Já é quinta-feira e eu ainda estou aqui.
Meus olhos não suportam mais sentir o gosto das lágrimas.
Minhas mãos estão rígidas de tanto tentar cavar a terra.
Aqui é tão úmido e frio que poderia ser uma profunda gruta.
Se fosse, eu teria por onde escapar,
poderia ver o dia novamente.
Que absurdo é olhar para cima e ter a chance de enxergar apenas o vazio do escuro.
Larvas percorrem todo o meu corpo,
estão corroendo a minha casa.
O aroma adocicado flutua por todo o meu céu em chuva.
Estou me afogando em mim.
Explodo e colapso por viver.
Ah, se eu pudesse ser livre só mais algumas horas,
iria colocar minhas botas esverdeadas e sair cultivando o ar.
Não me lembro da última vez em que respirei um ar tão puro que me fazia arder igual a fogo em pele.
Agora os meus ossos estão expostos à escuridão;
apenas os sinto, não os vejo.
O som da minha voz foi devorado por pequenos corpos famintos que rastejam em busca do que não posso alimentá-los.
Como vim parar aqui?
Quem decidiu que esse lugar seria meu novo quarto?
Sinto falta do meu broche prateado
e de como caía bem junto da minha calça marrom.
Me lembro de usá-lo em meu último dia onde riachos têm cor.
Bem que prata combina com dias chuvosos.
Logo tenho que acordar, já está chegando ao fim da madrugada.
Tenho que me preparar para morrer mais um dia em mim mesma
e retornar em vísceras ao anoitecer.
Hoje será uma manhã vazia de vida e não haverá uma fresta de luz.
Não crie expectativas enquanto ao sentir:
você não poderá tocá-lo.