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O poço das almas.

Eduardo13
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Capítulo 1: O Abismo de Kola

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Capítulo 1: O Abismo de Kola

O frio da Península de Kola cortava como lâminas de vidro, mas a ansiedade no grupo mantinha o sangue aquecido. Michael, que conhecia a região como a palma de sua mão, e Sergei, cujo pai trabalhara nas antigas instalações soviéticas, lideravam o caminho entre as ruínas congeladas do complexo abandonado. Atrás deles, as três estudantes americanas — Ashley, Chloe e Jessica — gravavam cada segundo com suas câmeras, maravilhadas por estarem sobre o buraco artificial mais profundo do planeta: o Poço Superprofundo de Kola.

No centro da estrutura em ruínas, o pesado lacre de aço que selara os 12.262 metros de profundidade por décadas parecia intocado, mas a curiosidade do grupo falara mais alto.

Repentinamente, o chão sob seus pés vibrou. Não foi um tremor comum; foi um estalo profundo, como se a própria crosta da Terra estivesse se partindo.

Em uma fração de segundo, a estrutura de metal cedeu. O solo ao redor do lacre desmoronou em um diâmetro assustadoramente largo, abrindo uma boca negra e voraz. Antes que pudessem gritar, os cinco foram engolidos pelo abismo.

Capítulo 2: A Queda Interminável

A escuridão era absoluta. O vento uivava nos ouvidos de Michael enquanto ele despencava no vazio. O tempo perdeu o sentido. Minutos se transformaram em horas de uma queda livre interminável, onde o pavor os mantinha paralíticos no ar.

Contudo, à medida que se aproximavam das profundezas extremas, algo sobrenatural começou a acontecer. O ar, que deveria ser irrespirável e denso, parecia empurrá-los para cima. A velocidade da queda reduziu gradativamente, como se uma força invisível e densa estivesse amortecendo o impacto, quase os repelindo de volta para a superfície.

Eles flutuavam em uma desaceleração impossível até que seus pés tocaram, suavemente, o chão de uma caverna colossal.

O calor era sufocante, mas o que congelou o sangue de todos foi o som. Não era o eco do vento. Das paredes rochosas e do vasto horizonte de penumbra, emergia um coro de bilhões de vozes — gritos de pavor, suplicas desesperadas e lamúrias de puro medo.

Eles não estavam mais na Rússia. Estavam à porta do Inferno.

Capítulo 3: A Anatomia do Abismo

O solo de rocha negra era quente e áspero, emitindo um calor sufocante que subia em espirais visíveis. A pressão do ar, estranhamente rarefeita para aquela profundidade, não pesava sobre o peito — ao contrário, dava uma sensação de leveza irreal, como se flutuassem em um pesadelo anestesiado.

Dois metros à frente de Michael, a penumbra da caverna moveu-se.

Não eram sombras. Erguendo-se do chão mineralizado, surgiram criaturas de uma anatomia grotesca e distorcida. Uma delas possuía membros desproporcionalmente longos, sem articulações definidas, com a pele esticada sobre ossos expostos que pareciam fundidos a pedaços de ferro enferrujado. Outra não tinha rosto humano; em seu lugar, uma fenda vertical gotejava uma substância espessa, de onde saíam murmúrios em línguas mortas.

À volta dessas entidades, formas humanas disformes — almas perdidas, retorcidas pelo tempo e pela culpa — estavam presas a estalagmites incandescentes. Sergei parou, paralisado, ao ver uma dessas criaturas deformadas enterrar garras de metal na carne espiritual de um dos condenados. O som que se seguiu não foi apenas um grito; foi uma onda de choque de dor e horror absoluto que ressoou diretamente dentro das mentes dos cinco jovens.

— O que é este lugar...? — sussurrou Ashley, com as mãos cobrindo os ouvidos, caindo de joelhos. — Sergei... Michael... tirem a gente daqui!

Jessica olhou para as próprias mãos. Elas não tremiam. Na verdade, ao tentar tocar o rosto de Chloe, sua mão atravessou a bochecha da amiga como se ambas fossem feitas de fumaça densa.

— Por que não estamos sentindo a dor desse calor? — perguntou Chloe, a voz falhando em um pânico crescente. — O poço tinha mais de duzentos graus... Nós caímos por horas... Por que não nos despedaçamos no chão?

Capítulo 4: A Revelação da Queda

Michael deu um passo para trás, encarando Sergei. O russo olhava fixamente para a entrada da fenda acima deles, um ponto insignificante de escuridão a doze mil metros de distância.

— A pressão... — murmurou Sergei, com o olhar completamente distante. — Quando o chão cedeu lá em cima... A onda de choque, o gás superaquecido e o impacto do ar a trezentos graus...

As criaturas deformadas não os atacaram. Elas apenas os cercaram, formando um círculo de olhos vazios e lâminas pontiagudas, observando a percepção finalmente alcançar o grupo.

— Nós não sobrevivemos à queda — disse Sergei, a voz desprovida de qualquer emoção. — Nós nunca chegamos ao fundo vivos. O calor e a pressão destruíram nossos corpos nos primeiros três segundos de descida.

O silêncio que se seguiu foi mais aterrorizante do que o coro de gritos dos condenados.

A "queda interminável", a desaceleração impossível perto do chão, a sensação do ar os empurrando para trás... Tudo aquilo não passara da transição de suas consciências deixando a matéria. Eles não haviam encontrado uma entrada física para o Inferno nas profundezas da Península de Kola.

Eles haviam chegado lá porque já pertenciam àquele lugar.

As criaturas abriram caminho, apontando para o vasto horizonte de sofrimento que se estendia além da caverna. O tormento dos cinco não começaria com dor física, mas com a eterna consciência de que a queda jamais terminaria.

Capítulo 5: As Leis do Abismo

As criaturas avançaram com passos pesados e irregulares, erguendo lâminas de ferro enferrujado e garras retorcidas. Uma delas, uma abominação de três metros revestida por uma carcaça de ossos expostos, desferiu um golpe brutal em direção a Michael.

A lâmina cortou o ar com um assobio cortante... e atravessou o peito de Michael como se ele fosse feito de névoa.

O monstro soltou um urro de frustração que fez a caverna tremer, mas a lâmina não deixou marca alguma. Nenhum corte, nenhuma gota de sangue.

— Elas... elas não conseguem nos tocar! — gritou Jessica, dando um passo para trás enquanto outra criatura tentava agarrar seus ombros, com as garras passando direto por seu corpo incorpóreo.

Sergei olhou para as próprias mãos, que começavam a emitir uma tênue luz pálida, em contraste com a escuridão do abismo. A verdade finalmente se desenhava em sua mente.

— Nós não deveríamos estar aqui — disse Sergei, a voz ecoando com uma clareza estranha. — Este lugar não é nosso. Nós não fomos condenados, não fomos julgados... Nós apenas caímos por um acidente físico, uma falha na crosta da Terra! O Inferno não tem domínio sobre as nossas almas!

Uma das entidades disformes, ao perceber que não podia ferir a matéria espiritual dos jovens, agarrou uma das almas condenadas que estava presa a uma estalagmite incandescente ao lado de Ashley. A criatura cravou as garras na alma do pecador, rasgando-a lentamente.

No mesmo instante, Ashley caiu de joelhos, soltando um grito lancinante.

— AAAAAAH! Pare! Por favor, pare! — implorou ela, apertando a cabeça enquanto lágrimas de dor pura escorriam por seu rosto.

Michael correu até ela, mas ao se aproximar do condenado que estava sendo torturado, uma onda de pavor, culpa e desespero alheio o atingiu como uma martelada no peito. A dor física das lâminas não podia tocá-los, mas a dor empática — a angústia visceral de cada alma condenada naquele lugar — reverberava diretamente em suas mentes.

As criaturas, percebendo isso, soltaram um riso gutural e medonho. Elas não precisavam tocar no grupo. Para fazê-los sofrer, bastava torturar as almas ao redor deles, transformando o pavor dos condenados em uma tempestade mental irresistível.

Capítulo 6: O Caminho de Volta

— Nós somos a caixa de ressonância deles... — murmurou Chloe, lutando contra a tontura enquanto o som das lamentações ao redor se tornava insuportável. — Se ficarmos aqui, a dor do mundo inteiro vai quebrar a nossa sanidade!

— Se a nossa presença aqui foi um acidente, então a gravidade espiritual deste lugar não pode nos prender para sempre — declarou Michael, levantando-se com esforço e encarando a fenda distante no teto da caverna, a doze mil metros acima. — Não pertencemos ao Inferno. E é por isso que a pressão nos empurrou para trás na queda!

— O que você quer dizer? — perguntou Jessica, amparando Ashley.

— Este lugar repele o que é puro ou neutro. A pressão que amorteceu a nossa queda... ela não estava nos segurando, estava tentando nos expulsar! — explicou Sergei, compreendendo o plano. — Precisamos nos concentrar na fenda. Se não temos laços com este lugar, a própria física do abismo vai nos chutar de volta para a superfície!

As criaturas deformadas, percebendo que os intrusos tentavam escapar, cercaram o grupo e começaram a torturar dezenas de almas simultaneamente. Um coro avassalador de dor e desespero inundou a caverna, ameaçando despedaçar a mente dos cinco jovens.

Sergei disse, dêem as mãos, então os cinco se deram as mãos. Eles fecharam os olhos, bloqueando o horror ao seu redor e apegaram-se à única coisa que possuíam: a certeza de que não pertenciam àquele tormento.

Lentamente, seus corpos espirituais começaram a flutuar. A pressão do ar rarefeito e a força rejeitadora do abismo começaram a empurrá-los para cima, acelerando em direção à fenda de Kola, deixando para trás os gritos, os monstros e a porta do Inferno.

Capítulo 7: O Abismo Rejeitado

​A abominação de três metros rugiu, um som que fez as paredes de rocha incandescente tremerem e poeira de enxofre despencar do teto. Com um movimento desesperado, a criatura projetou suas garras de osso saliente e ferro enferrujado em direção ao grupo, tentando agarrar todos de uma só vez para contê-los no chão da caverna.

​Mas suas garras passaram no vazio. As mãos disformes do monstro atravessaram os corpos dos cinco jovens como se tentasse prender fumaça no ar.

​Foi só então que a entidade parou. Seus olhos vazios se arregalaram ao perceber o que estava acontecendo: os intrusos não apenas eram intangíveis às garras do abismo, mas o portal para a superfície — a fenda criada pelo tremor no Poço de Kola — estava totalmente aberto e reluzindo acima deles. A própria gravidade espiritual do Inferno, incapaz de reter almas que não lhe pertenciam, começara a expulsá-los.

​— Olhem! — gritou Michael, apontando para o alto.

​A abertura no teto da caverna emitia um feixe de luz fria e pálida que rasgava a penumbra. A mesma pressão esmagadora que antes amortecera a queda do grupo agora agia ao contrário: como uma bolha de ar subindo rapidamente através da água densa, a atmosfera da caverna empurrava os cinco para cima, acelerando sua ascensão.

​As criaturas deformadas ao redor soltaram uivos de raiva e frustração. Elas intensificaram a tortura das almas pecadoras no chão para tentar prender os jovens através da dor empática, mas o elo já havia se rompido. Conforme subiam, os gritos de pavor e os murmúrios de tormento foram ficando cada vez mais fracos, distantes e abafados.

​Capítulo 8: O Despertar no Gelo

​A ascensão pelos doze mil metros de escuridão pareceu durar apenas alguns segundos. O calor sufocante e o cheiro de enxofre foram subitamente substituídos pelo ar gélido e puro da Península de Kola.

​Com um arfar coletivo, os cinco abriram os olhos.

​Eles não estavam no fundo da caverna. Estavam caídos sobre a neve fofa, a poucos metros da borda do Poço Superprofundo de Kola. O tremor de terra havia cessado, deixando apenas o antigo lacre de aço deformado e a fenda aberta na terra.

​— Nós... nós voltamos? — sussurrou Jessica, encarando as próprias mãos. Desta vez, suas mãos estavam quentes, trêmulas e cobertas de neve.

​— Não fomos engolidos pela queda... — disse Sergei, levantando-se devagar e olhando para o buraco negro no chão. — O choque do tremor nos derrubou para longe da borda. Ficamos inconscientes pelo ar rarefeito e pelo pânico.

​Michael olhou para o grupo. Todos estavam vivos, sem um único arranhão, mas o silêncio da tundra russa agora parecia diferente. Eles sabiam o que existia sob seus pés. Sabiam que a porta estava aberta, e que o abismo, embora tivesse sido obrigado a libertá-los, continuava lá embaixo, esperando por aqueles que realmente pertencessem a ele.

​Sem dizer mais uma palavra, os cinco deram as costas ao poço e caminharam pela neve, deixando o abismo de Kola para trás na escuridão da noite.

O silêncio gélido da tundra russa foi subitamente quebrado.

​À medida que os cinco jovens aceleravam o passo pela neve profunda, afastando-se da carcaça do complexo abandonado, um som rasgou a noite. Não era o sopro do vento polar nem o uivo de um lobo. Era um urro grave, gutural e carregado de um ódio ancestral — um uivo distante que parecia subir diretamente das entranhas da terra, ecoando pela fenda aberta do poço.

​Todos pararam por um segundo, o terror paralisando seus passos, antes de correrem sem olhar para trás rumo aos veículos.

​Doze mil metros abaixo, na penumbra incandescente do abismo, o silêncio retornara.

​A criatura disforme de ossos salientes e carcaça de ferro permanecia de pé sobre o solo rochoso da caverna. Ao seu redor, os sussurros e lamentações das almas condenadas continuavam, mas a atenção da entidade estava completamente fixada no feixe de luz empalidecido que vinha do alto.

​Com suas garras ainda abertas, o monstro ergueu a cabeça disforme, encarando o topo distante do abismo. Pela primeira vez em eras, o portal para o mundo dos vivos havia sido violado de baixo para cima. A rejeição daquelas almas puras deixara uma marca, um rastro invisível na física do abismo.

​A criatura contraiu as garras de osso, cravando-as na rocha incandescente. Ela não apenas guardaria a porta. Ela agora conhecia o caminho — e esperaria, pacientemente, até o dia em que a fenda se alargasse o suficiente para que pudesse subir e reivindicar as almas que lhe haviam escapado.

Continua......