a luz, um pequeno refletor atrelado a uma bateria de carro, dá para ver onde vim parar. É uma caverna grande: de dar água na boca a qualquer espeleólogo, ele perderia o olhar diante de inúmeras estalactites e estalagmites, vastas como árvores numa floresta, fechando o campo de visão, como se estivesse atrás dos dentes do tubarão. O solo é forrado de macrogrãos pedregosos, o perímetro que parece me envolver é coberto por folhas secas. Elas começam a roçar minha nuca numa espécie de retaliação por terem sido descobertas. Tateio o terreno, escuto o cre-cre… ah droga, o lugar deve ser infestado de aranhas e até escorpiões. E esse cheiro de suor velho, nem de olhos fechados dá pra… é claro! Um ninho. A porra do ninho da Coisa.
A frase repete várias vezes na minha cabeça: “A porra do ninho da Coisa”. Acho graça, por que não? Eu sempre servi tão bem. Vendi ilusão, convencimento, omissão: ganhei o que não era meu. Chegou a fatura, que venham as pulgas.
Que isso? Nunca me culpo, quem dirá agora que sou a vítima. “A porra do ninho da…” a coisa ganha melodia. Repete como no refrão de uma música chiclete, cresce em um cânone de vozes que estancam ao meu sinal. Quase me vejo como o maestro dos meus pensamentos. Como se tivesse que cuidar deles. Mas não me sinto capaz de ser o carcereiro. A parte de mim pressuposta para tanto encontra-se chapada, mamando a recordação do beijo de Catarina. Sim, aquela menina gostosa da faculdade… seus lábios eram os mais irresponsáveis do mundo. Fumava cigarro mentolado e passava um fascinante batom cor de carne com gosto de mel. “A porra do ninho da Coisa.” Lábios docinhos como o chá que não era placebo nada. Se fosse, não pensaria sobre minhas pálpebras como o acúmulo de todas as levezas. Vou apagar em segundos, só me resta um último pedido:
― Amigo, por favor, assobie mais um pouco.
A gargalhada horrenda tomou o lugar. Medo? Fichinha… Me borrei todo na mais alucinante crise de pânico embutida em transcendência astral advinda da medicina da floresta. Por fim, não sei se ele atendeu ao meu pedido. Em meio à constatação das calças molhadas, a viagem me levou.
II Ato
O mostrador digital do BYD Tan bateu nos 220 por hora. É uma bela máquina. Pena que não ronca. Compensei socando o volume no máximo, queria ver até onde chegavam os doze alto-falantes ultramodernos. Acendeu o alerta de segurança auditiva. Não dei a mínima. O dia vinha uma maravilha, havia terminado meu livro na manhã de ontem. Dois anos de sonho em meio a uma extenuante rotina de trabalho, e nos últimos três meses: isolamento.
Chegou a hora de voltar, estava com o coração de asinhas de fora e, porra, o Pretenders tocava na playlist. No canteiro da recém-recapeada estrada de fazenda, as folhas farfalhavam com tanta beleza. Lembrei daquelas mocinhas nas antigas gravações dos shows dos Beatles.
Sentia-me nos anos 70, uma nostalgia boba de uma época em que quase era permitido beber e tocar o pau na velocidade que se bem entendesse. Não que eu tenha vivido isso, falta-me idade, e, a bem da verdade, não sinto a menor necessidade. Nunca achei o passado melhor que o presente. Confio no meu tempo.
Por isso enchi a cara de cachaça. A estrada era particular, o carro praticamente voava sozinho e tudo era chipado. Cada bicho do perímetro ligado ao app do sistema autônomo de direção e orientação. Conseguia ver os pontinhos com nomes de artistas e personagens famosos; de Wando, o rei das calcinhas, passando por Roberto Carlos, Jackson do Pandeiro, Guimarães Rosa, Mick Jagger, Oscar Niemeyer, Michael Douglas, Mickey Mouse, Chitãozinho e Chororó, Darth Vader, Mestre Yoda, Altamiro Carrilho, Lord Voldemort, até chegar em Giotto di Bondone. Era muito boi brilhando em legendas amarelas no ostentoso painel multimídia de quinze polegadas.
Então por que aquele touro malhado de ruivo apareceu depois da curva? Puta merda! Até onde sei, não existe touro ruivo.
Agarrei o volante com força e joguei tudo para a esquerda. Por uma fina não peguei nas ancas do bicho, escutei o baque no paralama traseiro. Arranquei uns pelos do merda! Puxei o volante na direção oposta, evitando seguir pasto adentro. O sistema de direção de avião respondeu com absoluta prontidão, o veículo convergiu vividamente no sentido da mata. O centro de gravidade começou a ceder e o computador de bordo apitou, melhor: gritou. Olhei para o painel: tudo vermelho. O carro e eu, ambos clamando por socorro. O deus máquina mandou seu anjo: o piloto automático que com muito custo e sucessivas manobras, inclusive fazendo uso do acostamento, pareceu vencer a adversidade e recompor a estabilidade. A roda dianteira esquerda estava em vias de conseguir construir uma trajetória tranquila. Lembro de ter suspirado de alívio, de olhar pelo para-brisa e contemplar um dia brilhante; a paisagem imensa, o horizonte que sorria para a selfie.
E o pneu dianteiro esquerdo encontrou o cupinzeiro. A armadilha estava posta. As rodas saíram do solo e o BYD Tan, hiperconectado, autonomia de 430km, 100% elétrico (a fazenda era Carbono Zero), capotou.
O chão trocou com o céu pelo menos oito vezes. O carro subiu uns três metros, apontou o bico para baixo e enterrou na margem da floresta.
Quando deu a primeira volta, o cinto segurou, o airbag disparou. Jurei que a tecnologia tinha me salvado. O carro girou e girou, a sensação de impotência absoluta surrou meu ser. Por segundos a morte me olhou com reprovação, “A que ponto você chegou?” E ela sorriu. A porra da mala, solta no banco de trás, se chocou contra minhas costas. Doeu pra caralho e quebrou a trava do assento. Meu corpo correu para frente e no giro seguinte, deslizei até chocar com o banco traseiro. A mala voltou cravando sua quina na minha barriga. Levantei a perna direita, num gesto de proteção tardia. O carro levitou, apontou o capô e desceu, o banco correu nos trilhos e minha perna partiu contra o console multimídia Xiaomi.
Despertei pouco tempo depois, a aflição arrancava lágrimas dos meus olhos, percebi minhas mãos sobre os ouvidos. O carro apitava, buzinava e o Pretenders dava seu refrão mais explosivo.
Algo puxou meu corpo, as mãos não eram enluvadas. Pensei que poderia ser um colaborador, mas tinha certeza que era feriado. Além disso, rodei uma boa quilometragem sem ver viva alma. A fazenda é enorme, maior que a cidade de São Paulo, mais de 100 km lineares de pasto, gado e mais gado, beirando a mata tropical. De um lado da estrada, os confins do ocidente, do outro, a Amazônia, o mundo ancestral já negociado, geolocalizado, em vias de virar propriedade e comida de boi. E eu? Adubo.
Minha mente não consegue articular outro desfecho.
É assim desde o dia em que a força do trauma me jogou numa escuridão profunda, que, vez por outra, volta para um estado de estalos de confusa percepção. Era como apagar e acender, feito uma lâmpada, porém esta é uma das que quando acesa só dá curto. Melhor apagada. Claro, pensei o mesmo, até que não deu mais. Algo me tirou do ausente e me entregou a dor.
Dor que emerge lentamente com o recuo da maré. Dois mourões, a perna e a barriga, restos de um cais no horizonte. Só cobertos pelas águas docinhas como o beijo de Catarina. Ela rompe a escuridão envelopada em uma névoa alaranjada, beija meus lábios, enche minha boca com uma doçura monstra. E as águas começam a subir, lentamente cobrindo a praia, ocultando a dor.
Mas creio que algo não se encaixa. Catarina foi uma paixão. Pensei que a amava, cheguei a pedi-la em casamento. Para nossa sorte, a resposta foi não.
O que não me impediu de curtir uma fossa. De me sentir um idiota, compositor de poemas ocos, só ego e réplicas sem som. Dei comigo, e o que tinha diante de mim era algo tão pequeno. Me atrevi a pedir a opinião de amigos. Na verdade, pedir a opinião de Andreas, meu único amigo. Ele me olhou com carinho e alegou questão social:
― Paulo, é sério que você fez isso? Em casamento? ― Ele estava tão perplexo quanto um adulto que vê uma criança pegando uma panela quente, sem tampa e cheia de óleo fervente, não pelo cabo, o que já seria um absurdo, mas pelo fundo.
― Fiz. Você acha que foi mal?
― Com certeza. A brincadeira acabou pra você. Ela é filha de gente milionária, e isso é meio que ter um emprego. Se não faz o que o papai manda, já era a grana.
― Eu gostava dela.
― Quer realmente falar sobre isso?
Meneei a cabeça pedindo para ele continuar:
― Paulo, sei que você tem essa coisa de sofrimento de poeta. Olha, é perda de tempo. Sou teu amigo e vou te dizer, você não é o Neruda quando jovem. Seu negócio é outro.
― Éh? E qual o meu negócio? Oh… grande sábio!
― Encher o saco. Você deveria dar um curso sobre linguagem arquitetônica ostensiva.
― Tem certeza de que veio aqui me consolar?
― Você é que me procurou! E… não sei o porquê. Não me deixa terminar de falar. Que merda de depressivo é esse que não fica quieto?
― É o merda que sempre precisa de aprovação.
― Piorou… não sei o motivo da tua tristeza. Até meu pai gosta de você.
― O que é um mistério.
― No começo, depois saquei. Gostaria de saber o que descobri?
Eu tinha uma noção, tento ser atento a mim mesmo, e, sobretudo, me esforço para ser bem quisto. Mas ouvir da boca de outra pessoa é sempre uma experiência interessante. Fiz silêncio e esperei ele terminar.
― Porque você dá respostas às coisas. E são as respostas que todo mundo quer ouvir. De alguma forma, você tem uma precognição dos desejos. Olha que maravilha!
― Então, sou um X-MEN ou coisa assim?
― É a ruivinha gostosa namorada do pau-mandado de um olho só. Seu energúmeno. ― Andreas caiu na gargalhada e concluiu com brandura: ― Fico feliz pela volta da sua autoestima. Agora escuta um conselho: esquece essa menina.
E esqueci, até ela ressurgir em meus mergulhos na escuridão, erguendo-se no horizonte como a Lua que traz as marés.
Onde Catarina está? Que importante? Quero saber é da maré. Daquele chazinho docinho, com gosto de flor de trombeta, ou lírio, que quando desce, tenho a impressão de me esbaldar no néctar de onde exala o aroma adocicado e revitalizador, capaz de dar um toque de amanhecer às noites de primavera e, pela dádiva do bom e brincalhão Deus, também acalma a dor.
Cadê aquele sujeito engraçadinho que disse que cuidaria de mim? Foi exorcizado? Ele teve algum trabalho: arrastou, escondeu, se sujou para me largar aqui sozinho? Agonizando para morrer de sede nesse escuro. Não tem um resto de brasa, um reflexo na água, uma centelha solar, e, porra, o silêncio é total. Bate feito um grito sem fim.
Já faz quanto tempo? Não sei. Quantos dias? Também não sei. Sei que a fome mandou em mim por um tempo. Penei e chorei por ela como se fosse minha mãe no leito de morte. Depois, a dor voltou. Eu tremia… como eu tremia, era uma surra sem esperança. Mas existe um lado bom, a dor tem o poder de apagar.
Acordei com a boca colada, um gosto de passado e terra fermentada. Não estou morto? Não, ainda não. Terei que encarar a sede. Ela só aumenta, tudo nessa droga só aumenta. Só consigo ter certeza que o tempo passa porque meus flagelos se intensificam. Deve ser o inferno!
Estou com vontade de mijar e vou beber minha urina, sem dúvida é o inferno. Mas se eu sobreviver, disso, ninguém nunca irá saber. Nem a droga do terapeuta a 500 paus a hora. Gasto dinheiro para sempre, enfio a porra toda no inconsciente, desenvolvo um tique bizarro de pôr a mão no pinto toda vez que quiser um copo da água. Mas isso ninguém vai saber. Pois se cheguei ao ponto de beber meu próprio xixi é porque o inferno tem que ficar aqui. Porra!
O silêncio parece me acusar de mijão. Caralho, nem o barulho de um alfinete caindo no chão. Saudades da maré. Vou gritar, ao menos o silêncio acaba. Mas, até quando vou conseguir lutar contra ele? Talvez se simplesmente assobiar? Acho que vou durar mais tempo.
Vem-me à cabeça o “Deixe-me ir” do Cartola. Desisto, não quero abrir precedente para possíveis comparações. Arisco “Wind of Change” Scorpions. Quando chego no refrão, uma risada debochada, como de um jurado grotesco de um desses programas de televisão com gosto pela humilhação, atropela meu pequeno ideal de controle da pouca vida que me restava.
― Vejo que está feliz, está até cantando feito passarinho.
Com ele veio a luz laranja, e por sorte, quem sabe a maré.
― Por favor, água, água por favor!
― Ah… mas é claro Paulo! Trouxe água, carne de caça forte e aquele chá que você gosta tanto.
― Por favor!
― Sim, mas antes tenho algo a te pedir.
― Qualquer coisa… água, por favor.
― Sabe Paulo, Paulo do Vale… li seus três primeiros livros. Não são bons. De verdade, são sem textura, não conduz o leitor. Em suma: são chatos. Conclui que você gosta de construir espaços para cagar. Ainda bem que não seguiu a carreira de arquiteto, só serviria para projetar paradas de beira de estrada. Mas como publicitário você é um gênio. Sou seu fã número um.
Não entendi isso como um elogio, mas resolvi agradecer:
― Obrigado… água, por favor.
― Claro, como pude esquecer?
Ele pega um recipiente cerâmico, enche um copo de barro e aproxima da minha boca. Senti a fragrância de coisa fresca recuando junto de sua mão.
― Sabe, peguei sua mala. Tem um manuscrito, dois notebooks, umas roupas. Gostaria de saber se posso ler o manuscrito?
Queime-o se quiser, limpe a bunda com ele se aguentar a dureza do papel. Eu só preciso de água e a droga do chá.
― Pode ler.
O copo retorna, sinto um pingo em meus lábios e o filho da puta tira de novo.
― É porque você me deve. Salvei sua vida. Você lá naquela estrada, escritor, ia ficar bem umas seis horas até chegar no hospital. Ia morrer.
― Obrigado. Leia o livro e me fale o que pensou, agora… Por favor!
Comecei a chorar
Ele agradeceu imensamente a oportunidade de ler meu trabalho. Acendeu uma coisa parecida com um toquinho de graveto e pitou enquanto discursava, apresentando sua visão peculiar, embora concatenada, a respeito da literatura brasileira do século XXI. Serviu-me a água com extremo cuidado, enquanto criticava meus livros de forma ácida e objetiva, ressaltando pontos que eu também julgava como infelizes.
― Calma, escritor, vai vomitar. Tome aqui seu chá, em meia hora te trago mais água e o papá. Eu te quero vivo.
Desgraçado! E eu te quero morto.
Ato III
― Ei, escritor, vamos falar do seu livro.
A maré havia subido, o chazinho doce fez sua parte. Mas há alguma coisa a mais, não é mesmo? Sim, e vai me dar trabalho. Não é só um analgésico: há o barato. E o desejo com irritação. O docinho virou mais um fio na teia. Ele rompe o ciclo de incertezas torturantes. Faz com que eu relativize a minha absoluta ignorância em relação à localização do cativeiro. Não me incomoda não saber se estou a cinco metros ou quinhentos ou um quilômetro abaixo da superfície. Assim como o tempo, deveria ser relevante o passar dos dias, mas evito tanto pensar nisso que o assunto migrou para o meu atual sonho favorito.
Há um policial no sonho, um homem desses de cinema, usa óculos escuros estilo aviador, bigodes à la Freddy Mercury, em uma figura afro-brasileira 3x4. Resgata-me usando uma corda. Eu pergunto quantos dias. Responde: “Quinze”. Acreditei, acho até pouco. Em seguida, fala em três meses, aceitável como fato. E se o bigodão dissesse seis meses? Talvez não colasse, todavia eu não teria subsídios para contestar.
Sinto a vida correndo mundo afora e, por mais incrível que pareça, não tenho pressa. O nome é raiva. E estou louco por uma oportunidade.
― Então, fale sobre meu livro.
Limpou a garganta excretando um ram, ram que me fez lembrar o Fusca 69 motor de Kombi de papai. Deu postura ao corpo e começou a labutar no seu segundo emprego. O primeiro já é de conhecimento público: sequestrador/médico/torturador. O segundo? Crítico Literário:
― Você não faz a menor ideia do que é ser uma criança de rua, não é mesmo? Uma pena, a história não é tão ruim assim… minto, é horrível. ― Jogou sobre mim um olhar acusatório, balançou a cabeça em reprovação e continuou. ― Por que você quer que as pessoas caguem nas coisas? A Lapa, do jeito que você fala, parece uma grande privada…. e deve ser mesmo. Mas ainda acredito que pelo menos uma flor deve haver naquele lugar. Mas, pior mesmo é o assassino, uma merda de personagem. Não convence, errou mesmo. A polícia que protela porque as crianças são pobres é uma bosta de clichê no qual você mostra em vez de contar. E as crianças? Nossa! É aí que você caga no pau de vez. Elas dando um jeito no assassino em série é muito ruim. Nada crível. Mas se tivesse alma, acho que passava. Deveria passar. Em nome da urgência do debate sobre as vulnerabilidades dessas crianças. Mas você não conseguiu. ― Balançou a cabeça e contraiu o nariz como se o ar estivesse tomado de gases intestinais. ― Não foi você e não será. Por favor, pare de gastar papel.
Já acabou, seu filho da puta?
― Você é alienígena? Não conheço um humano que não goste de cagar.
Começou a rir. Achei bonito. Passei a ansiar por aquela risada. Eu o mataria em meio àquela merda de gargalhada, vacilar, faria com a faca de despelar peixe. Só preciso de uma chance e ela será minha. Aí, vou cortar a garganta dessa coisa. Espero que ele esteja dando um monte dessas risadas de merda na hora.
― Creio que perdi a vaga de escritor. Seria muito gentil de sua parte e me daria uma enorme felicidade se o senhor me acompanhasse até a saída.
― Sou da mesma opinião… mas não posso.
― Então, agora que fez sua crítica, e prometo levá-la em consideração. Diga-me, o que posso fazer para sair daqui?
― Primeiro: ser menos irônico. ― Ele coloca a mão sobre a fratura da perna direita.
Sinto uma dor. Não consigo dizer se ainda tenho o joelho, o que vejo é uma bola inchada, a pele tensionada e amarela, mas que dói, isso dói.
― Segundo: exercite sua gratidão.
Ele começa a apertar meu ex-joelho. Pontos brancos surgem em minha visão. Algo vai acontecer comigo. Acho que perdi o controle do meu sistema excretor, acabei de expelir a pouca água que tinha no corpo.
― Terceiro: temos que destruir o seu amiguinho, o Andreas.
O filho da puta larga meu joelho, sobe a mão esquerda bem acima da cabeça. Olha para mim com malevolência, fecha o punho e solta um dos seus enormes rá, rá, rá.
Abro um sorriso. Ele para. Acho que não compreende a alegria em meu rosto. Não sabe que ao rir me faz sonhar com bolhas de sangue saltando de sua traqueia decepada. Minha nossa, seria o derradeiro rá, minguado e gargarejante.
Apesar da surpresa estampada nesse olhar que parece ler os meus. O bicho não demonstra temor diante do imprevisto. Encara-me com desafio e golpeia a minha perna com a força de uma marretada. Não consigo saber de mais nada.
Ato IV
O Sr. Andreas Silva Marri apresentou-me ao YouTube no ano de 2006. Na ocasião, éramos dois universitários talentosos, embora ele, um agroboy-intelectualoide (se tal nomenclatura for possível), não precisasse de nenhum talento além do de gastar grana. Andreas afirmou com convicção que a internet era o futuro das Artes. Focado nos estudos, apelei em nome do final do semestre. Ele disse:
― Essa coisa vai acontecer, tenho certeza. Não preciso de você para fazer. Mas é talentoso e quero te levar comigo. Vem pro caos, vem! ― O sinal que fez com a mão foi o mais óbvio possível, era um comercial de loja de eletrônicos. Mas naquele momento pareceu inédito, brilhante e hipnótico. Como tudo em Andreas.
Criamos nosso primeiro canal: “Arquitetura e caos.” E, claro, falávamos de São Paulo.
Tinha graça, o moço era tarado pela câmera, bonito e a voz reconfortante como o ronronar de um gatinho. Carismático, compreendia o tempo da cena com maestria, conseguia ler uma bula de remédio e ainda assim matar o público de rir. E era fiel, ao menos ao texto e às amizades.
Meu amigo e mecenas forneceu um equipamento de filmagem de primeira linha, o melhor Macintosh possível, além de me presentear com um iPhone top no Natal.
Deixei-me fervilhar em lampejos, as peças midiáticas vinham até mim como fadas cansadas de se esconder. Debrucei-me sobre elas e algumas se transformaram em projetos, tomei as rédeas e conduzi o “Caos” (nome pelo qual ficou conhecido o canal). Entregava todo o trabalho: escrevia com clareza, objetividade e ironia, impunha a câmera, dirigia, editava, encontrava os filtros, criava os logos, administrava e divulgava. Vivia a minha pequena produtora e posso dizer que tenho dois bons olhos para a coisa. O troço fez sucesso.
Andreas colocou mais dinheiro, um monte dele. Comprei mais equipamentos, estabeleci ponto comercial, promovi a agência, contratei gente e ainda sobraram cinco anos de giro de caixa. Ele foi uma mãe. Achei que queria me comer e pensando bem, eu daria.
Porém seus planos eram outros, não era meu rabo que cheirava. Buscava oportunidades, além de fidelizar promessas do nascente mercado publicitário online, comprava Bitcoins, ações da Amazon e Nvidia. O homem corria para o futuro.
Era óbvio que daria certo. E o pulo do gato veio cinco anos depois, com o canal: “Despelando o Mundo das Máquinas Agrícolas Carbono Zero”. Era coisa fina. Com investimento pesado: aluguel de aviões, direitos autorais e de imagem, atores e cenografia, múltiplos focos de cena, drones, uma galera foda em computação gráfica. Porra, era imaginar e fazer, um troço tipo Spielberg.
E ele era o meu Tom Hanks desse mundo rico de vacas e soja. Fazia sotaque, vestia uma postura jocosa, que o próprio dizia odiar, mas assumiu o papel de influenciador digital reclamão. Cobria leilões de máquinas: reclamava dos impostos e quando rolava aquelas isenções de pai pra filho, o puto reclamava da falta de financiamento ou de infraestrutura. Nos leilões de animais, os vilões eram a Anvisa, a Embrapa, o BNDES, os vegetarianos e até o Papa.
O agro que mais cresce no mundo é o que mais chia.
Estabelecemos o ódio como estratégia de identidade. Afinal, quase todo mundo odeia alguma coisa. Sempre vestindo a camiseta da seleção brasileira, encerrava todas as transmissões com o seguinte bordão: “Se o futuro é isso” ― apontava para uma bandeira vermelha, seus olhos transportavam raiva e firmeza, ― “para! Quero voltar.”
Em pouco tempo Andreas se transformou na cara do tecno/feudalismo e garoto-propaganda do agro-sustentável.
Tinha motivos para tanto. Atuava em causa própria. A família Marri se especializou em consultorias para enquadramento em selos de qualidade e normas ambientais, além de importação e venda de máquinas agrícolas elétricas chinesas. Foi o jeito que os Marris arranjaram para continuar tendo lastro nesse Brasil cheirando a pasto, depois que venderam a propriedade geracional, uma antiga sesmaria, para um grupo de investidores ligados a institutos de previdência norte-americanos.
Lembro de uma peça que Andreas encomendou: 30 segundos para o TikTok.
Um avião militar sobrevoando uma mata virgem. Lança um contêiner atrelado a vários paraquedas. Em seguida, soldados chineses, empunhando orgulhosos as insígnias do Partido Comunista, empurram cinco lenhadores canadenses bonitos e parrudos. Eles saltam, o voo funciona dentro do previsto. Os homens, vestidos como os das antigas: botas de couro, macacão jeans e camisa xadrez, aterrissam ao lado do contêiner na maior facilidade. Tudo como num milagre, posto pela mão de Deus à margem do rio.
O líder do grupo, o de coque, insere a digital na tranca. Lá dentro, uma célula de sobrevivência para 30 dias: purificadores de água, macarrão, atum em lata, queijos, carnes curadas, ovos em pó e pão para assar. Acrescentam-se cinco motosserras elétricas e um vasto kit de ferramentas, igualmente elétricas, que só não servem para passar café. Aqueles seres brancos, praticamente deuses nórdicos, começaram a cortar árvores centenárias. O relógio digital, inserido no rodapé direito da imagem, indica que transcorreram quatro horas de atividade e os sujeitos já construíram uma jangada, a célula sobre a embarcação improvisada, ancorada no centro do espelho d’água, capturando energia solar com sua pintura fotovoltaica. Em cinco dias, ou trinta segundos do TikTok, o grupo desce pelo rio com cem mil dólares em madeira. Tudo sem usar uma gota de combustível fóssil. Pois até o avião é a base de hidrogênio verde.
Aparece uma mensagem bem rápida, em uma fonte quase camuflada:
“Este vídeo foi gravado sem cortar uma única árvore.”
Foi um sucesso.
Hoje, Andreas não trabalha por dinheiro, na verdade, essa necessidade nunca passou por sua cabeça. A coisa toda sempre foi pelo poder.
O cara é senador, líder da bancada da vaca. É quem raciona a munição da Bancada da Bala e contém os devaneios da Banca da Bíblia. Alguns dizem que é tão poderoso quanto o Presidente da República. E eu? O seu publicitário, o pai da estética agro da extrema direita brasileira.
Bem, embora seja substituível, de alguma forma fiz história. Não foi difícil, trabalhei para um gênio. Mas mesmo ele fez a Merda. E pelo jeito me levou junto.
― O que mais quer saber?
Desta vez a luz está ligada. A caverna brilha com força. Meus olhos recusam a luminosidade já esquecida, se encolhem como criancinhas assustadas.
O Coisa fala comigo. Sinto-o tão próximo, tocando em meus pés, fazendo massagem. É só olhar e nada está lá, nem a massagem.
Estamos nessa brincadeira há algum tempo, já disse tudo o que podia e o Coisa não para. Parece irritado! Deus, estou entre duas feras e não existe resposta certa.
― Ei, escritor, não quero notícias de internet, quero a parte suja e quero a prova. Sei que você tem. Vamos, desembucha!
― Não sei do que você está falando.
― Entendo sua posição. Está com medo do seu amiguinho. Bom, tenho algo a te oferecer, é só pedir, eu troco.
Pedir o que? Não, nem ele consegue.
― Não tem como. Técnicas eu já sei todas e posso garantir: não dá para ensinar essas coisas.
― Não, não mesmo. Mas posso te ensinar a aprender.
Tentador fazer um pacto com algum ser misterioso, sobrenatural e perverso. Ter certeza de trabalhar e chegar. Entregar uma boa história.
Escrever é parte de qualquer pessoa que escreve. Quando um ser se descobre capaz de criar mundos, não há quem o pare. Agora, poucos são os capazes de conduzir o leitor até a última página. Permutar a linguagem com ele. Colocar uma cabeça gorda para pensar. Isso é coisa de mestre. É um sonho que tenho. Mas mortos não sonham, Andreas não deixaria passar.
― Talvez, mas não sei de nada que possa te ajudar.
― Vai descobrir que sabe.
― Ele é intocável, é rico feito um deus.
― Vai me mostrar a prova do caso Toninho.
― Não.
― Você já traiu o seu amiguinho, rá, rá, rá, chegou a hora de usar seu seguro.
Sinto uma mão agarrando meu pescoço e, como se o cara fosse o David Copperfield, seu rosto aparece quase colado ao meu nariz. Ele fareja minha face com um cão à procura do gato, depois se afasta, sumindo em meio à absoluta claridade? Uma mão portando um recipiente cerâmico toca meus lábios. O chá é floral, mas sem o mel e bate no estômago, gera uma baita ânsia. A mão volta, passa algo oleoso em meus lábios, deixando um sabor de mate
― Ei! O que tá fazendo?
Ele fura meu braço repetidas vezes com o que acho que são agulhas, depois passa uma gosma quente. De imediato, começo a sentir leves choques elétricos rolando pela pele e, em seguida, algo com patinhas de insetos sobre meu corpo. Gritei:
― “Essa merda não quer dizer merda nenhuma.”
Encara-me com recriminação e ri às bandeiras despregadas. Escuto um clique: porra, foi-se o refletor. Ele me empurrou da cegueira branca, provocada pelo excesso de luz e alguma coisa que nunca conseguirei compreender, para a absoluta escuridão. Meus ouvidos abrem como comportas buscando matar a sede de uma cidade gigante e do nada ele ruge:
― Citando Stephen King, rá rá rá. Como é piegas. Publicitários. ― E sai, assobiando “Tive sim”.
É… ele gosta do Cartola. Eu também gostava, mas depois dessa: nunca mais.
E que surpresinha o Coisa me deixou? Fez algo comigo, isso é óbvio. Meu coração deu para socar no peito, minha respiração encurta e minha pele parece uma dessas antenas de captação de ondas advindas do espaço profundo.
Mas é tudo coisa da minha cabeça. Só existe nos miolos e nas drogas que ele ministrou. O Coisa não colocaria os próprios planos em risco. Disse que precisa de mim. Relaxa, Paulo. É só esperar. Lembra, porra! “Essa merda não quer dizer merda nenhuma.” É só a escuridão de sempre. Só as mesmas folhas secas cheias de… não, não há escorpiões. Nunca houve, não é agora que vai ter. O que corre pela minha pele são só sensações. Horríveis, cada vez mais provocativas, mas não deixa de ser merda nenhuma.
Quanto tempo vai durar? Ai… parece uma picada? Só parece. Porra, de novo e de novo. Não, Paulo, não bata as mãos, não gire a chave. Ahhhh… bati! E o que sinto é uma gosma. Porra, matei um deles?! Há outros, tantos outros.
Jogo a perna boa sobre a ferida, estapeio o rosto, a barriga, e cada vez tem mais. Eles são do tamanho de ratos.
― Socoooo…
Droga, um aproveitou e entrou na minha boca. Não consigo respirar. O monstrinho está ferindo minha língua. Toma uma mordida desgraçado.
Merda, o gosto é de sangue e carniça… e tudo sobe do meu estômago. A barriga dói amargamente e, para piorar, parece que um desses tenta arreganhar a abertura da cirurgia. Eles, os insetos, os bichos, o diabo que seja, entram na minha boca nadando por entre o jato de vômito. Porra, não deixam nem eu terminar. São vários, começo a mastigá-los. Sei que é trabalho perdido, sei que tudo isso não é merda nenhuma.
Que nada. Posso pensar o que quiser, realidade ou não, isso é mais forte do que qualquer coisa. O fato é um só: estou fodido! Meu corpo é dilacerado por ferrões peçonhentos. Deus, Deus, Deus! Caralho Deus! Tenho que sair daqui ou vou enfartar, ou pior: enlouquecer.
Dobro a perna esquerda, os porrinhas começam a subir pela boca da calça. Desesperado, busco o ponto de apoio com a mão esquerda, esmago alguns e mais ferroadas. Usando os dois membros, consigo virar o corpo. A dor no joelho pesa mais que a alucinação. Respiro e ela arrefece um pouquinho. Agarro a terra e me arrasto em direção a… Ao quê? Melhor nem pensar nisso, continua, continua lutando. A perna boa se junta na empreitada. Ganho velocidade para vencer uma lesma, até encontrar um degrau em meio ao solo da caverna. A parte da frente passa, mas ainda há esses bichos sobre mim. Preciso ir rápido. Um deles acabou de entrar no meu cú. Vai, caralho!
A bola inchada, que chamo de joelho direito, choca-se contra o chão, arrebentando o fio que segurava o resto de consciência.
Ato V
Eu queria ter na vida simplesmente uma cachoeira com sessenta metros de queda, uma cabana autossustentável no meio do nada e com caseiro.
Não é pouca coisa, devo admitir. Mas Andreas tem. E me emprestou. Fica nos confins do Mato Grosso, uma bela propriedade, especializada em fornecimento de material genético (esperma de boi), tendo em anexo uma zona de mata equatorial incontável. Só vendo no Google Maps para ter noção.
Além disso, o senador conseguiu-me carona num voo privado e emprestou o carro que porrei. É um irmão! Um filantropo que, embora não tenha conseguido ler nenhum dos meus livros até o fim, parando sempre bem longe da metade, me arrumou um lugar paradisíaco e sossegado para terminar meu quarto romance.
Eles não vendem muito. Os dois primeiros nem bancaram os custos. É claro que não ajudei; nunca fiz questão de divulgá-los. Por mais que divulgar seja meu trabalho oficial. Contudo, escrevo, gosto de romances sociais e, por uma ironia do destino, nunca pensei em escrever terror. Até consigo algum prazer no gênero, principalmente em Poe e King. Aliás, o último livro que li era do King.
Saudades de poder tomar um café, fumar um cigarro e ler. Quando foi a última vez? Na cabana. Não faz tanto tempo assim, e já parece outra vida.
Pois é mesmo, não me iludo. O meu CPF já era. Se for o caso de trair meu amigo, terei que matar o Paulo e sair mancando mundo afora, ou Andreas fará o serviço.
Escuto passos, será que é hora do remédio? Já faz um bom tempo que despertei, a maré baixou e aqueles mourões dominam o horizonte com a insolência de quem conhece o próprio futuro.
O Coisa está em ronda. Colocou-me de barriga para cima, trocou minhas roupas, higienizou-me e provavelmente me hidratou. Esqueceu o cházinho, como pode fazer isso comigo depois da sova que me deu?
A luz alaranjada. É ele… cadê a porra dos paramédicos? Não aguento mais. Mas não vou chorar. Esse merda não merece.
― Bom dia.
Não respondo.
― Vai falar com quem então?
Silêncio.
― Não vejo correntes. ― Ele ri.
Não tenho raiva, vontade de matar, nem medo. Só tenho dor, tanta, que não há espaço para mais nada.
Pega um copo, segura minha cabeça. E vem o docinho. Ah… obrigado, Deus. Obrigado, criaturinha do inferno. Não, não vou agradecer. Que se dane essa genuína gratidão.
― Acho que te devo um pedido de desculpas.
Um? Só um! Deve-me muitos. Deve-me até por este silêncio. Não estou protestando, de forma alguma, estou medindo, cada encostada nesse Coisa é um choque contra um iceberg. E não quero naufragar.
― Te submeti ao ritual de um guerreiro. Por mais de mil anos, jovens desciam até este lugar para provar sua coragem. Mas você não é um guerreiro, nem tampouco está em condições de batalha. Mesmo assim, jurava que sua mente era mais forte. Como foi mesmo que você falou? Ah: “Essa merda não quer dizer merda nenhuma”. Tá meio calado. É dor, já, já o chá resolve. É a vantagem de estar desnutrido.
Levantou e saiu. O ponto luminoso, marca de seus cabelos, creio que todo enfeitado com pulseirinhas laranja fosforescente, parou a uma certa distância. Arrastou uns trecos em algum lugar. Droga, deve estar cansado, e isso não é bom. Se resolver me abandonar aqui, morro. Se acabar o serviço e partir para outra, também não é bom. Se resolver dar mais tensão a cena, vai me obrigar a entrar com o drama.
A maré está subindo e consigo perceber: sou uma espécie de Sherazade. Não vou trair Andreas porra nenhuma. Vou distrair o Coisa até ter uma chance de dar cabo dele:
― Ei, me sinto melhor, por favor, vamos conversar.
Aproxima-se, levanta meu tronco e escora minhas costas com alguma espécie de almofada firme e macia.
― Vai doer um pouco, mas você precisa começar a levantar, sua perna está mudando de cor.
― Muito ruim?
― Teria pressa se fosse você.
― Trago meu Mac, é o com a maçã.
Ele me joga a máquina e diz:
― Sei o que é um Macintosh. Não me subestime.
― Desculpe.
Sinto uma certa vergonha. Não por ele, humilhá-lo me dá um enorme prazer, mas por mim. Não posso cometer erros.
Abri o aparelho, a tela acende, é 28 de junho. Faz mais de um mês… Ele me cutuca. Eu, apático, com o automático funcionando pela primeira vez desde que caí nesse ninho, dó o play
Toninho, não era bem Toninho. Era um jovem alto, troncudo, um triângulo de músculos com olhos negros reluzentes, um belo chapéu de vaqueiro e muito testosterona. Nasceu na fazenda onde morreu. Gostava de andar a cavalo e domar touro bravo. Estudava agronomia em Goiânia e voltava nas férias para ver a mãe e ganhar uns trocados. Aplicava a vacina no gato, domava qualquer bicho de quatro patas e fazia ronda pela propriedade. Andreas gostava dele, seu pai gostava ainda mais. O povo da fazenda espalhava a bocas pequeninas que alí era tudo da mesma fonte.
Andreas queria transmitir, ao vivo, um passeio por sua propriedade. Montado em uma de suas novíssimas motocicletas de trilha Carbono Zero. Rodaria quatro horas até chegar à Cabana da cachoeira. Na manhã seguinte, iria até o rio. O Senador pretendia conversar com os piscicultores e depois voltar para a sede. Separou equipamentos e convidou Toninho para a aventura.
Chegaram na cabana antes do almoço, descansaram e no final da tarde, Andreas gravou um vídeo na cachoeira. Usava uma sunga verde amarela, a toalha era estampada com a bandeira e vestia a amarelinha. Como sempre conseguiu arrumar um jeito de reclamar. Vociferou contra as leis ambientais, acusou-as de minar o desenvolvimento do ecoturismo, elitizando o acesso, “impedindo o povo de conhecer as belezas de sua própria pátria.” Gesticulou bastante nessa parte.
Saíram cedo no dia seguinte, percorrem uns trinta minutos de estrada e Andreas fez sinal para Toninho. Emparelharam as motos, Andreas pegou o binóculos e perguntou:
― Tá vendo aquilo?
― Desculpa senhor. Onde?
Andreas apontou enquanto entregava o binóculos e dizia:
― Me chame de Andreas. É um filhote de onça.
― Acho que sim. É fofinho! Não é mesmo?
― Fofinho agora, quando crescer vira uma máquina de comer boi. No mês passado uma onça atacou aquele touro majestoso. Foi o Dostoievski, não foi?
― Acho que sim, mas ele já está bem, e produzindo pra porra, desculpa o trocadilho.
― É esperma! ― Andreas cai na gargalhada, mas continua: ― É esperma, estamos ao vivo Toninho.
Ao vivo? Nem tanto, o protocolo impunha um atraso de 3 minutos entre a produção, a checagem do conteúdo e a difusão. Nada do que Andreas filmava caia na rede sem meu aval. Além disso, ele tem um botão de privacidade em seu celular. Pode cessava a transmissão com um toque.
Foi o que ele fez, pegou o iphone e apertou o botão laranja. Teoricamente, todas as câmeras deveriam desligar. Funcionou com a do capacete e a do celular. A da moto, recém instalada, vítima de uma certa negligência em algumas atualizações, continuou funcionando e transmitindo. Um alerta brilhou a mais de dois mil quilômetros de distância, em São Paulo, no meu escritório na Lapa o computador existiu minha atenção. Percebi o que estava acontecendo e barrei a transição. Inseri um aviso de falha no sinal. Assisti e gravei a merda toda.
Andreas desceu da moto, segura um rifle, Toninho parece discutir com ele, Andreas o ignora, aconchega o cabo da arma no ombro e faz mira. Toninho dispara com a moto e se coloca na frente. Andreas o olha com tristeza e decepção, dá uns dois passos para o lado e refaz a mira
Toninho sacou que seria um jogo perigoso e demorado, acelerou a moto em direção ao filhote. Fazer muito barulho e assustar o fofinho. Mas a moto era elétrica, a buzina bloqueada. Toninho não contava com o silêncio daquela máquina. Andreas atirou, foi certeiro.
Toninho freou, ficou parado por um tempo, creio que pensando na própria arma, ou na decepção. Eu estava decepcionado, assisti a cena na maior aflição diante da barbárie do Senador.
Uma onça adulta saltou da mata, é a mãe, e corre em direção a Toninho, pula certeira no pescoço do rapaz. Golpe de sorte, deve ter pensado Andreas. Ele observa, creio que aliviado. Se tem algo que nunca tinha ouvido antes, nesse dia foi dito: “O senhor não pode fazer isso.” Até o monstro que resolveu dar um jeito em Andreas, amarelou e pegou o amiguinho fraco primeiro. O moço ousou fazer diferente e veja só no que deu.
A onça fita o segundo humano na parada. Andreas dá um único tiro, a bicha cai. Ele pega o celular e liga para o socorro.
― É isso que você queria, pronto.
― Eu ainda preciso matar sua dúvida.
― Que dúvida?
― Vai me dizer que nunca cogitou que Andreas também é meu patrão?
― Impossível! Ele jamais faria isso.
O desgraçado ri, depois diz:
― Só tem um jeito de ter certeza, me ajudando até o fim. Assinando a obra junto comigo.
― O que você quer?
― Quero esse vídeo. Quero ele viralizando. Vou discursar ao fundo e será um discurso para fazer história, como o “Eu tenho um sonho” só que ambiental. Você fará tudo, até o discurso e vamos assinar juntos.
― Pra quê?
― Ele merece, matou um filhote. Eu vou enlouquecer o seu amiguinho.
― Como fez comigo?
― Vai ser pior.
― Virão outros.
― Gosto do meu trabalho. E já fui tolerante demais.
Agora quem ri sou eu. Minha barriga dói mas pouco importa.
― Acha que não vou conseguir? Vou sim. Você vai me transformar em muitos, terei a força de milhares.
― Desculpe, não sei se consigo fazer uma coisa dessas. E tem a minha perna.
― Culpa sua, se mexeu demais durante o teste.
― Sei, sei. Mesmo assim, preciso de cuidados médicos.
― Deixa isso comigo.
― Sempre trabalhei com equipe, computação gráfica, inteligência artificial.
― Não faça isso!
O bicho quase grita, mesmo em meio ao timbre metálico, percebo fúria em sua voz. Creio que seu tempo se encurta, ou que não esperava por tanta resistência. Ele levanta e sai.
Eu também sairia se não fosse minha perna direita. Preciso de mais tempo antes que eu possa escapar. Preciso seduzi-lo, mostrar relevância e pouca eficiência. Mas como ser Sherazade sem a buseta?
Ele está voltando, segura algo grande. Deus, mais uma de “suas lições”. Minha cabeça bumba enquanto o observo acender uma fogueira. Consigo medir sua figura pela primeira vez. Está de cócoras soprando o fogo enquanto pita um de seus gravetos, a estatura é pequena, como se sofresse de nanismo, embora seja bem troncudo, as costas são sardentas empestadas de pelos ruivos.
Começa a andar em minha direção, apresenta um sorriso bobo e segura uma motosserra na mão esquerda.
― O vídeo é uma prova. Não pode ter edição. Você sabe disso, eu sei disso, o coitado do Toninho saberia disso. Mas você continua duvidando da minha inteligência.
Ligou a máquina, não precisou de esforço algum, o troço é elétrico. O zumbido, como de insetos sobre um lago, preencheu o silêncio da caverna
― Desculpa. Foi sem querer. É que estou fraco e agi sem pensar. Por favor… Desculpa... Ahh!
― Fique tranquilo, é ESG, rá, rá, rá, a máquina é Carbono Zero.
Ato VI
E vem a maré, cada onda reduz um centésimo na escada de dor. É o velho chazinho concedendo ilhas de felicidade. Como hoje, quando lembrei do meu pai e descobri de onde vem esse negócio das marés.
Ele gostava do mar, além de adorar nadar, dizia que a sensação de infinito lhe dava esperanças, Por isso, sempre que ele entrava de férias, era a hora de cair para a praia e salgar a vida até o céu dizer que já passou das cinco. Depois, sempre rolava uma barraca de praia. Meu pai pedia uma cerveja e uma porção de peixe. “Praia é lugar de comer peixe” era um de seus bordões.
E, enquanto eu comia feito um leão, meus olhos se perdiam no horizonte, vez por outra, parando em pilastras de concreto, restos de um píer diminuindo até sumir com o avanço das águas. Que bom ser acariciado com algum prazer, mesmo que seja só uma memória.
De fato, as coisas não andaram muito bem desde a… intervenção com a motosserra. Devo ter perdido muito sangue. Mal lembro da dor, apaguei, ou sei lá, minha consciência desligou. Lembro até o momento em que a serra chegou no meio do fêmur. Foi rápido, o equipamento estava bem afiado. Um suor me preencheu, transbordou, meu corpo ficou líquido e bum: estourei. Depois disso só me sobrou um cheiro de carne queimada na memória. Ele deve ter estancado com algo muito quente, por isso acendeu o fogo.
No tempo que se seguiu, fui e voltei várias vezes. Em duas ocasiões, quase toquei o fim. Por teimosia ou hábito, meu corpo venceu.
Sobrou-me conversar com o Coisa. Sei que parece feio, mas o que me resta? Sem falar que ele vem se esforçando bastante para melhorar minha estadia. Passou a deixar uma luz acesa e me lê discursos que marcaram a história: Sócrates, Martin Luther King, Rosa Parks. Winston Churchill, Lênin, Ailton Krenak, Mao Tsé-Tung. O melhor foi o do Chaplin em O Grande Ditador.
Acho que é isso o que a criatura espera de mim, algo envolto na luta pela existência coletiva, regado por sangue e glória, com temática ambiental.
A ideia é boa, embora não creia ser possível. A não ser que ele pretenda dar início a uma espécie de terrorismo verde. Chamar o povo na esperança de arrumar mil loucos, armá-los, delimitar território e rezar para os mil virar um milhão, e, se Deus prover: teremos dez milhões. Aí, existiria uma chance.
Chega a ser engraçado, tenho uma certa dó do Coisa. Se ele realmente depende dessa floresta para viver: fodeu. Com o fim da moratória da soja, o coitado está tão desenganado quanto eu. E tem razão: só resta o embate.
Pois é mais fácil cair na onda do Arthur Conan Doyle e acreditar em fadas, do que no capitalismo ecológico.
É uma pena que esse Coisa não tenha passado no meu escritório, ou mandado um ZAP encomendado o serviço. Eu toparia o desafio. Claro que sem o vídeo de Andreas na transação. Contudo dar uma de messias verde é, no mínimo, um desafio que me agrada. Faria em nome do: “onde vai dar?”
O “onde vai dar?” é famoso entre os escritores, publicitários e produtores de conteúdo. Consiste no ato de produzir compulsivamente só para ver “onde vai dar?”. Ele é raro, durante a maior parte do tempo, o autor controla sua obra. Até que o personagem, ou a verossimilhança, ou a paleta de cores, ou o tamanho do caralho do problema, aperta a corda do criador. A criatura passa a comandar o jogo, para o autor, sobra continuar para saber “onde vai dar?” ou parar. Sabendo que parar é nunca esquecer.
Construir as bases ideológicas de uma guerrilha ambiental seria um desafio à altura de um eloquente “onde vai dar?”.
Quero compreender logo o que esse… cliente deseja. Preciso entregar essa porra de peça, ganhar um pouco mais de força nesse meio tempo, e arrumar um jeito de pegar aquela faca de despelar peixe. Se bem que isso significa abrir mão do “onde vai dar?”. Meu discurso não seria proferido por essa criatura ímpar.
É uma pena, mas que se dane a coisa toda! Esse ser não é um mentor severo, é sim, um vampiro sugando por sua causa, que pode até ser nobre e atraente, o que não faz com que me importe com ela a ponto de esquecer a coisa com a perna. Vou trabalhar para ele, porque é o único jeito de ter alguma oportunidade, e quando a tiver, aí veremos o “onde vai dar?” que realmente me interessa.
Pensei em frases para o discurso, o centro do argumento não me assustou. O que me incomoda é ainda não ter um nome capaz de unir. Qual será nossa amálgama? “Companheiro” já tem dono, “brasileiro”, significa tanto que separa mais do que junta. Acho que “parentes” seria o mais adequado. Os adeptos se chamariam assim, usariam a expressão para tudo, desde pedir munição para as automáticas até o tempero para salada: “Ei parente, me passe o saleiro, por favor.” O porém é que “parentes” também já é usado, o termo pertence aos povos originários. Vou ter que perguntar para o Coisa.
Outra dúvida é a qual fé me será permitido apelar. Se puder tudo, é claro que vai ter Deus no meio, arquitetando o apocalipse e por fim, concedendo à misericórdia, que virá através de jovens lutando contra o capital.
Como se eles tivessem alguma chance. Eu tenho mais. Ao menos tenho um plano mais palpável. Estruturei-o passo a passo. Vou precisar da faca (a motosserra também me tenta) uma lanterna, um estoque de cházinho e algo que sirva de bengala. Tenho fé de que logo poderei me locomover. Ando tentando e a dor na barriga está suportável, além disso, devo admitir que aquela perna direita deveria estar tão podre que o bicho melhorou minhas chances ao amputá-la.
Falar no diabo:
― Desculpa interromper. Parece que você deu a falar sozinho.
― Me ajuda a organizar meus pensamentos.
― Entendo. Espero que esteja pensando em minha encomenda.
― Tenho umas perguntas a fazer. Mas sim, estou pronto para começar.
Ele escorou minhas costas, colocou o computador em meu colo e disse:
― Quero a luta. Não importa o custo. De resto… vou avaliar depois de pronto.
― Um grupo fundamentalista verde? Quem sabe: Cangaço da Amazônia, em?
― O cangaço era cristão e não vou falar que acredito no Deus deles.
― Então, posso fazer outra pergunta?
― Se for necessário.
― Como chegar aos brasileiros sem falar de Deus?
― Fale se julgar inevitável, mas não faça parecer que acredito.
― Certo. E o nome?
― O Curupira.
― Bom, acho que dá para começar. Vou rodar seu discurso em cima do vídeo. E aí, vai aparecer no show?
― Sim. E diga que Andreas vai morrer! Sei que você concorda com isso. Por que motivo guardaria o vídeo?
― Não quis a morte de ninguém.
― Não? ― Ele cai na gargalhada e me encara como se acessasse todos os meus pensamentos. ― Começo a achar que você é louco. E que essa merda só existe na sua cabeça. ― E, enquanto ri compulsivamente, fala de um jeito afetado, proferindo um monólogo de um ditador lunático. O Coisa esbraveja repetidas vezes, balança os cabelos ruivos, que cola na testa empapada de suor: ― “Essa merda não quer dizer merda nenhuma”.
Abri o computador. Droga já é agosto. Faz mais de um mês que não tenho a perna e ele me vem com essa de loucura.
― Então, não devo trabalhar?
― Aí vai de você querer enlouquecer sem as duas pernas.
― Se eu fizer tudo e apertar o enter, as coisas voltarão ao normal?
― Não sei. Mas vou te emprestar a faca de despelar peixe. Rá, rá, rá.
― E quem vou encontrar do outro lado da lâmina?
― Você vai decidir.
― Por favor, preciso trabalhar.
É o único jeito de esquecer que eu talvez esteja enlouquecendo, não quero nem conceber isso, pois pensar na loucura já é um pouco coisa de doido. Trabalhar me dá linha e mata o tempo.
Quando finalmente cansei, tinha seis páginas diante de mim. A peça não podia passar de cinco. Resolvi deitar. Dormi por seis horas e vinte e cinco minutos, finalmente tenho como medir o passar das horas, o que me dá uma compulsão, uma vontade de esbanjar.
O Coisa deixou presentes: água, uma carne num molho estranho, o cházinho e um daqueles gravetos que tanto pita. Comi de boca boa, não só para saciar a fome. E mesmo antes de terminar o cházinho e o pito, já começava a digitar.
Escrevi dez páginas, duas peças diferentes e dormi. No dia seguinte foram três. Quando vi, estava escrevendo quinze páginas por dia, numa qualidade absurda. O Coisa pediu para eu parar, estava ficando difícil escolher.
Pedi que ele lesse os que julgava mais apropriado.
― Vou ler os melhores. Parabéns Paulo.
Eu me arrepiava todo, como se os textos não fossem meus. Até esqueci da perna e cogitei a possibilidade de me juntar à guerrilha.
Escolheu o texto, pediu para adicionar algumas frases que havia grifado em outras versões. Não protestei, juntei como deu e ficou melhor.
Passei a encaixar o som na cena. O Coisa tem aquela voz de Armageddon, mas não tem o menor trejeito para o sucesso, coitado, perde o tempo diante das câmeras. Sem problemas, Andreas me ensinou o ponto de referência, e eu estudei direção, inclusive frequentei universidade. Tinha uma produtora e já fiz muito mané virar influenciador. Deu trabalho, mas consegui colocar cada palavra em sua devida entonação, montar uma história, fixar lemsa… e o fim, porra, que fim.
Pronto, é só subir o vídeo. Ainda não, preciso ocultar minhas pegadas. Construir um caminho que passe pelo leste europeu. O Senador vai saber de onde veio a flecha e vai me caçar. Não preciso da PF me perseguindo por incitação ao terrorismo. Fecho os olhos com a mão sobre a tecla enter, encho os pulmões.
O ar é fresco e perfumado. Estranho… o horror passou. Atrevo-me a levantar as pálpebras. O que vejo? Porra, é a cachoeira! A queda d'água tingida pelo dourado do sol que invade o cânion no fim da tarde.
Estou na cabana! Sentado diante da mesa de trabalho.
Abaixo a cabeça e sobre a escrivaninha, vejo uma garrafa vazia. Pego, é comum, de cerveja com uma fita crepe escrito Ayahuasca. Por que Andreas teria uma coisa dessas? Por que eu tomaria uma coisa dessas? Movimento o olhar para a direita, miro o computador, o dedo em quase enter.
Retiro a mão como se estivesse prestes a tocar em material radioativo. Minha perna, Deus, obrigado, ela ainda está aqui. Reclino o corpo sobre a confortável cadeira de trabalho, contemplo a vista e começo a rir, rir até chorar.
Ainda rindo, percebo que falo sozinho:
― Um café, preciso de um café.
A parede de vidro continua por toda a fachada da casa, o moço tem um bom gosto do caralho! Mesmo assim, não tinha o direito.
Sobre o balcão de madeira de demolição, reluz a faca de despelar peixe. Observo-a, acho que ela faz o mesmo. Dou um tempo a ela, foco no café. Executo seu ritual, o som das bolhas na cafeteira. Enquanto o aroma enche o casebre de aconchego, a vida parece querer colocar seus velhos chinelos.
Alí estão os cigarros… nossa, eles sempre estiveram alí. Como se não me fosse vívida a sensação de precisar, mas não poder. E agora que posso, não tenho a menor vontade de fumar. Largar logo essa merda.
Provo o café. Até tu já não és a mesma coisa.
Caralho que brisa foi essa?!
Mas não foi só uma viagem. Droga de pensamento, embora seja fato: tem o vídeo do merda do Senador mimado tocando o louco e. E nesse computador, tem uma peça com a minha obra prima. Dava para ganhar um Cannes.
Será que eu produzi aquilo mesmo? Com certeza, tem absoluta clareza que algo correu por mim e usou toda minha potência.
Sento, não só porque o chão me falta, é que minhas pernas nunca foram boas. Nasci com a síndrome de Larsen, passei por várias cirurgias e usei botinha. Deu para andar sem mancar, mas nunca fui de bola. Até os quatro anos, meus cabelos de cachos grandes eram levemente avermelhados, meus pés torcidos como se fosse virar para trás e meu pai me chamando carinhosamente de Curupira.
Por que isso justo agora? Por que essa lembrança de infância que virou um monstro e vai me deixar longe de qualquer garrafa pelo resto da vida. É obvio: meu pai nunca aprovaria minha carreira. O Velho era um trabalhista. Dizia que cada geração paga o preço por não fazer a revolução, porém acreditava que nenhuma dívida poderia ser saldada com a dignidade.
Eu perdi a chance de ser digno, não matei a criatura e não entreguei o Andreas.
Resolvo encarar a faca. É a coisa mais simples que existe nesse lugar. Uma faca de peixaria de esquina. Pego-a como se fosse cortar um bife, levanto o artefato até a altura dos olhos e os raios de sol poente pintam um laranja incandescente em sua superfície. A faca praticamente fala comigo. Encontro um guardanapo de pano, está à mão, tudo aqui sempre está à mão, enrolo a faca e guardo no bolso do casaco.
A xícara do Black Ivory Coffee acabou, não estou inclinado a outra. Tudo aqui ficou com gosto de estragado. E agora? Voltar para frente do Macintosh e ver no que eu ia entrar.
Dou o play na peça:
“Humanos…”
O discurso continua sobre o vídeo, a temática oscila entre narrar as desventuras de uma elite pouco se fodendo para a mãe terra, juras de morte por cada árvore assassinada e promessas de espólios de guerra. Convidava hackers, ambientalistas, vagabundos e vagabundas, mercenários e mercenárias, assassinos e assassinas, e sobretudo os mansos. Todos em marcha por uma floresta em pé e intocável.
Rola a desgraça, o tiro no filhote, as dentadas e o segundo tiro, a denúncia acaba com o excelentíssimo Senador voltando sua atenção para a moto. Toninho é esquecido. Andreas agacha e encara a câmera acoplada ao farol. O olhar é de dúvida, é certo que estranha a luz vermelha. A coisa funciona e grava. Corta a cena e o Coisa aparece, exibe seu corpo em pelos ruivos. Ao fundo a cachoeira. Ele fala: “A tecnologia falha, tudo falha, só a natureza prevalece.” E ri um riso gutural enquanto grita várias vezes:
“Essa merda não quer dizer merda nenhuma!”. Por fim, ameaça adubar a floresta com sangue. Corta novamente e aparece algo semelhante a um cartaz desses de manifestações. No canto inferior esquerdo um QR code, no centro, algo parecido com um emoji: uma carinha de cabelos vermelhos abrindo um sorriso sapeca de dentes pontudos e escrito num balão de quadrinhos: O Curupira.
Eu toco o foda-se: aperto o enter.
Fim
Embu das Artes
07/07/2026